"A Bíblia ensina…" – análise das passagens da Escritura Sagrada associadas à homossexualidade

bib gayFazendo eco à postura que tenho no Orkut, onde nunca temi tocar em temas doutrinários polêmicos, mas sempre refletindo segundo os parâmetros católicos (Revelação + Magistério + vida dos Santos), acho que uma análise dos trechos bíblicos ordinariamente associados a homossexualidade/homossexualismo é uma necessidade.

Por que é uma necessidade?

Por dois motivos:

1) Hoje em dia temos, refletindo o modernismo católico e o liberalismo protestante, uma linha de exegetas que se rendeu “ao século”, que adota uma visão naturalista, cientificista e historicista da Bíblia, sempre buscando fissuras na Sagrada Doutrina para justificar os mais variados desregramentos que são comuns na existência humana e que foram amplificados na nossa triste época afastada de Deus.

2) Como reação aos exageros da exegese modernista-liberal e por influência do evangelicalismo norte-americano, ganhou corpo nos meios tradicionalistas, neo-conservadores ou carismáticos da Igreja uma leitura literalista da Escritura, completamente contrária à postura clássica católica.

Esses dois grupos se batem como cegos (não conseguem enchergar a luz da Verdade) no meio das reivindicações do movimento homossexual. São incapazes de responder satisfatoriamente, ou seja, teologicamente, às questões levantadas; suas respostas ou parecem uma rendição de quem acredita em algo completamente irracional ou frias e fechadas em si mesmas.

Vou tentar quebrar isso! Deus me ajude.

Agora, preliminarmente, a leitura de tudo que eu escrever aqui tem de ser na perspectiva destes dois pontos:

1) O exame de trechos específicos não deve interferir na noção de que o verdadeiro sentido da Sagrada Escritura só pode ser tomado na análise sistemática dela e em consonância com a Sagrada Tradição.

2) Nada do que for dito aqui deve ser interpretado num sentido mais laxista ou rigorista do que aquilo que a Igreja já definiu sobre o assunto e que está devidamente exposto no Catecismo.

Geralmente são mencionadas cerca de 15 passagens:

Gênesis I, 27-28 e II, 18-25

Dois relatos da criação do primeiro homem e da primeira mulher.

Gênesis XIX

A história de Sodoma e Gomorra.

Juízes XIX

Registra uma história dos dias em que Israel colonizara a terra de Canaã, mas ainda não tinha um rei.

Levítico XVIII, 22 e XX, 23

Preceitos do assim chamado Código da Santidade referentes à moralidade sexual.

Deuteronômio XXIII, 17

Uma proibição no sentido de que “os filhos de Israel” não se tornassem prostitutos do Templo.

I Reis XIV, 24; XV, 12; XXII, 47 e II Reis XXIII, 7

Relatos sobre a instalação e abolição da prostituição no Templo em diversas épocas durante o período da monarquia.

Romanos I, 18-32

Uma reflexão sobre a ira de Deus contra a “impiedade e maldade” da humanidade.

I Coríntios VI, 9-11

Um alerta de que “malfeitores não herdarão o Reino de Deus”.

Efésios V, 33

A relação matrimonial ideal.

Judas VII

Uma referência a Sodoma e Gomorra.

Nenhum dos profetas do Antigo Testamento fez qualquer referência a relações entre pessoas do mesmo sexo.

Embora essa lista possa impressionar a uma primeira olhada, na verdade, comparado com outros assuntos, como a injustiça ou a cobiça, os textos bíblicos que tratam a questão homossexual são relativamente poucos. É sintomático também que importantes dicionários (Vocabulário Bíblico, de Leon-Dufour) e importantes estudos bíblicos (A mensagem moral do Novo Testamento, de R. Schnackenburg) nem apresentem o termo homossexualidade. Em si nada há de surpreendente na parcimônia da Bíblia, pois ela não é um catálogo de proibições, e muito menos se destina a dar resposta pronta para todos os problemas de todos os tempos (ela até dá resposta, mas não diretamente).

O que causa surpresa é o completo silêncio de Nosso Senhor Jesus Cristo. E este silêncio do Cristo é ainda mais surpreendente quando se sabe que a prática do sexo homossexual, por influxo do mundo helênico, estava presente na sociedade judaica da época e era veementemente condenada pelos rabinos. O silêncio, no caso, não significa consentimento (como querem certos modernistas), mas sugere, antes, uma postura mais global. Trata-se de uma verdadeira revolução na maneira de enfocar todos os problemas. Jesus não se pergunta propriamente pelo que as pessoas são no momento, se são santas ou pecadoras. O que importa para o Divino Mestre é que estejam dispostas a abrir os olhos para divisar os vastos horizontes da vida que Ele oferece para todos. A partir desses novos horizontes, até as pedras podem se transformar em filhos de Abraão e até uma prostituta pode transformar-se em primeira mensageira da Ressurreição.

Vou seguir a postura de Cristo neste texto.

Gênesis I, 27-28 e II, 18-25

Muito mais que os textos de São Paulo ou o relato sobre Sodoma (passíveis de um exegese liberal), o que encontramos na história da criação, para mim, é o principal ponto no que se refere a considerar as relações homossexuais (mesmo as que subjetivamente perfazem o ideal ético de oblatividade) como desviantes.

No Gênesis fica bem claro qual o o desejo do Senhor e tal desejo perfaz o fim objetivo a que tudo deveria se subordinar. Explica o Pe. Lodi:

Como coroamento de sua obra, Deus fez o homem “à sua imagem”. E o fez “varão e mulher”. Prossegue a Escritura: “Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1, 27-28). Esta passagem encerra a um dos fins da diferenciação sexual: a procriação. Será esta a única razão pela qual Deus criou dois sexos na espécie humana? Não. Homem e mulher são diferentes também para que se possam completar mutuamente. O isolamento do homem é descrito pelo Gênesis como um mal: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18). Ao ver a mulher, tirada de seu lado, o homem exclama exultante: “Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne!” (Gn 2,23), ao contrário dos irracionais, que sendo inferiores a ele em natureza, não lhe podiam servir de companhia adequada. A união sexual é descrita no versículo seguinte: “Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une a sua mulher, e eles se tornam uma só carne” (Gn 2,24).

Aí está, de maneira magnífica, descrita a instituição do matrimônio e seu duplo fim: a geração da vida e a complementação dos cônjuges. Por natureza, homem e mulher são diferentes e complementares. O que falta no homem, sobeja na mulher e vice-versa. Daí sua atração mútua e a tendência de formar uma união estável e perpétua, apta à procriação e à educação da prole.

Esse explicação nos remete ao dever ser e é o que, de fato, torna heterodoxas quaisquer tentativas de trabalhar a homossexualidade como se ela fosse um bem em si mesma.

Não é a toa que onde esse tipo de perspectiva foi esquecido ou contestado, seja dentro da Igreja (jesuítas), seja fora dela (parte da Comunhão Anglicana), todas as outras referências negativas ao comportamento homossexual acabem se relativizando ou deixando de existir. E, após muito estudo, vi que essa é uma conseqüência lógica necessária mesmo. Sem o entendimento de que há um fim objetivo que representa o ideal, qualquer outra alegação nesse campo perde seu sentido de ser.

Agora, dito isso, cabe notar que a presença da homossexualidade no mundo é tão objetivamente desviante quanto a existência da miopia ou de cabelos brancos. Provavelmente essa declaração deve ter impressionado alguns, mas é assim mesmo. Sempre me pareceu um tanto estranho como algumas pessoas enchem a boca para dizer a um homossexual que “seu comportamento é uma desordem objetiva”, mas não percebem que tudo que não se adequa àquilo que Deus queria lá no Paraíso também o é. O fato de termos doenças, de “tudo cair” quando envelhecemos, de precisarmos tomar banho para não feder, etc., tudo isso é desordem objetiva!

Refletir assim, embora jamais leve a uma justificativa da homossexualidade como ideal, ajuda a por as coisas no seu devido lugar e a tratar os problemas humanos sem exageros e neuroses (que, no mais das vezes, são o resultado de falta de amor mesmo ou projeção).

É digno de nota que no mais antigo dos relatos (Gênesis II), a relação entre Adão e Eva é descrita no sentido de destinar-se ao seu companheirismo total. Isso mostra como, em termos subjetivos, a partir do companheirismo, podemos ter relacionamentos homossexuais mais exemplares que um heterossexual, assim como podemos ter relacionamentos de casais “em segunda união” mais exemplares que relacionamentos sobre o manto do sagrado matrimônio. O que a maioria não entende hoje é que nada disso muda aquilo que deveria ser e que considerar o dever ser é o primeiro passo numa reflexão sobre a moral.

Eu não tenho problemas em lidar com essa tensão entre o ser e o dever ser e fazer julgamentos concretos no campo da moralidade a partir de tal constatação. Mas muita gente parece não lidar bem com isso, talvez um reflexo da antiga teologia manualística ou de medo irracional mesmo (homofobia)… não sei.

O que falta na teologia de categorias abstratas é um mínimo de comoção pastoral com as pessoas concretas que vivem esse drama. Por isso, a maioria dos autores atuais, admitem a distinção entre moralidade objetiva, formulada em termos de malícia intrínseca e pecado gravo, e a moralidade subjetiva, na qual admitem uma grande margem de diminuição de culpa.

Portanto, podemos dizer que no Gênesis temos a principal referência bíblica sobre o tema deste post.

Gênesis XIX – Sodoma

Já há algum tempo venho refletindo sobre a passagem que trata do castigo de Sodoma. Nesse tempo em que venho estudando a questão da homossexualidade retornei várias vezes a Gênesis XIX. Recentemente, relendo todo o Pentateuco a partir da Bíblia de Jerusalém, tive nova oportunidade de pensar sobre o castigo dos habitantes de Sodoma a partir dos referenciais católicos para a exegese.

Inicialmente, eu era um radical, que repetia o lugar comum: “é evidente que os sodomitas foram condenados por seu homossexualismo, uma abominação anti-natural que clama aos Céus por vingança”. Depois, fiquei negativamente impressionado com a exegese que certos liberais davam a esse episódio, dizendo que a questão ali era a hospitalidade e o estupro coletivo, e procurei combatê-la. Mais tarde, comecei a estudar mais e mais essa nova linha exegética, em especial depois que descobri que autores católicos de grande honestidade intelectual e com uma Fé verdadeira a levavam em conta, e cheguei mesmo a pensar que ela era a mais coerente. Graças a Deus isso foi um lapso que passou bem rápido, pois eu não poderia levar em conta a exegese liberal e esquecer o que a Igreja já disse sobre o assunto, isso seria livre-exame.

Qual então o estado da questão ao se fazer uma leitura sem preconceitos (conceitos prévios), mas levando em conta o que já foi dito sobre o tema? É isso que vou tentar enfrentar agora.

Primeiramente, como falei, sempre foi divulgado que a destruição de Sodoma (e Gomorra) tinha relação com o homossexualismo. Isso não pode ser negado pelo católico (Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais, 1987, n. 6).

Contudo, uma leitura sistemática, que leva em conta o que veremos sobre Juízes XIX e o que temos em Gênesis XIII, 13, que aponta para a maldade em geral dos habitantes de Sodoma, mostra que o pecado sexual no episódio que estamos abordando é mais um instrumental que o fim em si mesmo.

Ezequiel XVI, 49 deixa isso explícito:

Eis qual foi a causa da iniqüidade de Sodoma, tua irmã: a soberba, a fartura de pão e a abundância, a ociosidade dela e de suas filhas, e o não estender a mão para o pobre indigente.

Outros textos veterotestamentários, lidos no seu contexto, aludem muito mais a essa maldade geral que a qualquer pecado puramente sexual (Isaías I, 9 e III, 9; Jeremias XLIX, 18; Amós IV, 11; Sofonias II, 9).

Em Isaías I, 10-20 temos:

Ouvi a palavra de Iahweh, chefe de Sodoma, prestai atenção à instrução do nosso Deus, povo de Gomorra! Que me importam os vossos inúmeros sacrifícios?, diz Iahweh. Estou farto de holocaustos de carneiros e da gordura de bezerros cevados; no sangue de touros, de cordeiros e de bodes não tenho prazer. Quando vindes à minha presença quem vos pediu que pisásseis meus átrios? Basta de trazer oferendas vãs: elas são para mim incenso abominável. Lua nova, sábado e assembléia, não posso suportar falsidade e solenidade! Vossas luas novas e vossas festas, minha alma detesta: elas são para mim um fardo; estou cansado carregá-lo. Quando estendeis vossas mãos, desvio de vós meus olhos; ainda que multipliqueis a oração não vos ouvirei. Vossas mãos estão cheias de sangue; lavai-vos, purificai-vos! Tirai de minha vista vossas más ações! Cessai de praticar o mal, aprendei a fazer o bem! Buscai o direito, corrigi o opressor! Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva! Então, sim, poderemos discutir, diz Iahweh: Ainda que vossos pecados sejam como escarlate, torna-se-ão alvos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim torna-se-ão como a lã. Se quiserdes obedecer, comereis o fruto precioso da terra. Mas se vos recusardes e vos rebelardes, sereis devorados pela espada! Eis o que a boca de Iahweh falou.

No texto fica claro um problema geral de maldade e o fato dele estar inserido numa parte de Isaías que trata da ingratidão é mais um reforço para essa percepção.

As duas referências do Novo Testamento encontram-se em Judas VII, um texto um tanto obscuro, acenando para uma espécie de comércio carnal entre seres humanos e anjos, e II Pedro II, 6-10, indicando a libertinagem geral.

Desse modo, o texto sobre Sodoma aponta mais para a violação da hospitalidade que para qualquer outra coisa. Afinal, se fosse pela questão da castidade, o fato de Ló querer dar suas duas filhas virgens em lugar dos anjos (que os habitantes de Sodoma não sabiam que eram anjos) para serem estupradas seria de uma contradição bem maluca (o paralelo do que temos aqui com que está em Juízes não é uma mera coincidência).

Pode-se pensar, também, numa certa correlação entre a rejeição do estrangeiro e a rejeição da alteridade. Na compreensão bíblica, o reconhecimento da diferença sexual descentraliza o sujeito de si mesmo e lhe mostra seus limites; já o desconhecimento desta diferença ameaça aprisionar a pessoa no círculo encantado e mortal de si mesma, ou seja, promove a idolatria (por isso o Código da Santidade, que veremos em Levítico, aborda o tema).

A principal falha dos novos “exegetas”, então, é não levar em conta que um pecado tem relação com outros. Assim como a prática heróica de uma virtude geralmente leva à prática das outras virtudes, ficar obstinadamente num pecado leva o pecador a cair em outros pecados relacionados por natureza ou circunstância.

Realmente, os habitantes de Sodoma caíram na falta de caridade e hospitalidade, glutonaria e imoralidade geral. Contudo, isso não permite concluir que o homossexualismo não é pecaminoso como querem alguns (atentem para a palavra “pecaminoso”!).

Cornélio a Lapide, grande estudioso católico da Bíblia (se não o maior, pelo tamanho de seu trabalho e pela fidelidade à Igreja), ensina-nos (a tradução é minha e, portanto, deve ter problemas) :

O primeiro entre os vícios de Sodoma é o orgulho. Em seguida a fartura do pão, ou melhor de comida, comidas delicadas, banquetes. Em terceiro, a abundância de bens, de luxo e prazer. Em quarto, preguiça. Em quinto, falta de misericórdia…

Ouçamos São Jerônimo: “Arrogância, fartura de pão, a abundância de todas as coisas, preguiça, prazeres, esses foram os pecados de Sodoma. Por causa deles, eles esqueceram de Deus, pois a presença contínua de riquezas parece perene e então não há necessidade de recorrer a Deus para obtê-las.” (…) Por isso, nós encontramos primeiro orgulho entre os pecados de Sodoma. Então Deus castiga os orgulhosos, permitindo que eles caiam numa grande e ignomiosa luxúria, como pode ser deduzido de Rom. 1, 27… Também, a gula levou a queda de Sodoma, pois é a matéria pela qual a luxúria nasce. São Jerônimo diz: “A lava dos vulcões Etna, Vesúvio ou Olimpo não faz os jovens queimar de luxúria, mas o vinho e pratos delicados.” (…) Sobre a preguiça, São João Crisóstomo diz: “Preguiça ensina toda a malícia.”

(…)

Quinto, falta de misericórdia, que foi a causa da luxúria dos sodomitas: então aqueles que são cruéis com os outros são também cruéis com sua própria natureza, violando as leis da geração. Os que são cruéis com seus vizinhos e coisas como seu sustento ou mesmo sua vida, também são cruéis com seus corpos, abusando deles libidinosamente. Assim, os sodomitas que eram cruéis com seus convidados e com os peregrinos (neste caso os anjos que assumiram corpos humanos e se apresentaram como peregrinos a Lot) queimam de desejos maus (Gen. XIX, 5). Falta de misericórdia e crueldade fazem, então, que aqueles que são cruéis não respeitem nem a modéstia nem a reputação, o corpo, ou a vida do vizinho, especialmente estranhos e peregrinos. Em substituição, eles os tratam como seus, como comida para suas lascívias – algo vil e sem valor.

Como se observa, a interpretação que vê no homossexualismo um instrumental para a maldade não é um exemplo de “modernismo laxista”, mas, acima de tudo, um fruto do comprometimento com a verdade.

Quais as conseqüências disso tudo?

A primeira, como já ressaltei, é que tomar o caso de Sodoma como o principal na rejeição da prática homossexual como ideal é um equívoco. O relato da criação cumpre muito mais esse papel.

A segunda é saber que se for para considerar a questão da castidade como o principal aqui, então, por analogia, teremos de considerar que as chicotadas nas costas de Nosso Senhor são piores do que aquilo que as motivou (a impiedade geral que levou ao não reconhecimento do Messias). Uma pessoa inteligente não pode fazer isso.

A terceira é que a tentativa de relações homossexuais aqui não tem nada haver com uma homossexualidade estrutural.

Uma questão mais sutil, mas associada, é a avaliação daquele preceito catequético sobre os pecados que clamam ao Céu por vingança que diz: “Pecado sensual contra a natureza”. Algumas pessoas gostam de ver aqui a “sodomia” (sexo anal), mas, supondo que estivessem certas, associar isso a homossexuais seria um erro, já que existem homossexuais masculinos que não fazem sexo anal (sobre as lésbicas nem se fala) e heterossexuais que o fazem. Todavia, não é isso que o texto diz; ele, numa referência a exegese nem sempre aprimorada da Escritura, sobre episódios como o de Sodoma e o de Onan (Gênesis XXXVIII, 4-10 – equivocadamente associado à masturbação), trata de qualquer pecado (e pecado, ou seja, a um comportamento que preencha todas as condições para o pecado mortal) contra a natureza no âmbito sexual: masturbação, homossexualismo, coito interrompido, bestialismo, etc.

Sendo assim, considero que focar o episódio de Sodoma e Gomarra só no homossexualismo é um reducionismo.

Juízes

No capítulo XIX desse livro temos um texto que também é associado a questão da homossexualidade. Considero isso uma maluquice.

O que temos aqui é um relato chocante sobre um crime. Um levita que ia para casa com seu servo e sua concubina acaba tendo de passar uma noite na cidade benjamita de Gabaá. Nessa cidade os habitantes faltam gravemente com a lei da hospitalidade. O levita salienta a ironia de sua situação: ele, que tem acesso à cada de Javé, não encontra ninguém para acolhê-lo.

Ele acaba encontrando um conterrâneo que vive entre os benjamitas e este lhe oferece asilo. À noite, aparecem uns vagabundos querendo manter relações sexuais com o levita (é aqui que alguns associam esse episódio com homossexualismo). O levita acaba dando sua concubina para eles a “conhecerem” e está acaba sendo morta e disso deriva uma série de conseqüências que representa bem a mentalidade da época (de punição coletiva).

O que temos aqui não é um caso de homossexualismo, mas de estupro. A vítima, afinal de contas, é uma mulher! Não importa se tal ato é cometido por héteros, gays ou bissexuais, o estupro é errado e é isso que o episódio nos passa.

Uma coisa estranhíssima na exegese que vê aí um caso de “abominação homossexual” é que ela não atenta para o fato de que o levita dá sua concubina para ser estuprada!!! Querer condenar relacionamentos homossexuais livres e estáveis com base num episódio de estupro e não tirar nenhuma conseqüência do fato de uma mulher ser usada como objeto é uma completa doideira. É preciso ter muito, muito, muito preconceito (no sentido literal da palavra) para ver nesse episódio uma lição moral sobre a homossexualidade. É preciso muito, muito, muito preconceito para ficar picotando da Escritura segundo um dado cultural prévio para aplicar, sem mais nem menos, o Antigo Testamento para os homossexuais e não fazer isso, na mesma medida, para as mulheres. Pois se desse trecho se tirar alguma lição sobre a homossexualidade, também teremos de tirar sobre a mulher (que ela não passa de uma coisa na mão do marido).

Desse modo, Juízes não apresenta nenhuma lição verdadeira sobre a sexualidade humana.

Deuteronômio, Reis, Efésios e Judas

As referências citadas de Deuteronômio e dos dois livros de Reis referem-se todas à prostituição cúltica no Templo, que era uma característica da religião cananéia contra a qual os israelitas foram repetidamente advertidos. Essas condenações e proibições, seja da prostituição heterossexual, seja da homossexual, evidentemente nada significam no tocante a relações de longo prazo de qualquer tipo.

O versículo citado de Efésios refere-se à afirmação da relação entre Cristo e seu corpo, isto é, a Igreja, e a relação entre marido e mulher. O escritor sagrado não menciona aqui qualquer outra espécie de relação humana, e caso daí se queira concluir – como fazem alguns – que a relação marido-mulher é a única possível para cristãos, a conseqüência seria considerar o celibato tão pecaminoso quanto um relacionamento homossexual.

A passagem em Judas usa Sodoma (como fizeram todos os principais profetas e Jesus) como ilustração da destruição que inevitavelmente sucede ao pecado. O escritor não menciona “desejos sexuais não naturais” como um dos pecados de Sodoma. É necessária considerável carga de juízo prévio para encará-la como referência ao que atualmente conhecemos como relações homossexuais.

Levítico

Os textos do Levítico direta ou indiretamente ligados ao comportamento homossexual aparecem na seção desse livro conhecida como Código da Santidade, que estabelece como o comportamento dos israelitas, enquanto povo eleito de Deus, deveria distinguir-se daquele de outras nações.

Nessa via de santidade, relações homossexuais entre homens estavam proibidas. A razão por que não se mencionam mulheres (sugerem os estudiosos) é que se acreditava naquela época que a fonte total da vida vinha do homem, sendo que a mulher servia apenas de receptáculo no qual a semente se desenvolvia em nova vida. Numa pequena nação, cercada de poderosos vizinhos e almejando o crescimento, qualquer ação na qual as sementes de possível nova vida fossem desperdiçadas tinha de ser declarada pecaminosa.

Os liberais usam isso para tentar desqualificar o valor do que temos em Levítico, como se ele fosse um mero fruto da cultura do momento. Em certo sentido isso é até verdade, pois é evidente que a inspiração passou por uma filtragem cultural mas a conseqüência de saber disso não é jogá-la fora e sim descobrir o sentido espiritual profundo.

Mas vamos por partes.

O grande problema que aparece no Código da Santidade, em especial para quem se esqueceu como a Igreja lê a Bíblia (hereges modernistas e protestantes de um lado e rigoristas neo-conservadores, carismáticos e tradicionalistas do outro), é tomar os versículos que tratam da homossexualidade como algo sobre o qual não se pode fazer nenhuma reflexão e, ao mesmo tempo, ignorar os adjacentes, ou, por causa dos adjacentes, ignorar os que se referem a relações homossexuais.

Um falso dilema.

Os rigoristas, que gostam de citar o Levítico como algo autoritativo em si mesmo, costumam insistir em que pessoas que apresentam o comportamento que estamos analisando precisam ser tratadas com amor e compaixão e receber apoio num processo de mudança (é interessante como muitos, por baixo dos panos, não se furtam de encher a boca para falar “viados” em tom de ameaça). Entretanto o livro declara explicitamente que as pessoas que praticam o sexo com um igual precisam ser executadas.

Os liberais, por sua vez, observam a contradição (verdadeira) de que outras partes do Código de Santidade proíbem toda uma série de outras coisas que, ao que sei, não são levadas a sério por qualquer católico com a cabeça no lugar – por exemplo, comer carne contendo sangue, usar roupa feita de dois tipos de fibra ou designar para o sacerdócio alguém que tenha qualquer defeito físico, mesmo que seja uma sobrancelha torta.

Tudo isso, inevitavelmente, levanta a seguinte questão: como é possível determinar que um versículo deve ser considerado como tendo autoridade divina, ao passo em que se rejeita vários outros como sendo inaplicáveis para nós hoje? Resposta: lendo a Sagrada Escritura da maneira católica, isto é, sistematicamente e em conjunto com a Santa Tradição.

Por essa leitura, por exemplo, é que sabemos que a masturbação não faz parte do ideal cristão de santidade. Não há nenhuma passagem bíblica sobre ela, Jesus não falou nada contra a masturbação!!! e, mesmo assim, ela é alvo de proibição. Por quê? Porque não se adequa àquilo que se tira da visão sistemática da Escritura (uma sexualidade objetivamente regrada – visando a reprodução – e dentro do matrimônio) e dos princípios que o Divino Mestre nos deixou (afinal, se olhar com más intenções uma mulher já é pecado, imaginem fazer uma auto-estimulação erótica a partir disso).

Sendo assim, o que deve importar no Código da Santidade não são suas regrinhas em concreto, mas o sentido profundo espiritual, ou seja, o de se preservar de tudo que afaste do ideal que Deus tem para nós, como seu povo (a Igreja é o novo Israel de Deus), e sempre lendo na perspectiva do Cristo, que tem por horizonte o Reino, ao qual todos são convocados.

Romanos

Nesse trecho de Romanos (I, 18-32) a questão da homossexualidade parece direta e bem estruturada (inclusive, temos aqui a única referência em toda a Bíblia ao lesbianismo). Parece… novamente temos o sexo entre iguais como um instrumental e não como o problema central.

Mas vamos por partes, entendendo pouco a pouco todo esse trecho do livro.

A perícope (conjunto de versículos que formam uma unidade temática) está definida em seu caráter forense pelo começo, “ira-condenação”, e pelo final, “réus de morte”. A ira é tema freqüentíssimo no Antigo Testamento (Sofonias I, 15). O delito é enunciado, primeiro de modo genérico: todo tipo de impiedade (contra Deus) e injustiça (contra o próximo). Por serem gerais, abrangem tudo, e mostram um Deus ativamente inconciliável com o pecado (Salmo X, 5).

Depois desenvolve um processo. Primeira fase: o homem conhece (naturalmente, sem Revelação) a Deus, e não o reconhece como é devido. Como castigo – segunda fase – o Senhor abandona o homem a suas paixões; repete-o três vezes (versículos 24, 26, 28). Conseqüência – terceira fase – um catálogo de vícios, tirados em parte da cultura pagã greco-romana. Desenlace: como não podem alegar a rejeição nem o atenuante da ignorância (versículo 32), são réus de morte.

No Antigo Testamento, como castigo, Javé “entrega” o povo ao inimigo (Juízes II, 1-4/20-23), aqui o entrega “a seus desejos, a suas paixões, à sua mente depravada”: levam dentro o inimigo e o castigo abrange “o corpo e a mente”.

Desse modo, quando chega a falar de relações homossexuais, São Paulo as enquadra no contexto geral de decadência moral que encontra na sociedade romana. É bom não forçar demais a passagem, entendendo que ele se refere especificamente ao fato de pessoas que tinham vivido em relações heterossexuais abandoná-las em favor de relações homossexuais. Em termos práticos, qual era a origem disso? Era a chamada prostituição cúltica: na época de Paulo eram comuns as orgias grupais nos cultos de fertilidade; nas sociedades vinculadas a Roma, a pedofilia e a prostituição faziam parte das práticas sexuais entre homens (não haveria o inconveniente de uma gravidez), que se inflamavam mutuamente. Homens livres heterossexuais ou bissexuais desprezavam as suas esposas e praticavam orgias sexuais com seus escravos, prestando culto aos ídolos (o mesmo no que se refere às mulheres).

Por que o culto aos ídolos, na visão cristã, como que “exigia” isso? Bem, a “abominação” das práticas descritas não é só moral, mas, especialmente, teológica. No início havia o caos… ou seja, não havia diferenciação, mas uma mistura desordenada de elementos; Deus, então, começa a colocar ordem, justamente estabelecendo a diferenciação dos elementos: terra, ar, água… A expressão máxima da diferenciação organizadora e fecunda encontra-se justamente na diferenciação sexual: Ele os criou homem e mulher. Ora, nessa perspectiva, relações homossexuais seriam uma volta atrás, uma volta da confusão e da esterilidade. E esquecer a diferença, como ressaltei na análise do episódio de Sodoma, é a expressão da idolatria, posto que o reconhecimento dela descentraliza o sujeito de si, mostrando seus limites; o desconhecimento da diferença aprisiona a pessoa no círculo encantado de si mesma.

Temos, então, nesse trecho de Romanos um eco do “sereis como deuses” do Gênesis (por isso já escrevi mais de uma vez: sem levar ele em conta, nada faz sentido na consideração da homossexualidade como algo que não é ideal). O que se encontra na raiz de todos os pecados (o orgulho), transparece de maneira mais clara no campo da sexualidade. Por isso, se a antropologia paulina aponta para o: “não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? E então vão tomar membros de Cristo para faze-los membros de uma prostituta? Jamais!” é exatamente no modo como o ser humano vivencia sua sexualidade que vai se manifestar ou não a consciência de sua dignidade; se este ser se entrega às obras da carne ou às obras do espírito: eis o critério. Esse é o foco de Paulo, as relações homossexuais citadas aqui (periféricas, não oblativas) são um exemplo, não o ponto essencial.

I Coríntios

Entro agora no último trecho bíblico associado a questão homossexual.

Vamos a ele (segundo a tradução de quatro versões católicas e duas protestantes):

Vulgata (Matos Soares): “Porventura não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos enganeis: Nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus. E tais éreis alguns de vós; mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo Espírito de nosso Deus.”

Ave Maria: “Acaso não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus. Ao menos alguns de vós tem sido isso. Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus.”

Peregrino: “Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos iludais: nem os fornicadores nem os idólatras nem adúlteros nem efeminados nem homossexuais nem ladrões nem avarentos nem beberrões nem caluniadores nem exploradores herdarão o reino de Deus. Alguns de vós no passado eram desses; mas fostes lavados, consagrados e absolvidos pela invocação do Senhor nosso Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.”

Jerusalém (edição revista e ampliada): “Então não sabeis que os injustos não herdarão o Reino de Deus? Não vos iludais! Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem as pessoas de costumes infames, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o Reino de Deus. Eis o que vós fostes, ao menos alguns. Mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus.”

Almeida Revisada e Corrigida: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis; nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus. É o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito de nosso Deus.”

Almeida Edição Contemporânea: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós. Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito nosso Deus.”

De maneira preliminar, digo que a tradução da Bíblia de Jerusalém é a ideal, mas, por desencargo de consciência, vou fazer um exercício intelectual avaliando o trecho segundo a traducão das outras versões antes de ir ao argumento central.

Em primeiro lugar, cabe notar que esse trecho se une com a lista presente em V, 11 (que acrescenta outras categorias) compondo uma espécie de “decálogo negativo” (também encontrado em Gálatas V, 19-21; Efésios V, 5; I Timóteo I, 9-11; Apocalipse XXII, 15). Nesse sentido, as duas palavras que podem ser associadas a homossexualidade na perícope (efeminados e sodomitas) não são ressaltadas. Quem as enfatiza deveria ser enfático com todo o resto da lista.

Vale salientar que a tradução que encontramos na Bíblia do Peregrino, onde “sodomitas” vira “homossexuais” é fruto de grande subjetivismo, pois na época de São Paulo a palavra “homossexual” não existia e o que entendemos por ela, mesmo se for levada em conta a exegese duvidosa que identifica o “pecado de Sodoma” apenas com relacões sexuais entre pessoas do mesmo sexo, não é o mesmo que se infere de “sodomitas”. O termo “homossexual” pode se referir a uma orientacão sexual, enquanto “sodomita” sempre fará mencão de uma conduta.

Por outro lado, a palavra “efeminado” não pode ser usada para tratar da questão homossexual pelo simples fato de que nem todo efeminado é gay.

Tomando, pois, as coisas desse modo, só a palavra “sodomitas” teria algo a dizer sobre os homossexuais e, mesmo assim, com as limitações que já expliquei sobre o “episódio de Sodoma”, e com o fato de que um pecado para se enquadrar nela teria de contar com os elementos subjetivos (livre querer e consciência do ato), pois o simples enquadramento objetivo não satisfaz (ou teríamos de inferir que ficar bêbado excluiria alguém do Reino).

Só que tudo isso cai por terra quando vamos ao centro da questão.

E esse centro é o fato de que traduzir malakoi (literalmente, “macios”) por “efeminados” e arsenokoitai (literalmente, “homem de muitas camas”) por sodomitas é algo contestável. Hoje, a maioria dos exegetas concorda que o vocábulo traduzido por “efeminados”, na verdade, se refere aos catamitas – meninos feitos prostitutos em templos pagãos. Em relação ao outro termo é simplesmente impossível de se chegar a uma conclusão precisa.

As palavras originais em grego koiné eram desconhecidas do tradutor (ou tradutores), o qual supôs para elas um sentido. Quando o tradutor (ou tradutores) se deparava com um vocábulo que desconhecia, tentava procurar em outras obras (sem sucesso) e aí atribuia algo que “achava” encaixar-se no contexto da maneira mais bela. No século XIX, por exemplo, várias bíblias continham “masturbadores” ao invés de “efeminados”.

No decorrer do século XX, no entanto, versões mais novas começaram a questionar essas traduções. Essas traduções tentam ao máximo usar a equivalência formal, ou seja, dar mais valor à tradução ao pé da letra dos vocábulos e menos à beleza da forma. Nessas edições, as equipes observaram que era mais adequado traduzir esses dois vocábulos como impureza sexual e prostituição cúltica, que era homossexual, mas também heterossexual, e comum em templos pagãos. Desse modo, bíblias como a Bíblia de Jerusalém, trocaram “efeminados” e “sodomitas” por “imoralidade sexual”.

É interessante notar que a mesma palavra em grego que é traduzida comumentemente por sodomitas, quando aparece em Apocalipse XXI, 8 e XXII, 14, nas mesmas bíblias, ganham outro significado (o que remete à “adivinhação”).

Sendo assim, São Paulo condena aqui a depravação sexual dos injustos (os pagãos). Certamente em tal depravação está incluída a depravação homossexual, assim como qualquer outra.

O que não dá é querer ver aqui uma condenação do comportamento homossexual em si mesmo. Este é colocado fora da moralidade objetiva pelo relato do Gênesis e pelo sentido último da proposta moral do Evangelho.

Conclusão

Após tudo isso (foram seis meses de pesquisa direta e seis de indireta), vejo como a homossexualidade deve ser tratada: considerando-a algo que está fora do Projeto de Deus, mas que também não deve ser motivo para histeria.

Alguns podem olhar para mim e achar que eu nasci ontem… e que estou numa conspiração satânico-diabólica, querendo desvirtuar a “sã doutrina” e a “Fé entregue aos Santos”.

Eu não nasci ontem. Vivi e vivo intensamente a Igreja para saber que, de todos os coleguinhas criados comigo, indo à Missa, cantando nos corais, participando de gincanas, grupos de estudo, etc…. alguns – e só a Deus cabe saber isso – ao se despertarem sexualmente, perceberam que eram homo ou bissexuais.

E aí, pedir para ler Romanos ou Coríntios, ou qualquer outra passagem, retirada como cartas da manga, é jogar aquele católico fiel num poço sem fundo de depressão e miséria interior.

O que estou propondo aqui é, mais uma vez, discutir o assunto de uma forma inteligente e equilibrada. Deixo todo um texto para debate (que, a meu ver, é até muito resumido e precisava de mais detalhamento), a partir do qual podemos aprofundar os argumentos honestos e respeitosos.

Quem meramente lança um post de uma linha, fechando a questão com a interpretação literal de um versículo tirado de uma bíblia mal traduzida, na verdade, não está muito preocupado com o assunto… ou tem medo – medo de sua pseudo-verdade absoluta ser derrubada. A palavra seca e as observações sem muito rigor ou aprofundamento só mostram a imaturidade e a infantilidade de certas pessoas.

A resposta fácil que alguns querem ouvir é: não pode, e a pessoa vai ser transformada, só precisa perseverar.

Mas, na verdade, os que apenas sabem entoar esse mantra, mostram que nunca tiveram uma real experiência de vivência do Evangelho (vejam bem, não digo que não creiam em Cristo), a ponto de lidarem com situações constrangedoras.

A complexidade das passagens bíblicas alvos desta pesquisa são um reflexo da própria complexidade da vida, do caminhar humano. Por isso temos de ler as Escrituras com os olhos de Cristo ou, ao invés de produzirem vida, serão fonte de maldição.

Fontes

Bíblia do Peregrino.

Bíblia de Jerusalém.

Ética da Sexualidade e do Matrimônio. Ed. Paulus. Autor: Eduardo López Azpitarte.

Defending a Higher Law: Why We Must Resist Same-sex “Marriage” and the Homosexual Agenda. Autor: TFP americana.

– artigos retirados da Enciclopédia Católica (em inglês, 1967) e do Dicionário de Teologia Moral da Paulus.

Encarando nossas diferenças. As igrejas e seus membros homossexuais. Ed. Sinodal. Autor: Alan A. Brash.

O Enigma da Esfinge. A sexualidade. Ed. Vozes. Autor: Frei Antônio Moser.

Reforçando as trincheiras. Análise da problemática do homossexualismo à luz do cristianismo histórico. Ed. Vida. Autor: D. Robinson Cavalcanti.

Acompanhamento de vocações homossexuais. Ed. Paulus. Autor: José Lisboa Moreira de Oliveira.

Same-sex unions in premodern Europe. Autor: John Boswell.

– Artigo Eles também são da nossa estirpe – considerações sobre a homofilia (Revista Vozes 9 – 1967). Autor: Pe. Jaime Snoek.

– coleta de posts em várias comunidades cristãs pelo Orkut.

– conversas com homossexuais (masculinos e femininos) católicos (que possuem uma atuação na Igreja ou que deixaram a prática religiosa).

Para refletir (os documentários, o filme e o artigo são só para os leitores terem mais elementos ao pensarem sobre essa questão, em hipótese alguma deve-se entender que eu defendo algo que a Igreja não defende):

Como diz a Bíblia (documentário)

Orações para Bobby (filme)

A terceira via (documentário)

What should a gay catholic do? (artigo)

Author: James Martin, S.J.

Here’s a real pastoral question to consider: What place is there for the gay person in the Catholic church? With the warning from the archdiocese of Washington, D.C., that it would pull out of social services in the city rather than accede to a bill that would afford benefits to same-sex spouses, a question, too long neglected, arises for the whole church: What is a gay Catholic supposed to do in life?

Imagine you are a devout Catholic who is also gay. Here is a list of the things that you are not to do, according to the teaching of the church. (Remember that most other Catholics can choose among many of these options.) None of this should be new or in any way surprising. If you are gay, you cannot:

1.) Enjoy romantic love. At least not the kind of fulfilling love that most people, from their earliest adolescence, anticipate, dream about, hope for, plan about, talk about and pray for. In other cases, celibacy (that is, a lifelong abstinence from sex) is seen as a gift, a calling or a charism in a person’s life. Thus, it is not to be enjoined on a person. (“Celibacy is not a matter of compulsion,” said then Cardinal Joseph Ratzinger.) Yet it is enjoined on you. (“Homosexual person are called to chastity,” says the Catechism, meaning complete abstinence.) In any event, you cannot enjoy any sort of romantic, physical or sexual relationship.

2.) Marry. The church has been clear, especially of late, in its opposition to same-sex unions. Of course, you can not marry within the church. Nor can you enter into any sort of civil, same-sex unions of any kind. (Such unions are “pseudo-matrimonies,” said the Holy Father, that stem from “expressions of an anarchic freedom”) They are beyond the pale. This should be clear to any Catholic. One bishop compared the possibility of gays marrying one another to people marrying animals.

3.) Adopt a child. Despite the church’s warm approval of adoption, you cannot adopt a needy child. You would do “violence,” according to church teaching, to a child if you were to adopt.

4.) Enter a seminary. If you accept the church’s teaching on celibacy for gays, and feel a call to enter a seminary or religious order, you cannot—even if you desire the celibate life. The church explicitly forbids men with “deep-seated homosexual tendencies” from entering the priesthood. Nor can you hide your sexuality if you wish to enter a seminary.

5.) Work for the church and be open. If you work for the church in any sort of official capacity it is close to impossible to be open about who your identity as a gay man or a lesbian. A gay layman I know who serves an important role in a diocese (and even writes some of his bishop’s statements on social justice) has a solid theological education and desires to serve the church, but finds it impossible to be open in the face of the bishop’s repeated disparaging remarks about gays. Some laypeople have been fired, or dismissed, for being open. Like this altar server, who lives a chaste life. Or this woman, who worked at a Catholic high school. Or this choir director.

At the same time, if you are a devout Catholic who is attentive both to church teachings and the public pronouncements of church leaders, you will be reminded that you are “objectively disordered”, and your sexuality is ”a deviation, an irregularity a wound.”

Nothing above is surprising or controversial: all of the above are church teaching. But taken together, they raise an important pastoral question for all of us: What kind of life remains for these brothers and sisters in Christ, those who wish to follow the teachings of the church? Officially at least, the gay Catholic seems set up to lead a lonely, loveless, secretive life. Is this what God desires for the gay person?

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23 respostas em “"A Bíblia ensina…" – análise das passagens da Escritura Sagrada associadas à homossexualidade

  1. Muito boas as considerações. Só uma colocação: no “Diálogo”, Deus Pai, quando fala à Catarina de Sena a respeito da impureza, diz que somente por causa dos pecados de impureza contra a natureza Ele fez desaparecer cinco cidades (p. 259 e 260). Como harmonizar tal explicação com a exegese que não considera a prática homossexual como a causa única da destruição de Sodoma e Gomorra?

  2. Em primeiro lugar pelo fato do valor de uma revelação privada não ser o mesmo da Revelação Pública Particular (Antigo Testamento). Toda revelação privada tem de ser interpretada à luz da Revelação Pública (seja a Particular -AT -, seja a Universal – NT). Desse modo, supondo uma contradição, a preferência sempre deve recair sobre o que está na Santa Tradição ou na Sagrada Escritura.Em segundo lugar, eu não disse que a prática homossexual não foi causa da destruição de Sodoma e Gomorra, ela foi, mas foi junto com outras e num contexto geral de depravação. É bom isso ficar claro, pois simplificações para um lado rigorista (só a prática homossexual foi a causa), quando para um lado laxista (a depravação em geral ou a falta de hospitalidade é que foram a causa, sem tocar na questão do homossexualismo – nesse caso o “ismo” faz sentido) em geral derivam do temor de ler a questão em todas as suas nuances.Por fim, entender que um ato homossexual é impureza, mas um pai entregar sua filha para ser estuprada não é algo do mesmo nível ou pior, não faz sentido. Quem adota a exegese que só os atos homossexuais é que foram a causa, além de não estar de acordo com a literalidade do texto e com a interpretação de exegetas de peso, como Cornélio a Lápide, encontra esse tipo de problema.

  3. Parabéns, Thiago. Sem dúvida, como você colocou, a Igreja não pode admitir como ideal a prática homossexual, especialmente quando inclinamos o ouvido à filosofia moral, ao testemunho da Tradição e da vida dos Santos.Entretanto, um dos efeitos colaterais de a doutrina tomar a forma de um farol moral, por meio de enunciados ideais de caráter jurídico, é que ela acaba por tornar-se prato cheio de “sectários sociológicos” (como você diz) que condenam certas atitudes pela seu caráter estético, pela ojeriza interior que têm, e não pela caridade ou pela preocupação com o Bem imortal da alma. O homossexualismo é um caso típico. Às vezes, um pecado é o caminho mais curto para a santidade, e a obediência à valores religiosos por meras “imposições sociais” é o caminho da condenação, da neurose ou, ao menos, da mediocridade.

  4. Thiago. A exegese católica das Escrituras pode permitir a interpretação de que alguém possa ter nascido com tendências homossexuais?

  5. E esta tendência ser daria tendo em vista a Queda do homem; não algo que já estivesse no plano original da criação, correto?

  6. Mesmo que o argumento decisivo contra a liceidade do ato homossexual não venha da Bíblia, ele é dado pela razão natural, uma vez que o ato homossexual é um ato contrário à natureza do ato sexual, portanto, um ato contrário à razão. E o homem tem livre arbítrio, o que significa que o homem não é um ser irresistivelmente dominado por seus vícios e paixões.Penso que o texto, quando diz simplesmente que a conduta heterossexual consiste numa postura ideal, dá uma impressão de certa tolerância com o homossexualismo (chega a falar de relações homossexuais oblativas). Acredito que ele deveria salientar a deformidade, completamente contrária à natureza, em que consiste o ato homossexual. E que, dada a evidência de ser contrário à natureza, é difícil pensar que não se dê a malícia, que conduz ao pecado subjetivo. Somente quando a paixão é mais forte que a razão, a ponto de inebriá-la, é que a paixão acaba por tolher a responsabilidade; quando a paixão se segue à razão, ela aumenta o voluntário.

  7. O argumento bíblico é suficiente para não considerar a homossexualidade como algo ideal, se você entendeu outra coisa, sugiro que leia de novo o texto. Agora, se você quiser ficar no âmbito meramente racional, vai ter de afirmar que um ato de masturbação é moralmente pior que um de fornicação… tal absurdo deixa evidente que não se pode avaliar a sexualidade exclusivamente por categorias objetivas.Quanto a dizer que o homem pode controlar suas paixões, eu concordo plenamente. Você leu algo que vai de encontro a isso? E se você entendeu que no texto há uma certa tolerância para com relações homossexuais, nisso você acertou. Acho que deixei bem claro esse ponto. Contudo, se por tolerância você infere que se está negando a não normatividade delas aí já é uma extrapolação típica de quem só considera possível um único tipo de postura: a rejeição total do FATO de que sempre vão existir pessoas com a atração homossexual e que em muitos casos tal atação não é patológica, mas perfaz a orientação sexual dos indivíduos. Para se levar o Evangelho a essas pessoas temos de partir da realidade e não querer enquadrar tudo nos conceitos prévios que possuímos.Por causa de tais conceitos prévios é que você também simplifica a questão, querendo reduzir tudo a malícia e a sexo. Não é assim. E não é tão difícil você encontrar gays que vivem relacionamentos oblativos e possuem uma sexualidade tão equilibrada (no sentido subjetivo, é claro) quanto qualquer heterossexual nas mesmas condições. Você já parou para procurar alguém em tal situação? No dia que o fizer, tente apresentar sua versão das coisas, dizendo que amor que aquela pessoa sente por outra é apenas “safadesa” e tirando trechos bíblicos, aleatórios e fora de contexto, da manga… Não acredito que alguém se converta com o apóstolo fazendo esse tipo de reducionismo, pois estará patente a falsidade da avaliação (falsa no sentido de não corresponder à realidade vivida – veja o filme que coloquei em anexo).Sabe como você fará um indivíduo assim se voltar para Cristo? Quando disser a ele que tem uma proposta de vida melhor do que a que ele possui agora.

  8. Mas um homossexual que vive uma relação oblativa está exercendo algum controle sobre suas paixões desordenadas? Está submetendo essas paixões à reta razão?E quanto a masturbação ser pior ou não do que a fornicação, acredito que isso dependa de circunstâncias anexas. Quem fornica não pecou sozinho, mas também colaborou no pecado do outro. Dessa forma, eu penso que a fornicação pode ser, talvez, pior do que a masturbação, em que o indivíduo peca sozinho. Além disso, quem fornica com a mulher do próximo, é evidente que não cometeu apenas os pecados relativos à fornicação, mas fez grave injúria ao seu próximo.

  9. Novamente você parte de uma perspectiva genital da sexualidade; isso é o sinal de que algo precisa mudar na sua postura. A masturbação quase sempre será menos grave que a fornicação (sem ser com a mulher do próximo mesmo) num caso concreto (embora objetivamente sempre seja mais grave) pois para se masturbar é necessário romper menos barreiras de pudor que para fornicar, ou seja, o elemento subjetivo é que prepondera na regra geral. E um homossexual que está numa relação amorosa evidentemente que não está na situação ideal em termos objetivos, mas está bem melhor do que se não vivesse sua sexualidade objetivamente desregrada no meio de um desregramento subjetivo.

  10. Não há duvidas de que ele está melhor. Aliás, a situação do pecador pode ser mais ou menos grave, dependendo do número e da gravidade dos pecados, como você mesmo escreveu. Mas que importa se a masturbação ou a fornicação é a mais grave, se ambas produzem o mesmo efeito, que é arrebatar ao homem o seu fim sobrenatural?De certo que concordo com a sua análise sobre a masturbação e a fornicação, mas que diferença isso faz no fim, se um pecado mortal é mais grave que o outro? A única diferença pode ser em ter ou não um inferno mais leve do que o outro.E, quando eu estou falando dos gays, obviamente que não estou condenando qualquer relação homossexual realmente oblativa, mas o ato homossexual. É o ato homossexual que encerra a deformidade contra a natureza. Daí as Escrituras terem falado contra a sodomia. Se os gays pudessem viver sem a sodomia, aí sim, sua situação não seria ideal, mas também não encerraria toda a deformidade que ela encerra.

  11. Eu sei que o cerne da questão não é se a masturbação é um pecado mortal assim como a fornicação e leva para o inferno. Então, vou tentar ir direto ao que importa: independente dos critérios subjetivos, certos limites são traçados por critérios objetivos. Assim, toda e qualquer sodomia resulta numa relação sexual contrária à natureza. E desse critério objetivo deriva o ser “matéria grave”. Os critérios subjetivos envolvem, para esse caso, evidentemente, apenas as circunstâncias pessoais, como o grau de conhecimento e as condições do ato voluntário.Igualmente se poderia acrescentar elementos objetivos na comparação entre a fornicação e a masturbação: na fornicação, há o uso indevido do corpo de outro. Talvez disso resulte o critério subjetivo de romper-se mais barreiras de pudor. Assim vemos que o critério subjetivo, que você considera preponderante, parece, na verdade, ter se originado de um critério objetivo.Agora, mesmo que eu esteja errado nisso, percebi, revendo suas respostas, que você está confundindo objetividade com razão, pois você diz: “Agora, se você quiser ficar no âmbito meramente racional, vai ter de afirmar que um ato de masturbação é moralmente pior que um de fornicação… tal absurdo deixa evidente que não se pode avaliar a sexualidade exclusivamente por categorias objetivas”. O argumento da fornicação romper mais barreiras de pudor pode ser um elemento subjetivo, mas dedutível racionalmente, logo, objetividade não se confunde com razão. Isso é mais um indicativo de que a moral é toda ela racional, caso contrário, não seria adequado a Igreja distinguir entre fé e costumes. Tudo seria de igual modo compreendido na fé.

  12. “O argumento da fornicação romper mais barreiras de pudor pode ser um elemento subjetivo, mas dedutível racionalmente, logo, objetividade não se confunde com razão.”Essa colocação não faz o menor sentido. O fato de algo ser dedutível racionalmente não torna essa coisa objetiva no sentido de se ajustar ao tipo ideal proposto por Deus. “Isso é mais um indicativo de que a moral é toda ela racional, caso contrário, não seria adequado a Igreja distinguir entre fé e costumes.”Os princípios morais são objetivos, mas a análise moral dos atos humanos não pode levar em conta apenas elementos objetivos. Isso é mais do que óbvio e sua insistência em não ver tal dado é algo, no mínimo, intrigante. A quebra de barreiras de pudor na fornicação em comparação com a masturbação não tem relação com nada objetivo, mas se refere apenas à subjetividade.E se para você o pecado deriva apenas do elemento objetivo do ato, você está defendendo algo que a Igreja não ensina.Sobre o que a Sagrada Escritura fala do tema, o que eu tinha a dizer eu já disse o texto deste post. Continuar a falar em “sodomia” como se você não soubesse que a palavra não corresponde devidamente sobre o que estamos falando é desculpa para esconder o próprio preconceito.

  13. Há ainda uma objeção que eu gostaria de ver respondida, se você estiver aberto ao diálogo: Toda tendência desordenada em nossa natureza que pode ser colocada sobre o arbítrio da vontade deve, necessariamente, ser vencida, sob pena do pecado mortal. Como você encara isso, com relação ao ato homossexual oblativo, que você considera algo que vai de encontro ao “projeto de Deus”?Claro que esse “ir de encontro ao projeto de Deus”, refere-se ao projeto da graça, uma vez que a queda não destruiu a essência do homem. Logo, essa falha inclui algo que é nosso por natureza. Já o ato, em si, que está debaixo do arbítrio da vontade, esse, sim, é contra a natureza.

  14. “Essa colocação não faz o menor sentido. O fato de algo ser dedutível racionalmente não torna essa coisa objetiva no sentido de se ajustar ao tipo ideal proposto por Deus.”Eu não disse que torna objetiva. Mas você ignorou o meu argumento, não combate na objetivamente, mas na razão. Além disso, a subjetividade não exclui a objetividade. A natureza má de uma conduta não é dada só pela subjetividade, mas pela objetividade também, pela natureza objetiva do ato. É o tal do “intrinsecamente mau”, normalmente falado na moral católica.E o ato homossexual tem essa natureza objetiva desordenada.“A quebra de barreiras de pudor na fornicação em comparação com a masturbação não tem relação com nada objetivo, mas se refere apenas à subjetividade.”É possível, sim, ver ligação disso com elementos objetivos. O indivíduo não tem nenhum direito à posse do corpo do outro. Como não haveria de haver mais pudor determinado por esse elemento objetivo? Além disso, quem fornica, peca na presença de outro, utiliza-se do corpo de outro. Todos esses são elementos objetivos que determinam o elemento subjetivo.Lembro que estamos dialogando, não impondo. Assim, se você tem alguma objeção contra a isso, deve postar seus argumentos.“Continuar a falar em “sodomia” como se você não soubesse que a palavra não corresponde devidamente sobre o que estamos falando é desculpa para esconder o próprio preconceito.”Talvez porque no trecho citado, eu esteja tratando especificamente da sodomia.

  15. “Como você encara isso, com relação ao ato homossexual oblativo, que você considera algo que vai de encontro ao 'projeto de Deus'?”Você mesmo respondeu a essa pergunta no parágrafo seguinte. Realmente, não sei o que não está claro.Sobre a natureza objetivamente desordenada do ato homossexual, o “intrinsecamente mau”, eu também não falei nada que vai de encontro a isso. Essa sua fixação em querer levar automaticamente constatações racionais e objetivas para a vida concreta é que é o problema; você acha que ao se fazer tal passagem se está negando os princípios objetivos que envolvem a questão, mas isso não é possível no âmbito católico e num âmbito em que se trabalhe com uma análise filosófica realista. Faça o favor de não transferir para cá maluquices que você lê de progressistas. “É possível, sim, ver ligação disso com elementos objetivos. O indivíduo não tem nenhum direito à posse do corpo do outro. Como não haveria de haver mais pudor determinado por esse elemento objetivo? Além disso, quem fornica, peca na presença de outro, utiliza-se do corpo de outro. Todos esses são elementos objetivos que determinam o elemento subjetivo.”Posse do corpo do outro? Que mentalidade é esta? A não ser num caso de estupro, de violência, você não toma posse do corpo de ninguém num caso de fornicação. O uso contínuo dessa linguagem defasada mais confunde que ajuda.E quem fornica não faz, necessariamente, uso do corpo do outro. Ou será que para você qualquer ato sexual é meramente algo que serve para se saciar uma vontade luxuriosa? O sexo também pode ser o corolário do amor e, nesse caso, não há “uso” (embora continue a haver um ato pecaminoso se feito fora dos laços do matrimônio). E mesmo tomando esses elementos que você citou como objetivos, a fornicação não se transformaria em algo mais grave, objetivamente, que a masturbação. Pegue qualquer manual de teologia moral antigo e isso vai estar bem claro nele. Por que é assim? Porque um caso é contra a natureza e o outro não. Agora, diga-me, isso basta para analisar a moralidade de algo? Claro que não.Portanto, ao tratar da homossexualidade, procure ser mais abrangente nas sua análises. “Talvez porque no trecho citado, eu esteja tratando especificamente da sodomia.”Então você devia tratar da promiscuidade sexual em geral, não só da homossexual, pois o comportamento dos habitantes de Sodoma era bem abrangente, como expliquei.

  16. Thiago,”Você mesmo respondeu a essa pergunta no parágrafo seguinte. Realmente, não sei o que não está claro.”Eu não me lembro de haver respondido isso. Se tivesse respondido, me lembraria. Eu disse, no parágrafo seguinte, que a tendência desordenada é algo que não escapa ao âmbito da natureza, mas na medida em que ela é voluntária, ela é pecaminosa.Mas você, a não ser que eu esteja errado sobre sua postura, encara mesmos os atos voluntários que são conforme essa tendência, como não-pecaminosos.”Essa sua fixação em querer levar automaticamente constatações racionais e objetivas para a vida concreta é que é o problema”Você nega as constatações objetivas e racionais. Eu não nego as subjetivas. Você nega a racionalidade da questão? Nega que o subjetivo seja também racional?E eu não ando lendo nada de progressistas. Do jeito que você escreveu, me parece que você sabe quais foram as minhas leituras. Acho temerário você fazer esse tipo de afirmação, pois estou debatendo com você com argumentos próprios, não lidos ou copiados de outro lugar.”E quem fornica não faz, necessariamente, uso do corpo do outro.”Entenda isso analogicamente. É uma situação de maior pudor estar em contato com o corpo de outro do que consigo próprio. Não queira julgar as minhas intenções com base em preconceitos contra a minha pessoa.”E mesmo tomando esses elementos que você citou como objetivos, a fornicação não se transformaria em algo mais grave, objetivamente, que a masturbação. Pegue qualquer manual de teologia moral antigo e isso vai estar bem claro nele”Você tem uma clara tendência à imposição autoritária e não ao diálogo. Claro se interessasse em dialogar, me exporia claramente os motivos dessa afirmação.”Então você devia tratar da promiscuidade sexual em geral, não só da homossexual, pois o comportamento dos habitantes de Sodoma era bem abrangente, como expliquei.”Em primeiro lugar, não estou falando de Sodoma. Também não falei da promiscuidade de ninguém. Falei do ato homossexual contra a natureza. Esse ato o fazem gays promíscuos, mas também os não promíscuos. Pergunto-te: esse ato, que é voluntário, é ou não desordenado?

  17. Começando pelo fim: o que eu estou lhe dizendo é que usar a palavra sodomita para descrever algo que não seja a promiscuidade em geral é um equívoco derivado de uma leitura seletiva do texto bíblico. Não sei o que você quer dizer com não dialogar. Por acaso você está querendo criar uma outra teologia moral onde a masturbação seja menos ofensiva objetivamente que a fornicação? Se não for assim, então você tem de aceitar o que diz a teologia e o que pode ser constatado racionalmente: a masturbação é contra a natureza, a fornicação não é. Se há alguma nova teoria sobre o tema eu gostaria de saber qual é.”É uma situação de maior pudor estar em contato com o corpo de outro do que consigo próprio. Não queira julgar as minhas intenções com base em preconceitos contra a minha pessoa.”Não há situação de maior pudor nenhuma em estar em contato com o corpo de outra pessoa. O pudor está no momento anterior, isto é, antes de entrar em contato. Por isso que para fornicar se quebram mais barreiras desse “elemento” que para se masturbar (na regra geral, pelo menos).Eu não nego nenhuma constatação objetiva e racional, mas, para mim, você nega as subjetivas, que não são sempre racionais. O que faço é colocar as objetivas e racionais no seu devido lugar. E sim, posso até estar julgando temerariamente, mas acho um absurdo tão grande alguém não ver que a sexualidade não pode ser analisada apenas por essas categorias objetivas (já que isso vai de encontro à experiência pessoal e social de qualquer ser humano), que só imagino que a resistência nesse ponto deriva do fato de você pensar que isso seria se igualar ao modernismo.”Mas você, a não ser que eu esteja errado sobre sua postura, encara mesmos os atos voluntários que são conforme essa tendência, como não-pecaminosos.”Sim, você está errado. Onde está dito algo nesse sentido? Em lugar algum. Agora, um ato PECAMINOSO não é o mesmo que um PECADO; a noção de pecaminoso é dada pela qualificação objetiva dele, a existência do pecado, por sua vez, depende da junção de tal qualificação com as circunstâncias subjetivas. Se existem circunstâncias subjetivas, no âmbito da voluntariedade, de descaracterizam o pecado é algo que só Deus pode julgar e que não tem relação alguma com o texto deste post, que se limita à análise bíblica. “Eu não me lembro de haver respondido isso. Se tivesse respondido, me lembraria. Eu disse, no parágrafo seguinte, que a tendência desordenada é algo que não escapa ao âmbito da natureza, mas na medida em que ela é voluntária, ela é pecaminosa.”E eu concordo plenamente com isso, ela, oblativa ou não, sempre será pecaminosa (tal classificação é objetiva).

  18. Thiago,Toda consideração subjetiva é racional, pois a vontade deve seguir o intelecto. Eu não nego a realidade subjetiva, apenas estou dizendo que o subjetivo segue o objetivo, pois deve seguir a realidade, e a realidade é objetiva. A moralidade objetiva versa sobre o ditame da razão prática, ao passo que a moralidade subjetiva versa sobre a consciência moral.Você deve saber como funciona o ato humano: é feita uma consideração com base na razão, no objetivo. A vontade deve seguir o intelecto, mas é ela quem determina a ato. Nisso, consiste o livre arbítrio. Quando a vontade não segue a razão, temos a desordem pecaminosa.Analisemos, então, os casos de amor entre iguais (homofilia). A homofilia nunca foi pecado nenhum. O amor é uma paixão. A paixão é involuntária. Até o ódio é involuntário, por exemplo, o que sentem os condenados por Deus. Mas submeter as paixões à reta razão é um elemento indispensável ao ato moralmente bom. Não submetê-las, faz com que o ato seja um pecado.Pois então, que diz a Igreja? Ela diz que os atos libidinosos entre iguais constituem um atentado à natureza (qualquer ato libidinoso fora do matrimônio constitui uma desordem moral, pois, ainda que não seja contrário à natureza em si mesmo, não está em conformidade com o fim último, uma vez que não é desejável em si, nem conveniente ao homem).Você diz que um ato pecaminoso não é o mesmo que pecado. É pecado, sim, material, mas talvez não seja formal. E o que vai decidir se é ou não pecado formal é justamente ser voluntário. Os casos de inimputabilidade são aqueles em que há deficiência no voluntário, seja por alguma paixão tolher a razão, ou por desconhecimento (casos em que a vontade não pode decidir como convém), ou por estar a vontade amarrada a uma dúvida acerca do dever.

  19. Mesmo com a realidade sendo objetiva, o subjetivo não segue necessariamente o objetivo. Estamos falando de vidas humanas, amor, sexo… você não vai conseguir provar nada com um argumento do tipo: “X, logo Y, agora apliquem isso a ferro e fogo”.Não é subjetivismo que defendo. Não estou falando nada do tipo “o que importa é o amor” ou bobagens assim. Digo que, à luz da realidade decaída, o julgamento puramente objetivo é insuficiente. E sua diferenciação entre pecado formal e material não acrescenta nada ao que já falei, só repete, com outras palavras, a divisão entre pecado e ato pecaminoso. Então, qual o motivo de usá-la? Uma vontade de destacar a palavra “pecado” quando ela, se não for acompanhada de nada subjetivo, não representa nada para a salvação?

  20. Thiago, parabéns pelo excelente texto. Aliás, parabéns pelo blog!

    Em especial, sua discussão, acima, com o Anônimo, no que se refere à moral do comportamento homossexual nos seus aspectos objetivos e subjetivos, interessou-me bastante e, ainda que as minhas colocações não estejam, necessariamente, na mesma direção em que está a conversa de vocês, penso que, talvez, você possa me ajudar quanto a algumas inquietações que, há algum tempo, me incomodam. Permita-me, portanto: sou psicóloga e é recorrente em minha prática profissional lidar com pessoas héteros e homos que trazem, ao consultório, seus dramas amorosos. Como você mesmo menciona “à luz da realidade decaída, o julgamento puramente objetivo é insuficiente”. Contudo, ainda que insuficiente (principalmente quando se lida diretamente com vidas com o intuito de verdadeiramente ajudá-las), a avaliação a partir de uma perspectiva objetiva é algo indispensável, sobretudo se temos em vista o próprio conceito (clássico) de saúde mental (e não este de hoje, politicamente manipulado), que exige este contato com a realidade para classificar um ato ou uma conduta humanos como saudáveis. E é aqui onde concordo com o Anônimo quando ele afirma que “Quando a vontade não segue a razão, temos a desordem pecaminosa”. Em certo sentido, em uma linguagem psicológica, poderíamos dizer que quando a vontade não segue a razão, temos a desordem psíquica. Entretanto, penso que em nossa sociedade atual, a(s) verdade(s) que ilumina(m) a razão da maior parte das pessoas, infelizmente, está(ão) completamente equivocada(s) à custa de um subjetivismo voluntarista e hedonista ou, o que é pior, já não parece mais haver Verdade alguma a partir da qual se possa guiar a própria vida. Por isso, em minha opinião, ser algo tão difícil abordar certos assuntos, a exemplo da homossexualidade, de modo que, ainda que sensíveis ao drama subjetivo-existencial do outro, não nos tornemos vulneráveis ao respeito humano e, aqui, faço referência direta a minha pessoa, como profissional, que lida de maneira tão próxima com a pessoalidade alheia, mas que, antes de tudo, tem um compromisso com a Verdade que é natural-divina e objetiva e está acima de qualquer subjetividade humana.
    Embora tenha consciência de que não é meu papel, enquanto terapeuta, analisar se meus pacientes estão a cometer um ato pecaminoso ou um pecado material ou formal, sejam eles héteros ou homossexuais, não posso negar (e aqui está o meu drama de recém convertida) que inquieta-me, moralmente, o fato de ter que tratar de uma relação homossexual da mesma maneira como devo tratar de uma relação heterossexual, por receio de estar colocando-as em pés de igualdade, quando, enquanto católica, sei não ser lícito fazer isto. Já cheguei até a cogitar a possibilidade de mudar de profissão, mas, pensando bem, vi (dentre outras razões) não ser o caminho mais adequado, já que posso, também por meio do meu saber e do meu trabalho, ajudar a muitos como tenho feito, de maneira geral, inclusive mais agora, temente à Fé Católica. Seria, portanto, o caso de conseguir sentir-me verdadeiramente segura (o que não tem sido fácil) de que não estou sendo contraditória, ao tratar deste assunto (no consultório), quanto ao que acredito e o que faço. O que você teria a me aconselhar para que eu pudesse melhor conceber esta questão, já que objetivo que minha profissão me seja, também, um meio de salvação, de santificação? Não sei qual a sua formação, mas independente disto, tenho visto o quanto você aparenta ser (não só por aqui, mas por outros textos e comentários nos quais você se coloca) uma pessoa prudente e equilibrada. Espero ter conseguido ser clara; se você souber me aconselhar, desde já, agradeço imensamente esta caridade. Que São José o abençoe 🙂

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