Catecismo sobre o sedevacantismo

sedevacantism

O sedevacantismo é uma das conseqüências mais estranhas da crise que ocorreu após o Vaticano II. Neste texto vou postar em forma de catecismo as informações que acumulei ao longo dos anos sobre esse “fenômeno” e fazer a crítica delas (sempre levando em conta os referenciais católicos – Revelação + Magistério infalível + vida dos Santos).

1. O que é o sedevacantismo?

Sedevacantismo é a teoria dos que pensam que os papas mais recentes, os papas do Concílio Vaticano II, não foram realmente papas. Conseqüentemente, a Cátedra de Pedro não estaria ocupada. Isso é expresso pela fórmula latina “sede vacante”.

2. Qual a origem dessa teoria?

Essa teoria foi concebida em reação à grave crise na qual a Igreja foi jogada desde o Concílio, crise que o Arcebispo Lefebvre chamou de “terceira guerra mundial”. A principal causa dessa crise tem sido a negligência dos Pontífices Romanos, que ensinam ou deixam que se propaguem sérios erros em matérias como o ecumenismo, a liberdade religiosa, a colegialidade, etc.

Os sedevacantistas pensam que papas genuínos não poderiam ser responsáveis por uma conjuntura como essa e, decorrentemente, eles não os consideram verdadeiros.

3. Os sevacantistas concordam entre si?

Não, longe disso. Há muitas posições diferentes, existem diferentes escolas. Alguns pensam que o Papa atual é um antipapa, outros que ele é apenas parcialmente Papa, um Papa “materialiter” mas não “formaliter”.

Alguns sedevacantistas consideram sua posição como uma “mera opinião” e consentem em receber os sacramentos de padres não-sedevacantistas, enquanto outros, chamados “ultra”, transformam isso numa matéria de fé e recusam a assistir uma Missa onde o padre reza pelo Papa. O que é comum entre todos os sedevacantistas é que eles pensam que não se deve rezar pelo Papa em público.

4. O que quer dizer ser papa “materialiter”?

A principal dificuldade do sedevacantismo é explicar como a Igreja pode continuar a existir de uma maneira visível (já que ela recebeu de Nosso Senhor a promessa de que duraria até o fim do mundo) estando privada da sua cabeça. Os partidários da autoproclamada “Tese Cassiciacum”, os sedeprivacionistas (opostos aos totalistas), surgiram com uma solução muito sutil: o corrente Papa foi validamente eleito, mas não recebeu a autoridade devido a um obstáculo interior (a heresia). Assim, de acordo com essa teoria, ele é capaz de agir de algumas maneiras para o bem da Igreja, como na escolha dos cardeais (que são cardeais “materialiter”), mas não é realmente Papa.

5. Que pensar dessa solução?

Os críticos dizem, em primeiro lugar, que essa solução não é baseada na Tradição. Teólogos (Caetano, São Roberto Bellarmino, João de São Tomás, etc.) já teriam examinado a possibilidade de um papa herege, mas nenhum antes do Concílio divisou tal teoria. Segundo eles, ela também não resolveria a principal dificuldade do sedevancatismo: saber como a Igreja continua visível se o Papa, os cardeais, os bispos, etc. são privados de sua “forma”, ou seja, com nenhuma hierarquia visível tendo sobrado. Além disso, tais críticos também apontam “sérios defeitos filosóficos” em tal solução, pois ela supõe que a cabeça pode ser cabeça apenas “materialiter”, isto é, sem autoridade.

Já os seus defensores explicam que tal solução é a única que preenche as exigências dos dogmas católicos e, ao mesmo tempo, não nega a realidade, pois garante a permanência da sucessão material de São Pedro e não esconde os erros dos últimos sumo pontífices. Um resumo dela pode ser lido aqui.

6. Os sedevacantistas são cismáticos?

Não, pois não negam o poder de jurisdição do sucessor de Pedro, “só” dizem que X ou Y não é Papa.

7. Os sedevacantistas são hereges?

Não, pois não negam nenhuma verdade de Fé (é verdade que haverá sucessores de Pedro até o fim do mundo, mas não é verdade que um interregno não se poderia prolongar).

8. O que são os sedevacantista e qual o problema deles?

Os sedevacantistas são católicos que aderiram a um erro teológico com conseqüências graves.

9. Os “conclavistas” são sedevacantistas?

Não, não são. Eles não são sedevacantistas e nem são católicos, pois, ao elegerem um Papa, se tornaram uma seita no sentido teológico do termo.

10. Os feneítas são sedevacantistas?

Não, os feneítas (pelo menos os que o são de maneira pura) são hereges e, portanto, não são católicos, sedevacantistas ou não. Na prática, esses hereges se apresentam como católicos neo-conservadores (no estilo Legionários de Cristo) ou como sedevacantistas. Daí a confusão.

11. Os sedevacantistas têm alguma particularidade litúrgica?

Sim, de maneira geral eles usam as rubricas de São Pio X para o rito romano tradicional na celebração da Missa, dos outros sacramentos e para o Ofício Divino.

12. Qual a origem dos principais grupos sedevacantistas?

Ela é muito variada. De maneira simplista eu poderia dizer o seguinte:

Em Econe havia três tendências entre os seminaristas:

1) A dos que seguiam estritamente o que dizia D. Lefebvre.

2) A dos que procuravam um reconhecimento oficial para a resistência.

3) A dos que que rejeitavam tudo que tivesse relação com o que acreditavam ser modernismo.

No começo da FSSPX essas tendências conviveram sobre a mesma estrutura.

O primeiro grupo deu origem a atual FSSPX e comunidades amigas.

O segundo à Fraternidade de São Pedro e similares.

O terceiro aos sedevacantistas.

Já nos anos 70 eles eram reconhecidos pela ligação com as rubricas de São Pio X, tanto para a Missa quanto para o Breviário.

O atual distrito da FSSPX nos EUA, entre os anos 70 e 80, era dividido em dois. Num deles o terceiro grupo comandava e teve muito sucesso em seu apostolado (o primeiro Capítulo da FSSPX deixa livre para cada distrito decidir que rubricas usar).

Com o tempo, D. Lefebvre entendeu que para a resistência era bom ter uma uniformidade e foi surpreendido pela resistência dos americanos. Pesquisando sobre o assunto descobriu que a ligação com as rubricas era relacionada com um sedevacantismo velado e não com uma mera preferência.

Chamou a atenção dos padres, mas eles não aceitaram as colocações do Arcebispo e foram expulsos. Logo em seguida, D. Lefebvre ordenou alguns seminaristas americanos e se surpreendeu com o fato deles, um dia depois, abandonarem a FSSPX e se juntarem ao grupo de padres expulsos.

Esse grupo formou a FSSPV e se tornou famoso nos EUA pela qualidade acadêmica de suas escolas e apostolado agressivo. Contudo, eles tinham um sério problema: não tinham um bispo!

No debate que se seguiu, o grupo se dividiu e uma parte dele acabou conseguindo uma sagração pela linha do Arcebispo vietnamita Thuc. É o dos bispos Dolan e Sanborn, que reputo o grupo sedevacantista mais dinâmico do mundo.

Ele mantém contato com outras organizações no México, Argentina, França, Bélgica, República Tcheca e Itália e possui um dos melhores (academicamente, apesar do erro sedevacantista) seminários da resistência. Alguns sites:

http://www.traditionalmass.org/

http://www.sgg.org/

http://www.mostholytrinityseminary.org/

O resto do grupo continuou a se denominar FSSPV e acabou conseguindo a sucessão por meio de um bispo de Porto Rico. Esse grupo sofre de um certo sectarismo sociológico.

O bispo emérito de Arecibo, em Porto Rico, D. Alfred Mendez, sempre foi um crítico da situação da Igreja no pós-concílio. Não sei se ele era sedevacantista, mas o fato é que apoiou a FSSPV, seja financiando o famoso programa que esse grupo tinha na TV americana, seja ordenando padres e, por fim, ordenando um bispo (mas a ordenação desse bispo só foi divulgada após a morte de D. Mendez). Conheço algumas críticas as atitudes dele, mas após 12 anos de estudos da questão não as considero válidas. Recentemente a FSSPV ganhou um novo bispo. Para saber mais, leiam este documentário.

O Arcebispo emérito de Hué P.M. Ngo-dinh-Thuc tem uma história mais longa e complicada. No começo dos anos 70 ele teve contato com D. Lefebvre, mas por já apresentar tendências sedevacantistas, não foi acolhido pela FSSPX. Se envolveu com as supostas aparições de Palmar de Tróia na Espanha e, por causa disso, acabou sagrando inúmeros bispos entre as pessoas que divulgavam as mensagens. Vendo, depois, seu erro (os malucos de Palmar de Tróia passaram a ser uma seita, com Papa e outras coisas estranhas) ele se arrependeu e pediu o perdão a Paulo VI. O Papa deu seu perdão. Contudo, após isso, o clero passou a rejeitá-lo e ele viveu um período isolado (ele era irmão do antigo presidente do Vietnã do Sul e, após a guerra, na qual boa parte de seus parentes foram mortos, não podia voltar a seu país). Vendo que a crise da Igreja continuava e agora com aquele escandaloso ecumenismo de João Paulo II, o Arcebispo Thuc se declarou sedevacantista e sagrou dois bispos: o francês Guérard des Lauriers e o mexicano Moises Carmona. Deles deriva toda uma linha bem variada de bispos sedevacantistas. É interessante que o Arcebispo Thuc era uma figura muito querida por Pio XII. Para saber mais:

http://www.traditionalmass.org/articles/article.php?id=60&catna

Um quadro esquemático sobre as principais linhagens episcopais de bispos com esta posição teológica pode ser visto abaixo:

linhagens-sedevacantistas

Por fim, vale notar que alguns outros grupos sedevacantistas conseguiram a sucessão por meio de bispos vétero-católicos convertidos e de bispos que tem sua linhagem derivada dos primeiros bispos sagrados na ICAB (e, portanto, com validade inatacável). Em fevereiro de 2002, um bispo da Igreja Ortodoxa Ucraniana, D. Yurii Yurchyk, teria se tornado católico e sedevacantista (mas as informações são desencontradas). Na República Tcheca temos bispos sedevacantistas que (antes de o serem, é claro) foram sagrados com autorização de Roma, mas secretamente durante o regime socialista nesse país.

13. Algum grande teólogo se tornou ou apoiou sedevacantistas?

Sim, o dominicano Guérard des Lauriers, que ajudou Pio XII na formulação do dogma da Assunção, era sedevacantista e foi sagrado bispo. Dele vem a “Tese Cassiciacum”. O famoso exorcista e bispo sedevacantista Robert Fidelis McKenna (também dominicano) foi sagrado por Guérard. Questionado certa vez sobre a sagração de Guérard des Lauriers, D. Antônio Castro Mayer disse:

– Se é válido para Guérard, é válido para mim.

14. Fora do clero, há algum sedevacantista conhecido?

Sim, Mel Gibson.

15. Com as mudanças em Roma durante o pontificado de Bento XVI algum grupo sedevancantista mudou de posição?

Sim, todo um grupo de freiras deixou o sedevacantismo em julho de 2008.

Conheço dois bispos (D. Terence Robert Peter Fulham, da Flórida, e D. Tom Sebastiam, de Los Angeles) que mudaram de posição (atualmente estão como a FSSPX) e, dependendo do que ocorrer, pretendem regularizar sua situação em Roma.

Antes do pontificado de Bento XVI, a Fraternidade de São Vicente Férrer, um grupo de inspiração dominicana, tinha abandonado o sedeprivacionismo.

16. Existem sedevacantistas no Brasil?

Existem alguns leigos. Sempre houve um pequeno grupo, mas atualmente jovens estão sendo influenciados por sites e, por terem pouca experiência de vida (espiritual inclusive) e um conhecimento teológico deficiente, passaram a adotar essa posição sem terem refletivo de um modo mais maduro.

17. Mas existem padres com essa posição no Brasil?

De certeza, conheci um padre próximo a essa posição, mas foi um caso muito complicado e como ele já morreu não acho conveniente tecer comentários.

18. Me explique por favor como interpretar esta bula de Paulo IV, a famosa Cum ex Apostolatus:

Se em qualquer tempo que seja aparecer um Bispo… ou ROMANO PONTÍFICE, que antes da sua assunção… houvesse se desviado da Fé ou incidido em alguma heresia, a sua assunção seja NULA, INVÁLIDA e VAZIA, inclusive se foi feita com o consentimento unânime de todos os cardeais… Não seja ela tida por légitma em parte alguma. Seja julgado ter-se atribuído a tais pessoas promovidas a Bispo ou Romano Pontífice uma faculdade nula para administrar em coisas ESPIRITUAIS e TEMPORAIS. Sejam sem força, todas e cada uma das coisas por elas faladas, feitas, praticadas e administradas de qualquer modo… Atribuam a elas uma firmeza inteiramente nula. Nem outorguem direito algum a elas. Sejam as mesmas pessoas…, SEM QUE DEVA SER FEITA ALGUMA DECLARAÇÃO superveniente, privadas, IPSO FACTO, de toda dignidade, posição, honra, título, autoridade, cargo e poder.

A Cum ex Apostolatus é um documento normativo, que só pode ser aplicado por uma corte legal, não por você ou por mim. O nosso discernimento pode ser usado para a proteção pessoal, mas não para ser transformado num interdito legal contra X ou Y. Resumindo: a não ser que alguém tenha sido declarado por uma corte legal como herege manifesto, sua subida ao trono papal é legítima.

19. Ok, mas isso não seria cair no legalismo? Não é claro que um herege não faz parte da Igreja e, portanto, não pode ser a cabeça visível dela?

Não, isso não é cair no legalismo, é só dar o real valor que a bula citada tem.

E, de fato, um herege não faz parte da Igreja e não pode ser a cabeça dela. O problema dos sedevacantistas é não entender a complexidade do que isso significa. Veja, a bagunça começa com um falso princípio: alguém que ensina uma heresia é herege / um herege não pode ser membro da Igreja / o Papa ensinou uma heresia, portanto não é membro da Igreja.

Isso está errado, quem ensina uma heresia não é necessariamente um herege (no sentido estrito do termo).

Para ser herege essa pessoa, em primeiro lugar, tem de ter consciência que está falando uma heresia (portanto tem de se provar que pela sua formação ela teria a compreensão de negar uma verdade de fé), em segundo, isso teria de ser pertinaz e, no caso de alguém que ocupe um posto na hierarquia, teria de ser um comportamento público (em eventos públicos).

Aprofundando mais um pouco, podemos dizer que em diversos períodos conturbados da história da Igreja, gozou de grande atualidade a questão teológica da eventual queda de um Papa em heresia. Nesses períodos, tanto teólogos quanto moralistas e canonistas se empenhavam no aprofundamento do delicado problema, sem nunca chegarem, entretanto, a um acordo unânime e definitivo.

Passados esses momentos difíceis, os debates sobre a possibilidade de um Papa herege cessavam de atrair a atenção dos estudiosos. Em geral os autores lhe dedicavam, então, apenas umas poucas linhas, como quem recordasse um problema acadêmico e curioso, que provavelmente nunca amais voltaria a gozar de atualidade. Sobretudo do século XVII para cá, são raros os teólogos que se empenharam em aprofundar o assunto.

A partir do Pontificado de João XXIII, um observador atento poderia, entretanto, notar que o delicado assunto voltava aos poucos a interessar, não só nos meios especializados, mas também para os fiéis comuns. Todavia, pelo fato de tal problema ter ficado “dormente” por longo tempo, várias pessoas têm uma visão parcial dele, referindo-se a posição de algum teólogo famoso como a correta; não tendo uma visão de conjunto.

Na análise das diversas sentenças dos teólogos sobre a hipótese de um Papa herege, a classificação de São Roberto Bellarmino parece ser a mais aceita. Baseado nas considerações dele, Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, sistematizou a seguinte relação de sentenças:

1- O Papa não pode cair em heresia (seus defensores se subdividem em três grupos: a) autores segundo os quais esta sentença constitui verdade de fé; b) autores segundo os quais está sentença é de longe a mais provável; c) autores aos quais esta sentença parece apenas mais provável que as outras);

2- Teologicamente não se pode excluir a hipótese de um Papa herege. Possui as seguintes variantes:

  1. A) Em razão de sua heresia, o Papa nunca perde o pontificado (dos 136 teólogos examinados por Arnaldo Xavier, apenas Bouix é defensor desta sentença);
  1. B) O Papa herege perde o Pontificado:

I- Perde assim que cai em heresia interna, isto é, antes de manifesta-la externamente (sentença que tinha como defensor o famoso teólogo Torquemada – tio do inquisidor de mesmo nome -; hoje está abandonada pelos teólogos);

II- Perde quando sua heresia se torna manifesta. Seus adeptos se subdividem em três grupos: a) autores que entendem por “manifesta” a heresia apenas exteriorizada; b) autores que entendem por “manifesta” a heresia que, além de exteriorizada, chegou ao conhecimento de outrem; c) autores que entendem por “manifesta” a heresia que se tornou notória e divulgada de público. OBS: alguns autores não deixam inteiramente claro a qual desses três grupos se filiam.

III- Perde apenas quando intervém uma declaração de sua heresia por um Concílio, pelos Cardeais, por um grupo de Bispos, etc. Possui duas vertentes: a) Essa declaração será uma deposição propriamente dita (tal sentença é considerada herética, foi condenada pela Igreja, por aderir ao “conciliarismo”; é defendida por autores ditos progressistas nos dias atuais); b) Essa declaração não será uma deposição propriamente dita, mas mero ato declaratório da perda do Pontificado pelo Papa.

20. E qual dessas posições você adota?

Dentre essas várias sentenças me inclino (já que a Igreja não se manifestou oficialmente por nenhuma delas, todas podem ser aceitas, exceto a 2 B III a) pela 2 B II c, que é defendida por numerosos teólogos de renome, como o próprio São Roberto Bellarmino, Sylvius, Pietro Ballerini, Wernz-Vidal, Cardeal Billot, etc.

Vejamos a defesa dessa posição por São Roberto Bellarmino:

Logo, a opinião verdadeira é a quinta, de acordo com a qual o Papa herege manifesto deixa por si mesmo de ser Papa e cabeça, do mesmo modo que deixa por si mesmo de ser cristão e membro do corpo da Igreja; e por isso pode ser julgado e punido pela Igreja. Esta é a sentença de todos os antigos Padres, que ensinam que os hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição, e nomeadamente de São Cipriano (lib. 4, epist. 2), o qual assim se refere a Novaciano, que foi Papa (antipapa) no cisma havido durante o Pontificado de São Cornélio: “Não poderia conservar o Episcopado, e, se foi anteriormente feito Bispo, afastou-se do corpo dos que como ele eram Bispos e da unidade da Igreja”. Segundo afirma São Cipriano nessa passagem, ainda que Novaciano houvesse sido verdadeiro e legítimo Papa, teria contudo decaído automaticamente do Pontificado caso se separasse da Igreja.

Esta é a sentença de grandes doutores recentes, como João Driedo (lib. 4 de Script. Et dogmat. Eccles. cap. 2, par. 2, sent. 2), o qual ensina que só se separam da Igreja os que são expulsos, como os excomungados, e os que por si próprios dela se afastam e a ela se opõem, como os hereges e os cismáticos. E, na sua sétima afirmação, sustenta que naqueles que se afastaram da Igreja, não resta absolutamente nenhum poder espiritual sobre os que estão na Igreja. O mesmo diz Melchior Cano (lib. 4 de loc., cap. 2), ensinando que os hereges não são partes nem membros da Igreja, e que não se pode sequer conceber que alguém seja cabeça e Papa, sem ser membro e parte (cap. ult. ad argument. 12). E ensina no mesmo local, com palavras claras, que os hereges ocultos ainda são da Igreja, são partes e membros, e que portanto o Papa herege oculto ainda e Papa. Essa é também a sentença dos demais autores que citamos no livro 1 “De Eccles.”.

O fundamento desta sentença é que o herege manifesto não é de modo algum membro da Igreja, isto é, nem espiritualmente nem corporalmente, o que significa que não o é nem por união interna nem por união externa. Pois mesmo os maus católicos estão unidos e são membros, espiritualmente pela fé, corporalmente pela confissão da fé e pela participação nos sacramentos visíveis; os hereges ocultos estão unidos e são membros, embora apenas por união externa; pelo contrário, os catecúmenos bons pertencem à Igreja apenas por uma união interna, não pela externa; mas os hereges manifestos não pertencem de modo nenhum, como já provamos.

(São Roberto Bellarmino, “De Romano Pontífice”, lib. II, cap. 30, p. 420).

21. Quais as saídas apresentadas pelos sedevacantistas?

Em geral eles apresentam três maneiras da Igreja sair da situação em que acreditam que ela está:

  1. Uma intervenção direta de Deus;
  2. A renúncia pelo Papa das heresias do pós- Vaticano II (naturalmente que está hipótese só vale para a ala que adota a  “Tese Cassiciacum” – ver questão 4);
  3. Um concílio geral imperfeito (Caetano e outros ensinam que, se o Colégio dos Cardeais ficasse extinto, o direito de eleger um Papa passaria para o clero de Roma, e depois para a Igreja universal – de Comparatione 13, 742, 745).
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25 respostas em “Catecismo sobre o sedevacantismo

  1. Sou um Bispo Sagrado na Linha de Dom Carlos Duarte Costa via Dom Fernando Castillo Mendez Sagrado por Dom Carlos Duarte Costa em Balboa-Zona do Canal do Panamá em 1948 e depois fui reconsagrado sob condição na Igreja Ortodoxa Grega Patriou dos Velhos Calendaristas Gregos e me declarei Sedevacantista para não me converter a esta Igreja do Vaticano II. Meu Dom Makarios Ben Michael.

  2. Thiago, salve Maria.

    Foi você quem escreveu este texto?

    Em linhas gerais, o seu artigo está muito bem escrito, ponderado e aprofundado. As informações históricas nele encontradas são confiáveis e traduzem a realidade, salvo talvez uma ou outra divergência que possa surgir aqui ou acolá.

    Porém, o juízo que você faz daquilo que os sedevacantistas pensam ainda não corresponde a realidade. Você escreveu:

    "(…) Veja, a bagunça começa com um falso princípio: alguém que ensina uma heresia é herege / um herege não pode ser membro da Igreja / o Papa ensinou uma heresia, portanto não é membro da Igreja".

    Rapaz, nada mais falso do que isso. Alguém pode defender inconscientemente uma heresia, e ainda assim continuar sendo católico.

    Independente disso, a maior prova de que os conciliares não são papas não está na heresia manifesta deles, que é evidente, mas principalmente pelos ensinamentos heretizantes promulgados por meio deste falso magistério. Ora, o magistério de um papa é blindado pelo Espírito Santo e nunca pode ser rejeitado por um leigo. E isso é de fé católica, ninguém pode sustentar o contrário.

    No mais, cada um crê que a sua posição diante da crise é a correta, não é mesmo?

    Logo, ignorarei as pequenas alfinetadas que você nos deu em suas palavras para me ater mais ao bom trabalho "jornalistico" que você prestou ao publicar este texto.

    Abraços e saiba que tem um amigo aqui em Minas Gerais,

    Sandro de Pontes

  3. Salve Maria, Sandro.

    Sim, fui eu quem escrevi este texto. Peguei como base um antigo catecismo sobre o assunto que o distrito canadense da FSSPX publicava num site que não mais existe, e o ampliei, atualizei e perfectibilizei.

    Muito obrigado pela avaliação positiva do catecismo. Tive de redigi-lo por causa dos constantes mal entendidos que notava sobre esse assunto em debates no Orkut (para não falar do completo desconhecimento histórico de alguns).

    Naturalmente que dentro do sedevacantismo há várias tendências e explicações para a adesão a essa posição (que considero um erro – até porque não vejo nenhum ensinamento herético ou heretizante, de si mesmo, no período pós-conciliar), mas como o que redigi é um catecismo, que visa um esclarecimento inicial, uma olhada panorâmica sobre o tema, vários detalhes acidentais foram deixados de lado. Acredito que uma pessoa realmente interessada, com um pouco mais de pesquisa descobre outras facetas além das que citei.

    E as alfinetadas eu não podia deixar de dar, pois na época do primeiro rascunho (2007) estava tendo uma discussão com um certo indivíduo que você deve conhecer (foi um que apostatou junto com o Diácono Francisco) e que não sabia deixar as diferenças apenas no plano das idéias.

  4. Olá Thiago! Salve Maria!

    Estou aprendendo muito com esse seu artigo. Te pergunto como responder a esse tipo de ataque sedevacantista:

    "Eu não chamei-a de papóloga, ô inteligência. Mas de papólatra, ou seja, adoradora de papas. Isso não é catolicismo. Isso é fanatismo. Catolicismo não significa obediência cega, mas obediência meditada. Você coloca o papa acima das leis da Igreja, dos dogmas etc. e adora mais uma criatura humana do que o Criador.

    Chega a ser uma blasfêmia chamar um maldito traidor da fé católica como Bento XVI, que se passa por papa não sendo, de "doce Cristo na terra". Essa pessoa certamente encontra-se em estado de pecado mortal por ser condescendente com os atos e gestos mais patentes de traição que os líderes da Anti-Igreja vêm fazendo.

    Fanáticos como essa Emilia, que não enxerga um palmo a frente devido à cegueira espiritual, estariam entre a multidão de judeus que pediu pela crucifixão de Cristo. Pois em seu desejo de defender um clero corrompido, não hesitaram em emprestar uma obediência cega e fiel. Em vez de estar ao lado de Cristo, ela certamente estaria ao lado de Caifás.

    É bom lembrar que São João Batista chamou os fariseus – os líderes da religião judaica à época – de raça de víboras e os ameaçou com o inferno. Os fariseus representam o clero corrompido, da mesma forma que hoje Bento XVI e um sem-número de bispos também representam.

    Mas o fanatismo papólatra impede a mínima censura que seja. Se João Batista é um exemplo, Paulo é outro exemplo. Paulo censurou Pedro, como se vê em Gl. 2, 11.

    Como eu já disse antes, se o zé bentinho da papólatra aí cagar na Bíblia, ela vai achar tudo normal."

    Emilia, de São Paulo.

  5. Salve Maria, Emilia!

    Em primeiro lugar, dada a linguagem que esse seu interlocutor usou, em especial no final dessa postagem, o melhor é que você pare de debater com ele. Simplesmente não vale a pena.

    Dito isto, há uma verdade no começo da argumentação dele: "Isso é fanatismo. Catolicismo não significa obediência cega, mas obediência meditada." Para evitar tanto esse erro, quanto o dos que criticam demais, é que escrevi esse post:

    http://apologeticacatolicablog.blogspot.com/2009/05/ideias-claras-sobre-o-magisterio.html

    Dê uma lida, creio que ele vai te ajudar.

    Agora, como todo sedevacantista, seu opositor joga com uma série de "supostas verdades conhecidas por todos" e que não são nada disso. Lembro, ainda na época do Papa João Paulo II, que os sedecantistas brasileiros adoravam dizer que o então Cardeal Ratzinger não tinha fé na Eucaristia devido um escrito dele; o problema é que se o texto todo fosse lido essa impressão se desfazia rapidamente. E é sempre assim, de simplificação em simplificação eles criam um quadro que não existe (veja, não estou dizendo que não há crise, mas que não há nos termos que eles colocam); criam um novelo de lã que não sabem mais onde termina, como você pode ver neste tópico (espero que você tenha Orkut):

    http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=12901339&tid=5607596962581665681

    Enfim, o que quero dizer é que a melhor maneira de responder a argumentações desse tipo é reconhecer o desastre pós-conciliar e, ao mesmo tempo, buscar soluções que sejam compatíveis com as promessas do Salvador para a Igreja.

  6. Seria interessante você dizer qual a sua intenção em publicar esse link aqui, até porque o catecismo acima não é o dos dominicanos de Avrillé (tomou-o como base no início). As citações de São Roberto Bellarmino não têm como fonte o catecismo dos dominicanos, mas o clássico trabalho de Arnaldo Xavier da Silveira, e confio mais nele que em qualquer outra fonte. Arnaldo Xavier aponta todas as posições possíveis, mas isso não esgota a questão. A problemática do sedevacantismo não é avaliada de maneira correta quando se fica apenas nessa interminável discussão teórica, já que várias possibilidades podem se concretizar; ela tem de partir para o campo da realidade, da vida concreta da Igreja, pois só desse modo o que é ou não absurdo se manifestará claramente.

  7. Thiago, aqui você menciona os bispos Sanborn e Dolan como sedevacantistas; numa postagem mais recente, como sedeprivacionistas. O bispo Sanborn escreveu a explanação da “tese de Cassicíaco”; mas sempre tive o Bispo Dolan e seu colaborador, Pe. Cekada, como sedevacantistas (“belarminianos”). São os três “guerardianos”, então?

    Outra coisa, no antigo fórum você disse que, se fosse sedevacantista, seria sedeprivacionista, sem negar a validade dos novos ritos; mas aqui você diz defender a tese de São Belarmino.

  8. Não, não são os três “guerardianos”.

    Primeiro, quando falo que os três são sedevacantistas estou correto, pois o sedeprivacionismo é considerado uma forma de sedevacantismo.

    Dolan e Cekada são sedevacantistiastas em sentido estrito, Sanborn é sedeprivacionista.

    Sim, defendo a tese de belarmino e seria sedeprivacionista porque não acho que exista exclusão entre elas, mas um complemento. A primeira diz como se deixa de ter um Papa e a segunda em como lidar na prática com essa questão.

  9. Certo quanto aos bispos e ao padre. Que um é uma forma do outro, de acordo.

    Realmente as teses não se opõem necessariamente.

    No mais, fiz minhas constatações e perguntas já viciado pela frequente divisão ante posições diferentes.

    Obrigado.

  10. Ok. É bom ficar de olho num livro que Carlos Nougué vai lançar e que faz um caminho médio entre o sedeprivacionismo e a posição da FSSPX. Troquei uns emails com ele, pois de início achei que ele estava falando do sedeprivacioinsmo sem saber que isso já tinha sido desenvolvido por outra pessoa, mas é uma outra coisa mesmo; e me pareceu bem interessante e menos perigosa que a das “Duas Igrejas” da Permanência (Corção).

    No mais, apareça no fórum!

  11. Estou sabendo e também pensei o mesmo (foi o motivo de eu reler esse e outros textos – por ora, nada que ver com o atual Papa); tendo ciência, porém, de que Nougué conhece a tese de Cassicíaco.

    Só realizei a diferença entre as posições ante descrição da jurisdição: para Nougué (seguindo Caetano, Billuart, Garrigou-Lagrange etc.) ela se mantém (precariamente) com o Papa herege; para des Lauriers, não.

    [Falando em caminho médio, parece-me que a tese de Cassicíaco é ela mesma uma mistura entre a posição de Bellarmino (2 B II c) e a de Suárez e Caetano (2 B III b)]

    Deste modo, ainda que a questão continue disputada, a acusação do “opinionismo” perde força: o Papa que tem a Fé desfalecida mantém sua jurisdição (precariamente), podendo ser indisposto ou, após sua morte, condenado por um seu sucessor (o que me tem parecido mais provável e verificável na história da Igreja).

    Eu só não concordo com rejeitar a tese de Bellarmino por um problema prático; se ela estiver certa e a jurisdição tiver que ficar com dois bispos vivos (não sendo dada diretamente por Deus a um candidato não-herege designado e eleito pelos supostos cardeais eleitores, como no sedevacantismo materialiter-formaliter), eles estão vivos (diante de Bellarmino, o problema do “opinionismo” me parece mais relevante).

    Por fim, ainda preciso estruturar algumas coisas da minha rotina para poder frequentar o fórum.

  12. Thiago, qual o raciocínio que você usou para afirmar que os conclavistas não são católicos?

  13. A lógica é a seguinte: na medida em que considero o sedevacantismo clássico um erro, aceito que o Papa é Papa e, portanto, a Igreja tem de tê-lo como cabeça visível; então, se algum grupo elege uma outra pessoa para por no lugar do Sumo Pontífice, está se colocando fora da Igreja. Caso eu fosse sedevacantista, a análise desse ponto poderia ser diferente.

  14. Então qual a diferença prática entre os conclavistas atuais e o que elegeram anti-papas no Grande Cisma do Ocidente? Pelo que estou entendendo, você está colocando todos no mesmo barco.

  15. Os que elegeram papas durante o grande cisma representavam parcelas consideráveis da Igreja e contaram, até mesmo, com o apoio de santos; os atuais são grupelhos que, por serem sectários, se afastam pouco a pouco do espírito da Igreja, adotando novas coisas e colocando novas exigências sobre as pessoas.

  16. Que coisas adotadas são essas? E quais são as novas exigências?

  17. Maluquices, que vão desde as novas informações da Revelação, via aparições de Nossa Senhora, como em Palmar de Troia, até coisas do tipo: sair em “marcha ré” da igreja para não dar as costas ao Santíssimo.

    Uma outra diferença prática que me lembrei agora é de que todos esses “papas” escolhidos são de referências bem duvidosas (um menino de 15 anos, um cego que fala com Maria Santíssima, um americano adepto da “pastoral do pano”, etc. – esse não era o caso do Cisma do Ocidente, tanto que, como falei, santos ficaram de lados opostos)

  18. Thiago, você já leu o livro do prof. Nougué?
    Eu o li em agosto; os problemas práticos, como o que citei anteriormente, ele diz não ser ele quem vai tratar, apenas mencionando algumas possíveis soluções de João de São Tomás, se não me engano.
    Aderi mais à tese de Nougué do que à do Pe. Calderón, conquanto Nougué apresente a sua como complemento à do Padre – para as questões do Magistério em geral tendo mais para o trabalho do Pe. Daniel, IBP, que é bem parecido com o esquema que você postou no outro blog (não me lembro se foi repostado aqui).

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