O silêncio de José

Vale a pena examinar um pouco a vida de São José. A Bíblia nada fala sobre ele, nem sequer cita uma palavra dita por ele. De Maria sabe-se mais, podemos até decorar o Magníficat; mas de José não há nada! De Maria nós conhecemos o diálogo que teve com o anjo: este falava e ela respondia… Foi até elogiada por Gabriel! A Bíblia menciona José apenas para dizer que um anjo o abordava em sonho para dar-lhe alguma ordem. E ele obedecia (Cf. Mt 1,20; 2,13.19-22).

Que terá feito José na vida? Nada sabemos! Não existe nenhum registro, nenhum documento… Nem mesmo uma cadeira que se possa dizer ter sido fabricada por ele. Beseleel era um carpinteiro que ficou famoso por ter feito a Arca da Aliança. Isto está registrado na Bíblia (Cf. Ex 31,1-11). Mas José fez o quê, como carpinteiro? Desconhecemos.

Por que, então, José é santo, se aparentemente não fez nada, não disse nada, não perguntou nada? E é o santo predileto de inúmeras pessoas! Santa Teresa de Jesus considerava-o o santo de sua predileção.

É um santo vazio, apagado! Talvez por isso ele represente uma grande lição para as nossas vidas. Apagamento e esvaziamento são elementos importantes para a santificação.

Do começo até o fim, Deus esvaziou José de tudo. Era da família de Davi; descendente, portanto, da família real. Mas o que sobrou para ele foi a pobreza. Uma pobreza tal que, mesmo sendo da cidade de Davi, Belém, foi obrigado a ir para o norte à procura de emprego como carpinteiro. Começa aí o esvaziamento: tem apenas um título de família e mais nada. Está como um deserdado.

Sem dúvida ele teve a grande sorte de ter por noiva Maria. Nisso ninguém pode tirar sua glória… Nenhum marido no mundo teve esposa igual a José! Mas, mesmo com Maria, sua vida vai continuar sendo esvaziamento. O anjo entrou na casa dele, na vida dele, sem pedir licença. Não chegou a sequer perguntar: “José, você me dá licença para conversar com sua noiva?” Não, o anjo simplesmente desconhece a existência de José e vai direto falar com Maria.

Quando José tomou conhecimento da natureza da gravidez de Maria, não manifestou qualquer indignação: assumiu uma paternidade sem ser o pai biológico da criança. Àquela altura ele já tinha alguma idéia de quem seria aquela criança. Nenhum pai teve o filho que José teve. Mas ele só veio a saber realmente quem era a criança depois de viver muitos conflitos interiores: condenar a esposa? Abandoná-la? Deixar a cidade? Enfim… o que fazer?

Depois de muito sofrer, num processo em que foi muito “moído”, esvaziado, é que um anjo, em sonho – não em uma visão! – disse-lhe: “Receba Maria, pois tudo isso é obra do Espírito Santo” (Cf. Mt 1,20). Ele a recebe como esposa. Agora, sabe que vai ter o melhor filho do mundo, bem como a melhor esposa do mundo.

Mas o processo de esvaziamento, mesmo com a melhor esposa e o melhor filho do mundo, vai continuar para José. É um carpinteiro; deveria ter feito, com muito prazer, um berço para o filho que iria nascer. Mas não teve nem o direito de usar o berço, pois precisou viajar às pressas para Belém. Não pôde carregar esse berço, e o filho vai nascer em uma cocheira. Que pai gostaria de ver o filho nascendo em condições subumanas? José vai ver; é mais um esvaziamento!

O Menino nasce no meio dos animais. Se teve alguma parteira, não se sabe. Teve algum sacerdote para fazer-lhe a circuncisão? Certamente; esta foi feita oito dias depois do nascimento, conforme a lei. Todo judeu que se preza vai resgatar seu primogênito, oferecendo um novilho ou pelo menos uma ovelha. José não pode oferecer um novilho, não pôde comprar um carneiro para oferecer a Deus. Pegou no mato um casal de rolinhas (o que qualquer um pode fazer, é só armar uma arapuca), e é com isso que ele vai resgatar a criança, o próprio Filho de Deus (Cf. Lc 2,24). Essa criança foi resgatada em público por um casal de rolinhas, o que deve ter provocado comentários desse tipo: “Esse homem é miserável mesmo, coitado! Não pode nem comprar uma ovelha!”

A família está no Templo quando aparece o velho Simeão, que profetizou sobre o menino, mas dirige-se apenas à mãe:” Simeão disse a Maria, a mãe…” (Lc 2,34). José fica de lado, escondido, apagado, esvaziado. Nem é mencionado!

Depois vem outro anjo, que José não vê; é apenas em sonho. E diz: “Levanta-te, toma o Menino e sua mãe e foge para o Egito…” (Mt 2,13). Mas como? Onde fica o Egito? Que religião se pratica por lá?Como fazer para atravessa o deserto com essa criança e a mãe? José não pergunta nada; é uma ordem, e ele vai para o Egito.

Como conseguiu vencer aquela região ao sul de Bersabeia (que hoje se chama Bersheba), o Deserto de Neguev, não sei. Também não sei como fez para atravessar aquela zona pantanosa, que é o começo do Mar Vermelho. Da mesma forma, ninguém sabe como se arranjou no Egito e o que sofreu por lá. Ninguém sabe nada sobre ele justamente porque nada foi escrito a seu respeito. Foi apagado, esvaziado! Se algum dia conseguiu fazer alguma coisa, ou seja, adquirir ferramenta, formar uma freguesia… deve ter sido muito bom. Mas, “alegria de pobre dura pouco”… pois logo virá uma nova ordem: “Levanta-te, toma o Menino e sua mãe e volta para a terra de Israel” (Mt 2,20). Do jeito que perdera a freguesia de Nazaré, vai perder agora a do Egito. E pior é que o anjo manda que ele volte, mas não esclarece para que parte de Israel. Como Abraão, ele “partiu sem saber para onde ia” (Hb 11,8).

Será para Belém? O Messias nasceu lá. Ou para Nazaré? O Messias é chamado de nazareno. Mesmo não sabendo para onde devia ir, José resolve voltar a Belém. Chegando lá, descobre que Arquelau, filho de Herodes, está no poder – considerado pior que o próprio pai. Jesus fugiu de Belém por causa de Herodes; voltou para lá porque Deus ordenou o retorno, e agora se depara com o filho daquele cujo reinado foi caracterizado pelas perseguições. Só depois de muito quebrar a cabeça à cata de uma solução é que vem outro aviso em sonho: “Vá para a Galileia!” E José termina se fixando definitivamente em Nazaré.

Sua vida vai continuar naquela monotonia. Com dificuldade vai conseguindo se arranjar. O Filho está com 12 anos. Certo dia a família vai ao templo; vão participar da celebração de Páscoa. Saem em caravana, cantando hinos e salmos. No templo, o Menino se perde e a Páscoa se transforma em lágrimas. Foram três dias de procura.

Quando encontram o Menino, José não fala nada; quem fala é a mãe: “Teu pai e eu, aflitos, te procurávamos! Por que fizeste isto conosco?!” E o filho responde: “E por que me procuráveis, Não sabíeis que devo estar na casa do meu Pai? (Cf. Lc 2,41-50). Mas o pai está ali! Só que Ele estava se referindo não aquele pai, e sim ao outro. E diz isso em público, com José ao lado, escanteado, calado, vazio… Jesus, naquele momento, confundiu seus pais que estavam ali junto: “Eles não compreenderam a palavra que Ele disseram” (Lc 2,50). Sobretudo José deve ter ficado mais confuso ainda.

A família volta completa para Nazaré. O filho dissera que deveria ficar na casa do pai do céu. Mas agora desconcerta a todos: vai ficar na casa do pai da terra e ajudá-lo nos afazeres da carpintaria.

E agora começa outro teste para a fé de José e Maria. Bem mais longo que os anteriores. “Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Os anos se passavam, e o rapaz não demonstrava nenhum sinal de que veio para uma missão bem diferente; continuava a trabalhar como simples ajudante de carpinteiro. Tornou-se homem feito, mas não quebrou a monotonia da pachorrenta vida na insignificante Nazaré. Por mais de uma vez José deve ter-se perguntado: “Meu Deus, por que será que Ele não começa logo?!”

José foi tão esvaziado por Deus, que não teve a felicidade de ver o filho estrear nas Bodas de Caná. Maria também passou por um processo de esvaziamento, mas pôde participar desse acontecimento. Aliás, foi ela quem provocou: “Meu filho, está faltando vinho. Faça alguma coisa!… Vocês façam o que Ele mandar…” (Cf. Jo 2,1-5). Ela incentivou Jesus a realizar o primeiro milagre e partir para a missão. José morreu sem ver milagre, pregação ou quaisquer atitudes divinas assumidas pelo Filho. Viveu e morreu de fé, “sem ter obtido a realização da promessa, depois de tê-la visto e saudado longe, e depois de se reconhecer estrangeiro e peregrino nessa terra” (Hb 11,13).

Nada ficou do que foi feito por José: uma cadeira, uma mesinha… Nada! Não restou uma página escrita por ele; nem mesmo uma palavra dita… Nada!

José, o homem do nada, o homem vazio, o homem colocado sempre em segundo plano, é o santo mais importante da Igreja Católica, depois de Maria. Nossa lógica humana não alcança isto; presume-se que quem assume os lugares mais altos são aquelas pessoas empreendedoras, lutadoras e brilhantes. Mas, para Deus, os primeiros lugares estão reservados àquelas pessoas que põem sua alma em tudo o que fazem, mesmo que nada façam além do trivial.

Para isso, o esvaziamento é necessário, pois é com ele que o nosso ego morre. Quando o “velho homem” morre dentro de nós, surge o “homem novo”, o santo, na medida da estatura da plenitude de Cristo.

Por Frei Geraldo de Araújo Lima, O.Carm.

Anúncios

Uma resposta em “O silêncio de José

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s