Devemos representar Deus Pai?

Tradução e adaptação de um texto de David Clayton publicado no New Liturgical Movement:

Uma das obras artísticas mais famosas do mundo é o afresco de Michelangelo na Capela Sistina no qual Deus dá a centelha da vida a Adão. Apesar de sua popularidade e familiaridade, muitas vezes me perguntei sobre a validade de representar Deus Pai.

Meus próprios instintos vão contra a ideia de retratar Deus Pai numa pintura; mesmo quando criança, sempre achei que o Deus de bigode branco parecia mais com “Deus Avô” do que com o Deus Pai. Mais tarde, isso foi reforçado pelo treinamento que recebi na pintura de ícones. Eu tinha como certo de que isso não fazia parte da tradição. Nunca pintei um ícone de Deus Pai. Além disso, a teologia de São Teodoro Estudita, em relação às imagens sagradas, que é aceita tanto pelas igrejas orientais como pelas ocidentais, baseia o argumento da criação de qualquer arte figurativa no fato de podermos retratar a pessoa de Cristo como homem. A pessoa de Deus Pai é um ser espiritual e isso parece sugerir que não devemos retratá-lo como um homem.

Discretamente, eu suspeitava que o Deus de barba branca de Michelangelo ou William Blake, ou mesmo o de meu artista barroco favorito, Velazquez, era um erro. Não me preocupava tanto com Blake, que não era católico e tinha crenças excêntricas, mas não gostava da ideia de que Michelangelo e especialmente Velazquez pudessem estar fora da retidão.

Contudo, recentemente fui forçado a repensar minha posição sobre o tema ao participar de uma comissão artística responsável por fazer uma pintura do Pai. Ao invés de simplesmente rejeitar a tarefa, comecei a pesquisar com seriedade sobre os parâmetros eclesiais em torno dessa questão.

Vejam o que minhas primeiras investigações revelaram: nos primeiros mil anos do cristianismo, no Oriente e no Ocidente, o Pai foi pouco representado na arte figurativa. Então, imagens começaram a aparecer tanto nas tradições orientais quanto nas ocidentais, embora isso fosse mais comum no Ocidente.

Existem dois argumentos simples que encontrei para a representação do Pai. O primeiro é que Cristo disse em João XIV, 9 que “quem me viu viu o Pai”. Isso parece abrir um espaço para uma representação do Pai como o Filho. Assim, pode-se dizer que ao se ver uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, vê-se também uma parte do Sagrado Coração do Pai, com o coração do Pai entendido como símbolo do Seu amor.

A segundo é que a figura de barba branca com quem todos estamos familiarizados é o Ancião dos Dias, que aparece no sétimo capítulo do livro de Daniel. Esta é a fonte de tantos retratos do Pai. No Oriente há uma tradição figurativa com esse elemento conhecida como a Trindade do Novo Testamento, que se distingue de outra chamada Hospitalidade de Abraão, na qual os três estrangeiros angélicos do Gênesis XVIII representam as três Pessoas da Trindade. Abaixo está uma Trindade do Novo Testamento no teto da entrada do monastério ortodoxo grego de Vatopedion, no Monte Athos:

A Igreja Católica permite a interpretação do Ancião dos Dias como o Pai, o que justifica sua representação artística (foi-me dito que o papa Bento XIV fez uma declaração sobre isso em 1745, mas não encontrei nenhuma referência para validá-la além da que está na Wikipedia). Também é permitida a interpretação do Ancião dos Dias como Cristo, tanto no Oriente quanto no Ocidente. A Igreja Ortodoxa Russa, no entanto, desde o Sínodo de Moscou em 1667, proibiu a representação de Deus Pai como um homem e, consistente com essa decisão, só interpreta o Ancião dos Dias como o Filho. Foi esse pronunciamento da igreja russa que me deu a ideia, errada, de que a figuração de Deus Pai não fazia parte da tradição oriental e era proibida por todas as igrejas orientais .

Pietà gótica com Deus Pai como o Ancião dos Dias

O Ancião dos Dias, William Blake, século XVIII

Há uma tradição ocidental de retratar a Trindade numa figura conhecida como Trono da Misericórdia, na qual o Pai se senta em seu trono e apresenta Seu Filho crucificado ao observador, enquanto uma pomba descansa na cruz ou paira logo acima dela. Foi isso que foi explicitamente mencionado por Bento XIV. Essa tradição remonta ao medievo e continuou até mesmo pelo século XX.

Trono da Misericórdia gótico

Trono da Misericórdia alemão do século XVI

Então, qual a minha posição agora? Parece claro que é permitida a representação do Pai como um homem velho. Eu me sentiria em um terreno mais seguro, no entanto, seguindo as representações tradicionais, como a do Trono da Misericórdia. Fora disso, eu até consideraria pintar imagens do Pai, mas seria cauteloso, não me dispondo a promover nenhum modismo de antropomorfização de Deus Pai para que a transcendência de Deus não fosse ainda mais comprometida na mente das pessoas.

A Trindade Misericordiosa de Ribera, século XVII

Por fim, ressalto que quando Deus é figurado como uma pessoa sozinha, na forma do Ancião dos Dias, não podemos ter certeza que é ao Pai que se faz referência. O artista, de modo justificado, pode querer retratar o Filho. Por exemplo, não encontrei nenhum texto que autorize a dizer qual pessoa da Trindade é retratada por Blake ou Michelangelo.

Velázquez, a Coroação da Virgem

Notas do tradutor:

(1) Na tradição medieval primitiva, o Pai é representado pela Mão de Deus – Dextera Patris – emergindo de uma nuvem ou da glória. Pode-se ver essa representação nos manuscritos dos carolíngios ou em esculturas de marfim.

Afresco na igreja de Sant Climent de Taüll, Catalunha, Espanha

(2) Na Escola de Cuzco existia a tradição de representar todas as pessoas da Trindade com o rosto do Filho, como se pode ver aqui:

(3) O Sínodo de 1667 da Igreja Ortodoxa Russa, que teve como objetivo combater os velhos crentes, entra em contradição com normas anteriores dessa mesma denominação (Sínodo de 1553-54) e é sumamente inconsistente com a Patrística, como pode ser notado aqui, de modo que na prática ícones com Deus Pai continuam a ser usados entre os fieis dessa seita.

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