Um católico pode receber a vacina contra o coronavírus? (1)

Em 19 de novembro do ano passado o site da FSSPX dos EUA publicou um artigo, não assinado,  tratando da licitude moral do recebimento das vacinas para o coronavírus. Esse texto, por algum motivo, causou confusão na tradilândia, de modo que foi substituído por outro mais detalhado.

Aqui está o texto original; aqui o link com o arquivo da página.

Vou traduzir os dois (terão o mesmo título, mas com numeração 1 e 2). Vamos ao primeiro:

vacinas

Na maior parte dos assuntos alvos de investigação científica, a Igreja não interfere, quando, contudo, há uma intersecção deles com a lei moral e divina, a esposa de Cristo fala e fornece orientação.

Nos últimos 14 dias, três vacinas experimentais mostraram resultados promissores no combate à propagação do COVID-19 (o coronavírus), reportando uma eficácia de 90% ou maior. Isso parece ser uma notícia encorajadora para todos que pretendem livrar suas vidas dos efeitos da pandemia.

Mas será que existem armadilhas morais nas vacinas? Os católicos têm obrigação moral de não aceitar essas vacinas? Para responder a essas questões, temos, em primeiro lugar, de entender que existem duas classes de vacinas atualmente em desenvolvimento: a sintética e a genética.

RNAm / Vacinas sintéticas

A  vacina da Pfizer/Biontech, que ontem mostrou uma eficácia de 95%, e a da Moderna, que relatou 94% de eficácia, foram desenvolvidas usando um método para criar uma molécula sintética em laboratório. São vacinas de RNA mensageiro (RNAm), desenvolvidas a partir do código genético do vírus. Os avanços da biotecnologia permitiram aos cientistas a criação de molécula estável de RNAm para ser usada numa vacina; este RNA é entregue às células do corpo, e elas o transforma numa pequena porção de uma das proteínas do vírus, aí nossas células imunológicas atacam essa proteína, aprendendo a se defender do vírus como um todo – daí vem a imunidade.

As vacinas de RNAm, por serem sintéticas, são mais rápidas de desenvolver e de distribuir.

Vacinas desenvolvidas com células tronco de um aborto

Outras vacinas promissoras, incluindo a de Oxford, são derivadas de células fetais. As células usadas pela maior parte das empresas que hoje tentam encontrar um tratamento para o COVID-10, advém de uma linhagem chamada 293T, que foi retirada do tecido renal de um feto abortado na década de 1970. Uma linhagem similar, a Per.C6, foi obtida das células da retina de um feto de 18 semanas abortado em 1985. Essas são as mesmas células (ou semelhantes) usadas no desenvolvimento de vacinas como a contra da rubéola, bem como em tratamentos clínicos variados.

Medicamentosos eficazes, como o Rendesivir e o Regeneron, que ajudaram o presidente Trump a se recuperar do coronavírus, também foram desenvolvidos com células fetais.

A outra vacina tida como eficaz, a Sputnik, de um laboratório russo, ainda não teve seus métodos de produção divulgados.

O que diz a Igreja sobre esses métodos?

No que se refere a vacinas desenvolvidas sinteticamente ou sem células fetais, a Igreja permite e promove a sua utilização, da mesma forma que promove, incentiva e – sim – obriga os seus filhos a cuidarem do corpo com boa alimentação e medicamentos.

No que se refere a vacinas ou terapias desenvolvidas com células fetais, a Igreja permite a sua utilização pelo público em geral, mas não a sua manufatura. Essa parece ser uma postura contraditória, no entanto, a Igreja percebe que se não houver outros tratamentos disponíveis para um problema generalizado de saúde pública, além dos desenvolvidos a partir de células abortadas a participação do destinatário nesse pecado é material, não formal.

“A cooperação material existe quando uma pessoa participa de alguma forma de uma ação má, por exemplo, aproveitando-se de suas consequências, mas sem compartilhar da intenção maligna.”

Na verdade, se não houver outras alternativas, o uso de uma vacina ou tratamento desse tipo pode até ser considerado necessário:

“… de modo que, onde não há alternativa a tais vacinas, e onde a saúde das crianças ou da comunidade em geral o exige, não é apenas permitido o uso delas, mas às vezes isso é obrigatório.”

As citações acima foram extraídas de um texto mais longo desenvolvido pela Fraternidade de São Pio X  sobre a vacina contra a rubéola. Vale salientar que essa questão foi muito bem tratada pela Pontifícia Academia pela Vida, em um documento aprovado pela Congregação para a Doutrina da Fé, em 9 de junho de 2005.

Os princípios são os mesmos em 2020.

O que um católico fiel deve fazer?

1. Onde houver a opção de receber uma vacina ou tratamento eficaz desenvolvido sem células de fetos abortados, o católico é obrigado a escolher essa vacina ou tratamento. As vacinas da Pfizer e a da Moderna parecem ser muito promissoras e, até onde sabemos, são desenvolvidas de forma adequada. O tempo dirá se é mesmo assim e se estarão amplamente disponíveis. 

2. Onde não houver outra opção, o uso de uma produzida com células fetais de um aborto é permitido. Como afirmado acima, não há pecado nessa cooperação material, e isso pode até mesmo ser recomendado como prudente.

3. Devemos perceber que em 2020 pode não existir escapatória de vacinas e tratamentos (incluindo os que não são para o coronavírus) que derivam de células fetais nas condições citadas. Uma posição estrita, do tipo “nenhuma célula fetal”, é virtualmente impossível para quem está fazendo uso da terapêutica moderna. Dado que essas células fetais estão em uso a quase 5 décadas, é certo que acadêmicos, bem como empresas como a Pfizer e a Moderna, usaram essas células para suas pesquisas avançarem. Mesmo que a vacina possa ser sintética, a pesquisa que a produziu pode muito bem ter usado das linhagens de células citadas no começo. Esta lista, produzida por Filhos de Deus pela Vida, em si mesma um esforço louvável, mostra a vacina Moderna como inaceitável, ainda que seja uma vacina sintética. 

Conclusão

Os católicos são obrigados a se educarem sobre essas questões – daí nosso esforço para explicar em detalhes sobre os tipos de vacinas e como elas promovem o tratamento (fizemos isso consultando especialistas católicos em genômica).

No processo dessa educação, os católicos também devem ser prudentes e não tirar conclusões precipitadas sobre o que leem, seguem ou assistem. A desinformação em torno desta vacina é galopante. Não se deixe enganar pelas ideias dos fundamentalistas protestantes, que consideram que qualquer cooperação na vacinação é um pecado, ou, por outro lado, pelas propostas dos bárbaros sobre o uso de células fetais em todos os momentos, por qualquer capricho.

A Igreja forneceu orientação firme e prudente sobre esse assunto. Como resultado, os católicos têm uma base sólida para entender a moralidade das vacinas. 

Nota do tradutor:

Observamos nesse texto um desenvolvimento sobre a questão, pois antes da declaração oficial de 2005, o Pe. Peter Scott (um médico, que foi superior da FSSPX dos EUA até 2002) chegou a escrever o seguinte na revista Angelus no ano 2000: 

“Aqui pode-se argumentar que quem busca a vacinação não fez o aborto, mas simplesmente usa as células obtidas como consequência. Porém, a vacina não é apenas um efeito indireto do aborto. Há, de fato, um linha direta de causalidade do aborto às células fetais disponíveis, ao desenvolvimento da vacina, à imunização. Portanto, a imunização é uma consequência direta do aborto, e não apenas um efeito indireto. Consequentemente, seria imoral usar uma vacina que se sabia ter sido desenvolvida em células fetais, por maior que fosse a vantagem a ser adquirida.

Além disso, ainda que se admitisse que a vacina não é consequência direta do aborto, pois o aborto não foi realizado diretamente para a obtenção de células fetais; e que quem as utiliza, quanto a si mesmos, que não desejaram o aborto; o senso católico diz aos fiéis que eles nunca podem usar os subprodutos do aborto por qualquer motivo, pois ao fazer isso eles promovem o assassinato em massa de inocentes, que está destruindo a sociedade moderna e todo o senso de moralidade . Deve sempre haver uma razão proporcional para permitir algo mal que não é diretamente desejado. Aqui, o ganho razoável obtido pelo uso do duplo efeito (se realmente fosse indiretamente desejado apenas, o que não é) não seria de forma alguma proporcional ao horrível mal do aborto, e o escândalo seria imenso.

Se os pais não estão cientes do fato de que células fetais estão sendo usadas na cultura das vacinas que estão dando a seus filhos, então claramente não há culpa moral envolvida. No entanto, se eles estão cientes disso, são moralmente obrigados a recusar tais vacinas, até que possam ser obtidas em culturas moralmente lícitas. Além disso, se a lei civil tornasse o uso de tais vacinas mandatório (por exemplo, para frequência na escola), então os pais seriam obrigados a se opor em consciência à vacinação de seus filhos.”

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