O homem do direito

Texto do Professor José Luiz Delgado, publicado no Jornal do Commercio (Recife, 12 de novembro de 2013) que traça um perfil ético-profissional de Sobral Pinto:

sobralNão estão somente no passado longínquo os grandes homens. Também nos tempos recentes houve homens assim, notáveis, admiráveis, formidáveis, e até cruzamos com eles, e damos testemunho de sua grandeza. Aquele Sobral Pinto, por exemplo, sobre quem os cineastas estão exibindo imperdível documentário, indispensável para que o conheçam as novas gerações.

Com igual combatividade, igual senso de justiça, igual destemor, igual bravura, poucas personagens, ao longo de toda a história, terá a humanidade conhecido. Sobral Pinto  nasceu para brigar, para combater o bom combate, para não se conformar com a arbitrariedade e a injustiça. Nasceu para ser advogado, como os advogados devem ser, implacáveis, indomáveis na defesa dos seus clientes, mas sabendo, como ele mesmo dizia, que o advogado é o primeiro juiz da causa – e não tem, por isso, de defender o cliente a qualquer título, mas, primeiro, lhe mostrará qual a boa justiça do caso concreto, quais os direitos que de fato tem, e aí defendê-los sem cessar, afrontando todas as potestades. Como ninguém, Sobral sabia distinguir as ideias dos clientes dos direitos deles, pelos quais lutava com denodo inexcedível.

O documentário agora exibido dá boa notícia de algumas das principais façanhas de Sobral, na defesa dos injustiçados, tanto judiciariamente quanto mediante as cartas que não cessava de escrever. O caso que deu a ele a maior notoriedade foi, durante o Estado Novo, a defesa dos comunistas Harry Berger e Prestes – este, no início, recusou o seu patrocínio, mas a seguir construiu com Sobral uma das mais bonitas amizades da história, entre homens igualmente bravos mas de ideários opostos. Há alguns anos também foi lançada uma excelente biografia sobre Sobral, de autoria de John W.F. Dulles, mas cobrindo apenas os anos de 1930 a 45: estava o autor trabalhando nos anos subsequentes?

Católico de berço e de fé absoluta e inabalável, é uma glória para a Igreja ter entre seus membros um quixote obstinado e exemplar como Sobral Pinto, que dá ao mundo e aos irmãos de fé a noção exata de como deve ser o comportamento público do católico – com que independência varonil, que desassombro, que absoluta não-subserviência deve arrostar os poderes e as seduções do mundo.

Pesquisando um pouco mais, descobri um diálogo importantíssimo entre Sobral Pinto e Ary Quintela publicado na obra Por que defendo os comunistas:

– Como é que o senhor defendia um inimigo de sua igreja?

– Por uma razão muito simples: o princípio que todo católico tem de seguir é o que está no Evangelho e que Santo Agostinho definiu nessa fórmula maravilhosa: odiar o pecado e amar o pecador. O comunismo nega Deus, afronta Deus. Mas eu compreendo que o comunista fala isso por ser pecador. Nós somos frágeis, logo podemos pecar por fragilidade. Dentro dessa orientação, eu é que estava certo, tanto que, quando se anunciou que eu ia fazer a defesa do Prestes e do Berger, sendo eu a segunda pessoa da Ação Católica Brasileira (ACB) – a primeira era o Alceu Amoroso Lima –, houve muita discussão. Mas eu nunca deixaria de fazer a defesa.

Realmente inspiradora a história desse grande brasileiro católico, todavia estabelecer algum tipo de amizade com um psicopata como Prestes foi um pouco demais.

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