

Brasileiro nos costumes, trabalhista na economia, lusotropicalista na religião 😉


Reflexão sobre o número dos eleitos feita pelo confrade Sérgio Meneses:

Sobre a questão do número dos eleitos, a posição que mais me satisfaz a inteligência (o que, obviamente, não é critério para nada) é a de Bento XVI na Spe Salvi, que julgo poder ser desenvolvida assim: a experiência parece indicar, no que tange à adesão dos homens ao Bem, haver três grandes grupos: o das raríssimas pessoas que tende radicalmente ao Bem, que faz da adesão ao Bem o eixo central de suas existências, e que, assim, dissemina a bondade entre as demais —os santos; o das raras (porém bem mais numerosas —acho que Bento XVI não destaca isso, mas destaco-o eu) pessoas que tende radicalmente ao mal e que busca apagar em si, tanto quanto seja possível, a imagem do Bem que constitui o homem, e que, assim, dissemina a maldade na sociedade —os réprobos; o grande grupo intermediário das incapazes de tomar uma decisão definitiva, que flutua entre os polos, que ora tende ao bem, ora ao mal, mas que, justamente por essa incapacidade de radicalidade, não é capaz de apagar em si, de modo irreversível, a imagem participada de Bem que é o homem —os pecadores. Esses três grupos, me parece, estão simbolizados na cena do Calvário: em Nossa Senhora; no mau ladrão e na soldadesca romana; em São Dimas e São Longinus. Aos três tipos, parece haver, por correspondência, três caminhos depois da morte: a salvação imediata e uma maior participação na Beatitude ao primeiro; o inferno ao segundo; uma via média purgativa ao terceiro, que conduzirá à salvação após um “período” de cura mais ou menos intenso, dependendo de sua posição entre os polos. Nesse sentido, tenho esperança de que maioria dos homens encontrará a salvação, mas estou certo de que muitos se condenarão e de que a esperança no “inferno vazio” é absurda —e contrária ao Evangelho.
Dicas do confrade Rafael Vitola:










Tradução e adaptação de um texto de Gregory Dipippo
Diz-se que os santos Cosme e Damião eram irmãos originários da Arábia e médicos; eles deixaram sua terra natal e se estabeleceram na cidade portuária mediterrânea de Egeia, na Cilícia (atual sudeste da Turquia). Praticavam a medicina sem cobrar honorários por seus serviços, razão pela qual a Igreja Grega lhes confere o título de “Santos Anárgiros” (ἀνάργυροι, literalmente “sem dinheiro”; em eslavônico, бєзсрєбрєники), título que compartilham com vários outros santos. Durante a perseguição de Diocleciano, no início do século IV, sua caridade cristã atraiu a atenção do governador romano local, e eles foram martirizados por causa da fé, juntamente com seus irmãos Ântimo, Leôncio e Euprépio. Já no século V, havia duas igrejas dedicadas a eles em Constantinopla e, em 527, o Papa Félix IV transformou um edifício no Fórum Romano em uma igreja em sua honra. Essa igreja é particularmente importante não apenas porque o mosaico original da abside ainda se preserva — embora tenha passado por muitas restaurações —, mas também por ter sido o primeiro sanctuarium em Roma, isto é, uma igreja dedicada a santos, mas sem qualquer vínculo material com eles (as igrejas dedicadas à Virgem Maria constituem uma exceção óbvia).

O mosaico da abside da Igreja dos Santos Cosme e Damião, em Roma. Na extremidade esquerda, o Papa Félix IV oferece a Cristo e aos Seus santos a igreja que mandou construir. Um dos dois irmãos é apresentado a Cristo, à esquerda, por São Paulo; o outro, por São Pedro, à direita. Pedro e Paulo, como santos padroeiros de Roma, estão mais próximos de Cristo e trajados como senadores romanos; Cosme e Damião vestem roupas que, aos olhos de um romano do século VI, pareceriam evidentemente estrangeiras, e suas fisionomias são mais escuras. Na extremidade direita, São Teodoro — cuja igreja fica nas proximidades, do outro lado do Fórum — equilibra a composição; sendo grego, ele também está vestido como um estrangeiro. Acima da cabeça de São Paulo, uma fênix, símbolo da ressurreição do corpo, pousa na folha de uma palmeira.
Eles estão entre os santos mencionados no Cânon da Missa Romana e na forma tradicional da Ladainha dos Santos; juntamente com outros quatro santos anárgiros (Ciro e João, Pantaleão e Hermolau), são também citados no Rito de Preparação da Divina Liturgia Bizantina. O Imperador Justiniano I (527-565) atribuiu à intercessão deles a sua recuperação de uma doença grave e concedeu privilégios especiais à cidade de Cirro, na Síria, para onde as suas relíquias haviam sido levadas após o martírio. Muitas igrejas reivindicam atualmente a posse de suas relíquias, entre elas a igreja jesuíta de São Miguel Arcanjo, em Munique.

No século XV, eles ganharam especial destaque em Florença como santos padroeiros da família que detinha o poder de fato (e, mais tarde, de direito): os Médici, cujo sobrenome significa “médicos”. Em 1437, o convento dominicano de São Marcos — recém-instalado onde antes funcionava uma fundação beneditina — foi totalmente reformado às custas da família Médici. O pintor Fra Angelico, um dos fundadores da comunidade, foi incumbido de criar um grande retábulo retratando a Virgem com o Menino cercada por vários santos, com Cosme e Damião ajoelhados diante deles, à frente do grupo:

Nesta outra pintura, vemos a cura de Justiniano:

Relata-se um milagre particularmente insólito a respeito deles na Legenda Áurea do Beato Jacopo da Voragine. Pouco depois de o Papa Félix ter construído a igreja deles em Roma, o guardião adoeceu com um câncer que destruiu uma de suas pernas. Certa noite, enquanto ele dormia, São Cosme e São Damião vieram até ele e não apenas removeram a perna doente, mas a substituíram por uma perna nova, retirada do corpo de um etíope que havia falecido naquele mesmo dia e fora sepultado no cemitério da igreja vizinha de São Pedro Acorrentado. Tal evento bizarro está retratado aqui (pintura a óleo do Mestre de Los Balbases, c. 1495):

Em Pernambuco, na cidade de Igarassu, encontra-se uma das igrejas mais antigas do país (senão a mais antiga), que tem como patronos os citados santos, revelando, assim, sua popularidade entre os fundadores de nosso país:



Catecismo sobre o Purgatório, elaborado pelos irmãos Plínio Maria Solimeo e Gustavo Antonio Solimeo, e publicado pelo ótimo Alexandria Católica:
O texto foca um tanto demais, para o meu gosto, em revelações privadas, mas como ele explicita o valor delas, que é sempre subordinado à Revelação, continua a ser uma introdução interessante.

Dando uma olhada nuns textos que tinha guardado no meu Instapaper para ler depois, me deparei com esse interessantíssimo relato de como era a festa de Santo Antônio na segunda Canudos, uma produção do excelente site Meus Sertões, de autoria de Paulo Oliveira, que reproduzo abaixo:

O chefe político de Canudos, Isaías Canário, foi o anfitrião da visita de Getúlio Vargas ao antigo distrito de Euclides da Cunha, em outubro de 1940. O então presidente almoçou na casa de Canário e concedeu para ele uma patente militar em retribuição à forma como foi recebido. Esse episódio fez surgir a versão de que Getúlio, sensibilizado com as histórias narradas sobre a guerra que dizimou os seguidores de Antônio Conselheiro, perguntou a Isaías qual benfeitoria os moradores da região mais precisavam. A resposta teria sido “um açude”.
Para o escritor Eldon Canário, o pedido de açude registrado em reportagem publicada por um jornal de São Paulo, não passa de lenda, pois não há documentos, nem referências a ele nos manuscritos do ex-presidente da República. Canário diz ainda que um amigo bem próximo de Isaías, Antônio Batista, prefeito de Euclides da Cunha por três mandatos, desmentiu essa história.

Foi na segunda Canudos, inundada pelas águas do açude Cocorobó, que Eldon nasceu. Suas memórias e a história da cidade renderam cinco de seus nove livros. “Os mal-aventurados do Belo Monte – a tragédia de Canudos”, por exemplo, conta a história de Antônio Conselheiro da infância até a morte e foi considerado a melhor obra no ano do centenário do final da guerra.
Hoje aos 81 anos, o escritor mora em um dos bairros da orla de Salvador de onde pouco sai por medo da covid-19 [a entrevista foi feita na primeira metade de 2021]. É de lá, com uma memória prodigiosa, que reconstitui os festejos em homenagem a Santo Antônio antes do alagamento. Vale lembrar que a família Canário se mantém até hoje como “noiteira”, ou seja, tem responsabilidade de cuidar dos preparativos da reza, da arrumação da igreja, dos zabumbeiros e de organizar o leilão de um dos dias da trezena do padroeiro. Eldon é sobrinho do “capitão Isaías”.

Como era a vida em Canudos?
Vou falar para você da Canudos onde eu nasci, a Canudos que está submersa. Inclusive, tenho fotos e quadros dela em minha casa. Havia a praça, o barracão no meio e a igreja no fim da rua. Praticamente todo mundo vivia da criação de bode e da plantação de milho, feijão e outras coisas, ou seja, da agricultura de subsistência. Tinha também aqueles que eram comerciantes, policiais etc.
A vida nesses lugares era monótona, modorrenta. O tempo passava muito devagar até ocorrer um fato curioso: a chegada do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) para construir a estrada Transnordestina, que ligava Feira de Santana à Fortaleza na época. Não sei se tem o fato está relacionado à guerra em Canudos, a verdade é que a localidade foi escolhida para ser a residência na Bahia para essa estrada. Havia várias cidades possíveis: Tucano, Araci, Euclides da Cunha, que se chamava Cumbe, mas escolheram Canudos, um povoado perdido no meio do mundo.