Um grande exemplo de leitura expurgada do Lecionário paulino

Já trabalhei em outros dois textos (aqui e aqui) a comparação entre o lecionário do rito paulino e do rito romano tradicional, vamos agora a um exemplo concreto de um dos pontos que destaquei (de autoria de Peter Kwasniewski).

Uma das várias críticas que se fazem ao Lecionário do Novus Ordo é que ele não contém passagens que fizeram parte das leituras na missas durante séculos e séculos (e que ainda podem ser ouvidas onde se celebra no rito gregoriano) ou que editou pesadamente outras. Como percebe qualquer um que já olhou com atenção as leituras do rito paulino, pular versículos nessa forma litúrgica parece que era um passatempo dos seus “designers”, em especial quando a perícope tem muita “negatividade”.

Alguém pode então dizer:

– Vai se ter de pular algo se a intenção é incluir a maior quantidade possível da Bíblia, não é?   Continuar lendo

Idolatria Moderna

Todas as coisas criadas são intermediários, sinais, aparências. Mas algumas, dentre elas, são intermediários em segundo grau, sinas de sinais, aparências de aparências. Assim sucede com o dinheiro, as honrarias, os títulos, os prazeres artificiais, etc. E são precisamente estes fantasmas o objeto preferido da idolatria moderna, são estes bens ultra-relativos os que mais captam o nosso desejo de absoluto. Já se não adora o sol, as plantas ou os animais (que pelo menos têm o mérito de serem intermediários necessários entre o homem e o seu fim supremo), mas sim uma etiqueta política, uma condecoração, uma nota de papel.

Como o culto antigo de Cybelis, o de Cypris, ou mesmo o de Príape, que correspondiam às profundas realidades naturais, se revelam sãos e vivos em comparação com o culto actual dos mais vãos elementos da nossa existência! A idolatria moderna rege-se pela lei do menor coeficiente de realidade. E ainda quando se abate sobre coisas necessárias e naturais, as despoja da sua realidade, da sua substância, fá-las sobras e joguetes. Assim, a idolatria do amor sexual não adora, na mulher, a esposa ou a mãe tal como Deus a quis; substitui-a, segundo incida sobre o corpo ou sobre a alma, quer por um instrumento de prazer estéril, isto é, um ser degradado, quer por um produto de sonhos impossíveis, isto é, um ser imaginário. A idolatria antiga (pelo menos na sua fase inicial) elevava para Deus as coisas da natureza, enquanto que a idolatria moderna as degrada até ao nada.

– Gustave Thibon (O pão de cada dia. Colecção Éfeso, Lisboa: Editorial Aster)

Latim, a lingua ideal da liturgia no Ocidente

O Motu Proprio do Papa Francisco sobre a liturgia, Magnum Principium, ainda não teve seu alcance totalmente entendido, e nem acho que isso se depreenda da exege de seu texto, como alguns quiseram fazer, antes, ele vem atender aos anceios psicológicos dos membros de certas conferências episcopais, como a brasileira, que temem que aconteça com a Missa Nova em português brasileiro o que aconteceu em 2011 nos EUA, isto é, o uso de uma tradução mais fiel ao latim. Desse modo, para se contrapor a mais essa bomba relógio, vou publicar minha tradução e adaptação do capítulo 12 do livro Resurgent in the Midst of Crisis: Sacred Liturgy, the Traditional Latin Mass, and Renewal in the Church, de Peter Kwasniewski, no qual esse conhecido estudioso da liturgia faz uma reflexão pessoal sobre o latim:

Muitos argumentos convincentes podem ser e foram dados em favor da preservação da língua latina na vida litúrgica da Igreja Católica Romana – até mesmo o Concílio Vaticano II, na sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia, a Sacrosanctum Concilium (1963), fez isso, seguindo de perto a impressionante Constituição Apostólica Veterum Sapientia (1) de João XXIII (1962). Como sabemos, as afirmações deste último Papa e do Vaticano II sobre o latim litúrgico foram mais ou menos canceladas pelas decisões mal refletidas de Paulo VI, que mais uma vez demonstrou ao mundo que se o Sumo Pontífice goza do carisma da infalibilidade ao ensinar verdades sobre a fé e a moral, não tem essa graça nos seus julgamentos prudenciais, incluindo as disposições sobre os elementos mutáveis da liturgia. De qualquer forma, meu propósito aqui não é catalogar e rever os argumentos em favor da língua latina, uma tarefa, como disse, exaustivamente feita por outros ao longo dos séculos, mas falar meramente sobre minha experiência pessoal, sobre onde e quando a unidade impressionante do latim teria feito mais sentido que a Babel das línguas vernáculas.

Eu e minha esposa moramos na Áustria por sete anos e meio. Estar na Europa me convenceu acima de todas as dúvidas que a mudança pós-conciliar do uso exclusivo do vernáculo na Missa foi a mais pueril de todas. Ao invés de tornar a Missa mais acessível, ela a localiza, particulariza e relativiza, fechando-a a quem não fala a língua local; turistas ou imigrantes católicos são empurrados a um ambiente estrangeiro que os aliena mais do que a solenidade do latim litúrgico alienou um simples camponês do passado. De fato, devido à sua aura penetrante de sacralidade e seu perceptível foco no mistério da Eucaristia, a liturgia tradicional, mesmo quando não tem suas palavras totalmente entendidas, molda melhor a alma que a nova liturgia cerebralmente compreendida. Continuar lendo

A Bíblia e a Igreja

A Igreja Católica no Brasil celebra em setembro o mês das Sagradas Escrituras. Mas qual é mesmo o relacionamento entre Igreja e Bíblia?

Nesta aula, aproveitando a ocasião da recente polêmica criada pelo pastor Silas Malafaia contra o Bispo de Palmares, Dom Henrique Soares da Costa, Padre Paulo Ricardo oferece aos fiéis católicos um aprofundamento necessário sobre a relação entre Igreja e Bíblia.