O sentido do mundo é acabar

quoteO sentido do mundo é acabar. Sua finalidade é o cumprimento do número dos eleitos.

E a Igreja, que é a criação perene, o Reino de Deus em germe que irá se manifestar plenamente, está no mundo para evangelizar, para salvar as almas, para educá-las para a virtude, para fomentar a caridade.

Não para “construir o mundo”, não para “cooperar com a fraternidade universal”, não para realizar “a unidade do gênero humano”.

– Joathas Bello (06/10/21, FB)

O neoconservadorismo é um sintoma da crise

Texto de Joathas Bello publicado originalmente no Facebook:

quote“Quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” (Gl 3,1).

Há um tempo eu brinquei que os “continuístas” seriam, em seu tempo, defensores dos diabólicos Estêvão VI ou Alexandre VI. E não é que, na última semana, eu vi defesas entusiastas do último [que Daniel-Rops qualifica como “o pontificado mais deplorável de toda a história” – o historiador faleceu em 1965…]?!

O catolicismo moderno – não a Igreja em sua realidade essencial [que inclui seu magistério infalível e seus grandes santos, que são sua verdadeira voz e sua verdadeira face] – tornou-se um sistema idealista e legalista. A Fé tradicional ou “entregue” pelos antepassados foi reduzida socialmente a um sistema de ideias, garantido pela autoridade papal, numa sorte de agnosticismo imanentista, que não conhece mais a sabedoria mística, mas apenas uma devoção sentimental e uma meditação racional de permanentes principiantes infantilizados.

Agora, a outra face de uma tal ignorância da Encarnação e da Cruz de Cristo será necessariamente a gnose irracionalista ou fideísta que irá idolatrar a autoridade eclesiástica do papa. Se ele tem opções políticas claramente nocivas (seja o “ralliement” de Leão XIII ou o acordo atual com a China), ele “tem o conhecimento de elementos que nós não dispomos” (sic). Se ele argumenta de modo patentemente irracional, em conclusões que não envolvem qualquer mistério sobrenatural, mas que relativizam a verdade bem conhecida dos princípios (seja em passagens de Dignitatis Humanae, seja na nova pastoral de Amoris Laetitia, seja na mudança do Catecismo sobre a pena de morte), então “eu prefiro errar com o papa do que ser desobediente!” (sic), ou “ele tem o Espírito Santo, e vc não entende sua profundidade!” (sic).

Ah, meus irmãos! Quem os autorizou a se portarem como uns insensatos?! Recuperem a luz da inteligência, caríssimos, porque sem ela não pode brilhar a luz da Fé, nem o fogo da Caridade pode infundir a necessária coragem para enfrentar o mundo que invadiu a Igreja!

Debatendo o Vaticano II

Gustavo Abadie e Joathas Bello, que conheci como um neocon no tempo do Orkut e que transitou para a tradicionalismo (mas sem aderir ao “trad-chatismo”), batem um papo sobre o Vaticano II, seja sobre ele em si, seja sobre as causas das ideias que ganharam espaço nele, e sobre suas consequências:

Os quatro velhos e a batalha pela Missa romana tradicional

Tradução e adaptação de um artigo de Jane Stannus:

“Destrua os Quatro Velhos”. Este slogan era central na chamada Revolução Cultural chinesa, lançada em Pequim em 1966. Quais eram os “Quatro Velhos”? Velhas ideias, velha cultura, velhos hábitos e velhos costumes. A destruição começou simplesmente renomeando ruas (qualquer semelhança com o que ocorre hoje no Ocidente, por pressões do “politicamente correto”, não é mera coincidência), lojas e mesmo pessoas, que mudaram seus nomes chineses tradicionais por maluquices do tipo “Vermelho Determinado”.

Revolução culturalA violência logo se seguiu. Guardas vermelhos invadiram as residências dos mais ricos para destruir livros, pinturas e objetos religiosos. Prédios históricos foram demolidos ou tiveram sua visitação vetada. Cemitérios nos quais estavam os restos mortais de notáveis da época pré-revolucionária foram vandalizados, suas tumbas dessacralizadas. Antigos costumes em torno do matrimônio, de festivais e da vida familiar proibidos. Templos e igrejas foram derrubados ou vertidos para algum uso secular.

Por que? Por que tudo isso foi necessário?

Porque, segundo o entendimento de Mao, as tradições do passado tinham de ser destruídas para dar lugar a novas ideias, a uma nova cultura, novos hábitos e novos costumes. Em resumo: o comunismo marxista é tão estranho a qualquer sociedade tradicional, que as pessoas identificadas com ela, seja cultural ou religiosamente, são psicologicamente incapazes de aceitá-lo. Continuar lendo

Caridade assimétrica

Logo que o Papa eleito publicou seu Motu Impróprio, as reações foram rápidas, como não podia deixar de ser na época em que vivemos (para o bem, ou para o mal). Contudo, além dos esperados atores desse drama, a saber os tradicionalistas (vítimas), os progressistas (carrascos) e os neoconservadores (bobos da corte), outras figuras, bem inesperadas, se fizeram presentes. Vimos reações, sempre negativas, dado o claro abuso de autoridade, vindas de ateus, ortodoxos (aqui e aqui, por exemplo) e de protestantes, mas uma das que mais chamou minha atenção foi o texto curto e certeiro de um anglicano que traduzi, adaptei e posto a seguir:

Caridade assimétrica

Pretendo com este título descrever uma peculiaridade do Papa atual, que fala frequentemente sobre a necessidade da caridade mas parece ter pouco dela para com as pessoas que considera erradas –  ou erradas num certo sentido. Daí seu recente Motu proprio sobre a Missa no rito gregoriano.

Francisco não está no momento proibindo completamente a “Missa em latim”, mas isso apenas porque ele considera a asfixiação lenta mais conveniente que uma execução sumária. Na carta que acompanha o citado documento, ele diz que quer “prover para o bem daqueles que estão enraizados na forma anterior de celebração”, só que também insiste que essas pessoas “precisam retornar no tempo devido ao rito romano”. Notem a forte distinção entre a Missa tradicional e o o rito romano feita aqui; a “Missa em latim” não seria uma forma do último, mas algo… distinto. Na verdade, segundo o pensamento do Papa, as pessoas que aderem ao rito tradicional não apenas se distanciam do rito romano, mas da própria Igreja: elas violam a unidade eclesial, e “Pretendo restabelecer essa unidade na Igreja de rito romano”. Novamente: asfixiação lenta. Ele não matou a Missa gregoriana, mas pretende que ela morra, e num futuro não tão distante.

Qual o fundamento dessa conclusão?  O Papa diz que é “cada vez mais evidente nas palavras e nas atitudes de muitos a estreita ligação entre a escolha das celebrações segundo os livros litúrgicos anteriores ao Concílio Vaticano II e a rejeição da Igreja e de suas instituições em nome do que é chamado de Igreja verdadeira”. Um peso enorme está sendo colocado aqui na palavra “muitos”. Não tenho dúvidas de que a atitude descrita é sustentada por alguns. Os católicos que conheço, contudo, que são atraídos pela “Missa em latim” não são atraídos por ela porque isso os diferencia dos outros católicos, mas porque os liga à grande nuvem de testemunhas que os precederam em sua fé. Eles não desprezam sua Igreja, mas a amam; a “Missa tridentina” para eles é um excelente meio de expressar e fortalecer esse amor.

É triste e estranho para mim que Francisco possa ser tão caloroso com aqueles que rejeitam abertamente sua Igreja e seus ensinamentos, mas frio como o gelo, tão corrosivamente cético, com alguns de seus filhos e filhas mais fiéis. Triste, estranho – e, acredito, profundamente insensato.