O neoconservadorismo é parte do problema, não a solução

Tradução e adaptação de um artigo publicado originalmente no site One Peter 5:

A reação às revelações do arcebispo Viganò – pelo menos nos Estados Unidos – deve nos dar uma certeza: ainda há bispos da fé ortodoxa que respeitam os direitos humanos e a justiça divina. Além disso, apesar das más notícias quase diárias de Roma, encontramos dioceses em que as vocações estão em ascensão; até encontramos algumas comunidades religiosas tradicionais florescendo. Depois de décadas de amnésia, a música sacra está voltando às catedrais e paróquias. Boas notícias não faltam se procurarmos.

No entanto, também encontramos um problema já de longa data que retarda o ritmo de uma genuína reforma e renovação da Igreja: a predominância do neoconservadorismo entre os bispos, padres e fiéis. Continuar lendo

Procissão de Corpus Christi no meio da destruição

Recentemente ouvi de uma pessoa bem atuante na vida eclesial aquelas frases velhas como uma viagem de LSD dos anos 70:

– Não, não… tudo está melhor desde a “reforma” da liturgia e desde que paramos com o legalismo e a doutrinação fria em respeito ao espírito do Concílio. Não… tudo está melhor mesmo… você, por acaso, fala latim?

Não resisti e mostrei o seguinte vídeo de uma procissão de Corpus Christi na cidade de Colônia, completamente destruída pelos bombardeios da Segunda Guerra, em 1947:

Aí tive de concluir com ironia:

É isso mesmo… nada se compara com hoje! Que igreja vibrante e fiel nós temos agora! Os seminários estão cheios, os conventos estão lotados, as filas de confissão são longas. Há tantas escolas e hospitais sendo construídos. E tente contar os casamentos e os batismos! Bem! Eu quero dizer … uau … certo?

Pe. Emílio Silva – Pena de Morte Já!

Não sou a favor da pena de morte para o Brasil de hoje, mas a validade dela como possibilidade abstrata é algo que não pode ser negado por um católico. Daí o mal estar gerado pela recente modificação que o Papa Francisco fez no catecismo de João Paulo II; modificação que tem valor zero. Assim, nesse ambiente de argumentos “nutela” que se instalou no seio da Igreja, nada melhor do que reler a obra de um douto sacerdote que defende a pena capital  em concreto, mas que, no meio da argumentação, circunstancial por natureza, apresenta os princípios perenes em torno do tema:

Dois irmãos e um estranho

Tradução e adaptação de artigo publicado no New Liturgical Movement.

Para mim, e acho que para a maior parte dos tradicionalistas, é uma obviedade a proximidade espiritual entre a Divina Liturgia no rito bizantino e a Missa Romana tradicional, assim como também o é a distância que o Novus Ordo mantém da herança comum das duas formas litúrgicas citadas.

Contudo, às vezes encontramos católicos bizantinos que são levados pelas similaridades superficiais entre o rito bizantino e o Novus Ordo (por exemplo, a de que eles são celebrados geralmente em língua vernácula e em tom audível) e pelas diferenças marcantes entre a liturgia bizantina e o rito romano tradicional (por exemplo, a de que temos um silêncio muito maior no último e de que, aparentemente, as pessoas têm um papel mais “ativo” no primeiro), e acabam defendendo a ideia de que a Divina Liturgia é mais próxima espiritualmente do rito paulino e que, se tiverem de optar, o usus recensior será escolhido sobre o usus antiquior. Por outro lado, os protagonistas e apologistas da “reforma litúrgica romana” muitas vezes fingem ser admiradores da tradição oriental e gostam de apontar as muitas características aparentemente “orientais” da liturgia paulina.

Se é verdade, ao contrário do que acham essas pessoas, que a liturgia bizantina e a liturgia latina tradicional têm muito mais em comum entre si que com o Novus Ordo, demos poder apontar isso com precisão. Assim, proponho que isso pode ser constatado a partir dos seguintes princípios:

  1. O princípio da Tradição;
  2. O princípio do mistério;
  3. O princípio da linguagem elevada;
  4. O princípio da integridade ritual ou estabilidade;
  5. O princípio da densidade;
  6. O princípio da preparação adequada e repetida;
  7. O princípio da veracidade;
  8. O princípio da hierarquia;
  9. O princípio do paralelismo;
  10. O princípio da separação.

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A culpa é dos pais…

No último dia 23 recebi a feliz notícia que um dos vocacionados saídos do grupo de fiéis ligados à liturgia romana tradicional aqui em Recife foi ordenado sacerdote na Alemanha como membro da Fraternidade de São Pedro. Cheguei a falar dele quando escrevi uma pequena história desse grupo em 2013; na época ele tinha recebido a batina, ato que segundo as normas canônicas antigas implicava na entrada do estado clerical (tais normas hoje só são simbólicas, gostem os traditional borings disso ou não). Há toda uma galeria de fotos da ordenação que pode ser acessada aqui. Continuar lendo

O Missal de 1962 – Estável como uma rocha

Texto traduzido por Cláudio Loureiro e revisado por Thiago Santos de Moraes

[1] No Motu Proprio Ecclesia Dei, o Papa João Paulo II manifestou sua vontade de que o Missal de 1962 deveria ser acessível a todos os católicos ligados à liturgia tradicional. A Comissão  Ecclesia Dei, em Roma, desde o seu primeiro presidente, Cardeal Mayer, sucedido pelo Cardeal Innocenti, mostrou pouca simpatia e tem dado pouca ajuda para estes católicos  alcançarem suas legítimas aspirações. A Comissão agora está autorizando modificações naquele missal que certamente minarão qualquer credibilidade que ela ainda tenha depois de sua autoritária intervenção, favorável ao grupo minoritário, dentro da Fraternidade de São Pedro em 1999/2000. A seguir, apresentamos um artigo de Michael Davies em que ele explica a razão pela qual o Missal de 1962 deve ser considerado estável como uma rocha dentro do movimento de desintegração da Igreja no Ocidente e o motivo pelo qual deve ser defendido com toda a força contra a sua substituição pelo missal de 1965, da destruição de seu ethos sagrado pela introdução do Lecionário de 1970 e da a prática da Comunhão na mão. Ele coloca o que se faz hoje em perspectiva histórica, em particular com a maneira pela qual Thomas Cranmer condicionou o povo da Inglaterra a aceitar sua ordem de culto em 1552.

Comentando, em 1898, sobre a maneira pela qual Thomas Cranmer, o arcebispo apóstata da Cantuária, mutilou a Santa Missa removendo especificamente as orações com aspecto propiciatório, ao revisá-la para adequar o Sarum [2] à sua Ordem de Culto, os Bispos Católicos da Província de Wetsminster disseram:

Que antigamente as igrejas locais permitiam adicionar novas orações e cerimônias é algo conhecido… Agora, que essas, além disso, permitiam subtrair orações e cerimônias em uso prévio, e até mesmo remodelar os ritos existentes de maneira drástica, é uma afirmação que sabemos não ter fundamento histórico e nos parece totalmente falsa. Consequentemente, Cranmer, fazendo algo assim, sem os menores precedentes, em nossa opinião, o fez com precipitação inconcebível.(1)

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Idolatria Moderna

Todas as coisas criadas são intermediários, sinais, aparências. Mas algumas, dentre elas, são intermediários em segundo grau, sinas de sinais, aparências de aparências. Assim sucede com o dinheiro, as honrarias, os títulos, os prazeres artificiais, etc. E são precisamente estes fantasmas o objeto preferido da idolatria moderna, são estes bens ultra-relativos os que mais captam o nosso desejo de absoluto. Já se não adora o sol, as plantas ou os animais (que pelo menos têm o mérito de serem intermediários necessários entre o homem e o seu fim supremo), mas sim uma etiqueta política, uma condecoração, uma nota de papel.

Como o culto antigo de Cybelis, o de Cypris, ou mesmo o de Príape, que correspondiam às profundas realidades naturais, se revelam sãos e vivos em comparação com o culto actual dos mais vãos elementos da nossa existência! A idolatria moderna rege-se pela lei do menor coeficiente de realidade. E ainda quando se abate sobre coisas necessárias e naturais, as despoja da sua realidade, da sua substância, fá-las sobras e joguetes. Assim, a idolatria do amor sexual não adora, na mulher, a esposa ou a mãe tal como Deus a quis; substitui-a, segundo incida sobre o corpo ou sobre a alma, quer por um instrumento de prazer estéril, isto é, um ser degradado, quer por um produto de sonhos impossíveis, isto é, um ser imaginário. A idolatria antiga (pelo menos na sua fase inicial) elevava para Deus as coisas da natureza, enquanto que a idolatria moderna as degrada até ao nada.

– Gustave Thibon (O pão de cada dia. Colecção Éfeso, Lisboa: Editorial Aster)