Imagens veladas

Tradicionalmente neste domingo, o Quinto da Quaresma no rito paulino e o I da Paixão no rito gregoriano, as imagens das igrejas são encobertas (veladas) por um pano roxo. Em alguns lugares isso ocorre só no Domingo de Ramos ou mesmo na Sexta-Feira Santa, em outros desde a Quarta-Feira de Cinzas. O que vocês presenciaram hoje:

 

O Tracto quaresmal Domine, Non Secundum

Dómine, non secundum peccáta nostra, quae fécimus nos: neque secundum iniquitátes nostras retríbuas nobis. V. Dómine, ne memíneris iniquitátum nostrárum antiquárum: cito antícipent nos misericordiae tuae, quia páuperes facti sumus nimis. Hic genuflectitur V. Adjuva nos, Deus, salutáris noster: et propter gloriam nóminis tui, Dómine, líbera nos: et propitius esto peccátis nostris, propter nomen tuum.

Senhor, não nos trateis conforme merecem os pecados que fizemos, nem segundo a ignomínia das nossas iniquidades. V. Senhor, não Vos lembreis dos nossos crimes passados mas mandai-nos a vossa misericórdia, porque somos muitos pobres, Senhor. Aqui ajoelham todos. V. Ajudai-nos, ó Deus, nossa salvação, e livrai-nos, Senhor, que assim o pede a glória do vosso nome. Pelo vosso nome, sede indulgente com nossos pecados.

Esse belo Tracto se diz em todas a as segundas, quartas e sextas-feiras da Quaresma até a segunda-feira da Semana Santa inclusive (exceto na quarta-feira das Têmporas). Há uma versão polifônica dele do compositor espanhol Juan de Anchieta (1462-1523):

O valor do preto como cor litúrgica

Tradução e adaptação de um texto de Shawn Tribe:

Nas últimas décadas, ouviu-se muito na Igreja que o uso do preto como cor litúrgica seria algo contrário à esperança cristã na ressurreição dos mortos. Por isso, vários agitadores fizeram o possível para extirpar essa cor das missas de finados ou de outros ofícios litúrgicos relacionados aos mortos. Como resposta, eu poderia dizer que esse não é o caso de valorizar “um ou outro”, mas de “ambos”. Vou explicar melhor: mesmo os cristãos sendo de fato um povo cheio da esperança gestada na ressurreição, isso não invalida a resposta emocional natural representada pela tristeza do luto,  nem o fato de que estamos igualmente conscientes da realidade do pecado, morte e julgamento. Tal consciência e reserva é simplesmente isso, uma consciência e reserva que brota do reconhecimento de uma genuína realidade espiritual, e não pode ser equiparada à falta de esperança ou a uma esperança insuficiente na ressurreição dos mortos. Não dar reconhecimento adequado a essas realidades é um problema.
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A necessidade da beleza na liturgia segundo o Cardeal Slipyi

Se você quiser falar sobre os pobres, neste lugar só eu posso falar, porque passei vinte e cinco anos na miséria de uma prisão comunista. Você também quer tirar dos pobres, que têm pouco para comer, toda expressão de arte, de música ou de beleza? Isso também? Você realmente não sabe que eles precisam mais do que aqueles que estão bem? – Yosyf Cardeal Slipyi (1892-1984), Arcebispo Maior de Lviv e chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana, falando ao Sínodo dos Bispos em 1971.

“Minha herança é boa para mim”: agradecendo à Providência

Comemorando o dia em que o Motu Proprio Summorum Pontificum entrou em vigor (14 de setembro de 2007) publicamos hoje um texto do New Liturgical Movement, traduzido por Cláudio e revisado e adaptado por Thiago.

 

Liturgistas progressistas – isto é, todo o establishment durante e depois do Vaticano II, com poucas e notáveis excessões – parecem cometer um erro elementar nas suas opiniões, resvalando no mesmo problema encontrado na crítica bíblica liberal.

Quando os liturgistas escavam a fundo a história dos ritos, eles descobrem muitas mudanças, desenvolvimentos, variações e, aparentemente, eventos inesperados (afinal, você não sabe, mas foi por causa de Carlos Magno que o rito romano substituiu o galicano e assimilou muitos dos seus elementos). Até aí, tudo bem. Mas então eles fazem uma injustificada afirmação: além da “Era de Ouro” do trabalho Apostólico, não devemos reverência a nenhum estágio posterior de desenvolvimento dos nossos ritos litúrgicos. Por exemplo, pelo fato das características barrocas e medievais da liturgia romana terem resultado de acidentes históricos, elas são vistas como passíveis de serem expurgadas pelos cognoscenti, isto é, por aqueles que sabem melhor o que o nosso contexto histórico atual exige. Continuar lendo

Ofício Parvo, edição de 1959

Nota

Acabei de publicar na página do Ofício Parvo mais uma digitalização do mesmo, agora segundo uma edição de 1959. Percebam a atualização no português em relação à edição anterior (muito boa e poética) e as diferenças de rubricas que acompanham as modificações no Breviário Romano (na parte relativa à estrutura desse Ofício, já sistematizei as diferenças).