Um grande exemplo de leitura expurgada do Lecionário paulino

Já trabalhei em outros dois textos (aqui e aqui) a comparação entre o lecionário do rito paulino e do rito romano tradicional, vamos agora a um exemplo concreto de um dos pontos que destaquei (de autoria de Peter Kwasniewski).

Uma das várias críticas que se fazem ao Lecionário do Novus Ordo é que ele não contém passagens que fizeram parte das leituras na missas durante séculos e séculos (e que ainda podem ser ouvidas onde se celebra no rito gregoriano) ou que editou pesadamente outras. Como percebe qualquer um que já olhou com atenção as leituras do rito paulino, pular versículos nessa forma litúrgica parece que era um passatempo dos seus “designers”, em especial quando a perícope tem muita “negatividade”.

Alguém pode então dizer:

– Vai se ter de pular algo se a intenção é incluir a maior quantidade possível da Bíblia, não é?   Continuar lendo

Latim, a lingua ideal da liturgia no Ocidente

O Motu Proprio do Papa Francisco sobre a liturgia, Magnum Principium, ainda não teve seu alcance totalmente entendido, e nem acho que isso se depreenda da exege de seu texto, como alguns quiseram fazer, antes, ele vem atender aos anceios psicológicos dos membros de certas conferências episcopais, como a brasileira, que temem que aconteça com a Missa Nova em português brasileiro o que aconteceu em 2011 nos EUA, isto é, o uso de uma tradução mais fiel ao latim. Desse modo, para se contrapor a mais essa bomba relógio, vou publicar minha tradução e adaptação do capítulo 12 do livro Resurgent in the Midst of Crisis: Sacred Liturgy, the Traditional Latin Mass, and Renewal in the Church, de Peter Kwasniewski, no qual esse conhecido estudioso da liturgia faz uma reflexão pessoal sobre o latim:

Muitos argumentos convincentes podem ser e foram dados em favor da preservação da língua latina na vida litúrgica da Igreja Católica Romana – até mesmo o Concílio Vaticano II, na sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia, a Sacrosanctum Concilium (1963), fez isso, seguindo de perto a impressionante Constituição Apostólica Veterum Sapientia (1) de João XXIII (1962). Como sabemos, as afirmações deste último Papa e do Vaticano II sobre o latim litúrgico foram mais ou menos canceladas pelas decisões mal refletidas de Paulo VI, que mais uma vez demonstrou ao mundo que se o Sumo Pontífice goza do carisma da infalibilidade ao ensinar verdades sobre a fé e a moral, não tem essa graça nos seus julgamentos prudenciais, incluindo as disposições sobre os elementos mutáveis da liturgia. De qualquer forma, meu propósito aqui não é catalogar e rever os argumentos em favor da língua latina, uma tarefa, como disse, exaustivamente feita por outros ao longo dos séculos, mas falar meramente sobre minha experiência pessoal, sobre onde e quando a unidade impressionante do latim teria feito mais sentido que a Babel das línguas vernáculas.

Eu e minha esposa moramos na Áustria por sete anos e meio. Estar na Europa me convenceu acima de todas as dúvidas que a mudança pós-conciliar do uso exclusivo do vernáculo na Missa foi a mais pueril de todas. Ao invés de tornar a Missa mais acessível, ela a localiza, particulariza e relativiza, fechando-a a quem não fala a língua local; turistas ou imigrantes católicos são empurrados a um ambiente estrangeiro que os aliena mais do que a solenidade do latim litúrgico alienou um simples camponês do passado. De fato, devido à sua aura penetrante de sacralidade e seu perceptível foco no mistério da Eucaristia, a liturgia tradicional, mesmo quando não tem suas palavras totalmente entendidas, molda melhor a alma que a nova liturgia cerebralmente compreendida. Continuar lendo

Ler mais a Bíblia na Missa é sempre melhor?

Tradução e adaptação deste texto.

O Lecionário multianual do Novus Ordo, que contém uma vasta quantidade de trechos da Escritura, é superior ao Lecionário anual do usus antiquior? Por muito tempo, essa pergunta dificilmente era levada a sério, pois se assumia que a resposta era um autoevidente “sim”. É gratificante, portanto, observar que mais e mais pessoas estão acordando para a seriedade da questão e realizando comparações e estudos, em vez de considerar, à moda moderna, que “maior” é “melhor”.

Décadas de experiência com os dois lecionários me levou, de fato, a uma conclusão oposta: o novo Lecionário é pesado e difícil de ter seu propósito entendido, enquanto o antigo ciclo de leituras é belamente proporcionado ao seu fim litúrgico e ao ritmo natural do ano. A repetição regular e reconfortante das leituras ajuda o fiel a absorver seus ensinamentos cada vez mais profundamente. Continuar lendo

Como estabelecer a Missa Tridentina na sua paróquia

Tradução, com adaptações, deste artigo.

Com o Motu Proprio Summorum Pontificumo Papa Bento XVI permitiu aos católicos pedir aos seus padres celebrem a tradicional Missa em latim. Diz o documento:

Art. 5-§ 1.  Nas paróquias, onde houver um grupo estável de fiéis aderentes à precedente tradição litúrgica, o pároco acolha de bom grado as suas solicitações de terem a celebração da Santa Missa segundo o rito do Missal Romano editado em 1962. Providencie para que o bem destes fiéis se harmonize com o cuidado pastoral ordinário da paróquia, sob a orientação do Bispo, como previsto no cân. 392, evitando a discórdia e favorecendo a unidade de toda a Igreja.

§ 2.  A celebração segundo o Missal do Beato  João XXIII pode realizar-se nos dias feriais; nos domingos e dias santos, também é possível uma celebração desse género.

§ 3.  Para os fiéis e sacerdotes que o solicitem, o pároco permita as celebrações nesta forma extraordinária também em circunstâncias particulares como matrimónios, funerais ou celebrações ocasionais como, por exemplo, peregrinações.

§ 4.  Os sacerdotes que utilizem o Missal do Beato  João XXIII devem ser idóneos e não estar juridicamente impedidos.

§ 5.  Nas igrejas que não são paroquiais nem conventuais, é competência do Reitor da Igreja conceder a licença acima citada.

Art. 6. Nas missas celebradas com o povo segundo o Missal do Beato  João XXIII, as leituras podem ser proclamadas também em língua vernácula, utilizando as edições reconhecidas pela Sé Apostólica.

Art. 7. Se um grupo de fiéis leigos, incluídos entre os mencionados no art. 5-§ 1, não vir satisfeitas as suas solicitações por parte do pároco, informe o Bispo diocesano. Pede-se vivamente ao Bispo que satisfaça o desejo deles. Se não puder dar provisão para tal celebração, refira-se o caso à Pontifícia Comissão «Ecclesia Dei».

Como fazer isso? Aqui vão algumas sugestões, mas primeiro tenha em mente estes pontos:

  1. Tire cópia de todas as correspondências.
  2. Seja organizado e, por favor, mantenha-se focado no único objetivo: estabelecer a Missa Tradicional.
  3. Seja polido e educado ao máximo que você puder.
  4. Olhe ao redor, tentando procurar qualquer problema que possa surgir. Sempre que antever algum problema busque logo a solução. Fique sempre um passo a frente do padre responsável, torne o caminho dele fácil.
  5. Não esqueça da importância da oração. Reze para que seu padre conceda seu pedido e as coisas aconteçam sem problema.

Continuar lendo

Resposta a Dom Henrique Soares

Com toda a vênia devida a um Sucessor dos Apóstolos e invocando o Cân. 212 do CDC, o qual me dá direito de manifestar as minhas necessidades aos Pastores e dar minha própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja, eu vou comentar um trecho de um texto de Dom Henrique Soares da Costa, na época, Pe. Henrique, sobre a Missa Gregoriana, ou Tridentina.

O texto se encontra aqui.

Escreve o atual Bispo de Palmares:

Há um endeusamento da Missa de São Pio V que é errado, fora de contexto e trai a grande tradição litúrgica da Igreja. A Igreja tem, teve e terá sempre o direito e o dever de modificar seus ritos, de acordo com as circunstâncias e o discernimento da legítima autoridade apostólica, desde que não fira a essência mesma da estrutura sacramental.

No livro A Reforma Litúrgica Romana, prefaciado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, o Monsenhor Klaus Gamber, ao analisar as reformas anteriores a de Paulo VI, chegou às seguintes conclusões: Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 4 – final)

Este é o último post desta série sobre a Septuagésima. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.

Tendo demonstrado a antiguidade e universalidade da Septuagésima nos vários ritos, vamos concluir destacando os temas mais usados pelas liturgias ocidentais e orientais neste período.

A leitura do Gênesis: meditação sobre a Queda do homem e a necessidade de Redenção

septuagesima-1Adão foi privado das delícias do Paraíso * pelo amargor do fruto; * sua gula o fez rejeitar * o mandamento do Senhor; * ele foi condenado a trabalhar * na terra da qual foi formado; * pelo suor da sua testa * foi obrigado a ganhar o pão que comia. * Olhemos para a temperança, para que não fiquemos, como ele, a chorar na porta do Paraíso; mas, antes, lutemos para nele entrar. (Kathisma das Matinas do Domingo da Tyrophagia, também conhecido como Domingo da Expulsão de Adão). Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 3)

A primeira parte desta série de posts pode ser lida aqui e a segunda aqui.

A síntese do jejum dos ninivitas e da semana sem carne: a extensão do tempo preparatório para três semanas

Já vimos que por volta do século VI o costume de que a Quaresma fosse precedida de uma semana com abstinência de carne estava bem estabelecido no Oriente e no Ocidente. O cânon 24 do Concílio de Orleans (511) prescrevia sua observância, indicando que ele já estava espalhado por toda a França merovíngia. Certas igrejas do Oriente adicionavam o jejum dos ninivitas na terceira semana anterior à Quaresma. Era natural, portanto, juntar esses dois períodos, estendendo o tempo preparatório para três semanas.

armenian-churchÉ possível que no Oriente a ponte litúrgica entre a Quaresma e o jejum dos ninivitas tenha sido construída na Armênia. A Septuagésima do rito armênio é chamada Aratchavor, e compreende três semanas, a primeira das quais é chamada Berekendam, “o último dia de gordura”. Essa semana é muito rigorosa, consagrada ao jejum dos Ninivitas, instituído por São Gregório o Iluminador no século IV. A segunda e a terceira semana são menos penitenciais, e o jejum é mantido apenas nas quartas e sextas-feiras. Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 2)

A primeira parte desta série pode ser lida aqui.

A semana da Quinquagésima, o jejum de Heráclito, a semana da Tyrophagia

Tanto no Ocidente quanto no Oriente, a semana imediatamente anterior à Quaresma assumiu um caráter penitencial bem cedo, começando com o corte da carne. A Igreja primitiva seguia uma dieta vegetariana durante toda a Quaresma, mas na semana citada (Quinquagésima no rito romano e Tyrophagia no bizantino), embora a carne já tivesse sido tirada, outros produtos de origem animal, como o leite e os ovos, ainda podiam ser consumidos.

le-christ-au-desert-servi-par-les-anges-philippe-de-champaignePara aprofundar nas origens desse costume, temos de considerar que a Quaresma dura sete semanas no Oriente e seis no Ocidente. No Oriente, onde não há jejum nos sábados (exceto no Sábado Santo) ou domingo, isso resulta em 36 dias de jejum. No Ocidente, onde o jejum é mantido nos sábados, mas nunca nos domingos, isso dava o mesmo número de dias no tempo anterior a São Gregório Magno. Para compensar os dias que faltam e fazer o número simbólico de 40, o número de dias do jejum de Cristo no deserto, os cristãos optaram por antecipar por uma semana o início oficial da Quaresma. Isso também foi feito em consideração à possível ocorrência de festas que deslocam o jejum, principalmente a Anunciação. Continuar lendo