Um grande exemplo de leitura expurgada do Lecionário paulino

Já trabalhei em outros dois textos (aqui e aqui) a comparação entre o lecionário do rito paulino e do rito romano tradicional, vamos agora a um exemplo concreto de um dos pontos que destaquei (de autoria de Peter Kwasniewski).

Uma das várias críticas que se fazem ao Lecionário do Novus Ordo é que ele não contém passagens que fizeram parte das leituras na missas durante séculos e séculos (e que ainda podem ser ouvidas onde se celebra no rito gregoriano) ou que editou pesadamente outras. Como percebe qualquer um que já olhou com atenção as leituras do rito paulino, pular versículos nessa forma litúrgica parece que era um passatempo dos seus “designers”, em especial quando a perícope tem muita “negatividade”.

Alguém pode então dizer:

– Vai se ter de pular algo se a intenção é incluir a maior quantidade possível da Bíblia, não é?   Continuar lendo

Ler mais a Bíblia na Missa é sempre melhor?

Tradução e adaptação deste texto.

O Lecionário multianual do Novus Ordo, que contém uma vasta quantidade de trechos da Escritura, é superior ao Lecionário anual do usus antiquior? Por muito tempo, essa pergunta dificilmente era levada a sério, pois se assumia que a resposta era um autoevidente “sim”. É gratificante, portanto, observar que mais e mais pessoas estão acordando para a seriedade da questão e realizando comparações e estudos, em vez de considerar, à moda moderna, que “maior” é “melhor”.

Décadas de experiência com os dois lecionários me levou, de fato, a uma conclusão oposta: o novo Lecionário é pesado e difícil de ter seu propósito entendido, enquanto o antigo ciclo de leituras é belamente proporcionado ao seu fim litúrgico e ao ritmo natural do ano. A repetição regular e reconfortante das leituras ajuda o fiel a absorver seus ensinamentos cada vez mais profundamente. Continuar lendo

Como estabelecer a Missa Tridentina na sua paróquia

Tradução, com adaptações, deste artigo.

Com o Motu Proprio Summorum Pontificumo Papa Bento XVI permitiu aos católicos pedir aos seus padres celebrem a tradicional Missa em latim. Diz o documento:

Art. 5-§ 1.  Nas paróquias, onde houver um grupo estável de fiéis aderentes à precedente tradição litúrgica, o pároco acolha de bom grado as suas solicitações de terem a celebração da Santa Missa segundo o rito do Missal Romano editado em 1962. Providencie para que o bem destes fiéis se harmonize com o cuidado pastoral ordinário da paróquia, sob a orientação do Bispo, como previsto no cân. 392, evitando a discórdia e favorecendo a unidade de toda a Igreja.

§ 2.  A celebração segundo o Missal do Beato  João XXIII pode realizar-se nos dias feriais; nos domingos e dias santos, também é possível uma celebração desse género.

§ 3.  Para os fiéis e sacerdotes que o solicitem, o pároco permita as celebrações nesta forma extraordinária também em circunstâncias particulares como matrimónios, funerais ou celebrações ocasionais como, por exemplo, peregrinações.

§ 4.  Os sacerdotes que utilizem o Missal do Beato  João XXIII devem ser idóneos e não estar juridicamente impedidos.

§ 5.  Nas igrejas que não são paroquiais nem conventuais, é competência do Reitor da Igreja conceder a licença acima citada.

Art. 6. Nas missas celebradas com o povo segundo o Missal do Beato  João XXIII, as leituras podem ser proclamadas também em língua vernácula, utilizando as edições reconhecidas pela Sé Apostólica.

Art. 7. Se um grupo de fiéis leigos, incluídos entre os mencionados no art. 5-§ 1, não vir satisfeitas as suas solicitações por parte do pároco, informe o Bispo diocesano. Pede-se vivamente ao Bispo que satisfaça o desejo deles. Se não puder dar provisão para tal celebração, refira-se o caso à Pontifícia Comissão «Ecclesia Dei».

Como fazer isso? Aqui vão algumas sugestões, mas primeiro tenha em mente estes pontos:

  1. Tire cópia de todas as correspondências.
  2. Seja organizado e, por favor, mantenha-se focado no único objetivo: estabelecer a Missa Tradicional.
  3. Seja polido e educado ao máximo que você puder.
  4. Olhe ao redor, tentando procurar qualquer problema que possa surgir. Sempre que antever algum problema busque logo a solução. Fique sempre um passo a frente do padre responsável, torne o caminho dele fácil.
  5. Não esqueça da importância da oração. Reze para que seu padre conceda seu pedido e as coisas aconteçam sem problema.

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A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 4 – final)

Este é o último post desta série sobre a Septuagésima. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.

Tendo demonstrado a antiguidade e universalidade da Septuagésima nos vários ritos, vamos concluir destacando os temas mais usados pelas liturgias ocidentais e orientais neste período.

A leitura do Gênesis: meditação sobre a Queda do homem e a necessidade de Redenção

septuagesima-1Adão foi privado das delícias do Paraíso * pelo amargor do fruto; * sua gula o fez rejeitar * o mandamento do Senhor; * ele foi condenado a trabalhar * na terra da qual foi formado; * pelo suor da sua testa * foi obrigado a ganhar o pão que comia. * Olhemos para a temperança, para que não fiquemos, como ele, a chorar na porta do Paraíso; mas, antes, lutemos para nele entrar. (Kathisma das Matinas do Domingo da Tyrophagia, também conhecido como Domingo da Expulsão de Adão). Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 3)

A primeira parte desta série de posts pode ser lida aqui e a segunda aqui.

A síntese do jejum dos ninivitas e da semana sem carne: a extensão do tempo preparatório para três semanas

Já vimos que por volta do século VI o costume de que a Quaresma fosse precedida de uma semana com abstinência de carne estava bem estabelecido no Oriente e no Ocidente. O cânon 24 do Concílio de Orleans (511) prescrevia sua observância, indicando que ele já estava espalhado por toda a França merovíngia. Certas igrejas do Oriente adicionavam o jejum dos ninivitas na terceira semana anterior à Quaresma. Era natural, portanto, juntar esses dois períodos, estendendo o tempo preparatório para três semanas.

armenian-churchÉ possível que no Oriente a ponte litúrgica entre a Quaresma e o jejum dos ninivitas tenha sido construída na Armênia. A Septuagésima do rito armênio é chamada Aratchavor, e compreende três semanas, a primeira das quais é chamada Berekendam, “o último dia de gordura”. Essa semana é muito rigorosa, consagrada ao jejum dos Ninivitas, instituído por São Gregório o Iluminador no século IV. A segunda e a terceira semana são menos penitenciais, e o jejum é mantido apenas nas quartas e sextas-feiras. Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 2)

A primeira parte desta série pode ser lida aqui.

A semana da Quinquagésima, o jejum de Heráclito, a semana da Tyrophagia

Tanto no Ocidente quanto no Oriente, a semana imediatamente anterior à Quaresma assumiu um caráter penitencial bem cedo, começando com o corte da carne. A Igreja primitiva seguia uma dieta vegetariana durante toda a Quaresma, mas na semana citada (Quinquagésima no rito romano e Tyrophagia no bizantino), embora a carne já tivesse sido tirada, outros produtos de origem animal, como o leite e os ovos, ainda podiam ser consumidos.

le-christ-au-desert-servi-par-les-anges-philippe-de-champaignePara aprofundar nas origens desse costume, temos de considerar que a Quaresma dura sete semanas no Oriente e seis no Ocidente. No Oriente, onde não há jejum nos sábados (exceto no Sábado Santo) ou domingo, isso resulta em 36 dias de jejum. No Ocidente, onde o jejum é mantido nos sábados, mas nunca nos domingos, isso dava o mesmo número de dias no tempo anterior a São Gregório Magno. Para compensar os dias que faltam e fazer o número simbólico de 40, o número de dias do jejum de Cristo no deserto, os cristãos optaram por antecipar por uma semana o início oficial da Quaresma. Isso também foi feito em consideração à possível ocorrência de festas que deslocam o jejum, principalmente a Anunciação. Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 1)

O New Liturgical Movement começou uma tradução de um artigo em francês sobre as origens e extensão do tempo da Septuagésima que vou verter, na medida das postagens do citado blog, para o português (sempre cotejando com o original). Aqui vai a primeira parte:

SeptuagésimaEm todas as liturgias cristãs, encontramos um período de preparação para o grande tempo de penitência que é a Quaresma, durante o qual os fieis são informados da chegada desse momento do ano litúrgico e da necessidade de iniciarem vagarosamente os exercícios ascéticos que devem fazer até a Páscoa. Regra geral, esse período preparatório dura três semanas. No rito romano, esses três domingos são chamados Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, nomes que derivam de um sistema usado na antiguidade que contava espaços de dez dias nos quais esses domingos caiam [nota do tradutor: se dividirmos as nove semanas que precedem a Páscoa em séries de dez dias, poderemos constatar que o primeiro dos nove domingos cai na sétima dezena, o segundo na sexta e o terceiro na quinta]. Eles precedem o Primeiro Domingo da Quaresma, que é chamado de Quadragésima em latim.

As igrejas de tradição siríaca e copta preservaram um estado de coisas mais antigo, composto de pequenos períodos de jejum, o Jejum dos Ninivitas e o Jejum de Heráclito, que provavelmente deram origem ao tempo de preparação para a Quaresma.

A lembrança da fragilidade humana, a meditação dos novíssimos, e, consequentemente, a oração pelos mortos, são elementos recorrentes nesse período litúrgico.

Inexplicavelmente [nota do tradutor: será mesmo?], o rito de Paulo VI suprimiu a Septuagésima do seu ano litúrgico, mesmo com toda a sua antiguidade e universalidade. Continuar lendo