Dois irmãos e um estranho

Tradução e adaptação de artigo publicado no New Liturgical Movement.

Para mim, e acho que para a maior parte dos tradicionalistas, é uma obviedade a proximidade espiritual entre a Divina Liturgia no rito bizantino e a Missa Romana tradicional, assim como também o é a distância que o Novus Ordo mantém da herança comum das duas formas litúrgicas citadas.

Contudo, às vezes encontramos católicos bizantinos que são levados pelas similaridades superficiais entre o rito bizantino e o Novus Ordo (por exemplo, a de que eles são celebrados geralmente em língua vernácula e em tom audível) e pelas diferenças marcantes entre a liturgia bizantina e o rito romano tradicional (por exemplo, a de que temos um silêncio muito maior no último e de que, aparentemente, as pessoas têm um papel mais “ativo” no primeiro), e acabam defendendo a ideia de que a Divina Liturgia é mais próxima espiritualmente do rito paulino e que, se tiverem de optar, o usus recensior será escolhido sobre o usus antiquior. Por outro lado, os protagonistas e apologistas da “reforma litúrgica romana” muitas vezes fingem ser admiradores da tradição oriental e gostam de apontar as muitas características aparentemente “orientais” da liturgia paulina.

Se é verdade, ao contrário do que acham essas pessoas, que a liturgia bizantina e a liturgia latina tradicional têm muito mais em comum entre si que com o Novus Ordo, demos poder apontar isso com precisão. Assim, proponho que isso pode ser constatado a partir dos seguintes princípios:

  1. O princípio da Tradição;
  2. O princípio do mistério;
  3. O princípio da linguagem elevada;
  4. O princípio da integridade ritual ou estabilidade;
  5. O princípio da densidade;
  6. O princípio da preparação adequada e repetida;
  7. O princípio da veracidade;
  8. O princípio da hierarquia;
  9. O princípio do paralelismo;
  10. O princípio da separação.

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Estrutura do Ofício Parvo

Dando continuidade à série de postagens sobre o Ofício Parvo, vou agora apresentar uma sistematização da organização dele:

Ofícios:

Existem três Ofícios:

  • O Primeiro, recitado a partir das Matinas do dia 3 de fevereiro até as Vésperas do sábado antes do 1° Domingo do Advento exclusive, com exceção da festa da Anunciação da Santíssima Virgem, na qual se reza o Ofício do Advento;
  • O Segundo, recitado desde as Vésperas do sábado anterior ao 1° Domingo do Advento até as Vésperas do Natal, exclusivamente, e nas Vésperas da festa da Anunciação de Nossa Senhora;
  • O Terceiro, reza-se desde as Vésperas da Vigília do Natal até as Completas do dia 2 de fevereiro inclusive.

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A culpa é dos pais…

No último dia 23 recebi a feliz notícia que um dos vocacionados saídos do grupo de fiéis ligados à liturgia romana tradicional aqui em Recife foi ordenado sacerdote na Alemanha como membro da Fraternidade de São Pedro. Cheguei a falar dele quando escrevi uma pequena história desse grupo em 2013; na época ele tinha recebido a batina, ato que segundo as normas canônicas antigas implicava na entrada do estado clerical (tais normas hoje só são simbólicas, gostem os traditional borings disso ou não). Há toda uma galeria de fotos da ordenação que pode ser acessada aqui. Continuar lendo

A Coleta: uma Oração

Tradução e adaptação de um texto do Pe. Paul Carr, publicado no informativo americano da Fraternidade de São Pedro de outubro de 2014, que trata da Coleta, uma das partes do Próprio da Missa no rito gregoriano:

É um infortúnio o fato de que a oração nem sempre é entendida ou apreciada o bastante por seu papel e valor na vida católica. Uma falácia comum é restringi-la a uma medida de emergência: em face de uma dificuldade ou perigo, se todas as outras possibilidades se esgotaram, aí falamos com Deus como último recurso. Uma outra limita a oração a não mais que dizer a Deus o que queremos que Ele faça por nós ou nos dê, tratando-O como um benfeitor celestial. Ainda há outro erro que confunde a oração com a recitação de orações, como se o valor da prece consistisse no número de palavras usadas ou no número de vezes em que ela foi recitada. Embora nenhuma dessas ideias seja completamente falsa, elas representam um quadro tão incompleto da verdadeira natureza da oração que podem limitar gravemente o bem que a prece pode fazer por nós, e o bem que podemos fazer através dela.

O entendimento da verdadeira natureza da oração é ainda mais importante quando consideramos nossa presença no Santo Sacrifício da Missa: se devemos evitar uma diminuição do sentido da oração nas nossas vidas pessoais, muito mais devemos quando assistimos ao culto solene que a Igreja, como Corpo Místico de Cristo, oferece ao Céu em união com seu divino Fundador e Cabeça. Se aplicarmos essas noções limitadas de oração à nossa participação durante a Santa Missa, veremos nascer nas almas uma postura do tipo “o que eu ganho aqui” ou uma ligação exagerada aos textos, à recitação das respostas, como se a participação fosse limitada a esse nível. Continuar lendo

Um pequeno vídeo sobre o rito de Lião

O apostolado da Fraternidade de São Pedro na cidade de Lião, França, que tem sua sede na Igreja Colegial de São Justo, além de oferecer a Missa no rito romano tradicional, também tem feito isso no rito leonês. Atualmente, ela é oferecida na forma rezada às 8h30min da manhã de todos os domingos e dias santos de guarda; o plano é que eventualmente ela também seja celebrada na forma cantada e na solene. Essa é uma iniciativa importante para a conservação de uma tradição litúrgica única, posto que a diocese de Lião foi uma das poucas sés francesas que continuaram com seus usos após a reforma tridentina, embora muitas modificações tenham sido feitas no período neo-galicano (São João Maria Vianney, o Cura D´Ars, celebrava nesse rito). Abaixo temos um pequeno vídeo que mostra a celebração entre o final do Cânon e a Fração:

Várias diferenças do uso romano podem ser notadas nessa filmagem. Em primeiro lugar, o sacerdote está segurando a hóstia sobre o cálice quando diz: “Per omnia saecula seculorum” no final do Cânon, a mantém nessa posição ao longo do Pai Nosso e eleva-a junto com o cálice quando fala “sicut in caelo”. Seguindo, ele deita a hóstia e o cálice, e coloca a parte de trás do corporal, que é muito mais largo que o romano, sobre o cálice (essa é a versão antiga da pala, que no uso romano e em alguns outros foi destacada do corporal e se tornou uma peça independente). O embolismo é recitado em voz alta na Missa rezada; ele deve ser cantado numa Missa cantada ou solene. O Agnus Dei é dito em voz alta logo após a Fração e o “Pax Domini”; por fim o padre coloca a partícula dentro do cálice dizendo “Haec commixtio”.

Apresentação do Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria

Texto de Theo Keller publicado na edição do Ofício Parvo da Baronius Press (com adaptações):

O Ofício Parvo da Bem-Aventurada Virgem Maria é um dos brevia parva, um pequeno breviário. Em termos mais claros: é um ofício divino reduzido retirado do Comum de Nossa Senhora do Breviário Romano. Ele contém as Matinas, as Laudes, a Prima, a Terça, a Sexta, a Noa, as Vésperas e as Completas, e foi organizado de modo a atender às necessidades devocionais e litúrgicas de muitos leigos e de um grande número de comunidades religiosas engajadas no apostolado ativo.

Alguns desses pequenos breviários são relativamente recente, sendo produtos do movimento litúrgico do começo e da metade do século XX. Já o Ofício Parvo da Bem-Aventura Virgem Maria, embora não seja o mais antigo, tem a honra de ser o mais popular entre eles.

Esse ofício foi a oração de centenas, talvez milhares de comunidades religiosas, a maioria delas, como já foi dito, envolvidas no apostolado ativo, mas também de algumas contemplativas, como as Irmãs da Visitação, que usavam o Ofício Parvo como sua principal forma de oração litúrgica. E geração após geração, existiram milhares de leigos, ligados a comunidades religiosas, como terciários ou oblatos, que também rezavam as Horas de Maria. Continuar lendo

O Missal de 1962 – Estável como uma rocha

Texto traduzido por Cláudio Loureiro e revisado por Thiago Santos de Moraes

[1] No Motu Proprio Ecclesia Dei, o Papa João Paulo II manifestou sua vontade de que o Missal de 1962 deveria ser acessível a todos os católicos ligados à liturgia tradicional. A Comissão  Ecclesia Dei, em Roma, desde o seu primeiro presidente, Cardeal Mayer, sucedido pelo Cardeal Innocenti, mostrou pouca simpatia e tem dado pouca ajuda para estes católicos  alcançarem suas legítimas aspirações. A Comissão agora está autorizando modificações naquele missal que certamente minarão qualquer credibilidade que ela ainda tenha depois de sua autoritária intervenção, favorável ao grupo minoritário, dentro da Fraternidade de São Pedro em 1999/2000. A seguir, apresentamos um artigo de Michael Davies em que ele explica a razão pela qual o Missal de 1962 deve ser considerado estável como uma rocha dentro do movimento de desintegração da Igreja no Ocidente e o motivo pelo qual deve ser defendido com toda a força contra a sua substituição pelo missal de 1965, da destruição de seu ethos sagrado pela introdução do Lecionário de 1970 e da a prática da Comunhão na mão. Ele coloca o que se faz hoje em perspectiva histórica, em particular com a maneira pela qual Thomas Cranmer condicionou o povo da Inglaterra a aceitar sua ordem de culto em 1552.

Comentando, em 1898, sobre a maneira pela qual Thomas Cranmer, o arcebispo apóstata da Cantuária, mutilou a Santa Missa removendo especificamente as orações com aspecto propiciatório, ao revisá-la para adequar o Sarum [2] à sua Ordem de Culto, os Bispos Católicos da Província de Wetsminster disseram:

Que antigamente as igrejas locais permitiam adicionar novas orações e cerimônias é algo conhecido… Agora, que essas, além disso, permitiam subtrair orações e cerimônias em uso prévio, e até mesmo remodelar os ritos existentes de maneira drástica, é uma afirmação que sabemos não ter fundamento histórico e nos parece totalmente falsa. Consequentemente, Cranmer, fazendo algo assim, sem os menores precedentes, em nossa opinião, o fez com precipitação inconcebível.(1)

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