A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 4 – final)

Este é o último post desta série sobre a Septuagésima. O primeiro pode ser lido aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.

Tendo demonstrado a antiguidade e universalidade da Septuagésima nos vários ritos, vamos concluir destacando os temas mais usados pelas liturgias ocidentais e orientais neste período.

A leitura do Gênesis: meditação sobre a Queda do homem e a necessidade de Redenção

septuagesima-1Adão foi privado das delícias do Paraíso * pelo amargor do fruto; * sua gula o fez rejeitar * o mandamento do Senhor; * ele foi condenado a trabalhar * na terra da qual foi formado; * pelo suor da sua testa * foi obrigado a ganhar o pão que comia. * Olhemos para a temperança, para que não fiquemos, como ele, a chorar na porta do Paraíso; mas, antes, lutemos para nele entrar. (Kathisma das Matinas do Domingo da Tyrophagia, também conhecido como Domingo da Expulsão de Adão). Continuar lendo

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A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 3)

A primeira parte desta série de posts pode ser lida aqui e a segunda aqui.

A síntese do jejum dos ninivitas e da semana sem carne: a extensão do tempo preparatório para três semanas

Já vimos que por volta do século VI o costume de que a Quaresma fosse precedida de uma semana com abstinência de carne estava bem estabelecido no Oriente e no Ocidente. O cânon 24 do Concílio de Orleans (511) prescrevia sua observância, indicando que ele já estava espalhado por toda a França merovíngia. Certas igrejas do Oriente adicionavam o jejum dos ninivitas na terceira semana anterior à Quaresma. Era natural, portanto, juntar esses dois períodos, estendendo o tempo preparatório para três semanas.

armenian-churchÉ possível que no Oriente a ponte litúrgica entre a Quaresma e o jejum dos ninivitas tenha sido construída na Armênia. A Septuagésima do rito armênio é chamada Aratchavor, e compreende três semanas, a primeira das quais é chamada Berekendam, “o último dia de gordura”. Essa semana é muito rigorosa, consagrada ao jejum dos Ninivitas, instituído por São Gregório o Iluminador no século IV. A segunda e a terceira semana são menos penitenciais, e o jejum é mantido apenas nas quartas e sextas-feiras. Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 2)

A primeira parte desta série pode ser lida aqui.

A semana da Quinquagésima, o jejum de Heráclito, a semana da Tyrophagia

Tanto no Ocidente quanto no Oriente, a semana imediatamente anterior à Quaresma assumiu um caráter penitencial bem cedo, começando com o corte da carne. A Igreja primitiva seguia uma dieta vegetariana durante toda a Quaresma, mas na semana citada (Quinquagésima no rito romano e Tyrophagia no bizantino), embora a carne já tivesse sido tirada, outros produtos de origem animal, como o leite e os ovos, ainda podiam ser consumidos.

le-christ-au-desert-servi-par-les-anges-philippe-de-champaignePara aprofundar nas origens desse costume, temos de considerar que a Quaresma dura sete semanas no Oriente e seis no Ocidente. No Oriente, onde não há jejum nos sábados (exceto no Sábado Santo) ou domingo, isso resulta em 36 dias de jejum. No Ocidente, onde o jejum é mantido nos sábados, mas nunca nos domingos, isso dava o mesmo número de dias no tempo anterior a São Gregório Magno. Para compensar os dias que faltam e fazer o número simbólico de 40, o número de dias do jejum de Cristo no deserto, os cristãos optaram por antecipar por uma semana o início oficial da Quaresma. Isso também foi feito em consideração à possível ocorrência de festas que deslocam o jejum, principalmente a Anunciação. Continuar lendo

A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 1)

O New Liturgical Movement começou uma tradução de um artigo em francês sobre as origens e extensão do tempo da Septuagésima que vou verter, na medida das postagens do citado blog, para o português (sempre cotejando com o original). Aqui vai a primeira parte:

SeptuagésimaEm todas as liturgias cristãs, encontramos um período de preparação para o grande tempo de penitência que é a Quaresma, durante o qual os fieis são informados da chegada desse momento do ano litúrgico e da necessidade de iniciarem vagarosamente os exercícios ascéticos que devem fazer até a Páscoa. Regra geral, esse período preparatório dura três semanas. No rito romano, esses três domingos são chamados Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, nomes que derivam de um sistema usado na antiguidade que contava espaços de dez dias nos quais esses domingos caiam [nota do tradutor: se dividirmos as nove semanas que precedem a Páscoa em séries de dez dias, poderemos constatar que o primeiro dos nove domingos cai na sétima dezena, o segundo na sexta e o terceiro na quinta]. Eles precedem o Primeiro Domingo da Quaresma, que é chamado de Quadragésima em latim.

As igrejas de tradição siríaca e copta preservaram um estado de coisas mais antigo, composto de pequenos períodos de jejum, o Jejum dos Ninivitas e o Jejum de Heráclito, que provavelmente deram origem ao tempo de preparação para a Quaresma.

A lembrança da fragilidade humana, a meditação dos novíssimos, e, consequentemente, a oração pelos mortos, são elementos recorrentes nesse período litúrgico.

Inexplicavelmente [nota do tradutor: será mesmo?], o rito de Paulo VI suprimiu a Septuagésima do seu ano litúrgico, mesmo com toda a sua antiguidade e universalidade. Continuar lendo

Comparando lecionários

Destacado

Tradução e adaptação de um artigo publicado no Athanasius Contra Mundum, quando este blog ainda era no Blogger, em abril de 2008 (hoje ele pode ser encontrado aqui e aqui):

Em comentário após comentário dos defensores do Novus Ordo, dos liberais aos neo-conservadores, um ponto que é sempre levantado em defesa das inovações pós-conciliares é a suposta superioridade do lecionário da liturgia moderna em comparação ao da tradicional. O argumento é mais ou menos assim: “Na medida em que a maior parte da Bíblia é lida no curso de três anos, os católicos têm contato com mais trechos da Escritura que na liturgia gregoriana, que possui apenas uma pequena seleção de leituras.” Continuar lendo

As Completas

Completas - imagemVou analisar as Completas do rito gregoriano (com base na tradução de um verbete da Enciclopédia Católica de 1967), falando de sua origem, temática e estrutura (gostaria de frisar a questão do rito, porque essa hora canônica pode ter, por exemplo, uma temática diferente a depender do rito em que se insira).

As Completas são a última oração do dia, fechando o ciclo litúrgico do Ofício Divino. Seu conteúdo indica que ela deve ser rezada pouco antes do recolhimento da noite. Como a Prima, as Completas se originaram em círculos monásticos. João Cassiano (+ 435) foi o primeiro a fazer alusão a elas. Ao descrever as práticas monásticas de seus dias, ele menciona que os monges orientais tinham o costume de nas noites de domingo se reunirem para cantar alguns Salmos no dormitório (De inst. cenob. 4.19; PL 49:79). A Regra de Aureliano de Arles (+ 585) dispõe que os monges devem recitar o Salmo XC e as Preces antes de se recolherem (PL 68:395, 405). Continuar lendo