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O levantamento da casula nas elevações: tocando a orla da veste de Cristo

Tradução e adaptação de um texto do Dr. Peter Kwasniewski:

Os que suportam sofrimentos e têm fé em Jesus Cristo querem ser curados por Ele de alguma forma, em algum nível. Nos Evangelhos a maneira óbvia de fazer isso era tocar o Divino Mestre ou ser tocado por Ele. Todos tinham visto que Jesus era poderoso para curar, que a cura “saía Dele” e, portanto, acotovelavam-se e empurravam-se para ver se podiam atrair Sua atenção, entrar em contato com Sua mão ou vestimenta, ou mesmo Sua sombra.

Vamos lembrar alguns desses momentos.

Existiram episódios em que Nosso Senhor tomou a iniciativa de tocar alguém:

Jesus estendeu a mão, toco-o e disse: “Eu quero, sê curado”. No mesmo instante, a lepra desapareceu.

— Mateus VIII, 3

Tomou-lhe a mão, e a febre a deixou. Ela levantou-se e pôs-se a servi-los.

— Mateus VIII, 15

Então, ele tocou-lhes nos olhos, dizendo: “Seja-vos feito segundo a vossa fé”. No mesmo instante, os seus olhos se abriram. Recomendou-lhes Jesus em tom severo: “Vede que ninguém o saiba”.

— Mateus IX, 29-30; também em Mateus XX, 34

Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo. Mas Jesus aproximou-se deles e tocou-os, dizendo: “Levantai-vos e não temais”.

— Mateus XVII, 6-7

Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo, rogando-lhe que lhe impusesse a mão. Jesus tomo-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e toucou-lhe a língua com saliva. E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: “Éfeta!”, que quer dizer “abre-te!”. No mesmo instante, os ouvidos se lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente.

— Marcos VII, 32-35

Trouxeram-lhe também criancinhas, para que eles as tocasse.

— Lucas XVIII, 15

Em outras passagens, lemos sobre pessoas que tomaram a iniciativa de tocar em Jesus:

Descendo com eles, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judeia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouví-lo e serem curadas de suas enfermidades. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres. Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos.

— Lucas VI, 17-19

As pessoas do lugar o reconheceram e mandaram anunciar por todos os arredores. Apresentaram-lhe, então, todos os doentes, rogando-lhe que ao menos deixasse tocar na orla de sua veste. E, todos aqueles que nele tocaram, foram curados.

— Mateus XIV, 35-36

Ora havia ali uma mulher que já por doze anos padecia de um fluxo de sangue. Sofrera muito nas mãos de vários médicos, gastando tudo que possuía, sem achar nenhum alívio; pelo contrário, piorava cada vez mais. Tendo ela ouvido falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou-lhe o manto. Dizia ela consigo: “Se tocar, ainda que seja na orla do seu manto, estarei curada”. Ora, no mesmo instante se lhe estancou a fonte de sangue, e ela teve a sensação de estar curada. Jesus percebeu imediatamente que saíra dele uma força e, voltando-se para o povo, perguntou: “Quem tocou minhas vestes?”. Responderam-lhe os seus discípulos: “Vês que a multidão te comprime e perguntas: Quem me tocou?”. E ele olhava em derredor para ver quem o fizera. Ora, a mulher, atemorizada e trêmula, sabendo o que nela se tinha passado, veio lançar-se a seus pés e contou-lhe toda a verdade. Mas ele lhe disse: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal”.

— Marcos V, 25-34; também em Mateus IX, 20-22 e Lucas VIII, 43-44 [1]

Na maneira como esse último episódio é relatado por São Marcos e São Lucas, a mulher chega por trás de Jesus e toca a “orla do seu manto”, um detalhe capturado numa pintura do século III que está na Catacumba de Marcelino e Pedro em Roma:

hemorroísa

Por que essa história nos comove e nos atrai? Porque a hemorroísa representa todos os homens. Todos nós gastamos nossa energia e dinheiro em remédios mundanos que nos decepcionaram, deixando-nos piores do que antes; estamos mais ou menos esperando que Cristo nos cure, mas lutando com o medo de ir a Ele ou de sermos vistos abertamente com Ele. O final feliz para a história dela é o que também desejamos, e por isso devemos imitar sua fé e ousadia.

Em duas passagens comoventes do seu Diário Espiritual, Sergius Bulgakov, que foi um padre ortodoxo russo, alude a essa relação:   

Das profundezas clamei a ti, ó Senhor [Sl. CXXIX, 1]. Quando a tristeza toma conta do coração e a tristeza desce sobre a alma, Tu, ó Senhor, só Tu és meu consolo e meu refúgio. Agarro-me à orla de tuas vestes [Mat. IX, 20], e minha dor diminui, e alegria, alegria agraciada, inunda meu coração. E sinto que nada pode tirar essa alegria de mim. Mas quando, em minha covardia, solto a bainha desta roupa, afogo-me [Mat. XIV, 30]. [2]

Mas sempre um sentimento de peso o oprime, um sentimento de impotência, de distância de Deus. Parece então que não é você quem está longe de Deus, mas Deus que está longe do mundo, e a incredulidade se insinua imperceptivelmente na alma e a preenche com sua solidão fria e gelada. Um coração frio e gelado está longe do Sol. Portanto, volte-se para Ele, segure firmemente a orla de Suas vestes com a mão [Mat. IX, 21]; desfaleça, mas deseje amá-lo mais do que a si mesmo, mais do que sua vida, mais do que o que é mais caro para você, esteja pronto para desistir de tudo, tudo por amor a Deus [Mat. X, 37]. E em seu coração um fogo se acenderá em resposta, o gelo derreterá, seus olhos ficarão umedecidos com lágrimas; o coração se inflamará e estremecerá, sentirá o cheiro da proximidade do céu. E mais uma vez você encontrará todos os seus entes queridos, e o mundo se iluminará em sua beleza, e a escuridão de sua alma se tornará a luz da alegria, e toda a sua alma cairá, em uma exaustão feliz, nas mãos de o Senhor. Ó Dulcíssimo Jesus, Esposo da minha alma, alegria eterna, entra no aposento da minha alma, fica comigo, ceia comigo [Apoc. III, 20], não me deixe. Eu te chamo, eu te amo, eu te imploro, Jesus, meu Senhor! [3]

Estas passagens oferecem um novo estímulo para a meditação sobre um dos inúmeros costumes que habitam a ampla esfera do rito romano tradicional, a saber, o costume do(s) acólito(s) ou diácono levantar a casula do sacerdote durante as elevações da Hóstia e do Cálice. Esse levantar da orla da túnica do sacerdote – isto é, tocar simbolicamente o poder de Cristo, o Sumo Sacerdote e Salvador – traz à mente todas as narrativas e insights teológicos citados.

Tendo uma origem prática, esse costume rapidamente adquiriu um sentido simbólico ou alegórico. Michael Fiedrowicz explica:

Elementos litúrgicos particulares que foram originalmente introduzidos por exigências práticas ou outras razões determinadas pela história podem assumir novos significados simbólicos em épocas posteriores, o que lhes permite transcender o tempo e torná-los dignos de proteção. Por exemplo, na elevação da Hóstia e do Cálice, segundo as instruções das rubricas, os acólitos levantam a casula do padre, o que era necessário originalmente devido ao desenho da casula sineira medieval e seu material pesado e ricamente ornamentado; hoje este costume mantém-se, apesar das formas modificadas das vestes, sobretudo pelo seu belo e simbólico significado quando se recorda a mulher com fluxo de sangue que foi curada ao tocar na orla do manto de Cristo (Mt IX, 20) e se vê neste gesto um símbolo do poder santificador que emana do Sacramento do Altar. [4]

Eu também comento sobre isso no meu livro Reclaiming Our Roman Catholic Birthright, quando explico a adequação da postura ad orientem:

O sacerdote celebrante, configurado a Cristo em virtude de sua ordenação, torna-se uma iconostase viva diante do altar: uma imagem que ali está, revelando-se não a si mesmo, mas ao Senhor. O tipo de casula habitualmente usada na liturgia tradicional é mais elaboradamente decorada nas costas porque é para ser vista por trás. O sacerdote desaparece no seu papel, de modo que quando os acólitos tocam na borda da casula nas elevações da Hóstia e do Cálice, sabemos que também nós, à imitação da mulher que padece o fluxo de sangue, podemos tocar as vestes de Cristo e ficar curados (cf. Mt IX, 20-21; Mt XIV, 36). Nesta dupla elevação, toda a criação, juntamente com o nosso coração, é elevada a Deus, restituída a Ele em ato e em promessa (36).

Isso tudo é familiar para muitos católicos, seja devido à experiência, seja devido ao contato com a literatura devocional do período anterior ao Vaticano II (definitivamente, após ‘8 de julho de 2021, temos aqui um comportamento marginal). 

Padre celebrando a Missa
Um padre celebrando a Missa, manuscrito de cerca de 1290 – 1310

Na maneira como a Missa romana se desenvolveu vemos, então, uma sequência sutil e judiciosa. Primeiro, pela mão do acólito, tocamos o Sumo Sacerdote externamente, segurando a orla de Seu manto. O leigo está duplamente removido: ele mesmo não toca na vestimenta; e, afinal, é apenas uma vestimenta, não a pessoa como tal. Em segundo lugar, por uma misericórdia que nunca seremos capazes de compreender, muito menos dar graças dignas nesta vida, aquele que tem uma consciência limpa pode se aproximar do Santo Banquete para tocar o próprio Senhor – ou melhor, para receber Sua carne glorificada, com Seu sangue redentor e Sua alma santíssima e Sua divindade vivificante, em seu próprio corpo e alma, indo muito, muito além de qualquer coisa que qualquer um dos sofredores nos Evangelhos jamais sonharam.

Por que essa ênfase em tocar o Senhor? Talvez a melhor resposta racional seja a do Cardeal Charles Journet:

Em um tempo determinado, não contente em alcançar os homens do fundo de sua luz inacessível, o próprio Deus começou a aparecer visivelmente no meio deles e a curar suas feridas pelo contato sensível de sua humanidade… Durante a vida temporal de nosso Salvador, a graça já começou a ser derramada sobre a Igreja, que ele reuniu em torno de si por seu contato santificador imediato…. Se Cristo tivesse permanecido entre nós [de acordo com Sua humanidade visível], ele teria sido capaz de ter um contato sensível apenas um pequeno número de homens; mas ao deixar este mundo ele poderia, por intermédio de uma hierarquia que ele envia através do espaço e do tempo, tocar corporalmente toda a humanidade…. E para que continue a aproximar-se de nós com a mesma intimidade dos dias da sua vida mortal, Jesus deixa no meio de nós a mediação dos poderes hierárquicos e dos ritos sacramentais, que prolongam o seu contato sensível com o mundo inteiro, e sob cuja espécie enviará a plenitude da graça e da verdade: “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os… ensinando-os…. Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,19-20). [5]

E novamente:

É a ação por contato que funda a Igreja em seu estado de plenitude e perfeição. É a ação por contato que Cristo procura multiplicar, em certo sentido, quando passa à outra margem do mar para curar o endemoninhado, quando percorre os caminhos da Judéia e da Galiléia, até os confins da Fenícia. É esse contato que ele quis continuar no tempo, quando, a ponto de nos deixar, instituiu uma hierarquia visível em nosso meio; de sua morada celestial ele usa essa hierarquia como instrumento corpóreo para manter esse contato sensível conosco (Mt 16,19). É este contato que ele deseja estender a todas as nações (Mt 28,19), até os confins da terra (At 1,8) e até o fim dos tempos (Mt 28,20), e que gera continuamente à sua Igreja. É este contato que, por meio dos sacramentos da Nova Lei – que são como as mãos de Cristo que se estendem até nós através do espaço e do tempo – nos confere (segundo nossa própria disposição) a santidade de Cristo, com toda a tesouros que são seus… É pelo contato dos sacramentos que a graça totalmente crística, totalmente conformada a Cristo e totalmente conformada a Cristo vem à Igreja. [6]

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É precisamente na manutenção dessa admirável pedagogia da Missa que o dom da íntima união com o Senhor nos impressiona ainda mais pela visão inicial de um acólito levantando a casula do sacerdote. A “distância” entre nós e o santuário, a natureza vicária do que está sendo feito em nosso nome, é uma espécie de antecipação e símbolo da proximidade e cura que esperamos obter. [7] Pode até ser visto como um símbolo de nosso desejo de ajudar o Senhor na oferta de Si mesmo, à medida que entramos mais profundamente em Seu ato de sacrifício redentor, “completando em [nossa] carne o que falta às aflições de Cristo por amor de Seu corpo, isto é, a Igreja” (Colossenses I, 24).

O Senhor confrontou Seus inimigos com estas palavras: “Ai de vós também, doutores da lei, porque carregais os homens com fardos que eles não podem suportar, e vós mesmos não tocais nos fardos com um de seus dedos” (Lucas XI, 46). Deus Pai nos carrega com fardos, mas nossos fardos são suportáveis – e Ele mesmo nos toca com o dedo, com o Espírito Santo e com a Santa Eucaristia – para garantir que possamos carregar nossa cruz até a glória.

[1] É delicioso comparar como São Lucas conta a mesma história e ver as diferenças: “Ora, uma mulher que padecia dum fluxo de sangue havia doze anos, e tinha gasto com médicos todos os seus bens, sem que nenhum a pudesse curar, aproximou-se dele por detrás e tocou-lhe a orla do manto; e, no mesmo instante, lhe parou o fluxo de sangue. Jesus perguntou: ‘Quem foi que me tocou?’ Como todos negassem, Pedro e os que com ele estavam disseram: ‘Mestre, a multidão te aperta de todos os lados…’ Jesus replicou: ‘Alguém me tocou, porque percebi sair de mim uma força’. A mulher viu-se descoberta e foi tremendo e prostou-se aos seus pés; e declarou diante de todo o povo o motivo por que o havia tocado, e como logo ficara curada. Jesus disse-lhe: ‘Minha filha, tu fé te salvou; vai em paz’” (Lucas VIII, 43-48).

[2] Sergius Bulgakov, Diário Espiritual, ed. e trans. Mark Roosien e Roberto J. De la Noval (Brooklyn: Angelico Press, 2022), 55.

[3] Ibid., 99.

[4] Michael Fiedrowicz, A Missa Tradicional: História, Forma e Teologia do Rito Romano Clássico, trad. Rose Pfeifer (Brooklyn: Angelico Press, 2020), 212. Joseph Shaw observa: “Um antropólogo diria que este é um fato da vida sobre a cultura: os significados geralmente se vinculam às práticas, e não o contrário. Um cristão poderia atribuir esse tipo de desenvolvimento à Providência Divina. Em nenhum dos casos, trata-se de um significado infinitamente maleável: o contexto estabelece limites para o que faz sentido, e as formas posteriores de entendê-lo se baseiam nas anteriores. Quanto mais esse desenvolvimento prossegue, mais significado há para o adorador descobrir, e também mais detalhado o contexto para comentaristas posteriores.”

[5] Charles Journet, A Teologia da Igreja, trad. Victor Szczurek (São Francisco: Ignatius Press, 2004), 44–47.

[6] Ibid., 72–73.

[7] Veja minha palestra “A relação entre o sacerdote e as pessoas na missa latina: espaço e tempo para a intimidade divina”.

Nota do tradutor: já tinha ouvido falar que o significado do levantamento da casula era o de que temos de levar nossa cruz particular com a ajuda de Cristo, mas me parece que essa perspectiva está inclusa no que foi exposto no texto acima. 

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