O neoconservadorismo é um sintoma da crise

Texto de Joathas Bello publicado originalmente no Facebook:

quote“Quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” (Gl 3,1).

Há um tempo eu brinquei que os “continuístas” seriam, em seu tempo, defensores dos diabólicos Estêvão VI ou Alexandre VI. E não é que, na última semana, eu vi defesas entusiastas do último [que Daniel-Rops qualifica como “o pontificado mais deplorável de toda a história” – o historiador faleceu em 1965…]?!

O catolicismo moderno – não a Igreja em sua realidade essencial [que inclui seu magistério infalível e seus grandes santos, que são sua verdadeira voz e sua verdadeira face] – tornou-se um sistema idealista e legalista. A Fé tradicional ou “entregue” pelos antepassados foi reduzida socialmente a um sistema de ideias, garantido pela autoridade papal, numa sorte de agnosticismo imanentista, que não conhece mais a sabedoria mística, mas apenas uma devoção sentimental e uma meditação racional de permanentes principiantes infantilizados.

Agora, a outra face de uma tal ignorância da Encarnação e da Cruz de Cristo será necessariamente a gnose irracionalista ou fideísta que irá idolatrar a autoridade eclesiástica do papa. Se ele tem opções políticas claramente nocivas (seja o “ralliement” de Leão XIII ou o acordo atual com a China), ele “tem o conhecimento de elementos que nós não dispomos” (sic). Se ele argumenta de modo patentemente irracional, em conclusões que não envolvem qualquer mistério sobrenatural, mas que relativizam a verdade bem conhecida dos princípios (seja em passagens de Dignitatis Humanae, seja na nova pastoral de Amoris Laetitia, seja na mudança do Catecismo sobre a pena de morte), então “eu prefiro errar com o papa do que ser desobediente!” (sic), ou “ele tem o Espírito Santo, e vc não entende sua profundidade!” (sic).

Ah, meus irmãos! Quem os autorizou a se portarem como uns insensatos?! Recuperem a luz da inteligência, caríssimos, porque sem ela não pode brilhar a luz da Fé, nem o fogo da Caridade pode infundir a necessária coragem para enfrentar o mundo que invadiu a Igreja!

Refletindo sobre a colonização

Quando o Conde esquece sua fixação contra Bolsonaro, ele volta a escrever coisas interessantíssimas, como fez recentemente (na aba “comunidade” de seu canal) ao refletir sobre a colonização ibérica na América (foram três postagens, que coloco em sequência, sendo cada uma equivalente a um parágrafo):

quoteNada mais irritante, nada mais artificial, nada mais forçado do que o chororô esquerdista pela cultura indígena anterior à colonização portuguesa e espanhola na América. A Igreja Católica fez um favor tremendo aos índios ao abolirem práticas abomináveis como os sacrifícios humanos e o canibalismo. Inclusive, quando os valorosos soldados de Hernan Cortéz, com seus morriões, espadas e mosquetões chegaram ao México, os povos índios mais oprimidos pelos rituais sanguinários dos aztecas se alinharam ao invasor espanhol. Os massacres da conquista do México por Cortez partiram de tribos rivais, aliadas dos espanhóis, que queriam se vingar das atrocidades aztecas. Depois, os dominicanos, franciscanos e jesuítas fizeram um trabalho revolucionário de converter um povo de assassinos e canibais em fiéis seguidores de Cristo. Os monges também combateram duramente a crueldade de alguns soldados e aventureiros espanhóis. A mudança espiritual chega a ser dramática. Os povos das missões, em poucos séculos, sabiam esculpir a carpintaria, criar arte, compor músicas e ler, além de rezar em latim. Quando não, na língua nativa. Os jesuítas ensinaram a música da Europa aos índios. E muito da música sacra colonial latino-americana era cantada em guarani, quéchua e nauatl. Nas terras portuguesas, gente do quilate de Anchieta convertia os índios com o teatro. Foram os jesuítas que combateram a escravidão indígena e a crueldade dos Bandeirantes. Inclusive, tanto os reis de Portugal e Espanha criaram leis de proteção aos índios, como ainda o direito das missões de se armarem contra os invasores. A missão era jurisdição da Igreja. É espantoso que nas guerras de independência na América Latina, os indígenas foram o braço armado mais leal da igreja e da monarquia espanhola. Lutaram contra a elite “criolla”, influenciada pelo liberalismo e pela maçonaria. A luta pela “independência” foi, na verdade, uma guerra civil. A vitória e a traição da elite criolla alimentou ainda mais o mito forjado da “leyenda negra” espanhola. Era preciso demonizar o passado imperial hispânico, justificar o processo de independência e legitimar o poder das oligarquias liberais e anglófilas vitoriosas. O indigenismo é filho da revolução liberal, como instrumento de propaganda ideológica, ainda que historicamente falsa. O paradoxo do “indigenismo” é que o índio era exaltado na retórica, quando na prática era massacrado em seus países. A esquerda, no século XX, radicalizou esse processo, nas crenças racistas de comunistas militantes como o peruano Carlos Mariatégui e outros. Culturas que praticam o canibalismo e o sacrifício humano não devem ser respeitadas. Devem ser extintas. A civilização hispânica (ou ibérica, como queiramos) salvou a América do atraso civilizatório e da crueldade. Os índios latino-americanos conscientes de sua tradição católica,, como os nativos do Pará e do Amazonas, agradecem pelos braços soldados de Cristo, que trouxeram o maravilhoso patrimônio da civilização hispânica. Continuar lendo

Leituras selecionadas (08/2021)

Nota

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