Este post faz parte de uma série que apresenta lições alternativas para as Matinas do Ofício Parvo.
Sermão de Santo Agostinho (1)
O beato apóstolo Tiago dirige-se a ouvintes assíduos da palavra de Deus, dizendo: Sede executores da palavra e não ouvintes apenas, iludindo a vós próprios (2). Com efeito, estais enganando não àquele de quem é a palavra ou àquele por quem é transmitida, senão a vós mesmos.
Todos nós devemos praticar a palavra exterior e interiormente, em presença de Deus. Como praticá-la interiormente? Quem olhar para uma mulher com cobiça já pecou com ela em seu coração (3). E pode ser adúltero sem que nenhum homem o veja, e Deus o castiga. Quem, pois, executa interiormente a palavra? Quem vê sem cobiça. Quem a pratica exteriormente? Rompe teu pão com quem tem fome (4). Realmente, quando fazemos isto, nosso próximo também o vê: mas com que intenção o fazemos, só Deus o vê.
Portanto, meus irmãos, sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando a vós mesmos, não a Deus nem ao pregador. Com efeito, eu ou qualquer que vos pregue a palavra, não vemos vosso coração; não podemos julgar o que pensais. O que o homem não pode ver, vê-o Deus de quem não pode esconder-se o coração humano. Vê com que interesse escutas, o que pensas, a que estás apegado, teu aproveitamento com seus auxílios, teu empenho na oração, como imploras a Deus o que te falta, como dás graças do que tens: sabe-o ele, que há de pedir contas. Podemos distribuir o dinheiro do Senhor, e há de vir o que toma contas, que disse : “Servo mau devias dar meu dinheiro aos banqueiros e, ao voltar, recebê-lo-ia com juros.” (5)
Portanto, meus irmãos, não vos enganeis a vós mesmos, porque viestes assiduamente escutar a palavra, se, por negligência, não a praticais. Refleti: se merece elogio o escutar, quanto mais o cumprir! Se não escutas, desprezas a pregação, nada constróis. Se escutas e não pões em prática, constróis ruínas. A este respeito, é mui pertinente a comparação de Cristo Nosso Senhor: Quem ouve minhas palavras e as pratica, compará-lo-ei ao homem prudente que constrói sua casa sobre pedra. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos, e atiraram-se contra aquela casa, e não caiu. Por que não caiu? Porque estava assentada sobre pedra. (6)
Portanto, escutar e pôr em prática, e edificar sobre pedra.
(1) Sermão C LXXIX, 1 e 7-8.
(2) Tg., 1, 22.
(3) Mt., 5, 28.
(4) Is., 58, 7.
(5 ) Mt. , 25, 27.
( 6 ) Mt., 7, 24-25.