A filosofia de São Boaventura

Apresento abaixo uma tradução de meu confrade Ricardo do Orkut:

sao-boaventura-ofmI. Vida e obras

Boaventura (nascido Giovanni di Fidanza) nasceu em Bagnorea em 1221 e entrou na Ordem Franciscana provavelmente em 1243. Estudou na Universidade de Paris, onde foi discípulo de Alexandre de Hales – o primeiro mestre franciscano da universidade. Mais tarde Boaventura sucedeu seu mestre na cadeira de filosofia. Ensinou na universidade entre 1248 e 1255 e tomou parte, junto com Tomás de Aquino, no debate contra William de Saint Amour, adversário dos frades mendicantes.

Em outubro de 1257 o título de Doutor foi-lhe conferido na universidade. Nomeado Geral da Ordem no mesmo ano, deixou seus estudos para devotar-se aos problemas dos franciscanos. Nesse tempo escreveu as novas Constituições da Ordem e a biografia de São Francisco de Assis que ajudou a pacificar várias controvérsias entre os franciscanos.

Em 1273 foi nomeado Cardeal e Bispo de Alvano. Morreu em Lião em 1274 enquanto o Concílio estava ainda em sessão. Boaventura foi honrado com o título de “Doctor Seraphicus”.

Suas principais obras são: Comentários aos Quatro Livros das Sentenças de Pedro Lombardo; Itinerarium mentis in Deum; De reductione artium ad theologiam; e o Breviloquium.

II. Doutrina: noções gerais

Boaventura teorizou o que, de uma maneira prática, estava refletido na vida de São Francisco de Assis. Francisco foi inteiramente consumido pelo amor de Deus e do Cristo crucificado; seu estigma sagrado, visível no corpo, foi uma manifestação do que já existia nas profundezas de sua santidade. Em sua união mística com Deus e com Cristo, São Francisco deixou as bases da fraternidade não apenas com homens, mas com todos os seres, e os mundos humano e físico foram revelados aos seus olhos como santuários onde tudo fala sobre Deus.

Boaventura queria teorizar na vida do Poverello e criar assim um sistema perfeito da vida cristã. Nesse empreendimento não assimilou os ensinamentos do racionalismo especulativo de Aristóteles, mas voltou-se para o agostinianismo, o qual gozava de grande autoridade na tradição da Igreja. Seu voluntarismo, que coloca o amor de Deus no centro de toda atividade; sua teoria da iluminação, que torna Deus presente na alma; seu exemplarismo, que revela uma imagem de Deus e de Seus atributos em cada uma das criaturas – todos esses motivos que, além da especulação racional, falam-nos vivamente sobre o que deve ser o ideal de vida cristã.

São Boaventura não era oposto ao pensamento de Aristóteles, e inclusive o aceitava em parte. Mas sua preferência é por Santo Agostinho, e traça todos os motivos do agostinianismo – no qual todas as coisas, externas ou internas, materiais ou espirituais, falam-nos sobre Deus; seguindo Agostinho, Boaventura sustenta que o fim de toda atividade humana é a contemplação ou união mística com Deus.

Em resumo, Boaventura mostra aos cristãos que tipo de vida eles devem ter se querem atingir seu destino. Essa é a função histórica do misticismo de Boaventura, o qual é importante na ordem espiritual como o aristotelismo de Tomás de Aquino é na ordem da filosofia racional.

III. Teoria do conhecimento

Boaventura admite três degraus do conhecimento:

 O primeiro degrau é o conhecimento do particular, do individual. Por este primeiro degrau, a experiência sensível correspondente ao sentidos físicos, é indispensável.

O segundo degrau consiste no conhecimento do universal, das ideias, e do que adquirimos refletindo sobre nós mesmos. Esse conhecimento não vem da abstração como ensinam Aristóteles e Tomás de Aquino, mas da iluminação. Essa iluminação é, para Boaventura, o resultado de uma cooperação imediata de Deus. O intelecto precisa dessa cooperação ou iluminação para alcançar o inteligível.

O terceiro degrau é o entendimento de coisas superiores a nós – Deus. Esse tipo de conhecimento pode ser obtido pela contemplação. “O olhar da contemplação não funciona perfeitamente senão em estado de glória, o qual é perdido pelo homem através do pecado e recuperado pela graça, fé e entendimento das Escrituras. Assim a mente humana é purificada, iluminada, e atraída para a contemplação das coisas celestes. Tudo isso está além do alcance do homem caído, a menos que ele reconheça seus defeitos e ignorância. Mas isso só pode ser feito mediante a consideração da natureza humana caída” (Breviloquium, II, 12).

IV. Metafísica

Boaventura aceita os princípios aristotélicos de matéria e forma, mas vai muito além na interpretação deles. A matéria, criada por Deus, tem sua própria forma, distinta das outras formas ou determinações que unem-se a ela. Além disso, ela contém sementes de todas essas determinações (é a doutrina das “rationes seminales” de Sto. Agostinho).

A matéria é uma constituinte essencial de toda criatura, mesmo daquelas que são ditas incorpóreas, como as almas humanas e os anjos. A matéria das substâncias incorpóreas, em acordo com as formas que recebem, é matéria espiritual (“materia spiritualis”), a qual expressa o que há de contingente e limitado em todo ser finito. Boaventura admite em todo corpo uma pluralidade de formas. Então, além da forma que é própria da matéria, em todo corpo há tantas formas quanto há propriedades essenciais, todas postas numa ordem hierárquica; quer dizer, as formas inferiores são subordinadas pelas superiores.

V. Cosmologia

Em sua cosmologia, Boaventura não aceita os conceitos aristotélicos de eternidade do mundo ou da matéria como co-eternas a Deus. O mundo tem sua origem no ato criativo no tempo; a criação “ab aeterno” é uma contradição. Deus, que criou a matéria, colocou nela as sementes ou razões de todas as determinações que pode assumir (“rationes seminales”).

VI. Psicologia

Em psicologia, Boaventura separa-se do aristotelismo não apenas no fato do conhecimento, como vimos, mas também na relação da alma com o corpo e da alma com suas faculdades.

Para Boaventura a alma é, por sua natureza, composta de forma e matéria (matéria espiritual), e consequentemente é uma sustância completa, independente do corpo. O corpo, por sua vez, é composto de matéria e forma (vegetativa e sensitiva), mas aspira ser informado pela forma racional. Nessa aspiração e coordenação consiste a unidade do indivíduo.

Sem dúvida, a unidade da pessoa não é intimamente proclamada como no aristotelismo; mas o ensinamento de Boaventura evite o perigo em que caiu o aristotelismo com sua teoria da forma imanente, fazendo da alma dependente do corpo até em seu destino. Tal perigo não pode existir em Boaventura, para quem a alma é uma substância completa em si mesma e não indissoluvelmente unida ao corpo.

Quanto às faculdades da alma, Boaventura, de acordo com Sto. Agostinho, distingue três – a vontade, o entendimento e a memória intelectiva. Para Boaventura as faculdades são expressões de uma e mesma alma, a qual é possuidora de três atividades diversas; entre a alma e suas faculdades há meramente uma distinção lógica. No aristotelismo as faculdades são qualidades da alma e realmente distintas dela. Boaventura sustenta que, entre as faculdades, a vontade possui o primado sobre as outras; portanto é necessário amar se queremos entender.

Essa lei é aplicada ao nosso conhecimento de Deus: é necessário estar unido a Deus pela fé e graça para conhecê-Lo e a Seus atributos. O processo desse conhecimento é descrito no Itinerarium mentis in Deum. Há três degraus ou etapas pelos quais a alma passa em sua ascenção a Deus:

A primeira etapa é chamada “vestigium”, que é a impressão de Si que Deus deixou nas coisas materiais fora de nós.

A segunda etapa é a “imago”, ou a reflexão da alma sobre si mesma, pela qual, vendo suas três faculdades – vontade, intelecto e memória – o homem discerne a imagem de Deus.

A terceira etapa é a “similitudo”, ou a consideração de Deus em Si mesmo. Considerando a ideia do ser perfeitíssimo, podemos conceber a unidade de Deus (é o argumento ontológico de Sto. Anselmo, que Boaventura admite como válido); e do conceito de bondade infinita alcançamos a consideração da Trindade. Em “similitudo” a alma atinge a união mística, o supremo grau de amor entre a criatura e seu Criador.

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