Um Papa lusitano na história do nominalismo

João XXI - Petrus Hispanus

João XXI – Petrus Hispanus

Artigo do Pe. J. de Castro Nery, publicado na Revista Eclesiástica Brasileira em setembro de 1946 (com pequenas modificações de estilo e ortografia):

Na história da filosofia não figuram apenas os grandes pensadores, os que poderiam ser denominados generalíssimos das idéias. Também por vezes os soldados obscuros, confundidos com a massa anônima, sobreestão àqueles pela influência, direta ou indireta, que exercem no desenvolvimento do sistema.

É pouco mais ou menos o que aconteceu a um português, quase esquecido nas grandes histórias, tão esquecido que, na maior parte das vezes, apenas se encontra citado nalgum parágrafo secundário ou nalguma nota erudita dos rodapés. Referimo-nos a Pedro Julião de Lisboa, que Prantl (1) considerava simples copista de Psellus, mas que a crítica moderna parece decidida a julgar como um dos auxiliares mais em vista do movimento filosófico, desde o final do século XIII até o fim da Renascença.

Pedro Julião, ou Petrus Hispanus, mais tarde Papa sob o nome de João XXI, estudara em Paris, fora médico e professor em Siena. Discípulo de Shyreswood (2), contemporâneo de estudos de Rogério Bacon, ouvinte de Santo Alberto Magno na universidade parisiense, tornou-se conhecido pela competência em três domínios diferentes: ciências naturais, psicologia e lógica. Como naturalista, escrevera o Thesaurus pauperum, que foi um dos repositórios de observações mais estimadas durante a Idade Média (3). Psicólogo, compusera o De Anima, que um historiador severo como é Martin Grabmann considera como “a mais importantes de todas as monografias escolásticas sobre a teoria da alma durante o século XIII”, e a respeito da qual escreve: “Não tenho dúvida em considerá-lo o mais completo exemplar de psicologia sistemática que nos foi legado pela época do esplendor da Escolástica” (4). Como lógico, deixou essas famosas Summulae Logicales, que são objeto deste artigo.

Pedro Julião (5) era um fervoroso discípulo de S. Tomás, e é provável mesmo que o tivesse escutado em Paris, pois aparece como uma das personagens intervindas no processo movido por Pedro de Corbeil contra certos autores mais em voga por esse tempo. Mas o filósofo ulissiponense, sem o querer talvez, concorreu para dar aos estudos filosóficos uma orientação que os grandes metafísicos da Escolástica muito provavelmente não aprovariam.

A lógica velha, como aliás a lógica aristotélica, estava intimamente soldada com a metafísica. Pedro Julião separa as duas disciplinas filosóficas. Considera a lógica “nova” um todo independente, ars artium et scientia scientiarum, que “abria caminho para os princípios de todos os métodos e para os princípios de todas as ciências”. De acordo com esta orientação, os torneios dialéticos se tornaram uma das preocupações mais importantes na filosofia; o estudo das propriedades dos termos, e da ligação destes com a gramática, surge como uma das funções mais explícitas do filosofar; o exame e a solução dos sofismas aparece como uma das finalidades máximas. Pedro Julião, que se liberta das autoridades árabes na exposição da ciência lógica, desenvolve toda uma parte original, sem correspondentes na obra de Aristóteles, Porfírio ou Boécio, nulli speciali libro correspondes, tratando das “suposições, ampliações, apelações, obrigações e questões insolúveis”.

Era uma novidade filosófica; e o sucesso alcançado pelas súmulas logicais foi extraordinário. Todas as universidades do continente e das ilhas adotaram o volume. Na longínqua Bizâncio, Georgios Scholarius traduz, reproduzindo-o textualmente, o compêndio do lógico lisboeta. No primeiro século da imprensa, o volume alcança um recorde editorial, tendo nada menos que quarenta e oito edições.

Durante três séculos, as súmulas logicais foram o manual mais estudado pelas várias correntes de filosofia, tomista, escotista e nominalista. Principalmente pela corrente nominalista.

E por que?  Porque o nominalismo tinha muito de comum com a orientação geral do programa estabelecido por Pedro Julião. Em primeiro lugar, restringia o campo da metafísica e cooperava na intenção simplificadora dos nominais. Depois, insistia nas noções de “suposição” e “significação” que eram uma das plataformas de combate assentadas pelo nominalismo. Enfim, pelo livre acesso às sutilezas, às argúcias, aos sinkategoremata, de que se vangloriavam os mestres da escola nominalista.

Ocam, para nos referirmos ao maior deles, dava grande apreço aos parva logicalia de Pedro Julião. Adotava-lhe toda a terminologia, e mandava que a ela se afizessem os discípulos. Para Ocam, como Petrus Hispanus, a lógica é “um instrumento adequado a toda filosofia”. Aproveitando-se habilmente das inovações do português, o venerável bacharel de Oxford afirmava que todo conhecimento não passa de um “sinal”, fazendo as vezes do objeto, e que os conceitos abstratos tomam o lugar dos objetos realmente existentes fora de nós mesmos.

Tais simpatias pela obra do lógico português não cessaram com a morte de Ocam; prosseguiram através das escolas, até o fim da Renascença. Em Oxford, berço do nominalismo, o gosto das sutilezas intensifica-se nos Sophismata de Cleymeton Langley, publicados em 1350, e nos dois tratados de lógica compostos por Dumbleton, do Merton College. A tal ponto os ingleses, adestrados pela ciência logical, se tornaram peritos na esgrima dialética que um dia se gloriavam da nímia sutileza da sua filosofia, mira scientiae logicalis subtilitas.

Em Paris, onde Pedro Julião estudara, e chegara mesmo a prelecionar, o entusiasmo para com as agudezas chegou a tal auge que o Papa João XXII julgou necessário intervir, mandando carta de recriminação aos professores da universidade, e reprovando as doutrinas sofísticas, assim introduzidas no currículo escolar, extranece doctrinae sophisticae. Houve mais. A própria universidade alarmou-se, censurando o desleixo da metafísica e o apego à formalística de Petrus Hispanus. Era tarde, porém, para uma eliminação definitiva do lusitano. Buridan, que foi um dos mestres mais acatados do nominalismo, eleito reitor da Universidade, teve um de seus atos mais típicos, restaurando, reeditando e comentando as súmulas de Petrus Hispanus.

Fatos análogos aconteceram nas demais universidades européias. Henrique de Oyta, instalado em Viena e Praga, repõe Petrus Hispanus no lugar de mestre das novas gerações nominalistas. O estatuto universitário, de 1390, exige que o candidato aos estudos superiores tenhapassado antes pelas súmulas do escritor ibérico. O prestígio de Petrus Hispanus não empalideceu nem mesmo com os derradeiros defensores do nominalismo. João Escoto Maior, esse mesmo que foi vítimas das zombarias de Rabelais, não desdenhou, à volta de 1505, escrever todo um comentário às súmulas de Pedro Espanhol. Em pleno Portugal de D. João III, o grande escolástico Margallo (6) fundamenta a sua lógica nos tratados de Petrus Hispanus. O prestígio destas súmulas só desapareceu quando o chefe da escola conumbrincense, denominado “Aristóteles português”, o grande Pedro Fonseca (7), escreveu os oito livros das Intituições Dialéticas.

Na verdade, Pedro Julião tinha sido um auxiliar involuntário do nominalismo, um cooperador indireto, um filósofo que entrara na contenda por favorecer certos  pendores da escola nominalista. Isso não lhe diminuiu o valor no conceito dos contemporâneos. Na lápide de seu túmulo se inscreveram estas palavras qui lusitani fuerat lux maxima regni. E não foi apenas para Portugal. Dante, que era tomista, não se esqueceu do Summulator na Divina Comédia, e não se esqueceu num dos momentos mais empolgantes da excursão paradisíaca, quando S. Boaventura faz o elogio da ordem dominicana e apresenta aos viajantes do além seus companheiros de glória, Hugo de S. Vítor, o gramático Donato e especialmente Pietro Hispano “lo qual giù luce in dodice libelli”, que, na terra, respalndeceu por motivo das suas súmulas logicais em doze livros (8).

(1) K. Prantl, Michel Psellus und Petrus Hispanus, Leipzig, 1927. V. Rose, Pseudo-Psellus und Petrus Hispanus, Hermes, vol. II, 1867.

(2) Guilherme Shyreswood, falecido em 1249.

(3) Notulae P. Hispani super regimen acutorum; Glosae magistrae P. Hispani super prognosticon; Tractatus a magistro P. Hispano super libro de dietis universalibus; Quaestiones super libro de urina; Quaestiones de crisi et super libro de diebus decretoriis; Quaestionis super libro de animalibus Aristotelis. Cfr. Berger, Die Ophtalmologie (Liber de Oculo) des Petrus Hispanus, Muenchen, 1889.

(4) Cfr. M. Grabmann, Ein ungedrucktes Lehrbuch der Psychologie des Petrus Hispanus (Papst Johanes XXI) in cod. 3314 der Biblioteca Nacional zu Madrid, in Spanische Forschungen der Goerresgesellschaft, série I, vol. I, Münster, 1928. Cit. por Lothar Thomas, Contribuição para a história da Filosofia Portuguesa, Lisboa, 1944.

(5) Pedro Julião nasceu em Lisboa, provavelmente em 1226, e morreu em Viterbo, em 1277, sob as ruínas de uma casa. Foi Arcebispo de Braga, e eleito Papa em 1276. Cfr. Stapper, Papst Johanes XXI: Eine Monographie, Münster, 1889; E. Moniz, O Papa João XXI, in “Jubileu da Academia de Ciências de Lisboa”, Coimbra, 1931; L. Pina, Pedro Julião ou Pedro Hispano, Papa João XXI, in Arquivo Histórico de Portugal, vol. I, fasc. I, 1932.

(6) Pedro Margallo, professor de Moral na Universidade de Salamanca, em 1520, e professor de Teologia na Univ. de Coimbra. Logica; Physices compendium, 1520. O prof. Joaquim de Carvalho diz que a Lógica de Margallo é fundada nas Súmulas de Pedro Hispano. Cfr. Lothar Thomas, p. 383. O título da obra a que nos referimos é Magallea logices utriusque Scolia in diui Thome subtilisque Duns doctrina ac nominalium.

(7) Pedro Fonseca, 1548-1597, chefiou a restauração aristotélica em Portugal, dirigindo o Cursus Conimbricensium, na companhia de Manuel Góis, Cosme Magalhães, Sebastião Couto.

(8) Divina Comédia, Paradiso, canto XII, vs. 134 e 135.

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