O rito moçárabe

Apresento para os leitores uma tradução (livre e que procurou adaptar o texto à cadência do português) que fiz do verbete Mozarabic Rite da New Catholic Encyclopedia (The Catholic University of America – 1967):

Rito Moçarábico

Por “rito moçarábico” se entende uma forma litúrgica usada por cristãos da Península Ibérica até o fim do século XI. Esse rito também é conhecido por outros nomes, mas “rito de Toledo” ou “moçarábico” permanecem as denominações mais aceitas até hoje. O significado do título “moçarábico” é incerto. O rito, em si mesmo, existia na Espanha antes da chegada dos árabes, e é difícil encontrar alguma influência deles nessa liturgia. Desse modo, o título parece se referir ao fato de que tal liturgia continuou a ser celebrada na parte da Espanha sobre dominação árabe após ter sido abandonada na área que permaneceu cristã.

História

Em espírito e substância o rito moçarábico é uma liturgia ocidental. As influências mais evidentes sobre ele são a gótica e a romana. A raiz gótica tem origem no começo da dominação visigótica e vai até o século VI; a raiz romana, por sua vez, advém, provavelmente, de consultas feitas a Roma em matéria ritual desde os tempos dos primeiros pregadores do Evangelho na região. A controvérsia sobre a total ortodoxia do rito, em razão de suas possíveis susceptibilidades adopcionistas, é ainda uma questão em aberto.

O declínio da liturgia moçarábica começou no século XI. Esse foi um período de centralização que se expressou num esforço em prol da uniformidade litúrgica. O rito romano foi importado para a Espanha. Em 1080 o Concílio de Burgos ordenou a adoção do rito romano. Os decretos, mesmo ganhando o apoio de alguns potentados locais, encontraram resistência. Se deu, então, um período conturbado de esforços de implementação e de oposição. Finalmente, chegou-se a um compromisso segundo o qual seis paróquias dos cristãos moçárabes manteriam oficialmente o rito. Todavia, há evidência de que essa liturgia ainda foi usada em muitos outros lugares durante um bom tempo. Eventualmente, mesmo nas seis paróquias, o rito passou a ser celebrado só em ocasiões especiais, e, por fim, foi abandonado. Tentativas de revivê-lo foram feitas, mas não está claro se pelo seu valor histórico ou em nome do orgulho nacional. Dom Garcia de Cisneros, que se tornou arcebispo de Toledo em 1495, preparou edições do Missal e do Breviário. Ele fundou a capela moçarábica da catedral de Toledo, que perpetuou o rito até os nossos dias. Concretamente, essa capela é o único lugar onde o rito é regularmente celebrado. Há uma celebração Eucarística diária, mas sem comunhão para os fiéis.

A liturgia moçarábica também é celebrada uma ou duas vezes por ano na capela de Talavra, em Salamanca. Mesmo nesses lugares, apenas a Missa e o Ofício são no rito moçarábico; todos os outros sacramentos, bençãos e funções são efetuadas no rito romano.

Fontes

mocarabe-missal

As principais fontes para o estudo do rito moçarábico são manuscritos que datam de um período que vai do século VIII ao XI. Os mais importantes foram publicados por M. Férotin. As fontes fundamentis são: (1) o Missale mixtum, um missal completo publicado em 1500; (2) o Missale omnium offerentium, um missal abreviado com o Ofício, e que possui alguns outros elementos: orações (explicadas) preparatórias para a Missa, um calendário e um martirilógio; (3) o Liber Sacramentorum Mozarabicus, que só contém as orações do celebrante; (4) um Antifonário, que se encontra dentro do Missale mixtum; (5) o Liber commicus ou Liber comitis, que é um lecionário; (6) o Liber Ordinum, um pontifical e ritual, que também contém o texto de algumas missas e homilias para serem lidas durante o Ofício; (7) o Breviarium gothicum, um Ofício completo publicando em 1502. Um fato curioso nos manuscritos moçarábicos é que eles freqüentemente possuem indicações dos autores dos hinos e textos litúrgicos.

Missa

A Missa começa com orações preparatórias, algumas durante a vestição e outras no altar. As últimas parecem com as do rito romano, só que expandidas. O cálice e a patena são purificados, o vinho e o pão abençoados com orações especiais. Após esses atos se dá o Introito, o Glória (omitido durante o Advento e a Quaresma), e a Oração. A Oração em geral está mais relacionada com o Glória que com a festa do dia ou o período do ano eclesiástico. Isso é típico da liturgia moçárabe.

A Liturgia da Palavra começa, usualmente, com uma lição do Antigo Testamento. Ela é seguida por um responsório. Então são lidas a Epístola e o Evangelho. Não há responsório após a Epístola, apenas orações e bençãos preliminares ao Evangelho; um Salmo e alguns aleluias vêm em seguida ao Evangelho.

Durante o canto Lauda as orações do ofertório são recitadas. Em tempos remotos os fiéis faziam as ofertas do pão e do vinho, e durante esse momento era cantado o Sacrificium, um elemento similar a antífona do rito romano. Após essa etapa temos sete preces, muitas das quais variando segundo o período do ano eclesiástico ou festa do dia. A primeira é um simples convite à oração. A segunda pede a Deus para aceitar as orações dos fiéis. Nela existe uma lista de nomes, as comemorações. A terceira oração é de intercessão. A quarta é uma prece pela paz, uma prece pela reconciliação entre os irmãos antes dos dons serem oferecidos. Aqui o celebrante oscula a patena e a dá ao diácono, e, então, ocorre a troca dos ósculos da paz. A quinta prece começa com o Prefácio dialogado, continua através do Prefácio, Sanctus e do pós-Sanctus. Em seguida temos a parte que inclui as Palavras da Consagração. A sexta prece é formada por uma série de reflexões, algumas das quais com um caráter epiclético. Há uma segunda elevação. O credo (nos domingos e em certas festas) é recitado aqui, e é seguido pelo fracionamento da Hóstia em nove partes, cada uma representando um mistério da vida de Cristo da Encarnação à Ressurreição. Então temos uma comemoração pelos vivos. A sétima e última prece é o Pai Nosso. A resposta “amém” é recitada para cada frase do Pai Nosso, com exceção da “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” cuja resposta é “porque Tu és Deus”. Assim como no rito romano a prece termina com um longo comentário reflexivo sobre a última petição do Pai Nosso. Temos a commixtio, e, então, é inserida a benção de pré-Comunhão (formada, às vezes, por cinco frases).

Após a comunhão do celebrante há um chamado para a comunhão dos fiéis. A Missa é concluída com uma oração de ação de graças, a despedida, uma oração em honra a Maria Santíssima, e uma benção final que data do século XVI.

Arquitetura

O mais antigo modelo de arquitetura moçarábica indica influência oriental. O plano era uma cruz grega com um santuário retangular. O arco em ferradura típico da arquitetura espanhola é evidente nos prédios anteriores ao período mouro. O estilo antigo se desenvolveu em sua pureza nas partes da Espanha que ficaram fora da influência árabe, e, por isso, é chamado austuriano. As igrejas moçárabes mais novas possuem uma estrutura diversa, apresentando um esquema marcado pela influência moura. Esse estilo misto é o que normalmente é chamado de “moçárabe”.

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