Adeus à inteligência

Artigo de Ângelo Monteiro (Jornal do Commercio, Recife, 18 de abril de 2013):

quoteCada vez mais nos convencemos de que a inteligência vai perdendo terreno para as posições culturalmente dominantes. Pois quem detém o poder naturalmente contará com as armas para mantê-lo; e a atual cultura de massas dispõe, em seu favor, não só de numerosos testemunhos mas do aval de poderosas instituições, inclusive universitárias. Eis a herança trágica do que sequer foi suspeitado nos piores momentos da trajetória humana: a subestimação da inteligência em nome de uma pós-modernidade que não consegue distinguir o gesto de um esgar, a fala de um uivo, a força da escultura de uma precária instalação; em suma, a indistinção e o completo nivelamento artístico, convertidos em meios de disfarçar os conhecidos abismos que, até bem pouco tempo, existiam entre o fazer e o não fazer, ou entre o valor e dos desvalor.

Quem se sente obrigado a assistir a uma exposição sem quadros, e a ouvir uma peça musical desprovida de sons no mínimo audíveis, também não se verá disposto a ultrapassar as barreiras de uma razão meramente instrumental, de base ideológica, que há muito deitou suas raízes no campo devastado de uma cultura que terminou por perder seu fascínio, de uma hora para a outra, na terra dos homens. É como se a nossa voz se calasse para dar lugar a alheias vozes, alienadas de si mesmas, muito embora as únicas a se fazerem ouvidas pela turba a ocupar os estádios e anfiteatros ora ampliados e multiplicados. Chegamos perplexos à terrível conclusão de que a inteligência trabalha apenas sobre projeções mais ou menos esperadas, e não propriamente sobre a realidade.

E nada que possa ferir tanto a delicadeza de certos indivíduos que a verdade, nem aparições tão estranhas à maioria dos olhos que as da beleza. Ambas – a beleza e a verdade – vêm se tornando, com frequência, mais impermeáveis à experiência comum, agora exclusivamente dominada pelas contrafações de uma atividade estética que se opõe, sob todas as formas, quer às imagens do passado, quer às representações vivas do presente.

Nessa corrida esquizofrênica para um futuro sem rosto – e nessa busca desenfreada de máscaras no lugar dele – não percebemos a menor correspondência com outros momentos vividos ao longo de nossa história. Encontramo-nos, finalmente, na curiosa situação de reconhecer que a mediocridade é inteligentíssima. A inteligência é que é burra.

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