Flores que não murcham

Trecho de um texto do Pe. Roque Schneider, publicado nos Bilhetes Mensais do Apostolado da Oração em novembro de 1996:

Era um homem muito rico, várias vezes milionário, que se achava às portas da morte. Sua esposa, junto ao leito de agonia, tentava confortá-lo:

– Não fique triste meu bem. Levarei diariamente um ramalhete de flores ao cemitério. Mesmo partindo, você ficará comigo. Na lembrança, nas preces, na saudade, na recordação.

Uma segunda visita aconteceu também: veio do dinheiro que aquele senhor acumulara ao longo de sua existência, tecida de muito trabalho, esforço e suor. Tentando amenizar o sofrimento do enfermo agonizante, prestes a empreender a grande viagem sem retorno, o dinheiro disse:

– Fomos sempre muito amigos e próximos, não é mesmo? Num gesto de gratidão imorredoura construirei para você o túmulo mais vistoso da cidade, certo? Não chore, portanto. Mesmo que você termine esquecido na sepultura silenciosa do cemitério… estarei ao seu lado sempre. Dia e noite. Guardando os restos mortais do seu corpo.

Por último, um terceiro personagem entrou em cena: o bem que ele realizara amplamente, as boas obras que o homem praticara durante a vida.

– Pois é…, comentaram as boas obras, nem seu dinheiro, nem sua mulher partirão com você, nesta hora difícil da separação. Nós, no entanto, viajaremos como suas acompanhantes. Não fique triste… Iremos, inclusive, à sua frente, já preparando o caminho. Somos a chave benfeitora que lhe abrirá as portas do Céu.

Felizes e bem-aventurados todos aqueles que passam pelo mundo – a exemplo de Nosso Senhor e de Maria Santíssima – fazendo o bem sem olhar a quem. “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas.” Com juros e dividendos nos bancos do além, onde “as traças não roem e os ladrões não alcançam”, segundo lembra Nosso Senhor.

Tudo passa, caduca, se esvai. As flores murcham, a juventude voa, as forças diminuem, a beleza facial recebe rugas e as ilusões se desfazem, como bolhas de sabão, como folhas jogadas ao vento. Só não morre a bondade distribuída… passaporte privilegiado para adentrarmos o venturoso país da eternidade.

Quanto mais nobre uma causa, mais triste é vê-la deturpar-se. Uma pessoa vale pelas benemerências que reparte e planta, pela ressonância que nela despertam os fatos, as coisas, os apelos do Alto.

Quando o Infinito já não acorda ecos profundos no ser humano, o que resta nele da marca divina? Apenas ruínas, melancólicos escombros de uma grandeza que se desconheceu ou esbanjou.

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