Reforma da reforma – "Introdução ao Espírito da Liturgia"

Alguns anos atrás recebi de um capelão militar o seguinte texto, produzido em cima da primeira edição alemã da obra Introdução ao Espírito da Liturgia do então Cardeal Ratzinger (fiz algumas modificações de estilo):

Elementos Estruturais de uma Reforma da Reforma Litúrgica

Breve síntese de “Introdução ao Espírito da Liturgia

(Der Geist der Liturgie. Eine Einführung, Freiburg, 2000)

O novíssimo livro do Cardeal J. Ratzinger aborda pontos essenciais de uma reforma da reforma litúrgica. Somente podemos dar aqui alguns elementos dessa acurada e profunda publicação. Este livro tem sua argumentação toda fundada na Sagrada Escritura, na Grande Tradição Litúrgica e na História da Igreja. Nele, o Purpurado indica aos sacerdotes melhoramentos já agora aplicáveis. Naturalmente, uma reforma da reforma não pode levar a eliminação do Rito Gregoriano, uma perene e necessária fonte de inspiração.

I. É preciso uma rápida reforma, a fim de ser evitada uma perda definitiva.

O Cardeal afirma que no presente momento a Sagrada Liturgia está em perigo, pois sofre ameaça de ser destruída, caso as providências necessárias não sejam tomadas logo. Faz-se urgente uma grande reverência, a fim de que um novo passo para a reestruturação não se torne instrumento de uma perda definitiva. (p. 8)

II. A celebração versus populum é uma fabricação a-histórica. A Santa Missa não é m banquete.

“Em nenhum lugar da antiguidade cristã se conceberia a ideia de que o presidente de um banquete se postasse versus populum. O caráter comunitário de um banquete era sublinhado por uma ordem contrária, a saber, pelo fato de que todos os participantes ficavam do mesmo lado da mesa. A esta análise da forma do banquete deve ser acrescentado que a Eucaristia dos cristãos, de modo algum, pode ser suficientemente explicada com o conceito de banquete. Pois que o Senhor estabeleceu a novidade do Culto Cristão no ambiente de um banquete pascal judaico, mas ordenou que se repetisse somente o que fez de novo, e não o banquete.” (p. 68)

III. Contra o clerocentrismo pós-conciliar e a ideia de que, de algum modo, a Liturgia depende, como de uma fonte, dos assistentes leigos que enchem os presbitérios.

“Em verdade, com isso [a ideia de que o banquete é norma para a Missa], realizou-se um clerocentrismo litúrgico, que antes nunca existira. Agora o sacerdote, ou melhor, o ‘presidente’, como se prefere chamá-lo, é o ponto de convergência para todos, tudo depende dele e ele deve ser visto, (…) sua ‘criatividade’ sustenta tudo. Por isso, era razoável que se procurasse uma medida para reduzir este papel novo que fora criado. Isto se deu pela distribuição de multiformes atividades a grupos leigos, confiando à sua criatividade o papel de ‘criar’ a forma da celebração. Estes grupos acabam colocando-se a si mesmos em primeiro plano, fazendo com que Deus esteja cada vez mais ao lado.” (p. 69)

IV. No centro do Altar deve ficar, bem visível, a Cruz.

“A Cruz deve ficar no meio do altar, deve ser, para o sacerdote e a comunidade, a ponto de mira, de convergência dos olhares… Eu considero verdadeiramente absurda a invenção, aparecida nos últimos anos, de colocar a Cruz ao lado, a fim de que se possa ver livremente o sacerdote. Acaso a Cruz causa estorvo à celebração Eucarística? É o sacerdote mais importante que o Senhor? Este erro deve ser corrigido o quanto antes. Isto é possível sem novas construções.” (p. 73)

V. Uma Igreja sem a Presença Eucarística é morta. A comunhão exige adoração Eucarística.

O Cardeal aponta a seguinte objeção: “A Transubstanciação do Pão e do Vinho, a Adoração do Senhor no Santíssimo Sacramento, o culto Eucarístico com ostensório e procissões – tudo isso seriam erros medievais, que devem ser eliminados de uma vez por todas. Os dons Eucarísticos são para comer, não para contemplar” (p. 74). Mas depois responde: “Comer a Eucaristia é um acontecimento espiritual e de todo homem. Comungar é adorar. Comungar significa deixar o Senhor em mim de tal modo que eu seja transformado… Assim, a Adoração não está contra, nem ao lado da Comunhão. Na verdade, esta só é bem acolhida e alcança a sua profundidade quando recebida e abraçada com Adoração. A presença Eucarística no Sacrário não constitui um conceito contraditório do da celebração Eucarística, mas é necessária para a sua plena realização… Uma igreja sem presença Eucarística é, de qualquer modo, morta. Mas a igreja onde, diante do Sacrário, está acesa a luz eterna, vive sempre, é muito mais que um mero edifício de pedras. É mister que na arquitetura da igreja o Sacrário se encontre no lugar que revela a Sua primordial importância” (p. 74).

VI. O iconoclasmo é a negação da Encarnação.

“Os concílios da antiguidade cristã consideram as imagens (ícones) como uma profissão de Fé na Encarnação… e o iconoclasmo como negação da Encarnação e soma de todas as heresias” (p. 105). “O ‘novo iconoclasmo’ foi considerado muitas vezes como mandato do Vaticano II… A iconoclastia afastou alguma coisa indigna, mas deixou um grande vão, cuja penúria nós sentimos muito fortemente” (p. 112).

VII. Dançar na Liturgia é coisa não cristã. É sinal de perda total da Liturgia.

“A dança não é um modo de exprimir-se da Liturgia Cristã. Representantes de círculos gnósticos-docetistas procuraram, no século III, introduzir a dança na Liturgia. Para eles a Crucifixão era mera aparência… Totalmente absurdo é que, na tentativa de fazer a Liturgia mais atrativa, se façam pantominas dançantes (inclusive com grupos profissionais) que sempre terminam em aplausos. Sempre que surgem aplausos para uma ação humana na Liturgia, esta é totalmente perdida, sendo substituída por uma espécie de ‘divertimento’ com intenção supostamente religiosa. Tal atrativo é de curta duração; no mercado dos divertimentos há coisas muito mais sedutoras, contra as quais o ‘divertimento religioso’ não pode concorrer.” (p.170)

VIII. O ajoelhar-se, segundo o modelo de Cristo, é a posição correta para entrar no Sacrifício da Cruz.

O Cardeal chama a atenção à frequência com que o Evangelho menciona o ato de ajoelhar-se quando fala da oração de Cristo. Os Evangelistas Mateus (XXII, 39), Marcos (XIV, 35) e Lucas (XXII, 41) unanimemente relatam a prostração e o ajoelhar-se de Cristo na quinta-feira da Semana Santa. “Esta oração, como oração de entrada na Paixão é, segundo a forma e o conteúdo, exemplar” (p. 160). Como a Missa é o Sacrifício da Cruz, começar as orações ao pé do altar de joelhos é uma consequência natural, sendo o modelo do próprio Cristo.

IX. Hodiernamente, há formas de Ofertório que são uma paródia do substancial.

“A cena quase teatral, dos diversos ‘atores’, que hoje, sobretudo no Ofertório, se pode presenciar, desvia-se definitivamente do essencial. Se cada uma das ações exteriores (que são poucas, mas vêm aumentando sem necessidade) torna-se o substancial da Missa, e esta Liturgia se desnatura em uma mera ação exterior, então o próprio ‘Drama Divino da Liturgia’ se deforma numa paródia” (p. 150). “Se o ‘sentar-se’ durante o Ofertório é a posição adequada, não o trataremos aqui. Tal prática, de origem recente, é oriunda de um certo conceito desta parte da Santa Liturgia, que considera o Ofertório como uma ação meramente pragmática, cujo caráter sacral é simplesmente negado” (p. 168).

X. O ajoelhar-se durante a Consagração é absolutamente necessário. Uma Liturgia sem ajoelhar-se está mui profundamente doente.

O Cardeal enumera uma abundância de acontecimentos bíblicos em que os homens se ajoelharam diante de Cristo e conclui: “Por isso o dobrar dos joelhos diante da presença do Deus Vivo é sumamente necessário” (p.164). “A incapacidade para ajoelhar-se parece, diretamente, como essência do diabólico… É possível que a cultura moderna considere o ajoelhar-se uma coisa estranha – isto, enquanto sendo uma cultura que se afastou da Fé, e não conhece mais Aquele diante do qual o estar de joelhos é a única postura adequada, e essencialmente necessária. Quem aprende a crer, aprende também a ajoelhar-se. Uma Fé ou uma Liturgia que não mais conhece o ajoelhar-se, seria doente no seu próprio centro. O ajoelhar-se, nos lugares onde se perdeu, deve ser recuperado” (p. 166). “Àquele que crendo e rezando participa da Eucaristia, deve ser profundamente comovente o momento em que o Senhor desce e transubstancia o pão e o vinho em seu Corpo e Sangue. Perante tal acontecimento, não poderia ser outra a nossa postura, que o colocar-nos reverentemente de joelhos, saudando assim o Senhor” (p. 182).

XI. O silêncio durante o Cânon é um insistente clamor a Deus; novas Orações Eucarísticas escorregam para a banalidade.

“No ano de 1978, a contra-gosto de alguns liturgistas, afirmei que não havia necessidade, de modo algum, de recitar o Cânon em voz alta. Depois de muito meditar, desejo, aqui, repetir o mesmo, esperando que, passados vinte anos, tenha-se alcançado maior compreensão desta tese. Entretanto, os liturgistas alemães, em seus esforços para a reforma do Missal, expressamente afirmaram que o ápice da Liturgia Eucarística atual, o Cânon, tornou-se o próprio centro da crise litúrgica. Desde logo após a reforma se procurou sanar este problema com a contínua invenção de novas Preces Eucarísticas, no entanto, resvalou-se cada vez mais para o banal. A multiplicação das palavras não ajuda a superar o problema. É realmente falso dizer que o pronunciar do Cânon em voz alta seja condição para a participação de todos neste ato central da Celebração Eucarística… Somente aquele que experimentou uma igreja unida no silêncio do Cânon, vivenciou o que é um ‘silêncio preenchido’, que ao mesmo tempo é uma clamorosa e insistente súplica a Deus e uma oração cheia de espírito.” (p. 184)

XII. O tumulto causado pelo hodierno Abraço da Paz.

“A atual ordem do Abraço da Paz causa frequentemente um grande tumulto na comunidade, (…) em que, inusitadamente, entra o convite para volver os olhos ao Cordeiro de Deus.” (p. 183)

XIII. Os rezares silenciosos do sacerdote antes do Evangelho, e antes e depois da Comunhão são necessários.

“As orações silenciosas, pronunciadas pelo sacerdote, constituem um outro motivo, oferecido pela própria Liturgia, para aquele silêncio cheio de significado, pois que a ação litúrgica não é interrompida por este silêncio, mas o tem como parte integrante de si. Uma visão sociológico-ativista da tarefa do sacerdote na Eucaristia desaprova e elimina estas orações… As orações que o padre faz em silêncio o convidam a realizar a sua tarefa com um cunho mais pessoal, a fim de que ele próprio se ofereça a Deus… A reforma litúrgica reduziu significativamente o número destas orações, mas graças a Deus ainda sobraram algumas, pois elas devem continuar a existir. Em primeiro lugar vem a oração preparatória à proclamação do Evangelho, que o sacerdote deve recitar com grande devoção e no silêncio… Sobre o significado do Ofertório, que na nova Liturgia não é claro, já tratamos noutro lugar” (p. 182). “Duas belas e profundas orações precedem à Comunhão do sacerdote, das quais, para evitar um prolongamento do silêncio, só uma, à escolha, deve ser dita. Talvez no futuro se encontre mais “tempo” para ambas. Também há duas  orações silenciosas de agradecimento para depois da Comunhão, previstas para o sacerdote, mas que também os fiéis, ‘a seu modo’, podem e devem recitar” (p.183).

Já há muitos anos o Cardeal Ratzinger está observando, meditando e examinando a reforma litúrgica e suas consequências. E demonstrou grande coragem ao dar nomes aos bois, a contragosto de muitos. Por exemplo, no ano de 1992, ele escreveu no prefácio de um livro do Monsenhor Klaus Gamber: “A reforma litúrgica, na sua concreta realização, se distanciou da vantagem de sua própria origem. O resultado não é uma reanimação, mas uma devastação” (In La reforme liturgique en question, Klaus Gamber, Ed. Sainte-Madeleine, 1992). Em 1997, em sua autobiografia, Ratzinger escreveu: “Estou convicto de que a crise em que a Igreja hoje se encontra foi causada em grande parte pela demolição da Liturgia” (In La mia vita: Ricordi 1927-1997, J. Ratzinger).

Ut in Omnibus Glorificetur Deus! 

Uma resposta em “Reforma da reforma – "Introdução ao Espírito da Liturgia"

  1. Creio ser desonesta a quem se diz católico e até mesmo sacerdote, ignorar os escritos do antão Cardeal Ratzinger, no que se refere à Santa Liturgia.
    Numa parodia do Facebook do Pe Demétrio Gomes, o Santo Padre Francisco admirado com tantos livros existentes na sala do Santo Padre Emérito, pergunta-lhe: – Você leu todo esses livros aí, Bento? Ele responde: – Eu os escrevi, Francisco.
    “Acaso a Cruz causa estorvo à celebração Eucarística? É o sacerdote mais importante que o Senhor?” Cad J. Ratzinger
    Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!
    Salve Maria!

    Parabéns pelo artigo de bom gosto!

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