Revelação (1 de 2)

Texto do confrade Karlos Guedes (é um aprofundamento de alguns pontos da apostila dele que já publicamos aqui):

cegosDeus existe e isso é uma verdade fundamental e demonstrável. Ensina a Igreja: “A mesma Santa Igreja crê e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas” (Concílio Vaticano I, Constituição dogmática De fide catholica, Dei Filius, cap. 2 Denz. 1785 – 3004 em 1870); ou: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar” (Rm 1,20); ou ainda: “Diz o insensato em seu coração: Deus não existe” (Sl 52,2).

Isto faz com que o homem, desde o início e sempre, procure se relacionar com Deus. O homem sente essa necessidade e vai além: ele tem a consciência que há algo errado, parece dever algo a Deus.

E o homem tentar chegar a Deus por si mesmo, como resposta a essa busca natural: são as religiões pagãs. Constatamos uma infinidade de crenças nestas religiões. Por quê? Embora haja realmente essa necessidade e essa dívida para com Deus, é certo também que nas condições históricas em que se encontra, o homem experimenta muitas dificuldades para chegar ao conhecimento definitivo de Deus só com as luzes da razão:

“Não é de admirar que haja constantemente discórdias e erros fora do redil de Cristo. Pois, embora possa realmente a razão humana com suas forças e sua luz natural chegar de forma absoluta ao conhecimento verdadeiro e certo de Deus, único e pessoal, que sustém e governa o mundo com sua providência, bem como ao conhecimento da lei natural, impressa pelo Criador em nossas almas, entretanto, não são poucos os obstáculos que impedem a razão de fazer uso eficaz e frutuoso dessa sua capacidade natural. De fato, as verdades que se referem a Deus e às relações entre os homens e Deus transcendem por completo a ordem dos seres sensíveis e, quando entram na prática da vida e a enformam, exigem o sacrifício e a abnegação própria. Ora, o entendimento humano encontra dificuldades na aquisição de tais verdades, já pela ação dos sentidos e da imaginação, já pelas más inclinações, nascidas do pecado original. Isso faz com que os homens, em semelhantes questões, facilmente se persuadam de ser falso e duvidoso o que não querem que seja verdadeiro” (Pio XII, Encíclica Humani generis, n. 2 em 1950).

Religião vem de re-ligar. Uma tentativa do homem de religar-se com Deus. Nisto está a ideia da existência de Deus e de uma dívida com Ele. Na religião natural o homem tenta estabelecer o que agrada a Deus e como é esse Deus. Toda religião tem os seguintes aspectos:

  1. Crença (no que se deve crer, como é a divindade);
  2. Preceitos (o que se deve fazer, o que quer a divindade);
  3. Culto (como agradar a divindade);
  4. Intercâmbio de favores (como e o que pedir à divindade).

Entretanto, essas religiões não chegaram ao Deus verdadeiro, porque se tornaram politeístas. Santo Tomás dá quatro razões para isso:

1. Pela fraqueza da inteligência humana, pois não vêem além do corporal e tudo o que é mais belo, perfeito ou poderoso tomam como deuses. Semelhante ao homem que vai a um paço e o primeiro que ver bem vestido toma-o como o rei.

“Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo. Se tomaram essas coisas por deuses, encantados pela sua beleza, saibam, então, quanto seu Senhor prevalece sobre elas, porque é o criador da beleza que fez estas coisas” (Sb 13,2s).

“Levantai os olhos para o céu, volvei vosso olhar à terra: os céus vão desvanecer-se como fumaça, como um vestido em farrapos ficará a terra, e seus habitantes morrerão como moscas. Mas minha salvação subsistirá sempre, e minha vitória não terá fim” (Is 51,6).

2. Pela adulação dos homens, para isso tributam-lhe honra devida a Deus.

“É preciso que toda a naçãosaiba que Nabucodonosor é o deus da terra, e que não há outrofora dele” (Jt 5,29).

3. Pela afeição carnal aos filhos e parentes; e essa afeição faz o homem erguer estátuas aos seus, o que leva alguns a prestar culto divino a eles.

“Os homens, sujeitando-se à lei da desgraça e da tirania, deram à pedra e à madeira o nome incomunicável” (Sb 14,21).

4. Pela malícia dos demônios, e esse é o principal motivo.

“Os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de demônios” (Sl 95,5).

“Tu dizias: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembléia, no extremo norte” (Is 14,13).

“Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares” (Mt 4,9).

“Não! As coisas que os pagãos sacrificam, sacrificam-nas a demônios e não a Deus. E eu não quero que tenhais comunhão com os demônios” (I Cor 10,20).

Com isso, conclui-se que o homem, por suas próprias forças, não pode se achegar a Deus (cf. Gn 11,1-9). Negando o Deus verdadeiro e crendo em vários deuses, o homem abandonado a si mesmo, inevitavelmente, estaria privado da salvação, da vida divina.

Por isso, Deus não só quis, como tinha que Se revelar para que conhecêssemos algo de sua glória. Ou seja, Deus retirou o véu que escondia seu rosto terrível dos homens:

“O único que possui a imortalidade e habita em luz inacessível, a quem nenhum homem viu, nem pode ver” (I Tm 6,16).

Revelou-Se primeiramente aos judeus: Revelação pública privada (única civilização antiga monoteísta).

Esta mesma Revelação foi culminada em Jesus Cristo: Revelação pública universal.

“Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas.” (Hb 1,1s).

Toda Revelação, por sua origem, que é Deus, é verdade e de crença obrigatória:

“Sua boca ensinou a verdade, e não se encontrou perversidade nos seus lábios” (Ml 1,6).

A Revelação é, portanto, o conjunto das verdades ensinadas por Deus, indireta (através de seus profetas) ou diretamente (por Ele mesmo). É também chamada de Depósito da Fé.

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