Pregação Nova, por Rachel de Queiróz

Indicação feita pelo confrade Cláudio:

A gente pensa que o povo é indiferente. Na verdade, o povo pode estar desinteressado, o que representa coisa muito diversa. Mas traga-lhe um recado que ele compreenda, diga-lhe coisas que ele goste de ouvir, e imediatamente se verá o quanto o povo se interessa e pode sair da sua aparente apatia.

Religião, por exemplo. Não quero discutir os motivos, se os padres são poucos e as paróquias enormes, se os clérigos, preocupados com os grandes problemas internacionais, se desinteressam do simples apostolado aos analfabetos – se é um motivo, se é um complexo deles; o que eu sei é que a presença da Igreja Católica cada vez e faz sentir menos nas plagas rurais nordestinas. E o povo cada vez mais se mostra distante, casa indiferentemente no padre ou civil, aliás prefere o civil, que sai mais barato. E com a voga da exigência do registro civil para fins de previdência social, já procuram mais fazer o registro dos filhos do que o batismo: um até me disse, brincando, que “o registro é o batizado do governo“.

E assim, enquanto a Igreja cada vez mais se imobiliza e distancia no seu papel de establishment espiritual, no vácuo por ela deixado, os protestantes se introduzem, tal como os umbandistas, nas áreas urbanas, conquistando assombrosas massas de adeptos.

E acontece então uma coisa surpreendente: aquela gente imóvel, fatalista e indiferente que não faz mais sacrifícios para ir a uma Missa, que nasce, vive e morre sem conhecer a letra do Catecismo; que dos Sacramentos mal e mal recebeu o Batismo, (não se crisma, não se confessa, não comunga, não se casa, não se ordena, e nem sabe sequer que mudaram o nome à Extrema Unção), essa mesma gente cuja apatia religiosa os senhores Bispos atribuem à demora da Reforma Agrária – se atira com um entusiasmo inesperado à pregação religiosa dos “crentes”. São “conversões” em massa, parece coisa do tempo dos primeiros cristãos. Onde surja um pastor pregando seu Evangelho, o povo o cerca, o escuta, o acompanha. Vai debaixo de chuva, depois dos duros dias de trabalho na terra, por lama e maus caminhos, assistir aos cultos. Os pregadores, que em geral sabem apenas o suficiente para ler e mal a Escritura, interpretam a lei a seu modo, produzindo um cristianismo primitivo, simplificado, injetado de reminiscências afro-ameríndias, ou de pequenas inoculações kardecistas.

Mas o fato é que arrastam multidões. Aqui na fazenda, cerca de 60% dos moradores são “crentes”, já se batizaram nas águas do rio, e seguem escrupulosamente as regras da nova fé, com o conhecido ardor dos neófitos. Os homens não bebem, nem jogam, ninguém fuma, não brigam, as moças não vestem roupas escandalosas. Modifica-se o tradicional falar sertanejo, já não se tratam de compadres, mas de “irmãos”; quando batem à porta não dizem mais “ô de casa!” mas “A paz do Senhor!”. Não falam mais em Nosso Senhor, Nossa Senhora, mas só em Jesus. Acabou-se o culto a Maria. Desfazem-se dos registros dos santos – até das imagens do Padre Cícero.

Agora mesmo, são seis da tarde, o pastor Luís fez duas léguas para vir “pregar aula de oração” e de longe escuto o som dos hinos ensaiados, A cozinha, que sempre pulula de mulheres, está de fogos apagados, e fui discretamente avisada que há frango frio, leite gelado, doce, queijo e frutas, e devemos nos contentar com isso para o jantar. e a cozinheira, chefiando o bando de catecúmenos, antes de partir me consola dizendo que “Vão rezar para eu também receber Jesus”. Amém

(O Jornal, 13/05/1973)

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