A impersonalidade do filósofo

Um trecho sensacional escrito por Sertillanges, em “As grandes teses da filosofia tomista” sobre a impersonalidade de Santo Tomás:

quoteAquela originalidade pretensiosa que procura pôr em relevo o pensador, essa é tão alheia a Santo Tomás, que nunca dele nos lembramos embora guiados pelo seu pensamento. É que ele pensa com tanta intensidade e pureza, concentra-se de tal modo no objeto que nenhuma atenção lhe fica para o sujeito que pensa. Absorve-se inteiramente na sua obra; não consente em sacrificar à ostentação a menor parcela do seu tempo tão precioso; não quer enfraquecer o espírito que julga já tão impotente perante as dificuldades da ciência. Tudo nele se coordena para o mesmo fim, sem aparecer a força coordenadora. Procura sintonizar o pensamento e o ser, tarefa eminentemente impessoal, empreendimento universal. Orientadas todas as suas energias para o fim a atingir, como havia ele de deter-se em exibições espetaculosas!

Este facto podemos confirmá-lo com uma característica do estilo de Santo Tomás: expõe a prova; mas nunca “afirma”; e muito menos “declara”. Diz simplesmente: é necessário; é impossível; ou então: parece. Tais fórmulas porém, são na sua mente, expressão da estrutura das coisas e não uma relação da verdade com ele. Tanto que não conhece essas locuções tão vulgares entre nós: creio eu, tenho para mim, estou persuadido; pois não dá valor nenhum a idéias pessoais.

Nada perde com isso; pois o gênio que representa o pensamento é maior que aquele que se representa apenas a si mesmo. A impersonalidade é a tal ponto característica da verdade que quem lhe é fiel torna-se por isso mesmo ídolo de toda a gente; é a própria verdade que o consagra. E todo o valor se torna então valor seu e toda a força energia sua.

Além disso, se é sincero, tem nessa impersonalidade o mais eficaz meio de persuasão. Quem se mantém perto das idéias e longe de si, está por isso mesmo em contacto com todos os espíritos. Pois o real é que é inteligível, e não a pretensão doutoral; as realidades falam, “a Sabedoria brada”; não é preciso que se intrometa o pedantismo de ninguém.

A doutrina de Santo Tomás, desde que se entenda bem, apresenta-se quase sempre com evidência aos espíritos rectos, precisamente porque ele projecta diante de nós a verdade com toda a luz; não faz dela monopólio. Apóia-se em nós e não em si; desvenda-nos a nós mesmos, extraindo dos princípios que nos são inatos, o que antes não conseguíamos ver.

Daí a impressão de que a sua doutrina corresponde sempre a uma ânsia secreta, a certa expectativa ou vaga previsão nossa. É que de facto só se aprende o que já antes se conhecia de algum modo, isto é, em germe; aliás não o conheceríamos; como também ninguém nos persuade senão daquilo de que já estávamos convencidos. O pensamento é um rio que encontra em nós o seu leito; a terra viva do nosso ser agita-se quando ele passa, mas não o estranha. É natural que quanto mais se respeitarem as leis desta adaptação, quanto mais o gênio se contentar com pôr frente a frente o nosso espírito e a realidade, o nosso espírito e a verdade, tanto mais poderoso seja o seu influxo.

Disto resulta ainda outra característica. Santo Tomás fugindo a todo o pretenciosismo pessoal, libertou-se também daqueles deploráveis excessos que ordinariamente o acompanham, como são o recalcar idéias, o exagero e exclusivismo de encarar tudo pelo mesmo prisma, defeito tão notável nestes tempos em que cada qual parece que anda a amontoar este mundo e o outro, para servir de pedestal à sua obra e ao seu nome. Santo Tomás, sempre imparcial, não exagera, não carrega as cores, não tem preferências, pois sabe que a verdade é sempre igual a si mesma, e que se impõe seja onde for, só pela sua totalidade parcialmente revelada, pelo seu equilíbrio. A natureza não prefere as serranias ao montículo da toupeira; e por isso não pretende transformar este em montanhas; respeita as suas leis e assegura lhes o êxito em toda a parte. A natureza é toda ela medida, ponderação e sinceridade; e o equilíbrio dos seus elementos e energias constitui o seu próprio ser. Ora a sabedoria de Santo Tomás de Aquino obedece a esse conselho mudo da natureza. Sabe que a imagem em nós e a realidade em si, devem corresponder-se não só como termos, mas nas suas relações e proporções; por isso não é espelho deformador; amolda o espírito à estrutura exata dos seres, e nada de importuno nem sequer de curioso só para alimentar a curiosidade, existe nele; tudo se reveste de probidade; grande, pequeno, médio, medíocre, ínfimo, sublime, tudo ocupará o seu posto para esplendor e glória do conjunto. Há uma tese tomista segundo a qual o objeto da criação não são estas ou aquelas criaturas em particular, mas a Ordem universal. Também poderíamos afirmar que a preocupação do pensamento tomista não é esta ou aquela solução em particular, mas a Verdade.

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