A criação contínua

Texto do confrade Rui Ribeiro Machado:

criação“Meu Pai segue trabalhando até agora e eu trabalho também.” (Jo 5,17)

Quando se fala em criação, a maioria das pessoas pensa imediatamente nos seis dias da criação, como está no relato de Gênesis, ou pensa no surgimento do Universo segundo a teoria do Big Bang, versão científica moderna do mito do ovo primordial. Ou seja, o problema de como o mundo se sustenta, se conserva após a criação, não é pensado imediatamente por essas pessoas, pois elas julgam ser natural que o mundo se conserve, depois de criado, assim como uma estátua se conserva depois de feita pela mão do homem.

Aqui vamos entender que a criação é algo muito mais profundo. Deus não cria o homem como um homem esculpe uma estátua, em primeiro lugar, porque Deus não necessita de matéria-prima, nem há matéria-prima alguma que anteceda à criação de Deus, dado ser Ele o criador de todas as coisas. E, em segundo lugar, porque a ação de Deus não é temporal, isto é, não se tem sentido dizer que Deus agiu para fazer surgir o mundo no início dos tempos, e agora está parado. Da parte de Deus, a criação é eterna como o próprio Deus, pois ela significa dizer que Deus quer que o mundo exista, e quis sempre, e quererá sempre, e, por isso, o mundo existe agora, existiu ontem e existirá amanhã. A criação, da parte de Deus, nada mais é do que Deus mesmo, olhado em Sua vontade de que o mundo tenha existência, não desde sempre, como a fé ensina, mas podendo ter sido desde sempre, isto é, a vontade de Deus de que, num dado instante ou instantes, ou para sempre, o mundo exista. Isso é a criação.

E da parte do mundo, o que é a criação? A criação é simplesmente a relação de dependência absoluta de Deus que o mundo, ou melhor, todas as substâncias espirituais e materiais, que são os seres em si mesmos, possuem, com seus acidentes. Essa dependência ontológica em relação a Deus não é maior no primeiro instante do mundo do que é agora, e ela é, inclusive, posterior ao surgimento do mundo, pois, somente de um mundo existente em ato, é que surge o problema da dependência de seu ser. Na ordem lógica, portanto, a criação é até posterior à existência do ser criado. Disto resulta que a criação continua até agora, e continuará enquanto existir o mundo. O que se chama conservação nada mais é do que a continuação do ato da criação, pois se funda nas mesmas razões pelas quais se diz que o mundo passou a existir: a sua dependência absoluta de Deus, a Fonte de todo ser.

Então, se a criação está ocorrendo agora mesmo, neste mesmo instante, que papel têm as causas secundárias, o ar, o sol, o gelo, em conservar as coisas? Não se poderia dizer que Deus conserva as coisas mediatamente através delas, ou retirando as causas que poderiam destruir o ser criado? Na realidade, essas coisas têm um papel conservador muito diferente de Deus, pois elas são capazes de conservar certa forma, impedindo-lhe a corrupção, mas só Deus pode impedir-lhe a aniquilação. A aniquilação é a redução ao nada, e, como nenhum ser tem o poder de reduzir outro ao nada, também nenhum ser tem o poder de impedir que outro se reduza ao nada. E, como só Deus é fundamento de que exista o ser e não o nada, só Deus é capaz de conservar as coisas em seu próprio ser, por mais que outras coisas tenham um papel secundário, externo, de impedir a corrupção.

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