IV artigo do Credo

“Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.”

Paixão

Neste artigo do Símbolo dos Apóstolos estudamos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Redenção efetuada por meio dela, ou seja, analisamos a morte do Divino Mestre e seus frutos. Tal conhecimento é essencial para a vida do católico, como atesta São Paulo (I Coríntios II, 2):

Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.

Em primeiro lugar, as palavras do Credo nos remetem ao fato de que foi em Jerusalém, capital da Judeia, durante o governo de Pôncio Pilatos, representante do Império Romano, que se desenrolou todo o drama da Paixão. Por que ele faz isso? Faz para indicar que a morte de Cristo, ou melhor, sua existência, não é um dado da Fé, mas um dado histórico, atestado por vários historiadores daquela época. Tácito, que nasceu por volta do ano 55, escreveu: “Cristo, de quem o nome cristãos tem sua origem, sofreu a extrema penalidade durante o reinado de Tibério, às mãos de um de nossos procuradores, Pôncio Pilatos.” Jesus também foi nomeado por Suetônio (primeiro século); pelo historiador judeu Josefo (primeiro século); e por Plínio, o Moço, governador da Bitínia (início do segundo século). Desse modo, podemos até admitir que alguém possa se fechar à graça e negar que Jesus é o Salvador, mas se negar a própria existência Dele, também terá de negar qualquer outro dado da história humana que só seja atestado por meio do testemunho de contemporâneos, como, por exemplo, a existência de Napoleão Bonaparte.

Visto isso, devemos procurar entender porque os judeus fizeram morrer o Divino Mestre.

O conceito que os judeus geralmente formavam acerca do Messias, era que havia de ser um conquistador famoso, cujas vitórias reergueriam o prestígio da nação, libertando-a do julgo estrangeiro. Batista Cepelos resumiu com o seguinte poema esta ideia:

O douto Gamaliel, que a mente lhe formara, (a Saulo)
Nos textos de Moisés, antevendo heresias,
Dera-lhe a conhecer numa eloquência clara,
A vera aparição do futuro Messias,
Este devia ser forte como um prodígio,
Falando pela voz de cem tubas de guerra,
E descendo do Céu, no seu maior fastígio,
Para ditar a lei aos monarcas da terra.

Por outra parte os detentores da autoridade religiosa cindiam-se em dois campos inimigos. De um lado a seita dos saduceus, amigos do governo que lhes propinava favores. Contra ela, a célebre seita dos fariseus que preconizava ardorosamente a independência do país. Ambas hostilizavam a Nosso Senhor: aquela porque estava satisfeita com a situação presente e tinha o Messias por perturbador e revolucionário; esta, melindrada pelos seus usos formalistas, julgava que Jesus não fosse o Messias glorioso.

Mas os saduceus e fariseus formavam apenas um pugilo reduzido, diminuto, e não a massa popular. A esta, quanta bondade, quanta solicitude não lhe havia manifestado Nosso Senhor! Mas a plebe é facilmente desvairada. Deixa-se arrastar por condutores astutos. São de uma mobilidade extrema as suas opiniões. Isso explica a psicologia desta hora, em que os seguidores de Jesus passaram a soltar clamores de morte. Na liturgia da Igreja isso fica patente quando num domingo, o de Ramos, encenamos na assembleia a acolhida festiva do Divino Mestre pelo povo e, poucos dias depois, na Sexta-Feira Santa, estamos entre aqueles que pedem a crucificação; devemos perceber que se tratam das mesmas pessoas, que, em um espaço curto de tempo, mudaram de atitude.

Vale notar que a liderança má desse povo, além dos motivos citados, também tinha uma cegueira espiritual que derivada das abominações que praticavam ocultamente e às quais o profeta Ezequiel fez referência muitos séculos antes (Ezequiel VIII e IX). Por isso, não percebiam nada de extraordinário naquele que era de extirpe real (Mateus I, 1-17), filho de uma moça criada no Templo, alvo do louvor de pessoas santas (Lucas II, 21-40) e que, adolescente, havia discutido com eles (Lucas II, 41-52).

Bem, dada tal cegueira é que se iniciou a perseguição, que se transformou num julgamento injusto (Isaías LIII, 8), e que culminou no madeiro da Cruz, para que dali mesmo nos renascesse a vida, por onde nos tinha vindo a morte (Prefácio da Santa Cruz). Esse processo foi descrito nos seguintes trechos pelos evangelistas: Mateus XXVI, 1-75; XXVII, 1-66; Marcos XIV, 1-72; XV, 1-46; Lucas XXII, 1-71; XXIII, 1-53; João XVIII, 1-40; XIX, 1-42.

Mas, alguém pode perguntar: só podia de ser assim?

Ora, posto o pecado original, dois modos tinha o Senhor de tratar o criminoso: castigá-lo ou lhe devolver sua amizade.

Usando a primeira hipótese, Deus podia aniquilar Adão e o gênero humano, ou reduzi-lo simplesmente à ordem natural.

No segundo caso, também duas soluções se apresentavam: o perdão sem exigência de reparação (procedimento que magnifica a bondade, mas deixa na sombra a justiça) e o perdão vinculado a uma satisfação (que junta bondade e justiça). Só que aí vem o detalhe que vimos no II artigo do Símbolo: o ofendido, sendo Deus, requeria uma reparação infinita, e nunca o poderia realizar uma criatura finita.

Logo, na hipótese de exigir Deus uma reparação equivalente à injúria, só um meio havia, que era a intervenção pessoal do próprio Deus. Deus, e mais ninguém, é que podia trazer a satisfação precisa. Mas, então, uma pessoa divina haveria de rebaixar-se, humilhar-se, das mostras de submissão (que são imprescindíveis para qualquer reparação por um agravo)? Não. Impossível. Só adotando uma natureza criada. Aí temos porque é que o Filho de Deus devia encarnar-se, caso fosse o plano divino pedir a satisfação plena, perfeita, e também oferecê-la. Quererá dizer isto que Deus, tendo agora condescendido até aí, tinha obrigação de sujeitar-se aos extremos de uma suplício infame (Deuteronômio XXI, 23; Gálatas III, 13), vergonho e sangrento? Nada disso. Uma única lágrima de Cristo, uma prece, o próprio rebaixamento da Encarnação, saldavam amplamente o débito. A Paixão, portanto, não era um modo necessário; ela, antes de tudo, ao remeter à forma de culto consubstanciada no sacrifício, foi voluntária:

O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal é a ordem que recebi de meu Pai. (João X, 17-18)

Sou eu. (João XVIII, 5)

Observemos, neste ponto, algumas questões interessantes. Primeiro, devemos ter em mente que Cristo, como homem, podia morrer, e tal morte era mais do que conveniente: a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio (Hebreus II, 14). Contudo, na morte a divindade não se separou nem da alma, nem do corpo (Salmo XV, 10; Atos II, 27-31). Temos também que a satisfação gerada pela Redenção foi: substitutiva (efetuada por um medianeiro), universal (abrangeu o mundo inteiro), plena (adequada a ofensa) e superabundante (teve valor infinito).

No que se refere à universalidade, devemos separar os conceitos de redenção (ou salvação objetiva) e o de salvação (ou salvação subjetiva), que são alvo de muita confusão por parte das seitas protestantes. Cristo entregou-se para resgate de todos os homens e de todos os pecados. O que equivale a dizer que todos os homens salvos, todos os justos, quer do Novo Testamento, quer do Antigo, a própria Maria Santíssima, Apóstolos, Mártires, Santos, receberam graças de salvação por causa dos merecimentos de Nosso Senhor. Mas para a nossa justificação não basta a fé; é preciso ajuntar obras. Fomos solidários de Adão na culpa; somos igualmente solidários de Cristo na obra da reparação. Seremos herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, contanto que soframos com Ele, para que também com Ele sejamos salvos (Romanos VIII, 17). Para lucrarem os benefícios da Redenção (ou seja, para se salvarem), portanto, os homens têm de expiar seus pecados, em união com o Divino Mestre, e ajudá-lo a levar a cruz:

Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. (Mateus XVI, 24)

Aquele que te criou sem ti, sem ti não te salvará. (Santo Agostinho)

Meditemos, pois, nas verdades contidas neste artigo do Credo para que não neguemos o Cristo, que se deu voluntariamente em sacrifício por nós, por meio do pecado.

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