Arte católica antiga: a grandeza bizantina

Em 313, o Imperador Constantino proclamou o cristianismo como uma das religiões permitidas do Estado. Isso provocou uma revolução nas artes da Igreja. Até então, o artista fora um autodidata, aprendendo a trabalhar somente para o momento, sugerindo, insinuando, jamais se entregando totalmente, trabalhando na escuridão, em superfícies pequenas e inadequadas, despreocupado com qualquer coisa que não fosse o presente, cônscio da morte que espreitava em todos os cantos. Agora, subitamente, o brilho da publicidade o envolvia. Ele tinha de decorar basílicas em vez de túneis; glória alguma era demasiada para o Rei dos Reis; antes que seus olhos estivessem acostumados com a luz, exigiram dele grandeza e permanência.

Quase que imediatamente surgiu o difícil problema das imagens. A fé judaica, de onde nascera o cristianismo, interpretara o primeiro mandamento como uma proibição do uso de “imagens esculpidas” para que elas não se transformassem em ídolos. Essa tradição prosseguiu na Igreja primitiva. Assim, a Casa de Deus não teria estátuas. Outras representações também poderiam muito bem ter sido proibidas naqueles primeiros tempos de confuso entusiasmo, se não fosse a lucidez do Papa Gregório Magno, que observou que “a pintura pode fazer pelo analfabeto o que a escrita faz pelos que podem ler”.

Contudo, a rápida técnica da pintura impressionista, que nascera da necessidade de uma vida fugitiva nas catacumbas, deixara de ser apropriada para a Igreja, que representava uma religião oficial do império.

Grandes basílicas estavam sendo construídas sobre os túmulos dos apóstolos e nos lugares santos, custeadas pelos imperadores, cujo gosto pela grandeza e magnificência era satisfeito pelas qualidades duradouras dos trabalhos em mosaico. Os mosaicos são feitos de pequenos cubos de vidro dourado e colorido, sobretudo em cores fortes e ricas. Esses cubos são agrupados em desenhos e quadros e fixados nas paredes, tetos e pisos, onde brilham e cintilam à luz, causando efeitos muito chamativos. Antes da época cristã eles eram usados nos palácios e nos templos dos pagãos.

Os mais antigos mosaicos católicos são encontrados em Roma, na abóbada de Santa Constança, na nave de Santa Maria Maior e na abside de Santa Pudenciana. O estilo das catacumbas ainda está ligado ao mosaico Traditio Legis em Santa Constança. Há em torno dessas figuras um movimento e urgência que não está de acordo com a natureza rígida e formal das pedras de que foram construídas. Ele ainda tem encanto, ao passo que, como meio de expressão, o mosaico exige formalidade. Ele ainda é um tanto rústico, quando deveria ser “distante”. Ainda conta uma história, quando deveria satisfazer-se com uma afirmação.

O Traditio Legis em Santa Constança

Os mosaicos de Ravena, mundialmente famosos e singulares, mostram a lenta modificação da ênfase. Examinem primeiramente “O Bom Pastor” no mausoléu de Galla Placidiana, uma pequena edificação de tijolos semienterrada no chão. Ao se entrar nele, saindo da brilhante luz solar, a princípio não se vê nada em sua penumbra, mas lentamente, pelas pequenas aberturas de translúcido alabastro cor de âmbar, passa uma luz resplandecente.

O Bom Pastor no mausoléu de Galla Placidiana, Ravena

Os mosaicos, do azul mais profundo, recamado de ouro e prata, cobrem todo o interior e um efeito de grande magnificência sem ostentação revela-se ao espectador. Cristo, o Bom Pastor, ainda é o bom pastor grego, a juventude divina e eterna – mas diferente da figura simples das catacumbas. Ele ainda não é elevado à figura entronizada da arte bizantina, mas ali está Cristo regiamente vestido, usando o ouro e a púrpura do imperador.

Pastoral, e sugerindo um suave ar de paz, esse mosaico nada tem do caráter sentimental e sonhador dos Bons Pastores pintados no século XIX. As ovelhas estão alerta, observando seu pastor, atentas a todas as suas ordens. A paisagem é árida, havendo rochas por toda parte. Tão cedo na arte cristã, já a atitude cristã era representada como de constante vigilância.

O estilo romano-pompeano persiste em todos os mosaicos de Galla Placidia. Luz, sombra e profundidade desempenham um papel importante. O formalismo ainda estava por vir.

Entre o túmulo de Galla Placidia e o batistério de Ravena, a arte cristã se desenvolveu. Ela abandonou seu interesse greco-romano pela narrativa e voltou-se mais para o Oriente, em busca de inspiração. Constantinopla foi sua nova fonte. Infelizmente as mais antigas artes bizantinas se perderam porque Constantinopla, seu berço, foi destruída tantas vezes que pouco dela restou. Ravena representa agora o que Constantinopla outrora deve ter sido.

Cúpula do batistério em Ravena

No âmago da arte bizantina encontra-se a idéia de majestade. Cristo é o rei; os anjos, os santos e o imperador são a sua corte. Desapareceu o doce pastor, e em seu lugar está o governante.

No batistério de Ravena são visíveis os primeiros traços da nova influência bizantina. Aqui termina a primeira busca do cristianismo de uma forma própria de manifestar-se artisticamente. Um último e prolongado relance para a passada cultura pagã pode ser visto no batismo de Cristo, a figura central do mosaico do teto.

O jovem Cristo está imerso nas águas do Jordão entre duas figuras: o rude São João Batista está à sua esquerda e um deus semelhante a Netuno dá sua aprovação à direita (na realidade, a figura não é Netuno, mas a personificação do rio Jordão). Eles têm aquela qualidade estática, fixa, nova na arte cristã nessa época, mas que persistirá por muitos séculos em muitos lugares.

Enquanto a grande majestade de Deus estava sendo salientada por toda parte, em Ravena temos uma figura de Cristo, na basílica de Santo Apolinário Novo, desenhada não só para significar a realeza de Deus mas também a benevolência sabedoria e misericórdia do Redentor. Ele tem uma dignidade dificilmente superada. A primitiva idéia do Cristo jovem cedeu lugar à do homem amadurecido.

O estilo bizantino, que teve origem no império de Constantino, influenciou a arte cristã do Ocidente por oito séculos – isto é, por um período mais longo do que aquele que separa Picasso de Giotto. O surpreendente é o pouco que ela mudou em todo esse tempo. Mais tarde, as guerras espalharam os artistas do Oriente por todos os países ocidentais e áurea glória dos mosaicos de Ravena dos séculos V e VI brilhou novamente em Dafni, na Grécia, em Veneza e na Sicília.

A abside da Catedral de Monreale, Sicília, com um mosaico do século XIII representando Cristo o Governante e Mestre, conhecido como Pantocrator. Foi esse tema, em vez do crucifixo, que por muitos séculos dominou as igrejas católicas e que fixou o caráter da arte .

Os mosaicos de Palermo estão entre os mais belos desse período. Ali, e em Monreale, podem-se ver todos os traços tradicionais da arte cristã cuidadosamente conservados. Características são as majestosas figuras de Cristo glorificado, rodeado de anjos e santos.

(Mosaicos do século XI na Capela Palatina, Palermo, representando o nascimento de Cristo e sua entrada em Jerusalém. Alguns dos mais belos exemplares da arte bizantina na Europa se encontram na Sicília.)

A cena da coroação, na igreja Martorana, em Palermo, onde um rei terreno é coroado pelo Rei do Céu, segue a tendência de Ravena. O monarca terreno está luxuosamente trajado e coberto de jóias, mas, em estatura, ele é apresentado num tamanho muito menor do que a figura modestamente trajada de Cristo. Embora essa maneira date do século XII, a forma primitiva persiste. Uma fórmula se transformara numa tradição fixa.

Cena da coroação, na igreja Martorana, em Palermo

Outro elemento importante da arte bizantina é o ícone.O ícone tem origem nos retratos funerários da antigüidade greco-romana (fayum). São escritos (maneira de se referir à pintura deles) sobre madeira, na técnica da encáustica ou da têmpera. Como o mosaico, ele se difundiu pelo mundo ocidental. É uma representação rica, rígida e formal de uma simples personagem ou de uma cena, pintados num painel de madeira contra um fundo dourado.

Ícone georgiano

Nesse ponto, alguém pode perguntar:

– E a noção de originalidade?

A noção moderna de que um artista deve ser “original” não era compartilhada pela maioria das pessoas do passado. Um mestre egípcio, chinês ou bizantino ficaria imensamente perplexo se lhe exigissem tal coisa. Tampouco um artista da Europa medieval ocidental teria entendido por que haveria de inventar novos métodos para desenhar um cálice ou representar a História Sagrada, quando os antigos métodos serviam tão bem a esses fins. O piedoso devoto que queria dedicar um novo sacrário para uma relíquia de seu santo padroeiro não só tentava obter o mais precioso material que estivesse ao seu alcance, mas desejaria também dotar o mestre com um antigo e venerável exemplo de como a vida do santo devia ser corretamente representada. Nenhum artista se sentia embaraçado com esse tipo de encomenda; ainda lhe restava campo suficiente para mostrar se era um mestre ou um charlatão.

Talvez possamos entender melhor essa atitude se pensarmos no tipo de música que se pede para tocar num casamento. Numa festa de casamento não esperamos que os músicos componham algo novo para a ocasião, assim como o mecenas medieval não esperava uma nova invenção quando encomendava uma pintura sobre a Natividade para decorar sua capela pessoal. Indicamos o tipo de música que queremos e o tamanho da orquestra ou do coro, se os nossos meios o permitirem. Entretanto, é ainda ao músico que compete apresentar uma execução maravilhosa de uma antiga obra-prima ou fazer desta uma barrafunda inaudível. E, assim como dois músicos igualmente grandes podem interpretar a mesma peça de modos muito diferentes, também dois grandes mestres bizantinos podiam criar obras de arte muito diferentes sobre o mesmo tema e até a partir do mesmo modelo antigo.

Assim sendo, o estilo bizantino, que representa tão bem a majestade de Deus, marcou não só o passado da Igreja, como continua a inspirar artistas dos nossos dias e, ainda mais, a ser fielmente reproduzido em muitos ambientes eclesiásticos.

Glossário

Afresco: O termo “afresco”, hoje é sinônimo de pintura mural. Originalmente, porém, era uma técnica de pintar sobre a parede úmida. Vem daí seu nome (“pintura a fresco” ———> “pintura afresco”).

Nesse tipo de pintura, a preparação da parede é muito importante. Sobre a superfície da parede é aplicada uma camada de reboco a base de cal, que, por sua vez, é coberta com uma camada de gesso fina e bem lisa. É sobre essa última camada que o pintor executa sua obra. Ele deve trabalhar com a argamassa ainda úmida, pois com a evaporação da água, a cor adere ao gesso (o gás carbônico do ar combina-se com a cal e a transforma em carbonato de cálcio, fazendo com que o pigmento se fixe na parede).

O afresco se distingue das demais técnicas porque, uma vez seca a argamassa, a pintura se incorpora ao reboco, tornando-se parte integrante dele. Nas outras técnicas, as figuras pintadas permanecem como uma película aplicada sobre um fundo. Além disso, como a parede deve estar úmida para receber a tinta, a camada de gesso é colocada aos poucos. Assim, se alguma área já pronta não receber pintura, ela precisa ser retirada a aplicada posteriormente. Por esse motivo, observando um afresco de perto, podemos notar os vários pedaços em que foi sucessivamente executado.

Têmpera: A têmpera é o nome que recebe um dos modos que os artistas bizantinos utilizavam para preparar a tinta usada em seus ícones. Consiste em misturar os pigmentos a uma goma orgânica, para facilitar a fixação das cores à superfície do objeto pintado. A mais comum é a goma de ovo. O resultado é uma pintura brilhante e luminosa. A partir do surgimento da pintura a óleo, os artistas abandonaram a técnica da têmpera. Mas alguns contemporâneos continuam a usá-la, como foi o caso do pintor brasileiro Alfredo Volpi.

Encáustica: Já a técnica da encáustica foi utilizada desde a Antigüidade. Os gregos usavam-na, por exemplo, para colorir suas esculturas de mármore. O processo consiste em diluir os pigmentos em cera derretida e aquecida no momento da aplicação. Ao contrário da têmpera, cujo efeito é brilhante, a pintura da encáustica é semifosca.

Mosaico: O mosaico consiste na colocação, lado a lado, de pequenos pedaços de pedras de cores diferentes sobre uma superfície de gesso ou argamassa. Essas pedrinhas coloridas são dispostas de acordo com um desenho previamente determinado. A seguir, a superfície recebe uma solução de cal, areia e óleo que preenche os espaços vazios, fazendo com que os pedacinhos de pedra adiram melhor. Como resultado obtém-se uma obra semelhante à pintura.

Os gregos usavam os mosaicos principalmente nos pisos. Já os romanos utilizavam-nos na decoração, demonstrando grande habilidade na composição de figuras e no uso da cor. Na América os povos pré-colombianos, principalmente os maias e os astecas, chegaram a criar belíssimos murais com pedacinhos de quartzo, jade e outros minerais.

Mas foi com os bizantinos que o mosaico atingiu sua mais perfeita realização. As figuras rígidas e a pompa da arte de Bizâncio fizeram do mosaico a forma de expressão artística preferida pelo Império Romano do Oriente.

Assim, as paredes e as abóbadas das igrejas, recobertas de mosaicos de cores intensas e de materiais que refletem a luz em reflexos dourados, conferem uma suntuosidade ao interior dos templos que nenhuma outra época conseguiu reproduzir.

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