Categorias
Crise Eclesiologia

Juízo tradicionalista sobre os papas

Texto de Joathas Bello:

O juízo dos tradicionalistas sobre os papas conciliares é parcial.

Como já disse em algum momento, o “sim, sim, não, não” é sim a todo sim e não a todo não.

1) João XXIII é uma incógnita (tanto é que há sedevacantistas que o têm como Papa e bom Papa!): até o CVII parece um Papa normal, mas permitiu que a minoria progressista de bispos assumisse o controle da metodologia conciliar e escreveu Pacem in Terris no decorrer do CVII, fundamentalmente correta, mas com sabor humanista que antecipa Gaudium et Spes (e Populorum Progressio e Fratelli Tutti, esta última já inteiramente inaceitável de um ponto de vista católico).

2) Paulo VI é profundamente ambíguo e foi objetivamente negligente. Teve atuações importantes como Papa: Humanae Vitae, intervenções pontuais que resguardam as possibilidades ortodoxas da “colegialidade” e da “liberdade religiosa”, o Credo do Povo de Deus que manifesta o que é de Fé e o que é contingente (o diálogo) no CVII, Mysterium Fidei e a correção da definição do Missal sobre a Missa, que dão o contexto para a reta intenção da Igreja na celebração do novus ordo. Em outras palavras, o carisma papal ali funcionava, num modo parcial (suficiente para a indefectibilidade eclesial, insuficientíssimo para o bem requerido). Mas fez discursos de índole maçônica (humanista e filognóstica) na ONU e no encerramento do CVII, fez a péssima reforma litúrgica, e proibiu aparentemente o rito tradicional. Via os males mas não assumia sua culpa e se autojustificava. Se a canonização é infalível, a balança de Deus o favoreceu, ainda que objetivamente ele não seja modelo de santidade papal e sua canonização tenha sido um ato fundamentalmente político.

3) João Paulo II teve formação neoteológica e seus primeiros documentos e discursos favorecem o erro teológico da gratificação. universal. Sua visão sobre a reforma litúrgica e a Missa tradicional era obtusa, pode-se questionar a excomunhão dos bispos tradicionalistas, mas com o Ecclesia Dei ele objetivamente melhorou a situação deixada por Paulo VI. O Encontro de Assis foi um horror injustificável. Mas seu ensinamento moral – por causa da formação fenomenológica, ao contrário da interpretação tradicionalista – é muito bom; e seu testemunho em favor da lei natural atrasou os horrores mais recentes. Sua luta contra a TL e o comunismo foram determinantes. Seu amor a Nossa Senhora e seu ardor apostólico eram sem fingimento. Sua aceitação do sofrimento, exemplar. Era um homem reto e piedoso; só a antipatia visceral o impede de ver.

4) Bento XVI levou adiante o bem parcial de João Paulo II. Responsável, no pontificado anterior, por Dominus Iesus, que deu a interpretação cristológica e eclesiológica ortodoxa definitiva do CVII. Esboçou críticas graves (ainda que com o comedimento de homem da Igreja) a Gaudium et Spes (ao otimismo conciliar) e à reforma litúrgica. Corrigiu em parte sua injustiça com Summorum Pontificum, responsável (na esteira da resistência tradicionalista) pelo conhecimento e expansão universal (embora comedida) da liturgia romana de sempre. Acalentava o ideal da “reforma da reforma” e da “hermenêutica da continuidade”, soluções pastorais intelectualistas e insuficientes – tendo-se em conta a devastação progressista do pontificado atual – para os problemas conciliares (que não chegou a reconhecer na raiz, pela mentalidade neoteológica da qual nunca adquiriu a distância necessária). Sua teologia tem traços de sabedoria (que o tradicionalismo não consegue reconhecer).

5) Francisco é tudo o que dizem. E ainda pior. Infelizmente.

Deixe um comentário