O rito celta

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A falta de evidências sobre a prática litúrgica nas localidades onde o rito celta foi usado não permite que se tenha um quadro muito claro sobre ele. Todavia, podemos afirmar que nunca houve um rito celta no sentido estrito, como é o moçarábico ou o ambrosiano (fora que, na verdade, o que havia eram ritos).

Os monges celtas, incansáveis missionários que levaram o Evangelho para terras distantes, nunca quiseram criar uma nova liturgia. Parece que eles escolhiam elementos de diferentes tradições e os combinavam. Desse modo, os rituais celtas acabavam sendo uma composição eclética de costumes estrangeiros, tanto romanos quanto galicanos. Na Escócia, na Irlanda, em Gales, na Cornualha e na Bretanha existiam várias especificidades. Essas especificidades ficavam patentes na forma da tonsura (tonsura magorum – eles raspavam toda a cabeça, como os antigos druidas), na data da Páscoa (uma controvérsia que eu particularmente não entendo e acho muito chata para pesquisar), e nas leituras e unções durante uma ordenação. Após um sínodo fracassado em 603, o Sínodo de Whitby conseguiu a completa submissão dos celtas. Mesmo assim, traços de uma liturgia independente continaram a existir em partes da Irlanda até o Sínodo de Cashel (1172) quando o rito anglo-romano foi introduzido. A Bretanha provavelmente perdeu seus rituais distintivos na época de Luiz I, o Pio (817), e a Escócia no século XI pelos esforços da rainha Margarida (canonizada em 1250).

Até onde vão as evidências, pode-se afirmar que o rito celta foi muito influenciado pelo rito galicano no seu nascimento e gradualmente se romanizou. Não existem registros anteriores ao século V.

O rito celta é estudado a partir de três fontes principais: o Antifonário de Bangor, o Missal de Bobbio e o Missal de Stowe – todos de origem monástica. Como se depreende de seu nome, o Antifonário de Bangor é uma coleção de antífonas, versículos, hinos, cantos, etc., e deve ter sido compilado para uso dos abades do famoso mosteiro de Bangor na Irlanda. Ele data do final do século VII (entre 680 e 690) e se encontra na Biblioteca Ambrosiana em Milão. O Missal de Bobbio, um curioso manuscrito descoberto por J. Mabilion em Bobbio, Itália, é uma das testemunhas mais antigas da história do Canon Romano; ele apresenta uma liturgia local influenciada por Roma. Por fim, o Missal de Stowe, um manuscrito dos século VIII ou IX, foi composto provavelmente para a abadia de Tallaght perto de Dublin. Ele contém, além do Evangelho de São João, o ordinário da Missa, três próprios e os ritos do Batismo, da Unção dos Enfermos e da ministração do Viático. Além dessas obras, há vários fragmentos de manuscritos irlandeses e algumas outras completas (como o Livro de Mulling).

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Na Missa, a preparação das oblatas era feita antes da entrada do celebrante, como nos ritos galicanos. As orações iniciais incluiam uma confissão dos pecados e longos pedidos de perdão, bem como uma ladainha com o nome dos santos irlandeses. A primeira parte da Missa, na sua forma mais tardia, como está no Missal de Stowe, seguia uma forma romana: Gloria, uma ou mais Coletas, Epístola, Gradual e Aleluia. Nesse ponto era dita uma ladainha, a Deprecatio Sancti Martini, como nos ritos orientais (também presente no rito ambrosiano tradicional – pelo menos na Quaresma). Após mais duas orações, um descobrimento parcial das ofertas e uma invocação tripla sobre elas, o Evangelho era cantado, seguido pelo Credo (com o Filioque). No Ofertório, após o descobrimento total das ofertas, o cálice e, às vezes, a patena, era elevado. Em seguida era feito o Memento dos defuntos e a leitura das intenções pelos falecidos do lugar. O Prefácio, com seu diálogo preliminar, vinha em seguida, acompanhado pelo Sanctus e o pós-Sanctus. Mesmo que no Missal de Stowe o Canon seja chamado de Canon dominicus papae Gilasii, o que temos de fato é o Canon Gregoriano com alguns santos irlandeses citados. Após o Memento dos vivos era lida uma lista com mais de 100 nomes de santos (de personagens vétero-testamentários a monges irlandeses). Vários cantos eram designados para a Communion, incluindo (no Antifonário de Bangor) o belo Sancti venite:

Sacte venite,
Christi corpus sumite,
sanctum bibentes,
quo redempti sanguinem.

Salvati Chrsiti,
corpore et sanguine,
a quo refecti
laudes dicamus Deo.

Hoc sacramento
corporis et sanguinis
omnes exuti
ab inferni faucibus.

Dator salutis,
Christus filius Dei,
mundum salvavit
per crucem et sanguinem.

Pro universis
immolatus Dominus
ipse sacerdos
existit et hostia.

Lege praeceptum
immolari hostias,
qua adumbrantur
divina mysteria.

Lucis indultor
et salvator omnium
praeclaram sanctis
largitus est gratiam.

Accedant omnes
pura mente creduli,
sumant aeternam
salutis custodiam.

Sanctorum custos,
rector quoque, Dominus
vitam perennem
largitur credentibus.

Caelestem panem
dat esurientibus,
de fonte vivo
praebet sitientibus.

Alpha et Omega
ipse Christus Dominus
Venit venturus
iudicare homines.

Uma grande liberdade parece ter sido deixada para os mosteiros na organização do Ofício Divino, e detalhes sobre isso podem ser encontrados em várias regras monásticas (como a de São Columbano). O rito celta teve ampla influência no desenvovimento do sacramento da Penitência, já que é devido a ele que hoje a confissão é auricular (e não pública).

Fontes:

Cabrol, Dom Fernand. The Mass of the Western Rites.

Jenner, Henry. “The Celtic Rite.” The Catholic Encyclopedia. Vol. 3. New York: Robert Appleton Company, 1908.16 May 2010.

Sancti Venite. Disponível em: http://www.preces-latinae.org/thesaurus/AnteMissam/SanctiVenite.html. Acessado em 17 de maio de 2010.

Sheppard, L. C. “Celtic rite” New Catholic Encyclopedia. Vol. 3. The Catholic University of America, 1967.

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