Islã

Apresento um ótimo texto do confrade Ricardo sobre o islamismo (qualquer esforço de apologética católica não pode prescindir do estudo comparado das outras religiões ou grupos cristãos – a grafia “Islam” é própria do autor):

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Tendo em vista os tópicos sobre religiões não-cristãs que foram criados na comunidade Apologética Católica do Orkut, pensei em fazer um estudo sobre o Islam.

Posso falar, a partir de pesquisas e estudos em Religiões comparadas e no Islam em particular que tenho desempenhado há anos, que estou convencido de que o conhecimento do Islam que aparece em nossos melhores livros de apologética (como o de Boulanger) é mais do que deficiente: é insignificante ao ponto de não fornecer sequer um conhecimento superficial, mas correto, sobre esta religião.

Sem mais apresentações, posso dizer que o estudo do Islam é de suma importância desde os primórdios desta religião. Pois a expansão fulminante da jihad fez com que, em mais ou menos 100 anos, a religião nascida na Arábia estendesse seus domínios da Espanha até o norte da Índia. Das quatro sedes apostólicas da Cristandade (Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Roma), somente Roma não foi dominada pelos exércitos muçulmanos. Constantinopla, mais tarde, também foi conquistada. A mensagem religiosa do Islam é monoteísta e acentuadamente semita, portanto próxima do cristianismo. No mundo contemporâneo, o Islam ainda tem uma força impressionante. Então, o objetivo deste artigo é procurar entender este fenômeno e relacioná-lo com o cristianismo.

O estudo começa com as fontes da “revelação” islâmica. Islam significa submissão (a Deus). É dito entre os muçulmanos que todas as coisas estão “em estado de islam”, já que Deus controla tudo, mas os seres humanos entram nesse estado ativamente, e não passivamente, através da fé e da prática da religião (din) revelada aos profetas.

O Alcorão e a suna

Ao contrário do Cristianismo, que se baseia em primeiro lugar em Jesus Cristo, na Igreja e na economia sacramental, o Islam se baseia num Livro sagrado que é o centro de toda a religião. Enquanto a Bíblia é uma coletânea de livros – cujo cânon só foi decidido séculos após Jesus Cristo -, escritos por homens inspirados por Deus, o Corão é tido como palavra de Deus ditada aos ouvidos do profeta, que não participou em nada da criação do Livro. O status dos dois livros sagrados nestas religiões, portanto, é completamente diferente. O Corão também foi ditado em árabe, primeiramente apenas recitado para depois da morte do profeta ser compilado em forma escrita por um de seus companheiros. No Islam, qualquer tradução do Corão é considerada tafsir, ou seja, mero comentário ao livro, e não o próprio livro, já que a Palavra de Deus foi revelada em árabe letra por letra, palavra por palavra. O Corão contém exortações sobre a adoração a Deus, oração, jejum, discursos sobre o poder divino, narrativas sobre profetas bíblicos (principalmente Noé, Abraão, Moisés e Jesus), leis, etc. Portanto, o Islam é uma “religião do Livro” enquanto o cristianismo é uma “religião da Pessoa”. Mateus Soares de Azevedo resume essas diferenças (essenciais para a compreensão de ambas as religiões):

“Diferentemente do cristianismo, que se baseia na pessoa de Jesus Cristo, o islã é uma religião centrada num livro, o Corão. Se no cristianismo a revelação se encarna na sua figura, no islã ela se dá através do Corão. Enquanto que no cristianismo se diz que ‘o Verbo de Deus se fez Carne’, no islã, ‘o Verbo se fez Livro’.

(…) De certo modo, o cristianismo, religião cuja base é um fato, isto é, a encarnação, se contrapõe ao islã, cuja base é uma ideia, a da unidade divina. Para o cristão, a verdade é a encarnação de Deus, através de Jesus Cristo, no mundo do espaço, do tempo e do número, o mundo da história, e é a redenção operada pelo mesmo verbo divino neste mundo. Para o muçulmano, diferentemente, a verdade é o Deus uno e único, Allâh, e sua transcendência em face do mundo” (A inteligência da fé).

Curiosamente, o protestantismo, que, de certa forma, tentou transformar o cristianismo numa “religião do Livro”, trouxe várias semelhanças (quanto à forma, não ao conteúdo) com o Islam: iconoclastia no que tange à arte, sacerdócio por assim dizer estendido a todos os homens, abolição do monasticismo, etc.

Mas o Islam também ordena que os muçulmanos (palavra que significa submissos a Deus) sigam os exemplos do profeta Muhammad (Maomé). Daí surge a necessidade de seguir uma outra fonte: a sunnah, que significa costume ou tradição. Seguir a suna do profeta é seguir seus passos em tudo. Seus companheiros e familiares registraram tudo que ele fazia, deixava de fazer, recomendava, desaprovava, ordenava, etc. em ahadith (ditos).

m1Muhammad não deve ser comparado a Jesus ou Buda, mas a Moisés ou Salomão. Ou seja, ele unia em si a autoridade espiritual e o poder temporal, e incluía na sua missão objetivos também “deste mundo” (subordinados aos objetivos no “Outro mundo”). Isso significa que, além de dar lições sobre a salvação eterna da alma, a espiritualidade, etc. ele também deu lições sobre o estabelecimento de um Estado (e de fato estabeleceu um). Quem lê o Pentateuco, percebe que Moisés trouxe centenas de leis (os 10 mandamentos são uma síntese), e os judeus conquistaram militarmente um território (a Terra prometida), estabeleceram ali um governo, etc. Tudo isso é parte da revelação, ao contrário do estabelecimento dos estados cristãos que foi um processo diferente. Os muçulmanos costumam dizer que o Islam é um “caminho do meio” entre Moisés e Jesus: o primeiro tinha sua missão mais voltada para as coisas deste mundo (daí não haver menção à vida eterna na Torá), enquanto o segundo para as coisas da próxima vida (daí não haver no Novo Testamento leis suficientes para organizar uma sociedade, nem Jesus ter se empenhado pessoalmente em exercer o poder temporal). Muhammad também tinha, de certa forma, uma “Terra Prometida”, que incluía Jerusalém, o Egito, toda a península arábica, Constantinopla e outras terras que seus exércitos acabaram por conquistar de fato. Mas nem por isto deixou de exortar vivamente sobre o paraíso e o inferno na outra vida. O Islam, ao menos no que os muçulmanos pretendem que ele é, não deve ser entendido como “um retorno ao Antigo Testamento” – como muitos cristãos o interpretam -, mas como uma tentativa de síntese entre Antigo e Novo Testamento. Uma proposta de equilíbrio entre o exoterismo (exterioridade) predominante em Moisés e o esoterismo (interioridade) predominante em Jesus (que esta seja precisamente a relação entre as duas alianças, é indiscutível na própria tradição cristã: Quod Moyses velat, Christi doctrina revelat).

Os profetas

Segundo o Islam, Deus enviou profetas a todos os povos. Em todos eles, há um núcleo imutável na mensagem e uma outra parte mutável. O imutável é o tawhid, ou seja, o monoteísmo tal como o Islam o entende (o que exclui a SS. Trindade e a divindade de Jesus). A parte mutável é a shariah, a Lei, cujas características variam no tempo e no espaço. Assim, Muhammad ter proibido completamente o álcool não significa que todos os profetas tenham proibido. O importante é que cada povo siga seu profeta (e cada profeta tem sua Ummah, sua comunidade de discípulos, um conceito que se aproxima do de Igreja). Mas a Lei de Muhammad abole todas as outras leis, pois ele é o último dos profetas. Jesus foi o penúltimo. Aqui chegamos a uma diferença essencial entre Islam e Cristianismo. Para o Islam, todos os profetas (Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi, Salomão, Jesus, Muhammad e milhares de outros que teriam sido enviados), são, no fundo, iguais. À “unicidade da cruz” o Islam substitui a “periodicidade do crescente”. A missão dos profetas é renovar periodicamente o monoteísmo, e não realizar uma ação redentora (como a morte de Jesus realizou), muito menos uma ação redentora única na história. Sendo Deus o mesmo e a natureza humana a mesma, argumentam os muçulmanos, a relação entre Deus e o homem é sempre a mesma, perene, sem novidades.

O Corão nega explicitamente a crucificação e a morte de Jesus. Não houve redenção, e ela também não é necessária: não há pecado original e os pecados pessoais são perdoados somente pelo poder de Deus. Jesus também não é Deus, nem filho de Deus. Dizer isso é uma blasfêmia. Mas Jesus não morreu, foi elevado a Deus e retornará no fim dos tempos, antes do Juízo final, para instituir na terra um reino de paz e religião (quando ele irá converter cristãos e judeus, e abolir a shariah de Muhammad trazendo uma nova shariah). Cristãos e judeus são considerados Ahl al Kitab (Povos do Livro), por seguirem religiões baseadas em revelações (ainda que corrompidas). Com a expansão islâmica, zoroastrianos, budistas e hindus também foram colocados nesse status. A shariah ordena que a liberdade religiosa desses povos seja preservada (o que às vezes aconteceu, outras vezes não).

Quais argumentos o Corão e Muhammad apresentaram contra a divindade de Jesus e a SS. Trindade? Primeiro, a Trindade que o Corão repreende não é a dos cristãos ortodoxos, mas a de uma seita da época, que adorava a trindade de Pai, Jesus e Maria! Mas qualquer forma de trindade é considerada uma blasfêmia. Não há discussão sobre a união hipostática ou as relações de processão em Deus, nada disso é mencionado nas fontes islâmicas e os muçulmanos sempre evitaram entrar em qualquer debate sobre isso. Simplesmente partem do pressuposto de que a unidade de Deus deve ser “absoluta”, “simples” (no sentido de ser compreensível por todos), repelem qualquer tentativa cristã de explicar como a união hipostática não contradiz a criação da natureza humana de Jesus, ou como as hipóstases em Deus não contradizem sua unidade absoluta. É a força de persuasão, a simplicidade e a acessibilidade do dogma islâmico que explica como ele gerou um ambiente dificílimo para a conversão. Depois que o Deus simplificadamente explicado e a sucessão dos profetas “nivelados” entram no imaginário dos muçulmanos, eles só conseguem analisar o cristianismo nesses termos. Peça a um muçulmano para estudar honestamente o cristianismo, e ele abrirá o Corão para ler as passagens sobre Jesus. Se pedir a um cristão para estudar honestamente o Islam, ele buscará as fontes do Islam. Esta “simplicidade” explica também por que os muçulmanos sempre acreditam que qualquer pessoa de boa vontade se converterá ao Islam assim que tiver informações básicas a respeito. Jacques Jomier expressou estes sentimentos muito bem, comentando as “provas” alegadas pelos muçulmanos para a origem divina do Corão:

“E mesmo se por delicadeza (ou por sentirem que é inútil fazê-lo, já que isso de nada serviria) os cristãos silenciam sobre este ponto, os muçulmanos são incapazes de compreender que a evidência não se imponha a eles, e alguns vão até ao ponto de suspeitá-los de má-fé” (Islamismo: história e doutrina).

Os “pilares” do Islam

Na sua apresentação mais imediata e acessível a todos, o Islam traz “pilares” da fé como os artigos de seu credo: crer em Allah (Deus), seus Anjos, seus Livros (Torá, Salmos, Evangelhos, Alcorão), seus Mensageiros (de Adão a Muhammad), no Juízo Final (onde ocorrerá a ressurreição dos corpos) e na Predestinação. O conceito de fé em Deus no Islam inclui atribuir a Ele os nomes e atributos que a revelação forneceu e nada mais. Allah não tem semelhança alguma com suas criaturas, nem com nada que possamos pensar, nem em sua essência (dhat) nem em seus atributos ou qualidades (sifat). Dizemos que Allah possui uma “face” pois a revelação assim falou, e não dizemos que sua face é apenas uma metáfora para sua essência, mas essa “face de Allah” não tem absolutamente nenhuma semelhança com qualquer criatura. A palavra é a mesma, o significado diferente. Deus só pode ser descrito em termos de negação e absoluta unicidade. Alguns de seus nomes no Corão: Alá (الله) O Deus, Al Rahman (الرحمن) O Compassivo; O Beneficente, Al Rahim (الرحيم) O Clemente; O Misericordioso, Al Malik (الملك) O Soberano, Al Quddus (القدوس) O Sagrado, Al Salam (السلام) A Fonte da Paz, Al Wahhab (الوهاب) O Doador, Al Basir (البصير) O que Tudo Vê, Al Hakam (الحكم) O Juiz, Al ‘Adl (العدل) O Justo, Al Wadud (الودود) O Amante, Al Majid (المجيد) O Glorioso, Al Muhyi (المحيى) o Doador da Vida, Al Mumit (المميت) O Criador da Morte, O Destruidor, Al Awwal (الأول) O Primeiro, Al Akhir (الأخر) O Último, Al Zahir (الظاهر) O Manifesto, Al Batin (الباطن) O Oculto, Al Muntaqim (المنتقم) O Vingador, Al ‘Afuww (العفو) O que Perdoa, Al Nur (النور) A Luz, Al Hadi (الهادئ) O Guia.

m 2 oOs pilares da prática são o testemenho de fé (shahada): Não há deus senão o único Deus e Muhammad é seu mensageiro (La ilahailla´Llah wa Muhammadun rasulu´Llah), a oração (cinco vezes ao dia, voltados para Meca, em árabe), o imposto social, o jejum (no mês do Ramadã, do nascer ao pôr do sol) e a peregrinação (pelo menos uma vez na vida a Meca, se tiver condições). Sobre o oração, há basicamente três tipos: a canônica (cinco vezes ao dia, em árabe, em períodos marcados de tempo), a pessoal (as súplicas, que não precisam ser em árabe) e o dhikr (invocações repetidas dos nomes de Deus, às vezes feitas em rosários).

Sunitas e xiitas

Há apenas três divisões clássicas no Islam (as outras são insignificantes), como no Cristianismo há protestantes, católicos, ortodoxos, coptas, etc. Essas divisões do Islam surgiram logo no início, e são: sunitas, xiitas e kharijitas. A principal disputa é política. Uma vez que Mohammad era ao mesmo tempo uma autoridade espiritual e um líder temporal, quem deveria sucedê-lo? E seus sucessores deveriam acumular também a autoridade espiritual? Para os kharijitas, os sucessores (califas) deveriam ter apenas o poder temporal, escolhidos dentro os muçulmanos mais piedosos. Para xiitas, o autêntico sucessor, supostamente apontado pelo Profeta, era seu genro Ali. Ele deveria acumular também a autoridade espiritual.

No entanto, o que de fato aconteceu é os sucessores do Profeta foram: Abu Bakr, Omar (que conquistou Jerusalém), Osman (que compilou o Alcorão tal como o conhecemos hoje) e Ali. Para os sunitas, esses são os quatro califas ortodoxos ou guiados (rashidun), que ainda conservavam alguma autoridade espiritual. Após eles, vieram os califados omíada, abácida e otomano, que, segundo a tradição sunita, devem ser seguidos e respeitados na ordem temporal (mas jamais quando ordenarem algo contrário à fé). Xiitas e kharijitas se revoltaram contra os três primeiros califas e só aceitaram Ali. Os kharijitas, grupo mais voltado para a rebelião política, se revoltaram também contra Ali, quando este aceitou o califado omíada de Muawiya (o quinto califa). Assim, Ali foi morto após um curto califado, provavelmente pelos kharijitas. Enquanto os xiitas continuaram desenvolvendo uma doutrina acerca dos imames. Estes formariam, a começar por Ali, uma sucessão de 12 líderes infalíveis e imaculados, dos quais o último ainda está vivo, dizem, porém em estado de “ocultação”.

O xiismo hoje é restrito grosso modo ao Irã. Ao longo da história islâmica, a polarização entre sunitas e xiitas se manteve na rivalidade entre grandes impérios ou nações: Abácidas e Fatímidas, Otomanos e Safavidas, Arábia Saudita e Irã (embora estes dois últimos nem de longe tenham o brilho civilizacional dos impérios precedentes). Uma característica interessante do xiismo é que ele assimilou a filosofia grega e elementos do zoroastrismo, enquanto o sunismo permaneceu sempre rigidamente apegado às fontes do Alcorão e da sunnah. O xiismo tem uma divisão entre esoterismo e exoterismo menos nítida que o sunismo, e é mais espiritual, menos legalista, etc. Pelo menos é essa a mensagem que os xiitas pretenderam passar ao mundo islâmico.

A ortodoxia sunita

O sunismo conseguiu unir 90% dos muçulmanos em 90% da história islâmica. Não na política, mas ao menos na religião. A ortodoxia sunita se baseia em 4 escolas de jurisprudência (fiqh), 2 de doutrina (aqidah) e nas confrarias (turuq) de sufismo. As escolas de jurisprudência desenvolvem, com suas peculiaridades próprias, o estudo da shariah, utilizando meios como a analogia e a razão para complementar os campos em que o Alcorão e a suna foram omissos. Mas aqui interessa sobretudo o sufismo e a teologia (kalam).

A teologia

No cristianismo, a teologia tem um papel central, em função do papel central dos mistérios (SS. Trindade e encarnação, sobretudo). No Islam ela não tem essa importância, que é ocupada pela jurisprudência. Mohammad e as primeiras gerações enfatizavam o valor espiritual de aderir às Escrituras sem discussões intelectuais e a primeira expressão racionalizada da religião veio com a seita dos mutazilitas (de tendência racionalista). Por isso os fundadores das escolas de jurisprudência foram hostis ao kalam. Em especial, o Imam Ahmad Hanbal defendeu o retorno às fontes e a interpretação literal em tudo (exceto no que pudesse materializar o divino). Foi o Imam Al Ashari (séc. X da era cristã), que evitou que o sunismo caísse nas tendências extremas do literalismo hanbalista e do racionalismo mutazilita, criando a versão ortodoxa do kalam. Outro pensador, Al Maturidi, fez o mesmo que Ashari. Por isto há duas escolas ortodoxas de aqidah (crença) e kalam (teologia especulativa): asharita e maturidita. Geralmente, o nome de “asharita” se refere a ambas, já que são muito semelhantes. Abaixo seguem algumas de suas teses mais importantes:

a) Essência e atributos de Deus: Os mutazilitas ensinaram que, em Deus, essência e atributos se identificam. Do contrário Deus seria um ser múltiplo, pois múltiplos são seus atributos. Também ensinaram que atributos como a “face” ou a “mão” de Deus, deveriam ser interpretados alegoricamente, como referências à “essência” e ao “poder” divinos. Os asharitas reagiram violentamente a essas doutrinas, ensinando que deve-se crer nos atributos tal como foram revelados, e literalmente, porém “sem perguntar como”. Isto é, Deus tem realmente uma “face”, mas não é como a nossa, não tem tamanho, nem é material, etc. E os atributos não são idênticos à essência: “não são a essência, nem separados dela”. Aqui há uma semelhança com a doutrina de Gregório Palamas (adotada oficialmente pela Igreja grega), segundo a qual há uma distinção inefável entre essência e energias de Deus. Fala-se até de uma “hipostatização” dos atributos divinos na teologia islâmica sunita.

Mas isso não significa que os sunitas negam qualquer interpretação figurativa dos atributos divinos. Esta é muito restrita, mas pode ser usada por teólogos competentes quando houver razões suficientes.

m7Entre Deus (essência e atributos) e as criaturas, não há semelhança alguma. O Islam rejeita qualquer analogia entre o divino e o criado. Por exemplo, em um atributo como a “vida” de Deus, só o que sabemos é que seu contrário está excluído: Deus não está entre os seres inanimados. Pelo atributo do “conhecimento” divino, só o que sabemos é que a ignorância está excluída. Mas não há, segundo os muçulmanos, qualquer analogia entre o conhecimento divino e o humano.

b) Atomismo e ocasionalismo: Bem cedo os muçulmanos tomaram contato com as teorias físicas e cosmológicas (as “ontologias do sensível”) da filosofia grega. Enquanto os filósofos como Averroes e Avicena aderiram vigorosamente ao neoplatonismo e ao hilemorfismo aristotélico, os teólogos asharitas defenderam uma forma islamizada de atomismo (que tomaram de Demócrito). Para Demócrito, os átomos eram incriados e movidos ao acaso. Para os asharitas, foi fácil substituir o acaso por Deus, criador dos átomos e seus acidentes. Eles introduziram ainda o conceito de átomos de tempo (unidades indivisíveis de tempo).

Os acidentes que formam um corpo não subsistem senão por um átomo de tempo, e precisam ser criados novamente por Deus. É a doutrina da renovação da criação a cada instante. Argumentando que Deus é criador e sustentador do universo, e que Ele não pode dividir seu poder com ninguém, os teólogos concluíram que não há verdadeiras relações causais. Há apenas o hábito ou costume de Deus em criar os acidentes dos átomos de maneira que nos dá a impressão de relações causais. O conceito de causalidade é identificado com o de criação.

Assim Etienne Gilson descreveu o universo asharita:

“Nele, tudo era desarticulado no tempo e no espaço para permitir que a onipotência de Deus pudesse circular à vontade. Uma matéria composta de átomos disjuntos, perdurando num tempo composto de instantes disjuntos, efetuando operações nas quais cada momento é independente do que o precede e sem efeito sobre o que segue, o todo só subsistindo, mantendo-se unido e funcionando pela vontade de Deus, que o mantém acima do nada e o anima com sua eficácia” (A filosofia na Idade Média).

O desenvolvimento da filosofia cristã demonstra que nada disso era necessário. A atribuição de causalidade às criaturas não contradiz a dependência delas com Deus, único criador e sustentador do universo. Da mesma forma que Deus dá existência às coisas, sem dividir a Sua existência, dá o poder causal próprio delas, que não é o poder de criar do nada. Aparentemente, a maneira como os filósofos apresentavam a teoria neoplatônica das Idéias e o hilemorfismo causou a falsa impressão de que essas doutrinas eram intrinsecamente ligadas à tese da eternidade do mundo e de que Deus dá às criaturas o poder de criar do nada.

Este ocasionalismo asharita foi mitigado pelos pensadores muçulmanos posteriores, que admitiram causas segundas. Disse o cheikh Nuh Keller:

“For Islamic tenets of faith do not deny causal relations as such, but rather that causes have effects in and of themselves, for to believe this is to ascribe a co-sharer to Allah in His actions. Whoever believes in this latter causality (as virtually all evolutionists do) is an unbeliever (kafir) without any doubt, as “whoever denies the existence of ordinary causes has made the Wisdom of Allah Most High inoperative, while whoever attributes effects to them has associated co-sharers (shirk) to Allah Most High” (al-Hashimi: Miftah al-janna fi sharh ‘aqida Ahl al-Sunna. Damascus: Matba’a al-taraqi, 1379/1960, 33). As for Muslims, they believe that Allah alone creates causes, Allah alone creates effects, and Allah alone conjoins the two. In the words of the Qur’an, “Allah is the Creator of everything” (Qur’an 13:16)” (Islam and evolution).

Nesta doutrina asharita, até as almas, jinns e anjos são compostos por átomos, e ocupam espaço. São corpos sutis e invisíveis. Esta é a opinião da maioria dos teólogos, mas não é obrigatória (um grande teólogo asharita, Al Razi, defendeu a imaterialidade das almas). No entanto, o atomismo (indivisibilidade da matéria) é considerado uma doutrina obrigatória, em função do “consenso da comunidade”.

c) Bem e mal: Para o Apóstolo Paulo, os homens em ignorância invencível da revelação poderão ser salvos por Cristo e na Igreja, se cumprirem os preceitos da lei natural que eles são capazes de descobrir com a razão e acreditarem em um Deus remunerador. Essa opinião, no Islam, é aceita (obviamente, sem a referência a Cristo e a Igreja) e foi defendida pelo Imam Al Maturidi. Segundo Maturidi, há alguns elementos de lei moral que todos os homens são capazes de compreender – mesmo sem revelação – e a ideia de Deus é acessível à razão. Por isso, todos os homens serão cobrados nesse sentido. Já o Imam Al Ashari – embora não negue a validade de demonstração da existência de Deus – entendia que, na ausência de uma revelação, os homens não são cobrados por nada, e de maneira nenhuma punidos. O bem e o mal, para Ashari, provém unicamente da vontade de Deus expressa na revelação.

d) Alcorão e visão beatífica: Xiitas e mutazilitas negaram a possibilidade da visão de Deus (com os olhos do corpo), afirmando apenas uma visão “com os olhos do coração”. Já a teologia asharita afirma, como dogma, a visão de Deus com os olhos do corpo, porém sem distância, luz, direção, figura, etc. É típico do pensamento asharita tomar tudo literalmente, e ao mesmo tempo negar tudo o que poderia materializar o divino. Diz-se que os crentes verão Deus com os olhos do corpo, mas numa visão sem “como”, diferente de todas as visões comuns (onde há necessariamente cores, distância, luz, direção, figura, etc). Novamente, a teologia cristã foi mais inteligente, afirmando simplesmente que a visão beatífica é o conhecimento direto da essência divina, chamado “visão” por não envolver a mediação dos conceitos.

Quanto ao Alcorão, por ser considerado palavra de Deus – isto é, um atributo de Deus -, os asharitas o tomam como incriado, mas não em seus sons, letras, palavras, papel, etc. Parece até a doutrina cristã da encarnação e das duas naturezas de Cristo! Xiitas e mutazilitas negam, por isso estão fora da ortodoxia, no entender dos sunitas.

Bibliografia

Al-Nasafi, Abu Hafs. The Nafasi Creed. Disponível em: http://www.marifah.net/belief–aqidah/articles/aqidah/the-nasafi-creed.html. Acesso em 08 de maio de 2010.

Azevedo, Mateus Soares de. A inteligência da fé. Rio de Janeiro: Nova Era, 2006.

Azevedo, Mateus Soares de. Iniciação ao Islã e Sufismo. Rio de Janeiro: Record, Nova Era, 2001.

Gilson, Etienne. A filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Jomier, Jacques. Islamismo: história e doutrina. Petrópolis, RJ: Vozes 1992.

Mim Keller, Nuh. Islam and evolution. Disponível em: http://www.masud.co.uk/ISLAM/nuh/evolve.htm. Acesso em 8 de maio de 2010.

Mim Keller, Nuh. Kalam and Islam. Disponível em: http://www.livingislam.org/k/ki_e.html. Acesso em 08 de maio de 2010.

O significado dos versículos do Alcorão Sagrado; versão portuguesa diretamente do árabe. Tradução de Samir El Hayk. São Paulo: MarsaM Editora Jornalística, 2004.

Schuon, Frihtjof. Para compreender o islã. Rio de Janeiro: Nova Era, 2006.

25 respostas em “Islã

  1. Sim, Thiago, pois para o islã Deus enviou profetas para todos os povos. Por isto hindus, budistas e zoroastrianos, embora fora da tradição abraâmica, foram reconhecidos como “povos do Livro”. Aquelas coisas que os católicos interpretam como originadas da Religião natural, os muçulmanos interpretam como originadas de profetas não mencionados no Alcorão.

  2. Isso parece um pouco com a hipótese corrente na cristandade medieval de que um anjo iria pregar entre os pagãos.Vale lembrar que dentro do sunismo e do xiismo também existem divisões que vão além das práticas místicas-iniciáticas, são as que se referem a interpretações das fontes doutrinárias. Por exemplo, no sunismo, temos o waabismo (predominante na Arábia Saudita e que eu comparo ao calvinismo no âmbito cristão).Ricardo, os drusos são o quê? Uma outra religião saída do Islã ou uma divisão interna do islamismo?Onde existem mais kharijitas?

  3. No meu texto, a palavra sunismo se refere sempre aos sunitas tradicionais, salvo referência expressa aos salafis. As divisões básicas do sunismo são:a) sunitas tradicionais: aceitam as 4 escolas de jurisprudência (malikita, hanafita, chafita e hanbalita), as 2 de aqidah (asharita e maturidita) – incluindo o kalam, ou teologia especulativa, desenvolvido por essas escolas – e as diversas confrarias de sufismo. A característica principal deles é essa continuidade com os sábios muçulmanos do “islã clássico”. Pode-se dizer que o maior pensador desse ramo é Al Ghazali.b) salafis: são os diversos grupos reformistas, de variadas tendências. A ideia principal é o retorno aos salaf as salihin (os “predecessores virtuosos”, primeiras gerações de muçulmanos), mas em rompimento com elementos fundamentais do “islã clássico”. Praticam uma jurisprudência de orientação hanbalita, e não aceitam o kalam nem o sufismo. Em alguns casos, chegam a dizer que Deus tem localização no espaço (consequencia do literalismo aliado à rejeição de qualquer teologia racional). Embora tenham surgido a partir do séc. XIX, se inspiram no sábio muçulmano medieval Ibn Taymiyah, famoso por suas tendências hanbalistas extremas. Os fundamentalistas e terroristas sempre são adeptos de alguma forma de reformismo.No xiismo, há os duodecimanos (maioria no Irã), ismaelitas e zaiditas, conforme a quantidade de imames que aceitam.Os drusos não podem ser considerados muçulmanos, pois aceitam uma encarnação de Deus em um califa. Seria como aceitar mórmons como cristãos, ou algo assim.Os herdeiros dos kharijitas são os ibaditas, um pequeno grupo em Omã. São considerados os iniciadores de divisões no islã e inspiração para os terroristas atuais (tinham espírito de revolta). Há um forte conteúdo político em todas as divisões do islã.

  4. Ricardo, muito bom o material que produziste. Segue abaixo link para um breve artigo que trata da relação da Bíblia e do Corão com a ciência. O artigo não traz muitas informações, mas vale pelos livros que tratam do assunto e que são indicados logo no início do texto. Ambos disponíveis na internet.

    http://bedejournal.blogspot.com/2009/10/christianity-islam-and-science.html

    Assim como propuseste a comparação entre Maomé e Moisés, o artigo que envio propõe – embora não chegue a desenvolver – um paralelo entre Maomé e Nossa Senhora. Leia e veja o que achas disso? Já tinhas lido um paralelo do genêro?

  5. Muito bom esse blog. Sim, esse paralelo entre Maria e Muhammad existe, em função de ambos serem (nas respectivas religiões) os portadores do Verbo revelado, intercessores e veneráveis, porém humanos.

  6. Você poderia comentar sobre o que tem de bom em cada um, pois este post já virou um manual sobre o islamismo e quanto mais didático melhor ele ficará.

  7. O último site me parece ser um site flosófico, da filosofia asharita; o terceiro volta-se para o estudo do islamismo tradicional; o segundo parece também cultivar o tradicionalismo sunita; o primeiro, por fim, é uma academia virtual (também ligado ao sunismo). Ricardo, eu estou certo nessas indicações?Existe algum bom site xiita?

  8. A Paz de DEUS!sou muçulmano e queria dar parabéns aos amigos católicos por este post. De coração.

  9. A paz de Deus!Eu estou admirada com sua dedicação aos estudos islâmicos, porém, devo salientar aqui minha opinião. Afirmou que um cristão ao estudar islam irá utilizar fontes islâmicas e um muçulmano irá utilizar o Al Qur'an.Bem, não devemos generalizar,pois muitos cristãos se utilizam apenas do que padres ou pastores pensam do islam e repassam. Devemos afirmar apenas objetos de estudos, porque afirmar atitudes pessoais é muito irrelevante.Mas isso não deixa ofuscar a brilhante colaboração para a compreensão imparcial do islam.Jazakallah Khairun!Que Deus te recompense melhor!

  10. Obrigado “anônimo”, mas o mérito é todo de meu confrade Ricardo.

    Atifah, eu me refiro ao “dever ser”. Bem sei que a maior parte das pessoas não estuda a religião comparada a partir de fontes primárias.

  11. Olá Ricardo,Vc postou um link para esse post em meu blog e cá estou. Está muito bom e objetivo. Eu só tenho algumas coisas a questionar:”O Corão também foi ditado em árabe, primeiramente apenas recitado para depois da morte do profeta ser compilado em forma escrita por um de seus companheiros.”Na realidade, ele foi sendo escrito enquanto o Profeta (saws) estava vivo, e havia também trechos somente memorizados pelos companheiros. Havia compilações circulando por escrito antes e depois de sua morte, e foi por isso que o califa e os outros companheiros decidiram compilar uma versão final oficial, abalizada pelo testemunho dos que conviveram com o Profeta (saws). Portanto, não se pode dizer que o califa “compilou” o Alcorão.”Mas o Islam também ordena que os muçulmanos (palavra que significa submissos a Deus) sigam os exemplos do profeta Muhammad (Maomé). Daí surge a necessidade de seguir uma outra fonte: a sunnah, que significa costume ou tradição. Seguir a suna do profeta é seguir seus passos em tudo. Seus companheiros e familiares registraram tudo que ele fazia, deixava de fazer, recomendava, desaprovava, ordenava, etc. em ahadith (ditos).”Para ser mais exato, o termo sunnah tem 3 significados:http://www.masud.co.uk/ISLAM/nuh/hadith.htm“… ele também deu lições sobre o estabelecimento de um Estado (e de fato estabeleceu um).”O conceito ocidental de “estado” não corresponde ao conceito islâmico de “dawla”, que foi o que o Profeta (saws) estabeleceu, e como se denominavam o que também é indevidamente traduzido como “impérios islâmicos”. O termo para império não era o mesmo que para dawla. Parece um preciosismo, mas é essencial para se compreender o mundo islâmico até hoje e a falta de legitimidade que os ditos “estados islâmicos” têm para o Islã.”O Islam, ao menos no que os muçulmanos pretendem que ele é, não deve ser entendido como “um retorno ao Antigo Testamento” – como muitos cristãos o interpretam -, mas como uma tentativa de síntese entre Antigo e Novo Testamento.”Eu não diria que nós, muçulmanos, pretendemos que o Islã seja entendido como uma “tentativa de síntese” dos dois testamentos cristãos, mas acho que vc mm entendeu qual o problema em se colocar o Islã nesses termos.”e cada profeta tem sua Ummah, sua comunidade de discípulos, um conceito que se aproxima do de Igreja…”Ummah não é “comunidade de discípulos”, pois não dizemos que os profetas são nossos mestres. O “mestre” é Allah. A tradução que me parece mais correta seria “comunidade de crentes”, algo semelhante ao “corpo místico do Cristo”, creio eu.”Não há discussão sobre a união hipostática ou as relações de processão em Deus, nada disso é mencionado nas fontes islâmicas e os muçulmanos sempre evitaram entrar em qualquer debate sobre isso.”Se tem uma coisa que os muçulmanos sempre debateram com cristãos foi isso.CONTINUA

  12. “Para os sunitas, esses são os quatro califas ortodoxos ou guiados (rashidun), que ainda conservavam alguma autoridade espiritual. Após eles, vieram os califados omíada, abácida e otomano, que, segundo a tradição sunita, devem ser seguidos e respeitados na ordem temporal (mas jamais quando ordenarem algo contrário à fé).”Deu a impressão de que os 4 primeiros califas poderiam ordenar alguma coisa contrária à fé, pois tinham alguma autoridade espiritual. O que eles têm entre os sunitas seria mais bem definido como credibilidade, como os apóstolos parecem ter no cristianismo.”O xiismo hoje é restrito grosso modo ao Irã.”Não. O xiismo é predominante em todo o Oriente Médio, e uma dor de cabeça para a superioridade regional saudita. Parece que 70% da região é xiita e tende a automaticamente se alinhar com o Irã.”No entanto, o atomismo (indivisibilidade da matéria) é considerado uma doutrina obrigatória, em função do “consenso da comunidade”.”O atomismo é uma doutrina complexa. Pensadores abalizados comparam os “átomos” asharitas às mônadas, não aos átomos gregos.Abraço,Caio

  13. Caio,Obrigado pelos comentários. Se eu fizer uma nova versão, levarei em conta suas críticas.

  14. Salam alaik, parabéns pela pesquisa e pelo estudo! Sou muçulmana convertida há 4 anos e estudo o islam há 5, e vejo que sua pesquisa foi muito bem feita, seu artigo ficou bem interessante. Algumas idéias despertaram minha curiosidade e eu é que pretendo fazer uma pesquisa agora, sobre esse conceito de atomismo.N geral, parabéns.

  15. Salaam (paz)…Apesar de ciente do hercúleo esforço que representa analisar uma tradição religiosa completamente distinta da vossa, com um razoável nível de respeito, ainda assim, vejo-me na obrigação de pontuar alguns itens…Caríssimos, em primeiro lugar há que se dizer que as divergências entre sunitas, xiitas e kharijitas não são meramente políticas. O fundo das divergências é, antes de tudo, teológico. Percebam que quanto às duas linhas principais acima mencionadas:* os muçulmanos [sunitas] aduzimos que o critério para a escolha da liderança político/religiosa deva ser o da destino manifesto através da eleição pela comunidade do crente mais indicado. A base para tal critério se pauta por passagens corânicas, bem como por tradições e ditos proféticos. Por outro lado, não há admissão de representações humanas ou animais (que poderiam ocasionar idolatria), nem de culto/veneração a mortos, tampouco é admitido intercessão por “homens santos” ou “ayatullahs”, ao contrário do que preceituam os xiitas.* os adeptos da seita xiita atestam que haveria uma linhagem genealógica e espiritual liguando os homens santos de Deus (Homens da Lei, Profetas, Mensageiros e Sacerdotes). Por isto mesmo, eles dizem que tal linhagem deveria ser respeitada e que os descendentes consaguíneos do profeta Mohammad (s.a.w.s.) deveriam ser privilegiados na sucessão do poder político/religioso. E vão além, atestando que poderiam ser venerados e que suas preces (inclusive quando já mortos) seriam melhor aceitas, bem como suas intecessões [alegação abominada por nós muçulmanos/sunitas];Assim, a cisão política que se seguiu à constituição do Califado se deveu não apenas à divergência quanto a quem deveria ser o sucessor. Pelo contrário: foi muito mais essa divergência que se deveu às diferentes visões teológicas acerca de qual era o método teológico-jurisprudencial aceitável para definir o critério de sucessão.Também sou obrigado a retificar uma informação que algum comentador repassou anteriormente, no sentido de que o xiismo seria majoritário em todo o Oriente Médio (???). Não sei a fonte utilizada, mas na realidade, os dados estatísticos atestam que o quantitativo de xiitas em relação aos muçulmanos (sunitas) seria de cerca de 15 a 20 pontos percentuais contra 80% a 85% de sunitas. Isto é atestado por diversos estudos e nem os próprios xiitas contestam tal dado.Para ser mais justo, podemos dizer que o xiismo se restringe ao Irã, Líbano (parte da população – minoria), Iraque (parte da população – maioria) e Iêmen (parte da população), além de outras minorias insignificantes em outros locais.Por outra, devo argumentar – modestamente – que, como se pareceu ter buscado apresentar a perspectiva islâmica, o mais apurado seria a seguinte citação: “De certo modo, o Cristianismo, religião cuja base é um fato, isto é, a encarnação, se contrapõe ao islã, cuja base é IGUALMENTE UM FATO, O DA Unidade Divina.” É que, sob a nossa perspectiva islâmica a unicidade de Deus é tão concreta quanto a encarnação do Verbo de Deus em Jesus (a.s.) seria para um cristão.Quanto ao tópico relativo ao bem e o mal, imagino que tenhamos que distinguir entre a visão cristã, segundo a qual qualquer análise com os olhos humanos seria falha, sendo que apenas valeria aquela feita com os “olhos do espírito”, ao passo que na visão islâmica, Deus dota o ser humano de inteligência (ser racional) para que este a utilize e chegue à conclusão de que só pode haver Um Criador. Em outras palavras, conforme o Islam, todos seríamos naturalmente impendidos a reconhecer a Existência e a Natureza Divinas, ao passo que para o Cristianismo, apenas aqueles tocados pelo “Espírito Santo” teriam possibilidade de fazê-lo, por obra e graça da Misericórdia Divina.

  16. Vocês utilizam a saudação paz e bem e não vejam mal nenhum em utilizá-la aqui, pois que:”Deus nada vos proíbe, quanto àqueles que não vos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e eqüidade, porque Deus aprecia os eqüitativos.”[Alcorão Nobre 60:8]P.S.: a despeito de Deus ter enviado profetas e mensageiros a todos os povos da humanidade, não houve nenhum deles que se distanciassem da linha do monosteísmo abraâmico, sendo que o fato de se ter enquadrado os zoroastros e os hindus [não os budistas] como “povos do livro” foi tão somente para fins de cobrança do imposto territorial na época do Califado e não para fins teológicos de equipará-los aos judeus ou cristãos, que têm status diferenciado para a Lei Islâmica, bastando dizer que podemos comer um alimento imolado por vós, mas não um imolado por um zoroaztriano, muito menos por um hindu…Uma vez mais, fiquem com o meu cordial salaam (a paz)!

  17. Olá, boa noite, parabéns pelo excelente site, já o anexei aos meus “Favoritos” do meu navegador. Bem, só fiquei com uma dúvida que foi o trecho que fala do Islam/Islã ter “abandonado” a ideia da “vida monástica”, isso está correto? Infelizmente não disponho de fontes, porém, creio que em minhas parcas pesquisas li que as religiões que teriam como algo “complementar” ou seja, a vida monástica/comtemplativa seriam o cristianismo (Catolicismo), o Budismo (como bem se conhece) e o Islamismo…!! (Islamismo…?!?). Tudo bem, desconheço qualquer denominação do tipo: “Mosteiro Muçulmano”, “Mosteiro Islamita(?)”… Você pode verificar isso pra mim? Obrigado e mais uma vez parabéns pelo excelente site.

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