Um sermão de Vieira

Texto do Prof. Ângelo Monteiro publicado no Jornal do Commercio (Recife, 29 de agosto der 2013) que, além da crítica cultural mais ampla, traz à tona um problema real que todo catequista enfrenta no nosso país, a saber, o da falta de consolidação dos princípios doutrinários na mente dos alunos, e que, incrivelmente, o Pe. Antônio Vieira já notava no início de nossa história:

vieiraNão se pode nunca saber, depois de mais de trezentos anos, se o Sermão do Espírito Santo, proferido pelo Padre Antônio Vieira, em São Luís do Maranhão, se resume à constatação de uma época ou vem a ser, muito antes, a confirmação de uma realidade: a de um país condenado, por fatalidade, a repetir o tempo todo a receita do mesmo. Vieira começa pela nomeação de São Tomé, dada a sua proverbial incredulidade, a pregador do Brasil mostrando, curiosamente, que suas pegadas ficaram na memória das pedras e não na dos homens. Eis como se pronuncia, a esse respeito, o genial jesuíta: “Não se podia melhor provar e encarecer a barbárie da gente. Nas pedras acharam-se rastos do Pregador, na gente não se achou memória da pregação; as pedras conservam a memória do Apóstolo, os corações não conservam a memória da doutrina.”

Não se esqueceu, também, de assinalar a facilidade com que os brasileiros, que então não passavam de índios, tornaram-se rapidamente abertos à aceitação da Fé e, em igual disposição, dispostos a esquecê-la: “e não porque os Brasis não creiam, mas porque essa mesma facilidade com que creem, faz com que o seu crer em certo modo seja como não crer. Certos Gentios são incrédulos até crer; os Brasis ainda depois de crer são incrédulos. Em outros Gentios a incredulidade é incredulidade, e a Fé é Fé; nos Brasis a mesma Fé, ou é ou parece incredulidade.” Dessa maneira a disseminação das ideias, sobretudo se novas, acompanha no Brasil a mesma trajetória das profissões de fé: conhece um reinado tão curto no coração dos homens, como dantes conheceu a rápida conversão. As ideias entre nós, assim como os homens que as divulgam, veem chegar em muito pouco tempo o clima próprio dos fins de festa, preparatório dos ostracismo e do esquecimento.

O Padre Vieira não deixa, por isso, de nos chamar a atenção, com suma perspicácia, para uma certa constante da nossa formação histórica, que é a completa indiferença cultural, por meio do seguinte depoimento: “Esta é uma das maiores dificuldades que tem aqui a conversão. Há-se de estar sempre ensinando o que já está aprendido, e há-se de estar sempre plantando o que já está nascido.” Talvez constitua nosso verdadeiro legado negar a mínima confiança, no desprezo pela memória do que fomos e somos, em qualquer forma de presente, e entregar-se, impenitente, às mãos do futuro, esperando que as coisas criem um dia raízes mais firmes e fundas – mas como se fora nas nuvens – nessa terra onde, segundo o testemunho veraz de Pero Vaz de Caminha, em se plantando tudo dá…

Outro dado interessante desse texto é que ele nos mostra também a motivação histórica do que foi percebido por Olavo de Carvalho no seu já clássico Orgulho do Fracasso.

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