Geologia criacionista

Desde o século XIX, com as descobertas da geologia e da biologia, o relato da Criação presente no Gênesis tem sido posto em cheque, virando, para uns, uma fábula, e, para outros, um critério indicador da fé verdadeira. Toda essa celeuma, para mim, é completamente sem sentido, já que a mera leitura do Livro Sagrado indica de maneira clara que ali não se pretende relatar uma história com rigor cronológico. De qualquer forma, a Igreja permite a adesão a uma exegese literalista, mas essa, sem dúvida, tem de enfrentar problemas como o exposto nesta ilustração:

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9 respostas em “Geologia criacionista

  1. A Igreja católica só passou a adotar uma interpretação não literal depois de Darwing?

  2. Não, vários pensadores católicos, ou mesmo Padres da Igreja, como Santo Agostinho, já entendiam os primeiros capítulos do Gênesis de maneira mais simbólica séculos antes do evolucionismo.

  3. Eu acho muito válido quando a ciência tenta recuar até as causas partindo dos efeitos e assim projeta o que teriam sido essas causas, dizendo, por exemplo, que a luz das estrelas levou milhões de anos para chegar à Terra ou as modificações sofridas pelas camadas geológicas. Isso tudo faz parte de um esforço válido e científico de descobrir as possíveis causas de um fenômeno e reconstituir o seu passado com grande probabilidade. No entanto, nós estamos acostumados a pensar na criação como um evento que ocorreu no princípio de tudo. Assim, tendemos a dar a essas reconstituições o grau quase de certeza metafísica.

    O certo é que a criação é um evento instantâneo. O mundo é tão criado agora, como no Big Bang ou dez minutos atrás. Essa dependência instantânea que o mundo tem da Causa primária torna a dependência que os seres atuais têm de suas causas estimadas no passado apenas uma boa probabilidade, uma boa aposta. Deus poderia, por exemplo, ter criado o mundo com tudo o que existe agora, inclusive nossos pensamentos, há dois minutos atrás. A única objeção contra isso é que Deus teria nos deixado evidências “enganadoras” de um passado que não existiu. Contudo, teríamos que ver se tais evidências poderiam ser enganadoras em si mesmas ou se esse engano seria uma falha nossa.

    Eu acho irrazoável, mas não absurdo. Tendo a admitir que deve haver algum misto de criação direta de espécies, extinção e evolução de outras, mas não sou especialista para apontar onde estariam essas interseções e particularidades. Por fim, acho que um maior entendimento da criação como instantânea pode ajudar bastante a apologética cristã ao ser contraposta com questões que os ateus apresentam como prova irrefutável.

  4. “Deus poderia, por exemplo, ter criado o mundo com tudo o que existe agora, inclusive nossos pensamentos, há dois minutos atrás. A única objeção contra isso é que Deus teria nos deixado evidências “enganadoras” de um passado que não existiu. Contudo, teríamos que ver se tais evidências poderiam ser enganadoras em si mesmas ou se esse engano seria uma falha nossa.”

    Boa observação. Os criacionistas “de terra jovem” costumam alegar isso.

    Mas eu não vejo razão para crer numa “terra jovem”. Acho que faz mais sentido uma terra velha mesmo. Tem um livro que fala sobre isso: A Biblical Case for an Old Earth (http://www.amazon.com/Biblical-Case-Old-Earth-A/dp/0801066190).

    Mas quanto a conciliar a teoria da evolução com a criação, é uma questão realmente difícil. Este site (BioLogos – http://biologos.org/) dedica-se a isso, mas tenho minhas dúvidas.

  5. Eu acho que tudo depende da opção filosófica que se faça. As ciências físicas não podem tratar da hipótese de uma criação direta, pois elas não se dedicam ao estudo das primeiras causas. Logo, seu recuo às causas sempre levará em conta aquilo com que essas ciências lidam e encontram em suas investigações do mundo físico. O erro está em tomar essas conclusões como irrefutáveis. É o mesmo erro que cometeria quem tomasse como irrefutável a teoria dos excêntricos e dos epiciclos na Idade Média.

    Hoje, os ateus e alguns cientistas insistem muito em determinado caminho, devido a suas opções filosóficas, e não porque estejam animados por um verdadeiro espírito científico.

    Quanto a salvaguardar a literalidade do texto bíblico, não é preciso sequer que se abandone a possibilidade de uma evolução gradual. Deus poderia ter criado um certo número de espécies fixas diretamente, sem que precisasse ter criado todas, submetido certo número delas à evolução e à extinção. Quando falo de uma hipótese mista, é porque geralmente os defensores de um lado ou de outro opõem o fixismo e o transformismo como se nenhuma via intermediária fosse possível, seja de acordo com o texto bíblico entendido à maneira literal, seja de acordo com os vestígios paleontológicos ou outros dados que presumam a hipótese transformista.

    Eu penso que a adoção completa e exclusiva de uma hipótese supõe, na maioria das casos, também uma certa orientação filosófica. Por exemplo, alguém que não se sinta obrigado a admitir a revelação cristã tende a desconsiderar sua possibilidade. Por outro lado, mesmos cristãos são levados a seguir conclusões apressadas de pessoas que possuem determinada autoridade em certo ramo científico, e a abandonar de forma precipitada o sentido óbvio e literal de determinada passagem da Escritura (não que isso seja ilegítimo de ser feito quando a razão realmente o exigir).

  6. Eu não vejo o sentido literal como óbvio no relato da Criação, mas isso é outro assunto.

    A realidade é uma forma de Revelação, a primeira, de modo que qualquer hipótese exegética que finja desconhecer dados como os da geologia, vai ter que “sambar” muito para poder ser levada a sério.

  7. Qualquer das hipóteses que não fira a fé ou a razão, é válida, mas, a bem da verdade, deve-se evitar confundir o que a razão demonstra de fato com os modelos que a ciência propõe por meio da indução. O esforço para deduzir a idade da Terra é um exercício de indução, baseado no decaimento radioativo de elementos químicos. Sto. Tomás, falando da Trindade, diz que há dois objetivos na razão, objetivos legítimos:

    1) Demonstrar suficientemente algum fundamento, como se prova que o movimento (aparente) do céu se mantém a uma velocidade uniforme;

    2) Demonstrar os efeitos que se seguem ao que é demonstrado de acordo com um modelo plausível. Assim, remetendo ao caso acima, ele dá o exemplo dos epiciclos, e, na teologia, é o caso da explicação que ele dá para a Trindade.

    Muitos modernos não se dão conta de que grande parte do esforço da ciência é racional apenas de acordo com o segundo objetivo.

  8. Eu não disse em momento algum que as hipóteses X ou a Y não são válidas, pois o problema está muito distante desse conceito. Simplesmente algumas coisas, ao não aparentarem terem substrato na realidade, são menos plausíveis que outras.

  9. Sim, foi o que eu também disse mais acima, com outras palavras.

    Eu não sei, ao certo, o que significam os dias da criação. Mas que significam alguma coisa, certamente significam, pois, do contrário, não estariam no texto bíblico. Eu já pensei que os dias podem ter sido de 24h., mas não consecutivos. Podem ter sido dias especiais. Mas Santo Tomás cita uma teoria interessantíssima de Sto. Agostinho, de que os dias na verdade eram um só e que a criação é descrita em seis dias como uma forma de mostrar a sua acomodação à mente angélica: o mesmo dia é apresentado septiformemente, e o conhecimento angélico de determinada parte da criação é denominado “dia”, pois a luz, causa do dia, se encontra propriamente nos seres espirituais.

    Santo Agostinho foi mestre nas interpretações figuradas desses seis dias. Parece também que é dele a teoria de que “a tarde e a manhã do dia um” tem relação com a queda e a glorificação dos anjos. A tarde é associada ao conhecimento que o anjo tem de sua própria natureza (conhecimento vespertino), ao passo que o conhecimento do Verbo que tiveram os anjos bons é o chamado conhecimento matutino, a manhã que sucede a tarde no texto bíblico. Os anjos caídos, porém, a partir da dita operação mediante a qual voltaram-se para si mesmos, incharam-se de soberba e se fizeram “noite”.

    Santo Agostinho também entende por “céu” a natureza espiritual informe, e por “terra” a matéria informe de todos os corpos. Para ele, a obra da criação corresponde à produção da matéria informe e à produção da natureza espiritual informe, e ambas se dão fora do tempo, pois antes do primeiro dia.

    Também era do entendimento de Santo Agostinho de que a menção bíblica a seis dias era uma maneira simbólica de contar três dias: um dia associado à criação espiritual, dois dias associados à criação material, dos quais o terceiro é dedicado à ornamentação. Assim dia 1 + 2 + 3 = 6.

    Santo Agostinho entende a criação do firmamento, a acumulação de águas e aparição da parte seca como a impressão das formas na matéria corporal. A produção de plantas e de animais, para Santo Agostinho, só se dá potencialmente e não em ato. Daí, sua teoria sobre as “razões seminais”.

    Santo Tomás também expõe a doutrina de outros santos de que os seis dias são dedicados às obras de diversificação e de ornamentação, dividindo a criatura em três partes — a superior, chamada “céu”, a mediana, denominada “água” e a inferior chamada “terra” —, e associa assim o primeiro dia ao quarto, o segundo ao quinto e o terceiro ao sexto. Segundo os pitagóricos, a perfeição se põe em três — princípio, meio e fim —, assim, a parte superior é diversificada no primeiro dia e ornamentada no quarto, a parte mediana, diversificada no segundo e ornamentada no quinto, e a parte inferior, diversificada no terceiro e ornamentada no sexto.

    Ele diz que o fogo e o ar (sua parte “inferior” especialmente), os outros elementos, são incluídos no corpo mediano, denominado “água”.

    Santo Tomás também diz que a menção de criação do sol no quarto dia ocorre apenas para afastar os povos da idolatria de achar que esses astros eram deuses. E se baseia em Crisóstomo.

    Por fim, a porção da Suma Teológica que é dedicada ao estudo dos dias da criação me parece muito rica, e eu mesmo ainda não tive o prazer de ler e meditar em todos os pontos, tampouco o tive com respeito à obra de Santo Agostinho sobre a interpretação do Gênesis, mas, levando em conta interpretações dos santos que eram mais simbólicas do que literais há tantos séculos, eu penso que a interpretação não literal dos seis dias nunca foi um problema para o catolicismo.

    Um texto com informações interessantes da postura tradicional católica sobre o Hexâmeron:

    http://www.montfort.org.br/dies-unus-consideracoes-sobre-um-dia-da-criacao/

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