Deus poderia criar o mundo desde sempre?

Texto do confrade Rui Ribeiro Machado:

tempoRepugnaria a razão dizer que não, dado que seria limitar a potência divina a um determinado tempo. Deus pode criar num tempo, mas não antes, e se, antes, não anteriormente a isso, e, como Deus é eterno, em algum momento não poderia ter criado o que criou. Logo, Deus mudou, o que é absurdo.

Devemos, portanto, confessar que Deus poderia ter criado o mundo desde sempre. Mas, como resolver as dificuldades desse raciocínio, como por exemplo: Uma sequência infinita de eventos na origem dispensaria o Criador? Seria possível que um movimento que começasse no infinito chegasse ao agora?

Quanto à primeira pergunta, respondemos que, de maneira alguma, abalaria o argumento da primeira Causa que o mundo não tivesse um início no tempo. O que este argumento prova não é que a sequência não pode ser infinita, mas que deve haver um fundamento para uma ordem de causas ou de coisas, uma razão de ser, e, sendo a série infinita, essa razão de ser não existiria, pois nenhum de seus elementos poderia ser a sua razão de ser. Esse argumento não poderia ser usado, por exemplo, contra uma sucessão acidental de causas que remontasse ao infinito, sem que uma se subordinasse a outra.

Vamos à segunda questão: Seria possível que, de um infinidade de eventos passados, se chegasse até o agora? Como o infinito poderia ser transposto para que chegássemos até o instante presente? Ora, a dificuldade é parecida com a que foi proposta na antinomia de Kant, da passagem do nada para o ser, ou à do paradoxo de Zenão, segundo o qual Aquiles não alcançaria a tartaruga.

A verdade é que estamos no presente. É ele que agora existe. O passado existiu e o futuro ainda não existe. Portanto, negar que chegaríamos até aqui é negar o ser.

Alguns ainda argumentam: não pode existir um infinito potencial, pois, se é potencial, não pode ser simultaneamente atual sem cair em contradição. Quanto à isso, dizemos que não está claro que o infinito numérico só pode ser um infinito potencial. Há discordâncias entre os filósofos a esse respeito, e também se Deus poderia criar um infinito atual, contudo, ainda considerando que o infinito numérico seja sempre um infinito potencial, não é preciso aplicar a noção de infinito atual a um mundo que sempre existiu. Dado que a impossibilidade do infinito potencial deve-se à contradição de ser também um infinito atual, e uma cadeia infinita de eventos, de forma alguma, seria um infinito atual, uma vez que ela seria composta de elementos que desapareciam dando origem a outros, desaparece o problema. Se alguém, no entanto, insiste no argumento dizendo: “A sequência infinita é atual no sentido de que a mente contabiliza-a como sendo uma só coisa, um somatório”, a isso respondemos: “Também o infinito potencial não é impossível de existir na mente humana, pois nela não ocupa o lugar de ser real, e sim só de razão. Vemos que os matemáticos trabalham com conjuntos infinitos e números transfinitos.

Poder-se-ia ainda argumentar: Mas o ser de razão em questão é um ser de razão com fundamento real. Ao que respondemos que não torna essa sucessão um ser real. A negação é um ser de razão com fundamento real sem corresponder a nenhum ser real. Assim, também a sucessão. Se alguma dificuldade ainda persiste, acreditamos ser devido à mente humana ter sido feita para o finito, já que abranger o infinito significaria compreender Deus. E nem os bem-aventurados, que têm a visão da divina Essência, compreendem o Sumo Bem do qual gozam.

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8 respostas em “Deus poderia criar o mundo desde sempre?

  1. Muito bom o texto, mas o penúltimo parágrafo está um tanto além do que consigo apreender. Não entendi qual o problema de um infinito potencial ser também atual.

  2. Rui, você começa dizendo: “Repugnaria a razão dizer que não, dado que seria limitar a potência divina a um determinado tempo. Deus pode criar num tempo, mas não antes, e se, antes, não anteriormente a isso, e, como Deus é eterno, em algum momento não poderia ter criado o que criou. Logo, Deus mudou, o que é absurdo”.

    A eternidade de Deus consiste em estar “acima do tempo”, não em existir em uma sucessão que vai ao infinito no passado. Logo, não tem nada a ver com a existência de um Universo sem começo no tempo.

    Dizer que Deus poderia criar um Universo sem começo temporal por ser eterno é confundir a eternidade com a “perenidade”. Quando afirmamos que Deus não pode criar um Universo sem começo temporal, trata-se de uma impossibilidade do próprio Universo existir sem começo temporal, e não de Deus, em certo tempo, não poder criar o Universo!

    A questão que permanece, e que acredito que seu texto não responde, é esta: se o Universo não possui um começo no tempo, então o número de eventos passados é infinito. Mas está claro que os eventos de hoje sucedem aos de ontem, de modo que – se o Universo não teve começo – um número infinito de eventos teve de acontecer antes de chegarmos aos eventos atuais. E isso é absurdo.

    Não é só uma questão da nossa mente não conseguir entender. Um infinito que se “completou” é um absurdo em si mesmo. Acho que a argumentação de S. Boaventura, nessa questão, supera a de S. Tomás.

  3. Rui, por que repugna dizer que Deus não poderia criar o mundo desde sempre e não repugna dizer que Ele não pode criar um quadrado redondo?

  4. Sim, quanto ao argumento do primeiro parágrafo você está certo. Deus é independente do tempo, e a possibilidade ou impossibilidade recai sobre o objeto criado. Eu já havia notado esse erro no raciocínio ontem, mas só hoje poderia comentá-lo.

    Já com respeito à sua questão de eventos passados, não vejo razão alguma para que os eventos não possam ser infinitos. Lembre-se bem do paradoxo do Zenão. O homem está situado em um desses eventos.

    Além disso, o argumento de S. Boaventura só pode ser utilizado para a eternidade do movimento, não do ser. Logo, o mundo poderia, caso houvesse um primeiro movimento, não ter início. O tempo está ligado ao movimento, e não há que se falar em tempo para o ser inerte.

    ———–

    Alessa,

    O quadrado redondo é um absurdo. Um mundo desde sempre não está provado ser absurdo. Garrigou-Lagrange enumera entre os que admitem que a multitude em ato infinita não repugna à razão Escoto, os nominalistas, Vázquez, Descartes, Espinosa, Leibnitz. Os jesuítas de Coimbra e o cardeal Toledo (in Iam, quaest. 7) sustentam como provável que o infinito atual não repugna à razão. Milhaud, diz Garrigou-Lagrange, refutou recentemente a tese finitista de Renouvier (Essai sur les conditions de la certitude logique, 177). Hoje, os matemáticos, em face da teoria dos conjuntos transfinitos, estão cada vez menos dispostos a aceitar como válido um só dos argumentos pelos quais se prova que a multitude infinita em ato é contraditória.

  5. “Um infinito que se “completou” é um absurdo em si mesmo.”

    Note que acima eu disse a mesma coisa:

    não pode existir um infinito potencial, pois, se é potencial, não pode ser simultaneamente atual sem cair em contradição.

    Mas logo após:

    Quanto à isso, dizemos que não está claro que o infinito numérico só pode ser um infinito potencial.

    ————–

    Ricardo,

    Talvez ajude a compreender essa questão analisar a natureza do movimento. O movimento não é um ser real. Cada corpo, no que diz respeito à sua existência, à sua realidade, ocupa uma única posição. A nossa capacidade de reter os fatos passados e prever os futuros é que nos faz ver o movimento, que, dessa forma, integrando os diferentes estados de um corpo, só existe na nossa inteligência.

    Mesmo que repugne à razão uma quantidade infinita de corpos ou de substâncias existindo simultaneamente, que é um infinito em ato, não se pode considerar que os diferentes estados dos seres, ou mesmo de um único ser, não possam ser infinitos em ato, pois a eles não se acrescenta nada indefinidamente. Unicamente, mudam. A nossa mente é que transforma isso em soma, em acréscimo indefinido, que não existe realmente.

  6. Além disso, o argumento de S. Boaventura só pode ser utilizado para a eternidade do movimento, não do ser. Logo, o mundo poderia, caso houvesse um primeiro movimento, não ter início. O tempo está ligado ao movimento, e não há que se falar em tempo para o ser inerte.

    Vou tentar explicar isso melhor:

    No opúsculo “Da eternidade do mundo”, Santo Tomás não elimina totalmente a possibilidade do infinito em ato, pois, respondendo a uma objeção, diz que não está provado que Deus não possa fazer as almas humanas infinitas em ato. Contudo, para que o mundo pudesse ser eterno, não haveria em absoluto a necessidade de regredir numa série infinita, na qual os seres teriam se sucedido uns aos outros, sem haver um primeiro. Bastaria que o primeiro ser ou seres criados, portanto, criados desde sempre, fossem inertes. Esta solução é admitida por João de Sto. Tomás, para quem o mundo só pode ter sido criado eterno nessas condições.

    O tempo nada mais é do que a numeração do movimento ou dos estados sucessivos de um móvel. E como há vários seres móveis, cada qual possui o seu tempo próprio. A existência, por sua vez, de um tempo único, que possa servir para estabelecer um critério de simultaneamente entre os diversos tempos existentes não é algo que possa ser demonstrado. Assim, não existindo o ser móvel, não há tempo, não há numeração, não há sucessão. Não se poderá regredir ao infinito, se o ser que existe desde sempre jazia inerte.

    É de se notar que, ao responder acerca da eternidade do mundo, Sto. Tomás elenca essas outras possibilidades. Ele diz que o mundo poderia ter sido criado sem homens e sem almas, o que resolveria uma dificuldade de seus adversários (a que pese ele não estar convencido de que Deus não possa fazer almas infinitas em ato), mas restando provado que o ente poderia ter existido desde sempre, que não implica em contradição que algo exista sem que tenha sido tirado do nada. Esta é a questão fundamental sobre a qual a resposta tomista é a única satisfatória, tal como postulada por Sto. Tomás:

    “Resta agora ver se repugna à razão que algo feito nunca tenha não sido, por ser necessário que seu não-ser preceda em termos de duração a seu ser, dado que se afirma ter sido feito do nada.

    (…)

    Claro está, pois, que em nada repugna à razão dizer que algo é feito por Deus e que nunca não tenha sido.”

    ——————-

    É altamente recomendável para quem quer entender o argumento tomista ler a defesa que Sertillanges faz da possibilidade de “eternidade” do mundo em “As grandes teses da filosofia tomista”. Eu mesmo não a tinha lido quando fiz o artigo para o blog.

  7. Salve Maria!

    O livro de Antonin Dalmace Sertillagens é um clássico! E por falar nele, há um livro dele que acaba de me chegar às mãos: SERTILLAGENS. O que Jesus via do Alto da Cruz. Porto: Livraria Tavares Martins, 1947. A obra nasceu no decurso de uma das visitas do autor à Terra Santa.

    Laudetur Iesus Christus!

  8. “Repugnaria a razão dizer que não, dado que seria limitar a potência divina a um determinado tempo. Deus pode criar num tempo, mas não antes, e se, antes, não anteriormente a isso, e, como Deus é eterno, em algum momento não poderia ter criado o que criou. Logo, Deus mudou, o que é absurdo.”

    O que isso tem a ver com mudança em Deus? E o que é infinito atual e potencial?

    ——-

    “O quadrado redondo é um absurdo. Um mundo desde sempre não está provado ser absurdo.”

    Como vc sabe que é absurdo? Pode ser apenas “devido à mente humana”.

    ——

    O mundo criado inerte é estranho. A pura matéria não se transformar, não vai de encontro ao que é material?

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