Ilações sobre a morte

Texto do confrade Karlos Guedes:

morteA morte é, de certa, forma, uma criação do homem. Aquela decisão tremenda tomada por Adão, ao ser apresentado a ele, por Eva, o fruto da árvore foi, de fato, o maior dos atos humanos.

Imagino o silêncio e a expectativa de toda a criação naquele momento! Os anjos de um lado; os demônios do outro… cada um esperando a decisão humana mais importante…

Enfim, tomou Adão sua decisão: quis ser igual a Deus! E caiu do alto grau de dignidade que tinha. Imagino que a retirada da graça foi o que eles mais sentiram, pois se sentiram nus (cf. Gn III,10). Contudo, para nós, que já somos concebidos no pecado (cf. Sl L,7), creio não ser a falta da graça o mais ululante dos castigos, mas a morte.

A morte chama-nos à reflexão, tanto religiosa como filosoficamente.

Filosoficamente, a morte nos traz a pequenez do homem. Por mais inteligente e estupenda tenha sido a sua vida. Por mais que tenha construído arranha-céus, espaçonaves, automóveis, computadores ou curado todas as doenças! Tudo isso fica infinitamente pequeno diante da morte. Eis a pequenez, brevidade e fragilidade que é nossa vida!

Ao mesmo tempo, é diante dela que muitas coisas banais tomam sua importância suprema! Ela nos impõe a valorização de pequenos e, por vezes, ordinários momentos do quotidiano. O que mais simples e corriqueiro que um beijo de despedida de um parente ao sair de casa? E o que mais se sente falta em sua ausência!?

A morte também nos evidencia a fragilidade da vida. É hoje e não é amanhã, como a erva do campo. Neste momento então nos invade a pergunta: que é o homem? Por que existimos?

Se recorrermos apenas à Filosofia para dar essas respostas, constatamos que a vida humana fica, em certo sentido, sem razão de ser. Por que viver, se voltaremos ao nada?

Neste instante nos chega, como sempre, a Santa Religião para ceifar o desespero arrebatador que inundaria a alma de quem ousasse pensar na morte (triste é a sina dos ateus…).

A primeira coisa que a Religião Católica nos elucida é: a pergunta está errada. Não é voltar ao nada; Deus, nosso Senhor, não destrói sua criatura mais dileta (deste mundo). Existimos para Deus, quer vivamos ou morramos (cf. Rm XIV,8), é Ele a razão de nossa existência.

A morte foi, pois, o castigo divino mais acertado deles! Dela podemos tirar importantes lições. A grandiosíssima lição foi Deus Quem nos deu: “Ó certamente necessário pecado de Adão, que nos mereceu tão grande Redentor” (cf. Precônio Pascal). Simplesmente Deus não permitiria um só ato mau, se dele não pudesse se fazer um bem, nos ensina Santo Agostinho. E não foi um bem que Ele tirou da morte, mas o Bem, Seu diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, Nosso Salvador.

A Liturgia da Igreja nos admoesta: “Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó retornarás” (ao pó, não ao nada). Por isso qualquer manual de ascética cristã nos manda meditar na morte (Memento mori).

Norteados pela Santa Fé, a morte nos mostra o quanto estamos carnalizados. O quanto precisamos nos espiritualizar, porque vemos nela a grande desgraça do homem e não no ofender a Deus, Sumo Bem, tampouco enxergamos que, por Cristo, nosso Deus, ela não é mais sinal negativo, mas a porta da nossa páscoa definitiva (cf. ICor XV,55).

Não é à toa que, novamente, a Santa Liturgia nos dá o conselho: “Sursum corda” (Corações ao Alto). E apesar de entendermos a língua que se fala, atualmente, na Liturgia, não a compreendemos realmente (não em seu seu sentido profundo). Quantas pessoas, clérigos ou leigos, não respondem automaticamente “Habemus ad Dominum” (Os temos no Senhor).

Memento mori.

É na perspectiva da morte que vemos o quanto devemos nos esforçar para termos nosso coração já no Senhor. É a Ele que devemos transportar e dirigir nossa alma, “porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt VI,21).

Memento mori.

5 respostas em “Ilações sobre a morte

  1. Bem, vou despejar umas idéias e agradecia se alguém puder tecer considerações…

    Sobre este trecho: “Por que viver, se voltaremos ao nada? … a pergunta está errada. Não é voltar ao nada; Deus, nosso Senhor, não destrói sua criatura mais dileta (deste mundo). Existimos para Deus, quer vivamos ou morramos (cf. Rm XIV,8)”

    Parece-me que outra pergunta também correta é: Como é que percebemos a possibilidade de voltar ao nada? Ou ainda: Como chegamos a poder sentir medo de deixar de existir e então desejar existir para sempre?

    Se o ser humano consegue conceber as idéias de “algo” e de “nada” é porque nele próprio já está embutido algo que transcende essa dualidade, né?

    Apesar de Deus existir e ser Alguém, Ele não é um alguém no mesmo sentido dos outros alguéns, ou em outras palavras, a diferença de Deus para os outros seres não é igual à diferença de um ser que não é Deus para outro ser que não é Deus.

    A distinção entre existência e não existência só começou quando Deus deu a primeira ordem de criar alguma coisa, sendo que Deus é O que está “por trás” dessa distinção dual e é por isso que o ser humano concebe essa Realidade Divina, porque ele foi criado já com participação nessa Realidade, certo?

  2. Me pareceu que você entendeu de maneira equivocada. A pergunta que se poderia fazer não é “como é que percebemos a possibilidade de voltar ao nada”, mas sim “como percebemos que nunca voltaremos ao nada”.

  3. Cleverson, eu realmente acho que entendeste errado o trecho. É exatamente por que é absurdo o homem tornar-se nada que a pergunta retórica é feita aí!
    Como pode haver pessoas que pensem assim. Mais ou menos essa é a ideia da provocação.

  4. Bem, mas talvez o meu comentário possa servir para ajudar os incrédulos a compreender que o homem não pode voltar ao nada, pois se você consegue formular na sua cabeça as idéias de algo/alguma coisa/presença de uma coisa e também de nada/nenhuma coisa/ausência de toda coisa, é porque em você mesmo já está embutido algo que está para além de tal dualidade e que portanto sobreviverá a destruição desse algo que é o corpo…

  5. Eu acho confuso por demais essa sua explicação. Ninguém pode formar na cabeça o nada, pois deixaria de ser por definição.

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