Comparando lecionários

Tradução e adaptação de um artigo publicado no Athanasius Contra Mundum, quando este blog ainda era no Blogger, em abril de 2008 (hoje ele pode ser encontrado aqui e aqui):

Em comentário após comentário dos defensores do Novus Ordo, dos liberais aos neo-conservadores, um ponto que é sempre levantado em defesa das inovações pós-conciliares é a suposta superioridade do lecionário da liturgia moderna em comparação ao da tradicional. O argumento é mais ou menos assim: “Na medida em que a maior parte da Bíblia é lida no curso de três anos, os católicos têm contato com mais trechos da Escritura que na liturgia gregoriana, que possui apenas uma pequena seleção de leituras.”

Temos de ter em mente que esta não é uma disputa sobre traduções. Para ser justo, não estou preocupado com as traduções. Os melhores argumentos contra o Novus Ordo são contra ele em latim, não contra a tradução aprovada por alguma conferência episcopal. Os defensores do novo rito sempre podem apelar para as más traduções como justificativa para os problemas sem fim da liturgia fabricada pela Concilium de Bugnini. Eles também podem fazer alusão às mudanças recentes em que certas conferências adotaram uma tradução mais tradicional, que rejeita as construções linguísticas banais e doutrinariamente questionáveis. Basta voltar à fonte. Esqueçamos as traduções monstruosas. Faço isso aqui, e fiz consistentemente ao examinar as questões pertinentes ao novo rito.

O argumento em favor do novo lecionário é essencialmente falho porque repousa em cima de números, repousa na ideia de que a mera quantidade de algo é um critério suficiente para uma avaliação correta. Então, colocando de outra forma, se tenta impor a reforma litúrgica do mesmo modo que o governo tenta reformar as coisas, isto é, dando mais de algum bem indiscriminadamente. Neste caso foi a Escritura. Do mesmo modo que o governo coloca dinheiro na educação ou na segurança, esperando desesperadamente que assim as coisas melhorem, o novo lecionário apresenta indiscriminadamente o máximo da Bíblia que é possível para um leigo, esperando que ele deixe a igreja sabendo algo a respeito dela. O efeito do lecionário tradicional, contudo, é qualitativo, focando não tanto em quanto da Bíblia o homem comum escuta, mas no que ele escuta.

Na liturgia gregoriana, o lecionário foi adaptado para coincidir com o Ofício e levar os fieis à uma certa ideia através de suas coletas, antífonas e outros elementos do próprio; o lecionário do Novus Ordo usualmente apresenta antífonas e demais elementos que não focam em nenhum objetivo litúrgico,  as orações estão lá só para serem feitas.

O próximo problema com o argumento é que há muitos textos da Escritura que são apresentados no rito romano tradicional mas são omitidos ou tornados opcionais pelo novo lecionário (que, se tivesse todas as suas opções sem fim e textos alternativos colocados num único livro, afundaria para o centro da terra). O texto da grande apostasia predita em II Tessalonicenses é apresenado no sábado das têmporas do Advento, mas está ausente no novo lecionário. Outro exemplo foi apontado pelo Cardeal Stickler falando do texto de I Coríntios XI, 27-29:

Além das dificuldades pastorais para que os paroquianos entendam textos que demandam uma exegese especial, isso se tornou uma oportunidade – que foi pensada – de manipular os textos conservados no sentido de introduzir novas verdades no lugar das antigas. Passagens pastoralmente impopulares – geralmente de valor dogmático e grande significado moral – foram simplesmente eliminadas. Um exemplo clássico é a passagem de I Coríntiuos XI, 27-29: aqui, na narrativa da instituição da Eucaristia, a séria exortação final sobre as graves consequências de uma indigna comunhão foi consistentemente abandonada, mesmo na festa de Corpus Christi. A necessidade pastoral desse texto em face ao costume hodierno de comunhões em massa sem prévia confissão e reverência é óbvio.

O Dr. Peter Kwasniewski, articulista da Latin Mass Magazine, disse o seguinte num artigo sobre o novo lecionário em outubro de 2007:

Há um problema humano básico em se ter mais de um ano de ciclo de leituras. Um ano é um período de tempo natural; é saudável, pedagogicamente superior, e profundamente consolador voltar, ano após ano, às mesmas leituras de um determinado domingo ou dia da semana. Se passa a conhecer de maneira especial as leituras do domingo; elas se tornam carne da sua carne. Se passa a pensar nos domingos a partir de suas leituras, cantos e orações que se fixam na mente de modo mais firme porque são recitadas ou cantadas e lidas no missal que se está carregando (mais sentidos estão envolvidos). Desse modo, a liturgia tradicional do Ocidente mostra sua afinidade com as liturgias orientais, que chegam a nomear os domingos pelo seu Evangelho ou dogma particularmente enfatizado. Antigamente, o décimo quarto domingo depois de Pentecostes tinha uma identidade particular: Protector noster era o Introito, se conhecia sua melodia, e toda a Missa se tornava familiar, como um jardim amado ou uma trilha através do bosque. Hoje, ninguém sabe sobre o que trata o “décimo domingo do Tempo Comum”! É uma incógnita.

O novo lecionário também perde algo do seu significado e pode parecer frio. Em primeiro lugar, vamos supor uma Missa em latim no Novus Ordo onde o próprio é realmente usado e não substituído por este ou aquele hino, algo rubricamente incorreto mesmo no rito paulino. Não há tema, não há tentativa de unir o salmo cantado às leituras. Algumas vezes eles são consistentemente repetidos através dos domingos do ano.

Em segundo lugar, apesar das leituras dominicais estarem num “ciclo de três anos”, as leituras semanais estão num “ciclo de dois anos”, o que é um non sense completo. Se elas combinarem com as leituras do domingo é por puro acidente quando os planetas estiverem alinhados. E quem se lembra de todas essas leituras? Conheço padres que celebram o Novus Ordo e não têm a menor noção da ordem ou ritmo das leituras para além do domingo em que estão, seja para o passado, seja para o futuro. Ele se torna letra morta e passa-se para o próximo. Se considerarmos a Quaresma e a Semana Santa, em alguns casos as leituras apresentam uma progressão, mas não um tema geral seguido pelos próprios das missas ou pelo Ofício Divino. Na Semana Santa se escutam apenas dois relatos da Paixão, um no Domingo de Ramos e outro na Sexta-Feira Santa, enquanto na liturgia tradicional temos o relato de Mateus no Domingo de Ramos, o de Marcos na terça-feira, o de Lucas na quarta-feira e na segunda-feira somos apresentados, numa leitura retirada do Evangelho de São João, a uma profecia sobre a morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Livros litúrgicos paulinosTodo o lecionário da Missa tradicional está contido no mesmo livro em que está o missal, e tal livro tem um tamanho modesto. Mas, como já falei, se alguém colocar todo o Novus Ordo com todas as suas opções, orações extras e lecionário com infinitas variações num só volume, este cairia do altar e afundaria até o centro da terra.

Outro problema é o fato do novo lecionário ter sido organizado por exegetas com uma “orientação sociológica”, enquanto o antigo lecionário romano o foi por São Jerônimo, um dos grandes doutores da Igreja antiga junto de São João Crisóstomo e Santo Agostinho. Tirando mudanças feitas no santoral e para as novas festas, os próprios do ano estão intocados. Se alinharmos o lecionário tradicional ao lado do calendários das igrejas orientais de rito bizantino (inclusive das ortodoxas), encontraremos semelhanças surpreendentes. Regra geral, apenas uma leitura além do Evangelho, não duas como no Novus Ordo. O ciclo anual é comum para os calendários, e para a tradição litúrgica. O conceito de ciclos de dois ou três anos é algo que ninguém do Ocidente ou do Oriente sugeriu no Vaticano II. Os domingos depois do tempo pascal são chamados “Domingos depois de Pentecostes” pelos calendários tradicionais, e os próprios, que sempre devem ser cantados na Divina Liturgia, combinam com a Epístola e o Evangelho. Por fim, as leituras devem ser cantadas na Divina Liturgia, assim como numa Missa tridentina solene. O lecionário tradicional está conectado com uma herança litúrgica comum de desenvolvimento que, em meio a diferentes culturas, locais e circunstâncias, continua a partilhar características vindas de antigos usos.

Assim sendo, tanto por razões práticas quanto litúrgicas, o novo lecionário é uma completa novidade inferior à tradição católica. Ainda assim, alguém pode perguntar: como se poderia reformar o lecionário tradicional? Existem várias missas para diferentes tipos de santos, e quando não se estipulou nenhuma leitura para elas, são lidas as da Missa Os Iusti, ou então os próprios de alguma Missa são usados várias vezes até mesmo numa única semana. Então, seria possível achar textos que se adequassem à vida de um santo na situação descrita – o que não é feito, diga-se de passagem no Novus Ordo, como diz o Dr. Kwasniewski no artigo linkado em relação as de Santa Teresa do Menino Jesus, que fazem sentido no rito gregoriano e não fazem no paulino.

Há ainda uma última observação. Numa Missa tradicional se escutará mais da Sagrada Escritura que no Novus Ordo se se levar toda a liturgia em conta. A Missa começa com o Salmo XLII, muitas das respostas são trechos de Salmos (Adiutorum nostrum… Salmo LXIX, etc.), uma boa parte das orações do Ofertório vêm diretamente da Escritura, incluindo todo o Salmo XXV, muitas partes do Cânon e da Comunhão do Sacerdote derivam da Bíblia, sem mencionar o Último Evangelho (João I, 1-8) e o fato que os próprios nunca são omitidos, enquanto no Novus Ordo como celebrado para 99% dos católicos eles são muitas vezes ignorados, ou são repetições de uma série de opções, enquanto no rito gregoriano são diferentes a cada domingo ou dia de santo.

Como em todas as coisas, os frutos simples da tradição são melhores do que as criações artificiais de modernidade.

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2 respostas em “Comparando lecionários

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