Em casa

Semana passada, um amigo que está estudando em Portugal recebeu a notícia do falecimento de seu avô e escreveu o seguinte texto que agora compartilho com os leitores:

Foi com surpresa que recebi a notícia:

– O seu avô está no hospital, em estado grave.

Foi um choque. Como seria possível, assim, de uma hora pra outra? Logo me pus de joelhos, chorando, a rezar a velha oração aprendida da minha avó, nas noites da infância:

Ave Maria, cheia de graça…

E assim que pude, corri ao hospital.

A cena era arrasadora. Vi a angústia nos olhos da minha avó; o cansaço no rosto da minha mãe. E ele, desacordado, cheio de tubos, agulhas, fios, agonizando. Contrariando as regras, cheguei junto ao leito, acarinhei a sua cabeça e lhe disse ao ouvido: “Força, vô, eu estou aqui. Que Deus o proteja”.

E o tempo passou.

Ao final, parece que a oração tinha sido atendida: pouco depois, já o estava visitando, recuperado, consciente e tranquilo (na medida do possível), em seu leito do hospital. O susto havia passado. Na visita, tentei brincar, conversar asneiras. Ele riu um pouco, mas em seguida me olhou nos olhos, com o olhar mais profundo que já recebi em toda minha vida (olhar que se repetiria, quase todas as vezes, quando o visitava; olhar às vezes cheios d’água), e então me disse:

– Eu já queria estar em casa.

Sorri, destilando otimismo. É claro que ele estaria em casa, logo mais. Mas, sem dar caso da minha alegria, ele corrigiu:

– Não, não; eu já queria estar em Casa – e apontou para o céu.

Aquilo mexeu comigo. Desde então, nunca mais rezei para que ele recobrasse a saúde. Não queria que ele não morresse, simplesmente. Queria que ele Vivesse.

Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.

Muitas idas e vindas, desde então. Idas ao hospital, vindas para casa. E no meio disso, dificuldades para tudo: dificuldade para arranjar leito, dificuldade para prestar os cuidados, dificuldade para pagar as contas… E sobretudo, sofrimento. Muito sofrimento. O que mais me angustiava era não entender o que Deus queria com aquilo tudo. Por que Ele permitiria aquilo tudo.

Mas, o destino tem dos seus caprichos: sem que tivesse entendido o presente, Deus já me preparava o futuro. E fiquei sabendo que haveria de me afastar de todos ao menos por um ano. Difícil foi lhe dizer a notícia.

– A gente se vê quando eu voltar, Vô.

Pelo olhar, nos compreendemos: nós dois, eu e ele, sabíamos que era mentira. E era.

Agora, já faz um bom tempo que estou longe de casa. E, com a distância, acho que pude refletir e entender melhor os Seus desígnios. Pois, graças a esse calvário, ressentimentos foram superados, dificuldades foram vencidas. Vi brigas e perdão. Vi o carinho há tanto tempo reprimido, ser finalmente demonstrado, num beijo que há muito não se dava, num afago que nunca se havia ousado. E então, me conformei.

Seja feita a tua vontade, assim na terra como no Céu.

Sim, é verdade, o meu o último abraço eu não pude dar. No seu último adeus, eu não estava perto dele. Nem o seu neto, nem o seu filho, vô. Mas a vida é uma grande partida. Ele seguiu a viagem dele, e você seguiu a sua. Agora, eu também tenho que cumprir a minha.

A gente se vê em Casa.

Hugo Siqueira de Souza

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