Missas gregorianas

Recebi a seguinte pergunta:

“Recentemente notei que estão chamando o rito tridentino de rito gregoriano. As chamadas missas gregorianas têm alguma relação com isso?”

Não, não é a mesma coisa.

De fato, dada as costumeiras denominações imprecisas (“rito tridentino”, “Missa de sempre”) ou a insatisfatória nomenclatura do Motu Proprio (“forma extraordinária”), o rito romano tradicional passou, de uns anos para cá, a ser amplamente chamado de rito gregoriano, tendo em vista que foi no pontificado do Papa Gregório Magno que suas partes essenciais ganharam a forma definitiva.

Isso não tem nenhuma relação com o que significa a expressão Missas Gregorianas.

Mas para entender a que essa expressão remete, temos antes de fazer uma pequena digressão sobre o que vêm a ser os sufrágios.

Bem, todos os fiéis que pelo Batismo estão unidos com Cristo, acham-se também vinculados entre si, formando um único Corpo Místico, a Comunhão dos Santos. Os laços que os unem entre si são pertencentes à linha sobrenatural e, como tal, muito mais íntimos e fortes que os do parentesco carnal. Donde se vê que a morte física não extingue a união vigente entre os membros do Corpos Místico, mas, ao contrário, contribui ainda para estreitá-los na medida em que possibilita uma vida mais informada pelo sobrenatural.

Ora, o dogma da Comunhão dos Santos faz com que todo ato de um membro tenha repercussão na sociedade dos demais membros; destarte, cada qual pode ser portador da salvação ou ruína para os irmãos. Difícil, porém, seria dizer até que ponto se estende a solidariedade sobrenatural; Deus o determina em Sua sábia Providência, e somente no dia do Juízo Universal o manifestará a todos os homens.

Na base destas idéias, admite-se que os cristãos da terra possam oferecer a Deus, em alívio das almas do Purgatório, suas orações, boas obras e sofrimentos cotidianos. Deus, que instituiu a Comunhão dos Santos, não recusa o oferecimento e o faz reverter em proveito das ditas almas.

Diz-se que tal oferta é feita a título de sufrágio, não de absolvição. Com efeito, a Igreja militante não tem poder de jurisdição (absolvição) sobre as almas dos defuntos; apenas pode rogar por elas e apresentar ao Senhor méritos que redundariam em proveito dos vivos, pedindo que se tornem profícuos para os defuntos. A eficácia desses sufrágios escapa a nossa apreciação: Deus distribui seus frutos de uma maneira misteriosa. Ademais, os teólogos afirmam que os sufrágios aproveitam às almas do Purgatório na medida em que elas estão dispostas a ser beneficiadas; e estas disposições são condicionadas não somente pela caridade atual de tais almas, mas também pelo zelo com que na vida terrestre procuraram socorrer os outros membros do Corpo Místico, principalmente os defuntos, pela sua devoção à Santíssima Virgem, pelo cuidado que tenham tido em assegurar sufrágios para si, etc.

Está claro que os sufrágios assim feitos não derrogam à obra redentora de Cristo, pois os merecimentos apresentados não são mais do que prolongamento e frutos dos méritos do Salvador; é a imagem de Nosso Senhor vivendo no cristão que dá valor de salvação aos sofrimentos deste e lhes possibilita acesso ao Pai.

Os sufrágios aplicados às almas do Purgatório fazem com que estas sejam mais profundamente penetradas pelo amor de Deus, o qual nelas há de consumir mais rapidamente as impurezas do pecado; fazem, outrossim, que Deus atenue a intensidade das penas extrínsecas (dos sentidos) determinadas a tais almas.

Dentre todos os meios de sufragar os fiéis defuntos, o mais eficaz é a celebração do Santo Sacrifício da Missa e o oferecimento dos frutos deste em prol das almas. É de notar, porém, que não se pode oferecer a Comunhão Eucarística como tal nem pelos vivos nem pelos defuntos; a Comunhão, enquanto sacramento, age apenas sobre o cristão a quem é dada, ninguém pode receber os sacramentos pelos outros. Todavia, enquanto é obra boa, a qual implica todo um conjunto de atos meritórios, a recepção da Santa Eucaristia pode ser oferecida em prol dos vivos e defuntos.

Não resta dúvida de que o valor expiatório ou impetratório das boas obras e das preces pelos defuntos é dependente do grau de fervor e caridade de quem as cumpre. Os teólogos julgam que os sufrágios dos vivos pelos defuntos podem ter valor retroativo: Deus pode de antemão atender às preces que os homens Lhe apresentam pelas almas do Purgatório.

Nesse quadro é que se inserem as chamadas Missas Gregorianas.

O Papa São Gregório Magno deu origem ao costume das missas diárias consecutivas em sufrágio pelos defuntos: podiam ser três, sete, dez, trinta ou mais. A série de trinta tornou-se famosa com o nome de Missas Gregorianas, baseada no seguinte episódio narrado pelo citado Papa (Diálogos, livro IV, 55), outrora monge do Monte Célio (Roma):

Certo monge chamado Justo morreu; após o quê, foram descobertas três moedas de ouro ocultas entre seus objetos de uso; tratava-se de algo ilícito no mosteiro. O Abade Gregório muito se entristeceu com o fato, pois o irmão havia falecido em situação irregular; devia purificar-se dessa falha no Purgatório póstumo. Chamou então o monge prior e mandou-lhe que fizesse celebrar uma série de Missas em dias consecutivos sem interrupção. A ordem foi sendo executada, de tal modo que certo dia o falecido monge Justo apareceu a seu irmão Copioso (monge do mesmo mosteiro), comunicando-lhe que havia sofrido as penas do Purgatório até aquele dia, em que fora libertado; os monges haviam perdido a conta das Missas; todavia, ao ouvirem a notícia trazida por Copioso, verificaram que de fato ocorrera após a celebração da trigésima Missa.

Este episódio tornou-se paradigma, dando origem ao costume de se celebrarem trinta Missas consecutivas por um defunto, sem interrupção, na esperança de que, após a trigésima Missa, este, tendo expiado as suas faltas, entre no gozo da visão beatífica.

À “série gregoriana” não se devem atribuir efeitos supersticiosos ou mágicos; a Igreja deixa a cada fiel a liberdade de aceitar ou não tal prática, que nada contém de herético e deriva de revelação privada. O próprio São Gregório escreveu (Diálogos, livro IV, 58):

É mais seguro alguém fazer por si mesmo, enquanto vivo, o bem que espera ser-lhe feito, depois de morto, pelos outros; é melhor livre partir desta vida do que como prisioneiro, depois da morte, procurar a liberdade.

Com essas palavras, São Gregório Magno rechaçava qualquer atitude de magia ou superstição, ensinando a vivência sacramental clássica no decorrer desta vida.

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