Rostos juntos aos ícones

Entre as várias efemérides comemoradas este ano (como os 500 anos da revolta protestante e os 300 do achamento da imagem de Nossa Senhora Aparecida) temos os 100 anos da Revolução Russa, evento histórico que foi a culminância de um processo multissecular de afastamento dos homens de Deus e de seu Corpo Místico (a Igreja), e que jogou o século XX num mar de sangue nunca visto antes.

Não é, portanto, sem admiração que constato a volta da Rússia ao cristianismo; é bem verdade que não ao cristianismo em sua forma plena, isto é, ao catolicismo, mas, de qualquer forma, após ela ter “espalhado seus erros pelo mundo”, a elevação espiritual sincera, que sempre levará à Barca de Pedro, só podia se dar por etapas. Isso pode ser notado de um modo certeiro no seguinte vídeo (só faço um alerta para o erro que o Arcebispo de Moscou comete no começo, ao dizer que a conversão da Rússia não significa conversão ao catolicismo):

Esse vídeo traz esperança a todos que hoje vivem nos pós-Ocidente, inclusive a nós, no Brasil. Ele mostra que mesmo após um situação adversa ao extremo, com grande destruição material e espiritual, é possível um renascimento da Igreja e de uma cultura cristã. Sim, de uma cultua cristã, pois um dos dados mais eloquentes do que hoje ocorre na Rússia é que, no nível paroquial, as igrejas não são só centros espirituais, mas também centros de cultura, onde as tradições populares e a erudição se juntam para louvar a Deus. Fazer isso também me parece muito válido no âmbito da resistência tradicionalista ao hecatombe do pós-Vaticano II.

Por fim, apesar de alguns especialistas na perfídia da Nova Ordem Mundial desconfiarem de Vladmir Putin, não há como negar que as seguintes palavras dele (proferidas quatro anos atrás e retiradas das legendas de um vídeo) são dignas de um estadista cristão (isto é, católico) e exemplificam bem o renascimento de uma nação que sofreu com 72 anos de loucura marxista (lembremos que se de 1917 a 1989 a Rússia foi o leito do comunismo internacional, isto se deu apenas porque ela o serviu com um fervor religioso, porque este era – e ainda é – o messianismo do materialismo, a principal religião substituta para os pós-cristãos):

Outro desafio para a identidade nacional russa está ligado aos acontecimentos que observamos fora da Rússia. Eles incluem política externa, moral e outros aspectos. Vemos que muitos Estados do Euroatlântico tomaram o caminho de negar ou rejeitar suas raízes cristãs que constituem a base da civilização ocidental. Nesses países, a base da moral e de qualquer identidade tradicional está sendo negada – as identidades nacionais, religiosas, culturais e até mesmo sexuais estão sendo negadas ou relativizadas. Lá, a política trata uma família com muitas crianças como juridicamente igual a uma parceria homossexual – a fé em Deus é igualada à crença em Satanás. Os excessos e os exageros do “politicamente correto” nesses países levam as pessoas a considerarem seriamente a legitimação de partidos políticos que promovam propaganda da pedofilia.

As pessoas em muitos Estados europeus estão realmente envergonhadas de suas afiliações religiosas e estão até com medo de falar sobre elas. Feriados e celebrações cristãs são abolidos ou recebem nomes neutros, como se houvesse vergonha dessas festas cristãs. Assim, o valor moral mais profundo dessas celebrações está sendo escondido. E esses países tentam forçar esse modelo para outros países. Estou profundamente convencido de que viver dessa maneira levará diretamente a cultura a ser degradada e levada de volta a uma condição primitiva. E isso torna a crise demográfica e moral do Ocidente ainda mais profunda. Hoje, quase todos os países desenvolvidos do Ocidente não podem sobreviver reprodutivamente, nem mesmo com o aumento de população pela imigração. Que prova mais clara da crise moral no Ocidente poderia haver que essa incapacidade de reproduzir-se?

Sem os valores morais que estão enraizados no Cristianismo e outras religiões do mundo, sem as regras e os valores morais que foram formados e desenvolvidos ao longo de milhares de anos, as pessoas inevitavelmente perdem a dignidade humana. Quanto a nós mesmos, pensamos que é correto e natural defender esses valores morais provenientes do Cristianismo. Devemos respeitar o direito à autodeterminação de cada minoria, mas ao mesmo tempo não pode e não deve haver qualquer dúvida sobre os direitos da maioria.

Ao mesmo tempo em que observamos essa decadência em nível nacional no Ocidente, em nível internacional observamos a tentativa de unificar o mundo de acordo com um modelo unipolar, relativizar e remover instituições de direito internacional e soberania nacional. Em um mundo assim tão unipolar unificado, não há lugar para os Estados soberanos, porque tal mundo exige apenas vassalos. Da perspectiva histórica, tal mundo unipolar significaria a rendição da própria identidade e da diversidade criada por Deus.

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