O bruxo do Brasil

Um das piores coisas que aconteceram depois da implantação do ENEM, para mim, foi o lugar secundário que a literatura passou a ter no ensino médio. As universidades agora não podem valorizar escritores locais e nem os alunos se veem realmente incentivados a ler as obras de alcance nacional (lembro que no meu terceiro ano li 12 livros…), pois se contentam com resumos ou textos que fazem a análise do autor X ou Y. Tenho pena de estudantes que chegam ao ensino superior sem conhecerem verdadeiramente “o bruxo do Cosme Velho”, cuja vida foi resumida no texto abaixo (de autoria de Paulo Gustavo, membro da Academia Pernambucana de Letras, e publicado no Jornal do Commercio de Recife em 13 de abril do corrente ano):

Este ano completam-se 110 anos da morte de Machado de Assis, e ainda assim haverá muito o que dizer sobre ele. Isso pelo simples motivo de que sua obra tem uma amplitude humana inescapável. Transcende à órbita literária: é um dos pontos altos do que até agora pôde produzir a cultura brasileira. Dessa cultura foi um dos maiores intérpretes. Como artista, Machado foi, para usar a linguagem de Ezra Pound, uma antena da raça. Não foi apenas o “bruxo do Cosme Velho”, como o apelidaram. Foi o bruxo do Brasil, o grande mago. Mas um mago apolíneo, atrás de um contido mármore que escondia sua gigantesca sensibilidade.

Ancorado no Rio de Janeiro, a então capital do país, Machado pode ver e viver um Brasil já prisioneiro de suas contradições sociais. Logo desfez-se da casaca do romantismo e, mesmo “sem gravata e suspensório”, assumiu seu próprio método, tomando posse de uma fortuna chamada ironia. Algo raro no Brasil de então, para não dizer, como o José Dias de “Dom Casmurro”, raríssimo. Nascia o bruxo que, com poção universal, reuniu partes iguais de galhofa e melancolia.

Sob a égide da galhofa e do humor, Machado foi um dos primeiros, ao lado de Manuel Antônio de Almeida, a perceber a malandragem brasileira, com seus jeitinhos, suas espertezas, suas ladinas estratégias. Antes deles, talvez apenas um Gregório de Matos, a quem o historiador literário Nelson Werneck Sodré chamou de misto “de cantador e de homem de letras”. Mas a Machado também não faltou a voz das ruas e das praças, de onde o gênio de Cervantes, tão admirado por ele, pode salvar o timbre e a riqueza de um vasto repertório.

Sob a égide da melancolia, é dispensável dizer que Machado nos legou páginas impregnadas de agreste sabedoria, pondo sobre seu microscópio de analista a dor, as angústias, os conflitos, as sutilezas de estados de espírito e uma certa visão do nada que, sendo de Pascal, não mais serve a Pascal, serve a ele, Machado, como que para mostrar aos homens que tudo é de fato vaidade e correr atrás do vento. Em 1908, a morte o encontrou tão solitário quando pacificado e compreensivo. Mas o sol da glória, talvez para seu consolo de artista, já se levantava no horizonte.

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