Crisma

Crisma (Confirmação)

Os mistérios da graça são vividos, proporcionalmente, em três níveis diversos: por Cristo Cabeça, pelo Corpo Místico em conjunto e por cada membro em particular. No caso do mistério de Pentecostes, ele foi vivido pelo Senhor no seu Batismo e pela Igreja quando da vinda do Espírito Santo aos Apóstolos e Nossa Senhora reunidos no Cenáculo, e será por cada indivíduo sobre o véu do sacramento da Crisma.

* Definição: A Crisma é sacramento que nos dá o Espírito Santo na abundância de seus dons, nos tornando perfeitos cristãos.

Cabe observar que embora esteja intimamente ligada ao Batismo, inclusive historicamente no que se refere ao modo como era ministrada (e ainda é em ritos orientais), a Confirmação é um sacramento que possui natureza própria. Ao contrário do que se ensina em muitos lugares, esse sacramento não confirma o Batismo – o Batismo não precisa ser confirmado, já imprimiu caráter e teve todos os seus efeitos aplicados em plenitude; ele confirma (completa), isso sim, a obra que o Espírito Santo fez em nós desde que passamos a ser contados entre os membros do Corpo Místico de Cristo.

Tanto é assim que os dois produzem graças diferentes:

Batismo ⇒ primeira graça ⇒ nos tornamos cristãos

Confirmação ⇒ segunda graça ⇒ nos tornamos soldados de Cristo

* Instituição: Como todos os sacramentos, a Crisma foi instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, e isso pode ser provado indo às fontes da Revelação.

SAGRADA ESCRITURA: A prática dos Apóstolos, que só faziam e transmitiam aquilo que tinha sido mandado pelo Senhor, prova a existência de um sacramento diverso do Batismo e que só podia ser efetuado por eles mesmos. Em Atos VIII, 9-17 nos é relatado que São Pedro e São João tiveram de ir até a Samaria para orarem e imporem as mãos sobre os que tinham sido batizados pelo diácono Filipe afim de que eles recebessem o Espírito Santo (obviamente que de um modo diferente do que já tinham recebido no Batismo); algumas páginas adiante, em Atos XIX, 1-6, lemos que São Paulo batizou discípulos de João Batista (que tinham passado pelo seu rito penitencial – “Batismo de João”) e, depois, lhes impôs as mãos para que recebessem o Espírito Santo (se tudo fosse a mesma coisa seria supérfluo falar de uma nova recepção acompanhada de um novo ato sensível). Na Carta aos Efésios I, 13 vemos uma referência ao “selo do Espírito Santo”, que é uma outra maneira de se referir ao caráter (sinal indelével na alma) do sacramento da Confirmação (no Batismo, embora recebamos o Espírito Santo, somos assinalados como filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros do Céu). Finalmente, em Hebreus VI, 1-2 podemos ler uma lista de pontos básicos da crença cristã e, entre elas, a da imposição de mãos após o Batismo (os batismos a que o texto se refere são o de João e o sacramental), que é um elemento histórico do rito da Confirmação, como ficou claro no livros dos Atos.

TRADIÇÃO:

a) Padres da Igreja:

São os seguintes os ritos da Confirmação: imposição de mãos do Bispo, oração, unção com o óleo sagrado – que se deve distinguir da unção que o sacerdote faz efetua depois do Batismo – e, ao mesmo tempo, a bênção e o assinalamento da fronte e o beijo da paz. ⇒ Santo Hipólito de Roma, séc. III, Tradição apostólica

Aqueles que foram batizados na Igreja são conduzidos aos bispos e por nossa oração e nossa imposição de mãos recebem o Espírito Santo e são confirmados pelo selo do Senhor. ⇒ São Cipriano, séc. III, Epístolas 73,9

Depois de termos saído do banho, somos ungidos com uma abençoada unção de antiga disciplina, pela qual as pessoas estavam acostumadas a serem ungidas para o sacerdócio, pelo óleo de um chifre do qual Aarão foi ungido por Moisés [Êxodo XXX, 22-30). Por essa razão somos chamados “cristos” (“ungidos”) de “crisma” que o unguento que empresta seu nome ao Senhor. Ela foi feita espiritual porque o Senhor foi ungido pelo Espírito por Deus Pai, como se diz nos Atos: “…se uniram nesta cidade contra o vosso santo servo Jesus, que ungistes….” [Atos IV, 27]. A unção flui sobre nós fisicamente, mas nos beneficia espiritualmente, como o ato físico do Batismo (no qual somos imersos na água) tem um efeito espiritual (ficamos livres das transgressões). Em seguida, chamando e convidando o Espírito Santo, a mão é imposta para a bênção. ⇒ Tertuliano, séc. III, Sobre o Batismo 7-8

Segue o sinal espiritual que vocês ouviram falar hoje; já que, depois da fonte, ainda resta a perfeição; quando, por invocação do sacerdote, o Espírito Santo é infundido, o Espírito da sabedoria e da inteligência, o Espírito do conselho e da fortaleza, o Espírito da ciência e da piedade, o Espírito do temor: isto é, os sete dons do Espírito (Is 11: 2). ⇒ Santo Ambrósio, séc. IV, Sobre os Sacramentos, III.II.8 (PL 16:434A)

b) Liturgia: Nos rituais mais antigos dos sacramentos vemos um conjunto de cerimônias para que as pessoas sejam seladas, confirmadas, pelo Espírito Santo. Tanto é assim, que os grupos cismáticos mais antigos, como os coptas ou os ortodoxos-bizantinos, conhecidos por serem conservadores em matéria de liturgia, mantém e reconhecem a Crisma como um sacramento e um sacramento diferente do Batismo; nas fotos abaixo podemos ver uma criança recém batizada sendo crismada por um bispo copta:

* Matéria:

REMOTA: óleo de oliva com bálsamo consagrado pelo Bispo na manhã da quinta-feira santa na Missa Crismal.

Arcebispo Haas de Vaduz (Liechtenstein) conduz a bênção dos Santos Óleos durante a Missa Crismal (rubricas de 1955 do rito romano) em 2014

Não é sem motivo que se escolheu o óleo com bálsamos, mistura chamada de Santo Crisma, para matéria do sacramento da Confirmação, pois não havia outra substância que melhor simbolizasse os efeitos produzidos por ele. De fato, como outrora o atleta antes de competir untava todo o seu corpo com óleo, no intuito de tornar mais ágeis e vigorosos seus membros, assim o Santo Crisma representa a força, o ânimo viril com que o católico precisa estar armado para os combates da vida. Por outro lado, o bálsamo, a espalhar perfume, lembra a influência benéfica dos exemplos de virtude que o cristão deve dar.

Foi concedido, para o rito de Paulo VI, em alguns lugares, o uso de outros óleos vegetais que não o de oliva.

PRÓXIMA: unção em forma de cruz feita na fronte do crismando junto com a imposição das mãos.

Percebam que no quadro acima o bispo parece ser experiente na ministração desse sacramento, pois enquanto impõe a mão já faz a unção em forma de cruz na testa do jovem que está sendo confirmado.

* Forma: A forma do sacramento da Crisma, no rito romano tradicional, consiste nas palavras seguintes, pronunciadas pelo Bispo (ou um padre autorizado), ao mesmo tempo em que faz a unção: “N. (nome do crismando), eu te marco com o sinal da Cruz, e te confirmo com o Crisma da salvação, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Assim, está marcado o crismado com o sinal da Cruz, que é sinal dos soldados de Cristo; está confirmado com o Crisma da salvação, quer dizer, armado e fortalecido para as lutas que o aguardam; está confirmado, como foi batizado, em nome da Trindade Santa, da qual advém toda a nossa força espiritual. Portanto, nesse rito, a forma, por si mesma, evoca admiravelmente a natureza do sacramento.

Crisma no rito paulino

No rito bizantino, a forma é mais simples, pois a natureza do sacramento é especificada por orações anteriores a ela: “N., eis o selo do dom do Espírito Santo”. No rito de Paulo VI também: “N., recebe por este sinal os dons do Espírito Santo” (na tradução brasileira, que é pouco literal: “N, recebe por este sinal o Espírito Santo, dom de Deus”).

OBS: Alguém pode se perguntar como a Igreja pôde mudar a matéria remota de óleo de oliva para outros óleos vegetais em alguns lugares; ou o motivo de existirem várias formas para este sacramento; ou ainda o que justifica o fato de que, em todos os ritos, encontramos elementos que não estão presentes na prática apostólica (oração + imposição de mãos). Isso tudo parece entrar em contradição com a informação de que os sacramentos foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa dúvida, que naturalmente surge na mente de todos os estudiosos atentos, é facilmente resolvida quando compreendemos que o Divino Mestre só deixou o determinante (forma) e o determinável (matéria) bem amarrados em dois sacramentos: Batismo e Eucaristia. Nos outros, a Igreja, contanto que a relação de significado entre determinante e determinável seja mantida, isto é, que ela continue a ser um sinal apropriado para a efusão da graça específica, pode mudar sua concretização.

* Ministro:

ORDINÁRIO: É o bispo, como se depreende dos trechos indicados acima dos Atos dos Apóstolos, e foi reafirmado pelo Santo Concílio de Trento (sessão VII, cânon 3). Somente os Apóstolos, a quem sucederam os bispos, administravam a Crisma aos que tinham sido batizados por ministros inferiores.

Dom José Aparecido Gonçalves, Bispo Auxiliar de Brasília, crismando no rito romano tradicional (2014)

EXTRAORDINÁRIO: Um padre com delegação do seu bispo (que se supõe existir nos ritos orientais e que precisa ser expressa nos ritos ocidentais – na verdade, nos dois casos, a concessão é papal, pois esse possui todo o poder jurisdicional de Cristo, e usa dos bispos como intermediários). Um bispo fora de sua diocese também precisa de autorização do bispo local para crismar. Em perigo de morte, qualquer sacerdote crisma validamente e licitamente, mesmo sem a licença do bispo.

P. José Leles crismando, no rito romano tradicional, em Uberlândia (2019)

OBS: Na Igreja primitiva, os três sacramentos de iniciação – Batismo, Confirmação e Eucaristia – eram celebrados na Vigília Pascal com catecúmenos adultos. Esses eram imersos numa piscina para o Batismo. Então, vestidos com uma túnica branca, o bispo impunha as mãos sobre eles e os ungia com óleo (Crisma). Passavam para um lugar de honra na comunidade, de onde comungariam pela primeira vez. A iniciação, portanto, consistia em um evento com vários momentos. O clímax era a celebração da Missa.

A separação da unção do bispo do Batismo ocorreu por várias razões na Igreja Ocidental. A proclamação de Constantino fazendo do cristianismo a religião oficial no século IV significou que muito mais pessoas estavam sendo batizadas. O cristianismo também se espalhou das cidades para o interior. Tornou-se impossível para os bispos, que agora também estavam envolvidos no governo civil, presidir todos os batismos. Os bispos do Oriente resolveram o problema delegando os sacramentos de iniciação ao presbítero, reservando para si apenas a bênção do óleo usado no ritual. Até hoje, as igrejas orientais iniciam com os três sacramentos de uma só vez. Os bispos do Ocidente também delegaram o Batismo aos sacerdotes, mas mantiveram a função de realizar a unção inicial e a imposição de mãos. Eles faziam sempre que visitavam uma localidade específica. Assim, no Ocidente, a celebração do Sacramento da Confirmação passou a ser realizada mais tarde que a celebração do Sacramento do Batismo. Finalmente, a partir de 1910, quando São Pio X permitiu que crianças com 7 anos de idade comungassem, a tendência também foi de distanciamento da Crisma da Primeira Comunhão, e a inversão da ordem tradicional.

* Efeitos: A Crisma é sacramento dos vivos, por isso não dá a primeira graça santificante, mas aumenta e aperfeiçoa a já recebida no Batismo ou recuperada na Confissão. (1° efeito)

Quanto à graça sacramental própria, ela consiste especialmente no dom da Fortaleza, que habilita o católico a enfrentar corajosa e vigorosamente os inimigos da fé. A Confirmação também deita na alma do crismado uma infusão mais abundante dos outros dons do Espírito Santo, a saber: Sabedoria, Inteligência, Conselho, Ciência, Piedade e Temor de Deus. (2° efeito)

Enfim, a Crisma imprime na alma o caráter de soldado de Cristo. (3° efeito)

Esse último efeito é sempre igual para todos, já os demais são proporcionais às disposições dos confirmandos (na prática: para recebê-los deve-se estar em estado de graça ou esses efeitos ficarão como que retidos até essa situação se configurar).

* Necessidade: Embora não seja de absoluta necessidade para a salvação, a ninguém é lícito descuidar-se dele a ponto de não o receber. É grave negligência (dos pais, padrinhos de Batismo e própria) não receber o sacramento da perfeição cristã.

* Sujeito: Só uma pessoa batizada pode receber validamente o sacramento da Confirmação e, sendo adulta, ter pelo menos a intenção habitual implícita, isto é, a formada anteriormente ao ato e nunca revogada, mas não atualizada na cerimônia. Para receber licita e frutuosamente é preciso, além disso, estar em estado de graça, e tendo o uso da razão, ser suficientemente instruído. Na Igreja latina requer-se que o indivíduo tenha chegado à idade da razão, a não ser por motivos justos e graves, como o perigo de morte. Na Arquidiocese de Olinda e Recife, em condições normais, a Confirmação pode ser ministrada a quem tem de 14 anos em diante.

* Padrinhos: A Confirmação também exige a figura dos padrinhos (no caso, um padrinho ou uma madrinha), como o Batismo. Ele é um auxiliador na vida espiritual do crismado e, portanto, não deve ser escolhido pelo status ou dinheiro que possua, mas tão somente pelo exemplo de vida e de Fé católica. Os requisitos para o apadrinhamento são:

1. Ser designado pelo crismando, por seus pais ou por quem lhes faz as vezes;
2. Ter completado dezesseis anos de idade;
3. Ser católico, confirmado, já ter recebido o Santíssimo Sacramento da Eucaristia e levar uma vida de acordo com a Fé e o encargo que vai assumir;
4. Não ter sido atingido por nenhuma pena canônica legitimamente irrogada ou declarada;
5. Não ser pai ou mãe do crismando.

Existe um parentesco espiritual entre o crismado e seu padrinho, embora que ignorado pela Direito pós-conciliar, que os impedia de contrair Matrimônio. Por respeito a essa tradição, convém chamar apenas pessoas do mesmo sexo para cumprir essa função.

* Cerimônias (no rito romano tradicional):

O ritual da Confirmação no rito gregoriano tem essencialmente a mesma estrutura desde os tempos patrísticos, como se pode ver no testemunho de Santo Hipólito acima.

A Crisma não pode ser administrada dentro da Missa, mas, como ordinariamente se faz, é realizada antes dela que lhe segue imediatamente. A cerimônia é bastante simples e curta, constando das seguintes partes:

1ª O Bispo, após fazer uma alocução sobre o sacramento a ser recebido, impõe as mãos sobre todos os candidatos, indicando, assim, que os Espírito Santo quer tomar posse deles, e arrebatá-los ao poderio do demônio. Ao mesmo tempo, faz uma oração em que pede, para eles, os sete dons.

2ª Depois dessa cerimônia preparatória, o celebrante chama, pelo nome de batismo, cada um, e lhe faz na testa, em forma de cruz, uma unção, pronunciando, então, a forma do sacramento. Esta unção é feita na testa, e em forma de cruz, para significar que o católico não deve se envergonhar da cruz de Jesus Cristo.

3ª Após a unção, o Bispo bate de leve na face do crismado, enquanto fala: “A paz seja contigo”. A significação desse gesto, que historicamente substituiu o ósculo da paz, é recordar, ao cristão, que tem de ficar pronto a suportar, em nome de Nosso Senhor, os sofrimentos e opróbrios; e o voto que acompanha lembra-lhe que a recompensa dessa coragem será a paz.

4ª O ministro novamente pede a Deus a que descida do Espírito Santo sobre os fiéis  seja frutuosa, lembrando que Aquele a Quem receberam é o mesmo Espírito que foi dado aos Apóstolos e seus sucessores.

5ª Por fim, reza-se o Credo, o Pai nosso e a Ave Maria e a cerimônia termina coma bênção pontifical.

Material complementar:

O Santo Sacramento da Crisma 

Rito da Confirmação (tradicional/folheto)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s