Sínodo da Amazônia: um comentário católico

Entre as várias questões do chamado Sínodo da Amazônia, que não é um verdadeiro sínodo, mas tão só uma reunião para sedimentar o que já foi decidido pela burocracia, existe a de ordenação de homens casados, os viri probati. Particularmente, sempre fui a favor de algo assim, contudo, não dá para chancelar o que vem sendo “debatido” em Roma, pois ao invés de uma discussão com espírito maduro, que entende que o peso da obrigatoriedade deve ser tirado do dom do celibato, e que também compreende a possibilidade de a homens com duas vocações serem abertas outras oportunidades na evangelização e no pastoreio do Povo de Deus, o que temos é  a alimentação de uma agenda feita para minar a doutrina da Igreja e esconder os verdadeiros problemas eclesiológicos da região. Como resposta a tal loucura, publico agora uma reflexão feita pelo Pe. Martin Lazarte, um salesiano uruguaio que foi missionário na África e em vários países na América do Sul, que considero o melhor texto que já li sobre o tema. O artigo apareceu inicialmente em italiano, no jornal Settimana News (12 de agosto), e depois encontrei uma versão dele em inglês no site Asia News (em duas partes, aqui e aqui) e, finalmente, uma tradução na página do Instituto Humanitas da UNISINOS.

Amazônia: Os “viri probati” são uma solução?

Nas mídias de comunicação social, nos debates e nas assembleias de “escuta” sobre o Sínodo pan-amazônico, ouvimos repetir que uma das soluções para resolver o problema da evangelização e o acompanhamento das comunidades cristãs amazônicas, seria a ordenação presbiteral dos chamados “viri probati”, laicos casados, reconhecidos na comunidade por sua integridade de vida e testemunho cristão.

O tema em si é um argumento válido e suscetível de estudo e de discernimento na Igreja, particularmente consciente dos desafios pastorais do mundo de hoje e da tradição das Igrejas orientais a esse respeito.

O problema de fundo não está no tema em si, mas na oportunidade e nas motivações com as quais abordar o tema no Sínodo pan-amazônico, levando em conta a realidade atual.

Sobre a oportunidade

– A sinodalidade, slogan ou realidade?

Considerando a ênfase colocada no rico conceito eclesial de comunhão, de sinodalidade, não parece construtivo que uma região da Igreja, ainda que em comunhão com Pedro, enfrente e pretenda dar um passo de forma individual.

O tema da ordenação ao sacerdócio de homens casados, como escolha pastoral normal, é um problema que envolve fortemente toda a Igreja católica. Quando se fala que é apenas para atender as comunidades isoladas na selva, nos esquecemos do dogma da ecologia integral: “Tudo está interconectado”.

Tal decisão não pode ser considerada como isolada e excepcional de uma região exclusiva e especialmente hoje, no século XXI. Toda decisão de uma Igreja particular sobre aspectos relevantes como este, é inevitável que tenha sua repercussão e sua influência.

Alguns dirão que essa novidade poderia ser séria e, nesse caso, constituiria uma contribuição positiva da Igreja amazônica para toda a Igreja universal.

A solução justa e equilibrada é que todas as Igrejas tenham a oportunidade de estudar, discernir e expressar sua opinião sobre o assunto, sem que lhe seja imposta uma mudança quanto à preciosa tradição de celibato sacerdotal vivido na Igreja ocidental há 1700 anos.

As coisas podem mudar sobre esse problema? É possível, mas é essencial tomar decisões em comunhão sinodal.

Testemunhamos, não sem sofrimento, as fraturas que aconteceram nas Igrejas anglicanas ao tomar decisões “ocidentais” sobre problemas morais contrários aos sentimentos das Igrejas africanas e asiáticas, que produziram rachaduras profundas e irreparáveis.

Somos chamados, em nome do amor de Cristo, a manter essa comunhão na unidade, mesmo respeitando a diversidade. O preço da unidade exige de parte de todos esforços e sacrifícios: para alguns, uma maior abertura da mente, considerando os desafios contemporâneos, para outros, maior paciência e respeito por caminhar junto com o irmão.

– Seria um bom serviço para o sínodo?

Um segundo ponto sobre a oportunidade de decidir sobre o assunto diz respeito à temática do sínodo. “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Ao lançar o sínodo, o Papa indicou dois itinerários de trabalho: o tema da evangelização nesta região e o tema da ecologia integral.

O tema da evangelização inclui muitos aspectos: a relação entre anúncio e promoção humana, entre o evangelho e a inculturação; os processos de educação à fé através do catecumenato e outras formas de itinerários adaptados e inculturados; o problema da interculturalidade; a enorme mobilidade humana, particularmente dos jovens das áreas rurais para a cidade; o grave problema das periferias das grandes cidades amazônicas; a crise geracional na transmissão dos valores ancestrais em um contexto globalizado, o ministério laico, o desafio do ecumenismo e da proliferação de grupos neopentecostais, evangélicos e dos novos movimentos religiosos; a fecundidade ou falta de promoção vocacional cristãs das comunidades relativas às famílias, à vida sacerdotal e religiosa; os direitos indígenas, sua cultura, as tradições, os direitos e as suas terras; a liturgia e sua inculturação no contexto indígena.

Além disso, há o “peso pesado” da ecologia integral, que tem repercussões sobre toda a Igreja universal e sobre o mundo em geral, que espera uma palavra significativa e sábia da Igreja sobre a atual crise ecológica.

Tendo o sínodo uma agenda tão rica, se o tema da ordenação dos laicos fosse colocado em primeiro plano, que – como eu disse – seria em si lícito, não prestaria bom serviço ao próprio sínodo.

Do ponto de vista midiático e eclesial, seria criado um clima de forte polêmica e de polarização, que não faria nenhum bom serviço às populações indígenas que vivem na Amazônia, nem à evangelização, nem ao problema urgente e delicado da crise ecológica.

O curinga do sínodo seria inevitavelmente objeto do debate, deixando o restante dos temas em segundo plano. Portanto, em prol da ecologia integral, dos povos da Amazônia e do Evangelho, deixamos alguns temas que precisam ser aprofundados em outros momentos mais oportunos. Em vez disso, poder-se-ia pensar em um sínodo sobre os ministérios da Igreja, e esse seria o lugar certo para aprofundar o tema, em seu contexto correto e de modo universalmente sinodal.

– Sínodo, abusos sexuais, mensagem equívoca

Um terceiro ponto que me parece importante considerar é o contexto histórico da “crise eclesial” causada pelos abusos sexuais. Em muitos ambientes, acredita-se que a causa dos abusos seja o “celibato” que gera pessoas neuróticas.

Na minha opinião, neste momento, sem criar um sereno processo de reflexão e discernimento na Igreja universal sobre estas discussões e decisões, transmitiríamos uma mensagem ambígua e falsa sobre o que entende a Igreja por celibato sacerdotal, por ela considerado em sentido amplamente rico e positivo (como é apresentado, por exemplo, na Sacerdotalis caelibatus e na Pastores dabo vobis).

Sem dúvida, o debate sobre a ordenação de homens casados não coloca em discussão a beleza e a sublimidade do celibato sacerdotal, pois entraria na linha de uma escolha livre e facultativa que não pretende de modo algum diminuir a estima do “carisma” da virgindade pelo Reino dos céus. No entanto, não me parece inteligente e tempestivo abordar o problema neste sínodo.

Sobre as motivações

– Uma Igreja ministerial

Eu ouvi o raciocínio segundo o qual a ordenação sacerdotal entre os laicos de comunidades distantes é necessária, porque o ministro dificilmente pode chegar até elas.

Na minha maneira de ver, a abordagem do problema nesses termos peca por enorme clericalismo. Onde não há o “padre” ou a “freirinha”, não há vida eclesial. O problema de fundo é muito mais sério. Foi criada uma Igreja com pouco ou nenhum protagonismo e sentido de pertença dos laicos, uma Igreja que, se não tem o “padre”, não funciona. Esta é uma aberração eclesiológica e pastoral. A nossa fé, como cristãos, está enraizada no batismo, não na ordenação sacerdotal.

Às vezes tenho a impressão de que queremos clericalizar o laicato. Antes de tudo precisamos de uma Igreja de batizados protagonistas, de discípulos e missionários. Em várias partes da nossa América, tem-se a impressão de que se tenha sacramentalizado, mas não evangelizado, que a água tenha sido misturada ao vinagre, mas não a água com o vinho.

Uma visão “funcional” do ministério, que não revitalize toda a comunidade cristã como protagonista da evangelização, mesmo que tenha laicos ordenados, não resolverá o problema, o compromisso batismal cristão permanecerá o mesmo.

É apropriado ampliar o horizonte e olhar a vida e a experiência da Igreja.

A Igreja da Coreia nasce da evangelização dos laicos. O laico Yi Seung-hun, batizado na China, espalha a Igreja católica no país, batizando ele mesmo. Durante 51 anos (1784-1835), desde a sua fundação, a Igreja coreana foi evangelizada pelos laicos, com a presença ocasional de algum sacerdote. Essa comunidade católica floresceu e se espalhou enormemente, apesar das terríveis perseguições, graças ao protagonismo dos batizados.

A Igreja do Japão, fundada por S. Francisco Xavier (1549), cresce vertiginosamente e, por três séculos, também chegam as perseguições, os missionários são expulsos e o último sacerdote é martirizado em 1644. Somente depois de mais de 200 anos os sacerdotes (missionários franceses) voltarão e encontrarão ainda um Igreja viva formada pelos kakure kirishitan (cristãos escondidos).

Nas comunidades cristãs havia vários ministérios: uma pessoa responsável, catequistas, batizadores, pregadores. É interessante o conselho que os cristãos guardaram até a chegada dos novos sacerdotes no século XIX: a Igreja retornará ao Japão e vocês o saberão por estes três sinais: “os sacerdotes serão celibatários, haverá uma estátua de Maria e eles obedecerão ao papa-sama de Roma”.

Vou citar algo mais pessoal, de minha experiência missionária de 25 anos na África (Angola). Quando a guerra civil terminou em 2002, pude visitar comunidades cristãs que, durante 30 anos, não tiveram a Eucaristia, nem viram um sacerdote, mas permaneceram firmes na fé e eram comunidades dinâmicas, lideradas pelo “catequista”, ministério fundamental na África, e por outros ministros: evangelizadores, animadores da oração, uma pastoral com as mulheres, o serviço aos mais pobres. Uma Igreja viva e laica na ausência de sacerdotes.

Na América Latina não faltam exemplos positivos, como entre os Quetchi da região central da Guatemala (Verapaz) onde, apesar da ausência de sacerdotes em algumas comunidades, os ministros laicos têm comunidades vivas, ricas em ministérios, liturgias, itinerários catequéticos, missões, entre os quais os grupos evangélicos foram capazes de penetrar muito pouco. Apesar da escassez de sacerdotes para todas as comunidades, é uma Igreja local rica em vocações sacerdotais indígenas, onde foram fundadas inclusive congregações religiosas femininas e masculinas de origem totalmente local.

– A falta de vocações na Amazônia é um problema ou é a consequência de outro problema?

A falta de vocações para o sacerdócio e a vida religiosa na Amazônia é um desafio pastoral ou é consequência de opções teológico-pastorais que não deram os resultados esperados ou apenas resultados parciais? Na minha opinião, a proposta dos “viri probati” como uma solução para a evangelização é uma proposta ilusória, quase mágica, que não toca o verdadeiro problema subjacente.

O Papa Francisco escreve na Evangelii gaudium 107:

Em muitos lugares, há escassez de vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Frequentemente isso fica-se a dever à falta de ardor apostólico contagioso nas comunidades, pelo que estas não entusiasmam nem fascinam. Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas. Mesmo em paróquias onde os sacerdotes não são muito disponíveis nem alegres, é a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente se essa comunidade vivente reza insistentemente pelas vocações e tem a coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagração.

O Papa também fornece a chave para o problema. Não é a falta de vocações, mas a escassa proposta, a falta de fervor apostólico, a falta de fraternidade e oração; a falta de processos sérios e profundos de evangelização.

Eu faço uma comparação com outros dois “biomas” ricos em vida biológica, espiritual e eclesial: o bioma do rio Brahmaputra e o bioma da bacia do Congo.

No noroeste da Índia, a evangelização progrediu decisivamente desde 1923, graças a uma pequena comunidade católica que não chegava a mil cristãos.

De acordo com dados de 2018, esta região hoje conta com 1.647.765 católicos, com 3.756 religiosos e 1.621 sacerdotes (metade dos quais pertencentes a minorias étnicas locais e os demais missionários de outras partes da Índia). Existem 15 dioceses radicadas nas minorias étnicas de cerca de 220 línguas locais (Naga, Khasi, Wancho, Nocte, Jaintia, Apatani, Goro, Ahom, War, Bodo …).

Essas populações, como as amazônicas, permaneceram por séculos isoladas no meio do hinduísmo, islamismo e budismo, refugiadas entre as montanhas e florestas do Himalaia, vivendo suas práticas ancestrais. Uma mudança impressionante ocorreu em 90 anos. A relação entre fiéis e sacerdotes católicos hoje é de 1 a 1.000, o que é excelente. Muitos cristãos dessas minorias “tribais” ocuparam posições importantes na política local e nacional da Índia.

O outro bioma é o rio Congo, com os países vizinhos: mais de 500 aldeias e línguas. O cristianismo passou por várias dificuldades, as mesmas de outros contextos, mas também pelo desafio de ser considerado como a religião do colonialismo durante o período de descolonização (décadas de 1960 e 1970). Apesar de tudo, o florescimento das Igrejas africanas é evidente e promissor. Nesse bioma, as vocações sacerdotais cresceram 32% nos últimos 10 anos e a tendência parece continuar.

Poderíamos trazer outros exemplos do Vietnã, da Indonésia (o país mais muçulmano do mundo), de Timor Leste, da Oceania … mas certamente não da nossa Europa secularizada. Em todas as regiões geográficas existem desafios e dificuldades nas comunidades cristãs; mas vemos que onde há uma obra de evangelização séria, autêntica e contínua, não faltam as vocações ao sacerdócio.

A questão inevitável que se coloca é: como é possível que povos com tantas riquezas e semelhanças antropológico-culturais com os povos amazônicos, em seus ritos, mitos, um forte senso de comunidade, a comunhão com o cosmos, com profunda abertura religiosa … tenham feito florescer comunidades cristãs e vocações sacerdotais enquanto em algumas partes da Amazônia, depois de 200, 400 anos, ainda há uma esterilidade eclesial e vocacional? Há dioceses e congregações presentes há mais de um século e que não possuem uma única vocação indígena local. Existiria talvez um gene a mais ou a menos, ou o problema é outro? As diferenças culturais são tão grandes?

Uma resposta possível é que os povos amazônicos, culturalmente, não compreendem as exigências do celibato. Este problema foi levantado, talvez até com boa vontade, mas está impregnado de fortes preconceitos culturais, para não dizer raciais… Exatamente o mesmo problema foi posto na Índia, na Oceania e na África.

A encíclica Maximum illud, cujo centenário será celebrado durante o sínodo com um mês missionário extraordinário, responde a esse problema. O documento incentiva e estimula a promoção das vocações indígenas nas Igrejas que foram ou eram dependentes das colônias europeias.

Aqui podemos ver, a título de exemplo, a magnífica obra missionária dos espiritanos, dos padres brancos, que decididamente optaram pelas vocações locais, criando seminários florescentes por toda a África.

Certamente, dedicar-se a trabalhar para as vocações é exigente, envolve o investimento de meios, do pessoal melhor. Às vezes a vida missionária tem evitado esse precioso serviço que é verdadeiramente o que cooperará para a criação de uma Igreja com um rosto amazônico. Às vezes, é muito mais gratificante uma vida de “herói itinerante” nas florestas do que uma dedicação amorosa, paciente e respeitosa no acompanhamento e na formação das vocações locais.

Quais são os novos caminhos?

Por outro lado, é comum ouvir a expressão novos caminhos para a evangelização como sinônimo de promoção das ordenações dos viri probati. Eu concordo totalmente que devemos buscar “novos caminhos” para a evangelização. Mas talvez não esteja concordando em dizer no que constaria a novidade.

Penso que um dos problemas pastorais em várias partes da América Latina, e em particular na Amazônia, seja a insistência em “velhos caminhos”. Existe um grande conservadorismo em diferentes Igrejas e estruturas eclesiais. Não estou me referindo apenas aos tradicionalistas pré-conciliares, mas a linhas pastorais, mentalidade que se enraizaram em 1968 e nas décadas de 1970 e 1980.

Para alguns, a única Assembleia continental dos bispos latino-americanos foi Medellín, ignorando a riqueza e a reflexão de Puebla, Santo Domingo, Aparecida, em particular no que diz respeito ao problema do diálogo com a cultura, a evangelização, a ação missionária.

Eu indico três tipos de alzheimer pastoral que afetam na esterilidade evangelizadora da Amazônia:

– Antropologismo cultural

Em 1971, um grupo de 12 antropólogos escreveu a famosa Declaração de Barbados, que afirmava que a Boa Nova de Jesus era uma péssima novidade para os povos indígenas. Sem dúvida, a partir dessa provocação se desenvolveu em várias partes um fecundo diálogo entre antropólogos e missionários que serviu para o enriquecimento recíproco. Mas em outros lugares caiu-se em uma autocensura, perdendo a “alegria de evangelizar” (EG 1-13). Lembro casos de freiras que decidiram não anunciar Jesus Cristo, nem fazer catequese “por respeito à cultura indígena”. Elas teriam se limitado ao testemunho e ao serviço.

Depois de vinte anos, quando os grupos evangélicos chegaram às comunidades indígenas, perguntaram ao sacerdote da missão se não seria apropriado falar também de Jesus. A resposta do padre foi: “Já estava na hora, irmãzinhas, de dizer algo sobre Jesus”.

Às vezes, a insistência sobre o testemunho é tal que parece pretender que substitua o anúncio. A esse respeito, Paulo VI, no documento fundamental sobre a evangelização Evangelii nuntiandi 22 nos diz:

Entretanto isto permanecerá sempre insuficiente, pois ainda o mais belo testemunho virá a demonstrar-se impotente com o andar do tempo, se ele não vier a ser esclarecido, justificado, aquilo que São Pedro chamava dar ‘a razão da própria esperança’, explicitado por um anúncio claro e inelutável do Senhor Jesus. Por conseguinte, a Boa Nova proclamada pelo testemunho da vida deverá, mais tarde ou mais cedo, ser proclamada pela palavra da vida. Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados.

– Moralismo social

Em mais de um lugar ouvi expressões desse tipo de operadores pastorais: “Quando as pessoas precisam de serviços, vêm até nós (a Igreja Católica), mas quando buscam um sentido para as suas vidas, vão para outros (evangélicos etc.)”. É evidente e fácil de constatar que a Igreja, querendo ser “uma Igreja Samaritana”, esqueceu de ser uma “Igreja Madalena”, uma Igreja que presta serviços, mas não anuncia a alegria da ressurreição do Senhor.

O empenho social da Igreja, na evangélica opção pelos mais pobres, tem sido e é uma enorme riqueza, que se concretizou em muitas iniciativas em prol da saúde, da educação, da defesa dos direitos humanos, da defesa das terras indígenas, da organização social das comunidades, das cooperativas de produção, da proteção ambiental …

Esse empenho com a dignidade da pessoa, sem dúvida, foi e continua a ser um aspecto constitutivo do processo de evangelização, que expressa a dimensão diaconal da Igreja. Um compromisso dessa envergadura não constituiu apenas a riqueza da Igreja latino-americana, mas da Igreja universal.

O problema surge quando esse tipo de atividade absorve o resto da vida e o dinamismo da Igreja, deixando na sombra, silenciadas ou tomados como certas as outras dimensões: kerigmática, catequética, litúrgica, a koinonia. Estamos em uma tensão não resolvida entre Marta e Maria.

Mesmo a pregação, às vezes, em não poucos contextos, tem se concentrado excessivamente nas questões sociais relativas ao compromisso, à transformação e à libertação social; sobre os problemas da injustiça mundial, sobre os pecados estruturais etc …, elementos que fazem parte da mensagem de evangelização, mas que foram transmitidos de tal maneira que, para as pessoas simples, pouco ou nada diziam ou dizem sobre o sonho ruim, a doença de sua criança, sua particular problemática familiar… Uma predicação fortemente marcada pelo “moralismo social” com temáticas e dinâmicas às vezes fortemente carregadas de ideologia e de reducionismos sociológicos não foi capaz de tocar as fibras do coração popular.

Graças a Deus, porque se não é a programação pastoral intelectual a pensar na “espiritualidade encarnada na cultura dos simples”, a própria Virgem trata de cuidar de seus filhos e tocar o coração popular, não partindo de grandes reflexões, mas da simples piedade popular: rica, simples, direta, cheia de carinho, profundamente sentida pelos “pequeninos”. Basta recordar a grande devoção amazônica à Virgem de Nazaré, quando em outubro, em Belém do Pará, cerca de dois milhões de peregrinos acompanharam a procissão do Círio de Nazaré.

A enorme hemorragia dos católicos, na Igreja latino-americana, em direção à constelação das igrejas evangélicas e neopentecostais, é indubitavelmente devida a vários fatores, de modo que não se pode ser simplista, mas certamente a falta de uma pastoral muito “mais religiosa” e “menos sociologizada” influenciou bastante sobre uma emigração para as Igrejas evangélicas e os novos movimentos religiosos, onde na Palavra, em um acolhimento fraterno e caloroso, em uma presença constante, em um forte sentimento de pertença, encontram um “sentido” e uma companhia para a sua vida.

A meu ver, esse é um dos pecados teológico-pastorais da difícil conversão, em que com dificuldade podem ser reconhecidos alguns desequilíbrios e as radicalizações que tornaram estéril a nossa pastoral, provocando um desmatamento espiritual. Há uma espécie de impenetrável atitude defensiva em bunkers ideológicos. Continua-se persistentemente na mesma linha.

Eu visitei uma diocese, onde no início dos anos 1980, 95% da população era católica, hoje são 20%. Lembro-me do comentário de um dos missionários europeus que sistematicamente “desevangelizou” a região: “Não favorecemos a superstição, mas a dignidade humana”. Acredito que isso diz tudo.

A Igreja, em alguns lugares, transformou-se em uma grande administradora de serviços (saúde, educação, promoção, consultoria…), mas pouco em mãe da fé.

Visitando uma comunidade da minha congregação que trabalha entre os indígenas, depois de ter trabalhado durante anos na educação, na legalização de terras, na defesa dos rios contra as empresas de mineração, na revalorização dos elementos culturais tradicionais, alguns líderes de comunidades indígenas não permitem que eles entrem em seu território, porque agora são evangélicos. Muitas coisas foram feitas, mas faltaram os processos para compartilhar a riqueza e a beleza da nossa fé católica, um rico anúncio da Palavra e a formação de agentes pastorais.

– Secularismo

Um terceiro mal de alzheimer é o secularismo. É certamente um desafio global. A América Latina é mais suscetível às influências devido à sua localização geográfica, ao contrário da Europa ocidental. Mesmo a cultura urbana secularizada exerce uma influência além dos limites da cidade: esses desafios são algo de normal em toda a vida da Igreja e em todas as latitudes.

Mas o problema principal não está nas pressões culturais do ambiente dominante, mas no fato de que uma Igreja se seculariza, quando seus agentes pastorais internalizam as dinâmicas de uma mentalidade secularizada: a ausência ou uma manifestação muito tímida da fé quase pedindo perdão.

As consequências dessas opções ou influências pastorais, sem dúvida, refletem-se na esterilidade vocacional ou na falta de perseverança no caminho empreendido, devido à ausência de motivações profundas. Ninguém deixa tudo para ser um animador social, ninguém entrega a sua vida a uma “opinião”; ninguém oferece o absoluto da sua vida a algo de relativo, mas apenas ao Absoluto de Deus. Quando essa dimensão teológica e religiosa não é evidente, clara e viva na missão, nunca haverá opções de radicalismo evangélico, que é um índice que a evangelização tocou a alma de uma comunidade cristã.

Uma comunidade cristã que não gera vocações sacerdotais e religiosas é uma comunidade afetada por alguma doença espiritual. Podemos ordenar os viri probati e outros, mas os problemas básicos permanecerão: uma evangelização sem Evangelho, um cristianismo sem Cristo, uma espiritualidade sem o Espírito Santo.

Logicamente, uma visão horizontal da cultura dominante, na qual Deus está ausente ou reduzido a alguns conceitos simbólicos, culturais ou morais, é impossível que chegue a apreciar o fecundo valor espiritual e pastoral do celibato sacerdotal como um dom precioso de Deus e da total e sublime disposição de amor e de serviço à Igreja e à humanidade.

Haverá autênticas vocações sacerdotais somente quando for estabelecida uma relação autêntica, exigente, livre e pessoal com a pessoa de Cristo. Talvez seja muito simplista, mas, a meu ver, o “novo caminho” para a evangelização da Amazônia é a novidade de Cristo.

Propostas para novos caminhos

Apresento oito itinerários de crescimento para novos caminhos de evangelização. Em si eles não têm nada de novo. São aqueles de sempre, mas no desejo de que sejam realmente plasmados de novo fervor.

– O primeiro e mais importante é uma evangelização integral. Assim como falamos de ecologia integral, devemos manter presente a evangelização integral. Onde todos os aspectos pastorais da missão estão presentes de maneira harmoniosa e equilibrada, onde tudo tem a ver com tudo: o kerygma (a alegre proclamação de Jesus Cristo), a catequese (não como doutrinação, mas como um paciente processo catecumenal que entrelaça o Evangelho com a vida e cultura amazônica); a diaconia (milhares de serviços, como expressão de uma caridade criativa e comprometida que nasce da fé); a koinonia (criação de comunidades fraternas em torno da fé e da Palavra), a liturgia (uma comunidade que celebra com alegria a sua fé). Sem processos de evangelização integral, não somente não haverá vocações, mas não haverá cristãos, ou pelo menos católicos.

– Um rico catecumenato. A experiência em algumas partes do mundo e na Amazônia mostrou a eficácia do catecumenato, como lugar de encarnação da fé na riqueza do próprio patrimônio cultural. Do contrário, se apenas sacramentalizamos e não evangelizamos, a fé se transforma em um verniz superficial na vida do crente, que não converte, não penetra, não transforma a existência. Um processo paciente, comunitário acompanhado da fé é um caminho de autêntica renovação. É um caminho lento, não barulhento, mas fecundo e de longo prazo.

– Uma Igreja criativamente ministerial, uma Igreja criativa na promoção e no protagonismo dos ministérios nas comunidades: ministérios enraizados no compromisso batismal, para homens, mulheres, jovens, para diferentes circunstâncias e áreas pastorais. Uma comunidade rica e fecunda desses ministérios ordenados ou laicais: diaconato permanente, leitores, anunciadores, ministros das celebrações, contadores de histórias, comentadores da Palavra, exorcistas, ministros da esperança (funerais), catequistas, animadores juvenis, missionários, servos dos pobres, etc.

Somente quando esse dinamismo pastoral e eclesial é vivido é possível pensar em novos passos ministeriais, como o estudo de uma eventual ordenação sacerdotal de alguns de seus ministros.

Participação política organizada do laicato católico nas políticas regionais e nacionais, em particular no que diz respeito aos territórios indígenas e à proteção do meio ambiente.

– A proposta pastoral de pequenas comunidades cristãs, de grupos ou movimentos que, numa atmosfera fraterna em torno da Palavra de Deus, oferecem o calor e o afeto da fraternidade cristã, que liberta do anonimato das periferias urbanos e conserva, em muitos, as dinâmicas e as riquezas das comunidades rurais de origem. São comunidades de acompanhamento, de crescimento na fé à luz da Palavra e missionárias pela sua alegria de evangelizar.

– Uma pastoral para a família que saiba acompanhar, reunir, formar na fé, porque é do seio da família que nascem os processos mais eficazes de evangelização.

– Uma pastoral juvenil rica de propostas adaptadas a diferentes contextos (rural, urbano, adolescentes, jovens, estudantes, trabalhadores, universitários, indígenas, afro, mestiços, brancos …), mas fortemente centradas na vida do grupo (associacionismo juvenil), no voluntariado e em itinerários graduais de formação da fé. Será possível ter uma rica pastoral vocacional somente quando houver uma pastoral juvenil próspera e robusta.

– Uma aposta firme nas vocações locais: acreditando, confiando, acompanhando, formando e destinando aos jovens candidatos os melhores recursos eclesiais que se possuem. Eles são sem dúvida os mais adequados para encontrar os melhores caminhos, aqueles mais autênticos para dar à Igreja um rosto amazônico.

Anexos:

1) Um filme que preserva imagens de uma inspeção governamental aos salesianos na Amazônia em 1938. Ele começa em Manaus, mas vai adentrando pela floresta, numa região que ainda hoje é isolada, e mostrando as obras que os religiosos (padres, irmãos e irmãs) mantinham nessa área.

2) Homilia proferida por Dom Frei José Luiz Azcona Hermoso, OAR, bispo emérito da Prelazia do Marajó, PA, na Santa Missa de 15 de outubro de 2019, na Basílica de Nazaré, em Belém, PA.

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