
Os continuístas e sedevacantistas têm certa razão quando dizem que não se pode ficar escolhendo o magistério a aceitar.
A perspectiva tradicionalista que se apoia na falibilidade do magistério ordinário meramente autêntico é realmente inusitada, porque seriam 60 anos de muita fraude, e assim os outros 1962 anos da Igreja teriam tido muita sorte de papas ortodoxos.
O magistério papal em sentido estrito não é ortodoxo porque os papas são ortodoxos, o magistério papal é ortodoxo porque sua (reta) função é indispensável.
Entretanto, o (que parece ser) magistério tem ensinado ambiguamente (o que já é incompatível com a função) e tem inclusive errado. Isto é um fato inapelável. O continuísmo puro e simples é errado com total evidência.
E a tese do sedevacantismo é uma hipótese que envolve uma combinação de probabilidade teológica e decisão prática que só pode ser assumida pelo indivíduo, jamais pode se impor à inteligência católica universal.
A solução do Pe. Calderón afastando a magisterialidade das novidades conciliares por causa da intenção liberal é mais razoável que ambas soluções.
O problema é que essa intenção é uma possibilidade interpretativa do CVII! Não se impõe com evidência como a única nem como a mais provável, porque onde o magistério é tratado formalmente, a definição é correta…
A ideia do magistério liberal só se cumpre perfeitamente no magistério sinodal (pode-se ver Episcopalis Communio e ela assume que o magistério sinodal é aquilo que o teólogo da FSSPX chama de magistério liberal).
A meu juízo, só o esquadrinhamento das formalidades magisteriais, como nunca foi feito na teologia (“magistério” é um conceito formalizado no século XIX!, antes se falava da “autoridade” dos concílios e da Igreja Romana), e do sentido do “magistério pastoral” e do “magistério meramente autêntico”, atende a todas essas demandas.
Há uma suposição teológica de que a fala oficial do sujeito magisterial é magistério obrigatório em algum nível (que vai da Fé teologal ao assentimento religioso, passando pela fé eclesiástica).
Essa suposição se apoia no ultramontanismo e na multiplicação do magistério ordinário pontifício desde Leão XIII.
É necessário discernir a autoridade que está realmente sendo empenhada no documento, no discurso. Isto tem de ser possível de discernir.
As chaves foram perdidas no beco escuro, não adianta procurá-las no quarto iluminado.
A definição da infalibilidade paradoxalmente abriu espaço para a fraude…
(…)
O CVII é supervalorizado porque simplesmente não é encarado nos próprios termos.
A imensidão de ambiguidades e até alguns erros conceituais se devem a essa ausência de magisterialidade estrita. A intenção herética subjetiva jamais se imporia no magistério tradicional dirimente.
Enfim, a tarefa da teologia é simplesmente desmistificar esse concílio: se ele dialogou, não ensinou obrigatoriamente. Ali nas poucas passagens em que diz, “o CVII vai desenvolver a doutrina do episcopado, da santidade, dos leigos, de Nossa Senhora, da Revelação, dando prosseguimento ao CVI” é que há o magistério em sentido normal.
(…)
A intenção liberal está mesclada a uma intenção pastoral condizente com a Tradição. Este é o ponto e a ambiguidade. Então ora há dilogismo liberal, ora há magistério ordinário autoritário porém baseado no MOU, e não no ato único. Só na via bergogliana-sinodal o magistério liberal se perfaz na íntegra, porque nem quando ele é instado a tirar a dúvida, ele tira. Ele já demonstrou que não quer ensinar nada com autoridade magisterial, que não quer definir nada, tudo deixar ao discernimento da consciência, e só impor com a potestade canônica, independentemente da doutrina, cumprindo perfeitamente a interpretação calderoniana.
– Joathas Bello
7 replies on “É necessário discernir a autoridade”
Há encíclicas papais que condenam essa opinião e o desenvolvimento do tema é bastante longo.
O que é certa razão? Ou se tem razão ou não se tem. Enquanto não houver definições dos termos vamos ficar andando em círculos como este:
Ora, essa última citação do autor contradiz a primeira frase. Ele diz que não se deve escolher o magistério e alguns parágrafos seguintes diz que é necessário distinguir a autoridade do magistério?
Lindo texto de frases de efeito para ganhar likes e seguidores. O autor está de parabéns!
“Ou se tem razão ou não se tem”: a crítica pode estar certa em parte e não estar em outra parte. É exatamente essa vontade de tentar resolver temas complexos de maneira simplista que provoca extrapolações como a da constatação de que a Sé Apostólica está vazia para se dizer que os sacramentos da Igreja no rito paulino são inválidos.
“Ora, essa última citação do autor contradiz a primeira frase. Ele diz que não se deve escolher o magistério e alguns parágrafos seguintes diz que é necessário distinguir a autoridade do magistério?”
Não contradiz. Distinguir o Magistério não é escolhê-lo, mas levá-lo em conta nos devidos termos.
Santo Tomás que o diga. O que provoca extrapolações é resolver problemas complexos com soluções mais complexas ainda. Deus é Simples, logo a Verdade também o é e devemos tentar descrevê-la da forma mais simples possível justamente para tentar adequá-la ao nosso intelecto de forma mais perfeita.
A neurose é filha da complexidade. Os tempos modernos estão aí para demonstrar tal verdade.
Se o autor diz que tal crítica está certa em parte e não em outra deve explicar qual parte está errada e não deixar a mercê do leitor. Isso causa mais confusão do que solução na mente que quem lê ou mostra que o autor não tem certeza ou não entendeu bem as ideias das quais desenvolverá o raciocínio. Definição de termos é essencial para um debate onde ambas as partes buscam a verdade.
O que em última instância é escolher.
Levar em conta os devidos termos não é razoável no Magistério, pois geraria confusão nas ovelhas da Igreja, que é Mãe e Mestra da Verdade, não da mentira ou da confusão. Isso nunca foi prática na Igreja
Santo Afonso diz na Teologia Moral que em causas graves onde não se tem certeza deve-se não fazer.
Por essa sua colocação, deveríamos, então, adotar o argumento islâmico de que a doutrina da Trindade é uma complexidade que afasta o homem da simplicidade de Deus… a definição de termos que você pede é completamente sem sentido no texto postado, que se trata de um simples recorte feito por mim; se você quer aprofundar de fato no que ele pensa, deve buscar o livro “O Enigma do Vaticano II“.
Dito isso, não concordo que distinguir cause qualquer confusão; a confusão vem precisamente do contrário. Não adianta querer viver como se não existisse uma crise, ela existe; deste modo, demanda posturas que vão além de uma meta leitura robótica de um catecismo.
E de fato seria, Thiago, se o próprio Deus, pelo Verbo, não tivesse relevado que a divindade é comum a três Pessoas realmente distintas em Si.
Concordo que distinguir não causa crise. A crise reside numa ignorância dolosa ou não sobre as distinções (veja os argumentos usados no último vídeo do CDB).
O Magistério autêntico não é definitivo como o infalível, mas é COMPLETAMENTE FALSA a conclusão de que, por isso, ele pode ser resistido ou mesmo possa prejudicar sobrenaturalmente os fiéis. Isso é impossível porque de nada adiantaria a assistência do Espírito Santo à Igreja se ela pudesse ensinar algo prejudicial aos súditos. A crise está aí. Ou se é um legionário ou se é sedevacantista. Não há meio termo.