Satanás sabia que Jesus era o Homem-Deus?

jesus_demons-cropped1Pergunta recebida de um leitor:

Se o demônio tivesse perfeita noção de que Jesus era o Filho de Deus feito homem, procuraria um meio de evitar sua morte na cruz, para o gênero humano não ser redimido. Ora, ele tinha elementos concretos para concluir ser Jesus o Redentor prometido. Por que, então, instigou os pontífices e fariseus a condená-Lo e exigir a sua crucifixão?

Para responder a essa questão temos de ir devagar e usarei (com pequenas modificações) um artigo publicado na revista Arautos do Evangelho (março de 2006, pp. 20-21), por sua vez baseado num da revista L´Ami du Clergé (1923, pp 285-86).

No episódio da tentação no deserto, o Demônio parecia reconhecer em Jesus o Filho de Deus humanado, pois lhe disse (Mateus IV, 3):

“Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães.”

E pouco depois (Mateus IV, 6):

“Se és Filho de Deus, lança-Te abaixo, pois está escrito…”

E pouco depois (Mateus IV, 6):

“Se és Filho de Deus, lança-Te abaixo, pois está escrito…”

Em outras passagens da Sagrada Escritura, ele faz, pela boca dos possessos, afirmações categóricas:

“Por que te ocupas de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?” (Lucas VIII, 28)

“Tu és o Filho de Deus!” (Marcos III, 11)

“Sei quem és: o Santo de Deus!” (Marcos I, 24)

Qual é, porém, o significado exato do título de “Filho de Deus”, dado a Jesus pelo Demônio? Segundo explicam alguns exegetas, não é possível saber com certeza se Satanás, chamando Jesus de “Filho de Deus”, tinha perfeito conhecimento de sua natureza divina, ou se tinha apenas a intuição de uma natureza mais ou menos sobre-humana cuja relação com a Divindade permanecia ainda bastante obscura.

Pela exegese da Sagrada Escritura parece impossível resolver esse dilema. Vamos, então, buscar respostas na Teologia.

Sabemos que o Demônio não conhece naturalmente os segredos dos corações, nem os contingentes futuros, nem os mistérios da graça no que estes têm de sobrenatural e divino. O mistério da Encarnação não está, pois, ao seu alcance.

Os fatos externos, porém, estão. E ele pode, a partir dos fatos exteriores que conhece por meio das luzes naturais, deduzir com grande probabilidade a verdade dos mistérios da graça. Desse modo, o Demônio tem uma coisa qualquer de “fé”. A penetração de sua inteligência fá-lo descobrir os indícios manifestos da verdade. Contudo, como ensina o Aquinate, essa “fé”, porque é forçada pela evidência dos sinais, não é obra da graça, não é fé no sentido estrito do termo.

Por outro lado, sua índole orgulhosa se inclina sempre a recusar adesão aos mistérios da graça. Santo Tomás acrescenta que a “fé” dos demônios é contrária à sua disposição de espírito (Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 2, ad 3);

“Desagrada aos demônios o fato de os sinais da fé serem tão evidentes que os obriguem a crer.”

Donde é forçoso concluir que eles estão em revolta até mesmo contra essa evidência e são levados a se apegar a tudo que possa obscurecê-la.

Apliquemos, agora, esses princípios ao caso proposto.

Quando Nosso Senhor foi concebido pelo Espírito Santo no seio puríssimo da Virgem, o casamento desta com São José podia ainda esconder à percepção perspicaz de Satanás a realidade da Encarnação. Só mais tarde lhe foram fornecidos os indícios para descobrir este mistério. No momento da tentação no deserto, podia ele já suspeitar que Cristo era o Filho de Deus. Com efeito, a voz do Pai já se fizera ouvir no Batismo de Jesus, no Jordão (Mateus III, 17; Lucas III, 22; I Pedro I, 17):

“Este é meu Filho bem-amado.”

Todavia, essa não é uma prova peremptória da Encarnação. Para começar, essas palavras vinham mesmo de Deus? Depois, tinha ela o sentido da filiação divina natural, e não adotiva? Assim, a fórmula da qual se serve o Diabo durante a tentação do Salvador, revela uma hesitação (Mateus IV, 6):

“Se és Filho de Deus…”

O Demônio tinha, sem dúvida, razões para supor que Jesus era o Cristo, o Messias, o Filho de Deus. Contudo, ele podia ter algumas incertezas, e a disposição natural devia levá-lo a formulá-las para si mesmo. Afirma Santo Agostinho (De Civitate Dei, 1, XI, c. 21):

“Ele O tentou para averiguar se era o Cristo.”

Entretanto, à medida que o Divino Mestre avançava em sua vida pública, os sinais se multiplicavam, testemunhando o caráter transcendental do Filho de Deus. Esses sinais não poderiam escapar à inteligência do Demônio. Assim, nas diferentes ocasiões em que este é obrigado a publicar uma verdade imposta a seu espírito, ele o faz com mais convicção do que no momento da tentação no deserto. Diz a Jesus (Marcos I, 24):

“Sei quem és: o Santo de Deus!”

Mais ainda, chama-O, sem hesitação aparente, de “Filho de Deus”, “Filho do Deus Altíssimo” (Marcos V, 7; Lucas VIII, 28).

“Tertualiano e outros exegetas pensavam que o Demônio dava-Lhe este título por lisonja. Entretanto, é preferível crer que ele o fazia com toda sinceridade, se bem que a contragosto, pois Deus permitira que até mesmo o Inferno rendesse testemunho a Cristo.” (Filion, Evangile selon S. Marc, Paris, 1895, p. 34)

Contudo, não há plena persuasão nesse testemunho. Pois, segundo São Tomás, eco da Tradição Católica, se os demônios “tivessem conhecido perfeitamente e com certeza que Jesus era o Filho de Deus e quais seriam os frutos de sua Paixão, jamais buscariam a crucifixão do Senhor da Glória” (Suma Teológica, I, q. 64, a. 1, ad. 4). De fato, é grande a sagacidade dos demônios para compreender a força dos argumentos a favor da divindade do Salvador; mas é grande também a sua perspicácia para descobrir objeções, e, dada a sua disposição de não crer, isto é, de não se deixar convencer senão à força e em último extremo, concebe-se que eles tenham duvidado até o fim.

Escreve Santo Tomás (Suma Teológica III, q. 44, a. 1, ad 2):

“À vista dos milagres, o demônio conjecturou que Ele era o Filho de Deus. (…) E se ele O chamava de Filho de Deus, fazia-o movido mais por desconfiança que por certeza.”

Satanás tinha, pois, a intuição, diríamos quase convicção, de que Jesus era Filho natural de Deus. Entretanto, julgando a verdade apenas por sinais exteriores e com espírito preconcebido, ele conservava dúvidas sobre o mistério da Encarnação, apesar de não ter podido deixar de reconhecer em Nosso Senhor a transcendência sobre-humana que as locuções “o Santo de Deus” e “o Filho de Deus” exprimiam energicamente.

10 respostas em “Satanás sabia que Jesus era o Homem-Deus?

  1. Sem querer incorrer no pecado do orgulho de exaurir a questão,sem ter a ousadia de responder pela ICAR, já que este esboço é opinião pessoal,acredito que o diabo sempre soube que a natureza do Cristo era, e é de HOMEM DEUS, e também à respeito do sacrifício vicário Dele, para redenção final dos pecados.Isto nunca foi segredo nas Escrituras, especialmente, nos livros proféticos de Isaias que predestinaram claramente sobre o holocausto do Cordeiro de Deus imolado.O objetivo do diabo nunca foi “matar” no sentido físico Cristo, porque isto, ele já sabia que seria impossível, até porque Cristo expressa a vida eterna.O objetivo era tornar Cristo errante, tocá-lo com o vício do pecado, para provar a Deus que o seu plano de redenção era inútil, não havendo conserto e salvação a humanidade.Em todos os encontros com Cristo, ele sempre o “tentou”, como no deserto.O plano de lançar Cristo contra o poder politico, militar e religioso da época, foi encurralá-lo numa situação de perigo de morte, que no entender do diabo, em sua falta de discernimento espiritual, faria com que o Messias “reagisse à altura” aos ataques injustos sofridos, amaldiçoando os malditos.O fato de colocá-lo em situação injusta de humilhação extrema, tortura, tratamento degradante, e toda gama de sofrimentos que suportou como HOMEM, (não como DEUS), poderia despertar sua ira contra a humanidade.Tanto é, que até nos últimos instantes de vida, ele tentou o Cristo, tentando lança-lo contra a multidão que o humilhava, através de um dos ladrões da cruz …” se és verdadeiramente Deus, porque não nos tira daqui”, e Cristo sabiamente se calou.Em suma, após a “morte” de Cristo, o capiroto viu por água abaixo, todo seu esforço de provar que o pecado era vício insanável, uma vez que o plano salvífico fora consumado.

    Nando Gomes

  2. Nando, para mim essas são provas de que ele não sabia que Nosso Senhor era o Verbo encarnado, pois se soubesse não perderia tempo tentando fazê-lo pecar, isso sim impossível (lembre que Cristo de fato ficou fisicamente morto durante três dias incompletos).

  3. Sem dúvida, Satanás desconfiava disto, de que Jesus era o Verbo Encarnado, mas não tinha uma certeza absoluta disto. Observe que nas tentações do deserto ele diz: “Se és o Filho de deus lança-te daqui para baixo…”

  4. Ao meu ver o diabo,é o príncipe, de toda geração de dúvidas, e no entanto. Se ele sabia ou não. Não lhe conferiu,nada sobre quem ercarnou,um ser humano,em forma de Homem ,mas sem,pecado. Enfim ele é o diabo,o Pai da mentira, e aquele que quer sediar nossas mentes com o que ele,assim,o é. Pois por que tentar burlar,aquilo que é perfeito. Ele na verdade só queria uma mancha,sobre aquele que não, se pode manchar,que não se permite as mais variadas dúvidas. Sendo O Cristo,A Verdade. Enfim o nascimento sobre uma virgem,e nascido do Espírito Santo,testifica tudo,que precisaríamos saber,e entender,isso se deu ao fato.de que Ele,o Cristo de Deus,era Santo,foi,Santo,nasceu em Santidade.e permanece Santo,pelo séculos,dos Séculos. Muito bem se ele é santo,logo tudo que ele,viera fazer nessa Terra o poderia,corromper. Pois a corrupção, foi uma escolha,de quem a quis,ou seja o diabo,e os seus anjos. E os homens Assim o Homem que escolheu,ou seja que já nasceram no pecado,ja nasceram no erro. E claro tudo foi propósito de Deus! Deus não enviaria um ser pecador como,nós humanos, Ele só “usou” Jesus como demonstração de que o homem, não pode salvar,o homem, mas o Deus que vive dentro dele sim. Mesmo o homem,sendo homem…Mas se submetendo a Deus Pai criador de todas as coisas…
    O diabo é tão infeliz,que usou de suas artimanhas, e tem usado até, hoje para enganar á muitos, principalmente com esse sistema, ao qual o mundo vive. E Deus por sua vez,vem com o plano da salvação sobre cada um,deles a saber o Homem, que Deus o criou.

  5. Desculpe, Reinaldo, mas não entendi praticamente nada do que você escreveu. Sugiro que releia com atenção o texto desse tópico para organizar melhor suas idéias sobre este tema.

  6. Se o Reinaldo fez as provas do ENEM no ano de 2014, certamente encontra-se entre os 500.000 reprovados com nota zero na redação.

  7. Sugiro a leitura da Cuestión 20, do livro Summa Daemoniaca – Tratado de Demonologia e Manual de Exorcistas, do Padre José Antonio Fortea. O texto deixa claro que o Diabo sabia que Jesus era Deus, mas não pôde resistir (tal a sua presunção e ódio profundo ao Criador) à tentação, pois o demônio também é tentado, não por outro demônio, mas por ser livre. Em outras partes do livro, fica claro que a tentação não provém unicamente dos demônios, mas pode provir da própria criatura, como corolário da liberdade que Deus imprimiu à criatura angélica, assim como ao homem.

  8. No culto de ensino em minha igreja, o rapaz convidado para da o ensino entrou nesse tema,acabou com a aula, gerou uma baita bagunça na cabeça de alguns irmãos que não tem o costume de estudar a bíblia…. Eu como sou muito curioso na questão bíblica, cheguei em casa e fui estudar sobre o assunto, e ao meu entender, mesmo diante de tantas evidências o diabo ainda não tinha plena certeza de que Jesus era Deus encarnado. Se verdadeiramente soubesse não buscaria ocasião para tirar a vida de Jesus, sabendo que ele resgataria a humanidade. Bom esse e meu ponto de vista.

  9. Então seu ponto de vista combina com o de uma dos maiores pensadores da Igreja. Quiçá isso ocorra em outros temas também.

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