O dom da vida e o aborto

No começo do mês passado fui convidado para dar uma palestra no EJC (Encontro de Jovens com Cristo) da Paróquia de São Cristovão e São Sebastião do bairro da Imbiribeira aqui em Recife. A aula deveria ter como tema “O dom da vida” e, no meio dele, uma abordagem sobre o aborto. Tudo em 40 minutos e às 8 horas da manhã, ou seja, para quem é prolixo e noturno como eu seria um sacrifício… mas pela Igreja nós devemos nos sacrificar mesmo e topei o desafio. De início imaginei uma aula normal, no estilo “comício”, como é ainda comum em nossas escolas e universidades, mas logo deixei de lado essa idéia e procurei fazer algo o máximo possível no estilo socrático, isto é, desenvolver o tema por meio de perguntas, respostas e reflexões. Pelo que fiquei sabendo a maior parte dos participantes gostou de minha aula. Abaixo vou colocar um texto que usei para me guiar:

Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero. A largura da mão: eis a medida de meus dias. Diante de vós a minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra; é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá. (Salmo XXXVIII, 5-7)


Quinta-feira passada fui visitar minha avó no hospital. Ela estava internada devido a uma parada respiratória, tinha passado a semana em recuperação, mas na quinta parecia ótima, falante como eu não a via desde o final do ano anterior. Fiquei ao lado dela, só fazendo companhia mesmo ou conversando sobre os vários assuntos que vinham à sua mente, em geral coisas do passado; ela chegou a fantasiar que eu era o meu bisavô e que ainda dava aula na escola paroquial de sua cidade natal, onde tinha começado a trabalhar com 16 anos e onde fazia brincadeiras com o latim do padre.

Pois bom, praticamente 24 horas depois, no começo da noite de sexta-feira, minha mãe me ligou dizendo que ela tinha morrido. Em geral eu sou muito falador, mas nesse momento fiquei sem palavras. Foi uma triste surpresa.

Depois de passado o choque e a confusão que muitas vezes é um funeral, comecei a pensar sobre as lições que esse episódio podia me dar. Por que ela lembrou tanto um dia antes de morrer de coisas aparentemente tão banais? O que importa na vida?

O fato, gostemos ou não, é que o dom da vida só pode ser vislumbrado, e ainda assim entre muitos véus, na perspectiva da morte. Infelizmente, em geral, só damos valor àquilo que não temos mais. Qual a importância de um sorriso? Qual a importância de fazer brincadeiras com os amigos? Amar alguém, com tudo que isso implica em termos de responsabilidade, é um bom gasto de tempo? A resposta a essas perguntas está na morte.

Nela percebemos que não são só grandes momentos que importam, não são apenas as coisas valorizadas socialmente que fazem a diferença, mas todas as coisas fazem, todos os momentos importam. Nossa vida é exatamente esse conjunto de momentos que se sucedem no tempo. Falte um só e já não é mais a minha vida ou a de vocês, é a de outra pessoa.

Já pararam para pensar nisso? Creio que a maioria não. Mas vai haver um dia, que só conhece o Senhor que nos deu gratuitamente o dom da vida, em que pensaremos. E, por isso, vovó lembrava dos cuidados de seu pai para com ela, por isso lembrava dos alunos da escolinha no interior da Paraíba, por isso lembrava de fazer sorrir um dos sisudos padres de antigamente.

Desse modo, já podemos entender o motivo da Igreja se opor com veemência à chamada “cultura da morte” que permeia o mundo atual. Já podemos entender por que o aborto é uma injustiça com o fraco e uma abominação aos olhos de Deus.

Quem pode dizer que os momentos  formadores de uma vida são mais importantes que os de outra? Vejam que no começo eu qualifiquei as lembranças de minha avó de banais. Mas eram mesmo? Quem sou eu para julgar!?! Do mesmo modo, como pode um juiz das mais altas instâncias dizer que a vida de um adulto vale mais que a de uma criança que estará entre nós por pouco tempo? Saberá ele medir o valor de um abraço que essa criança pode receber? O que vale mais, tal abraço ou os discursos intermináveis do juiz que tenta desqualificar por meio de fantasias a realidade do dom da vida que está na sua frente?

Pior. Muito pior. A loucura de nossa época faz com que se tente medir infortúnios. Vamos matar quem está no calor do ventre materno para que um projeto profissional não seja prejudicado. Vamos matar quem está no ventre materno para que a dor de uma mulher que foi vítima de uma violência não se perpetue. Ora, se é impossível dizer que um momento de felicidade é superior a outro, também é impossível falar o mesmo de um de infelicidade.

Mas a falta de reflexão não para aí. Pois se o dom da vida é gratuito, como nós podemos concordar com quem quer por um valor nele, em especial pelo fato de que estes não podem dá-lo? Qual o militante abortista que pode trazer algo à vida?

E vejam, o pecado aqui não é apenas atacar os fracos, mas não defendê-los. É algo semelhante ao pecado de Pilatos: o governador romano não atacou Nosso Senhor Jesus Cristo, ele não O defendeu, não O resguardou do ódio das multidões. Será que nós não nos tornamos outros Pilatos ao não lutar contra a cultura da morte?

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