O "Dominus Vobiscum" e a Coleta

Tradução e adaptação de um texto republicado no informativo norte-americano da Fraternidade de São Pedro (agosto de 2014) de autoria do Pe. Paul Carr (The Collect: Dóminus Vobíscum):

dominus 2Assim que o canto do Gloria in excelsis Deo termina, o celebrante, em pé ao centro, beija a pedra do altar em reverência a Cristo, a quem o altar representa, e vira-se para a nave e saúda a congregação com as palavras Dominus vobiscum (O Senhor esteja convosco). O povo responde Et cum spiritu tuo (E com o teu espírito ou E contigo também). Isso será repetido algumas vezes ao longo da Missa. Por que o celebrante se dirige à assistência dessa maneira?

Claramente, a intenção da saudação e sua resposta é desejar a presença de Deus sobre o outro: O Senhor esteja convosco é igualmente um desejo e uma invocação para Deus estar presente nas suas vidas e ações, e particularmente nas suas almas, como a resposta torna claro. Assim, o celebrante e a congregação estão mutuamente desejando a que a graça de Deus esteja presente nas almas uns dos outros.

Nós encontramos precedentes dessas expressões devotas na Sagrada Escritura: as palavras do celebrante são encontradas tanto no Antigo (onde vemos Booz agradecendo aos segadores por meio de uma benção com as mesmas palavras da Missa – Rute II, 4) quanto no Novo Testamento (onde o Arcanjo Gabriel saúda a Santíssima Virgem na Anunciação com palavras equivalentes em Lucas I, 28, embora nesse caso se trate da declaração de um fato não de um desejo).

Mas por que o celebrante e o povo desejam a benção um sobre o outro neste ponto da Missa? A resposta é dada pelo que o sacerdote faz a seguir: ele se volta para o altar e canta Oremus. A saudação e sua resposta  são um desejo de auxílio divino e fortalecem as almas para que elevem seus corações e mentes ao Senhor.

Normalmente, o sacerdote dará continuidade recitando a Coleta, mas esse não é sempre o caso. Na liturgia dos primeiros séculos, como ainda é na Sexta-Feira Santa e em alguns dias penitenciais, o diácono pode neste ponto cantar Flectamus genua (Ajoelhemo-nos), e haverá um pequeno momento de de oração silenciosa antes do subdiácono cantar Levate (Levantemo-nos). Ou seja, o Oremus não era, e não é, simplesmente um convite para se ouvir à Coleta que será lida, mas um convite à oração pessoal, a recolhermo-nos na presença de Deus e colocar nossos desejos e necessidades perante Ele. O texto da oração que segue resumirá e articulará num viés generalista todas as intenções formuladas nas almas da congregação e trazidas até o altar.

Reforçando: mesmo nos dias atuais, onde normalmente não há mais essa pausa entre o Oremus e a Coleta, é evidente que a oração é dirigida a Deus em nome de todos os presentes e, portanto, todos devem fazer essa prece sua, devem deixá-la representar suas próprias petições espirituais. O celebrante não está falando em seu próprio nome ou por sua capacidade particular, mas pronuncia a oração in persona Christi, e então essa é uma oração de Cristo, Cabeça do Corpo Místico, orando não só por seu membros mas unindo-os a Si na sua oração, e assim ela é verdadeiramente uma oração de cada um de nós, mesmo que não pronunciemos as palavras.

Isso fica mais claro na Missa Pontifical: o bispo, nesse ponto, saúda os presentes com as palavras Pax vobis (A paz esteja convosco), as mesmas palavras com que Cristo saudou seus Apóstolos no Cenáculo quando apareceu a eles após a Ressurreição. Ou seja, o bispo, in persona Christi, saúda os que se reuniram para receber do mesmo Corpo e Sangue de Cristo como foi dado aos Apóstolos no Cenáculo, onde Cristo mesmo se fez presente entre eles, para rezar com eles e por eles.

Isso nos leva a um melhor entendimento do que significa o Senhor nessa saudação. No Antigo Testamento, e mesmo na Anunciação, o Senhor era Deus, sem a completa revelação da unidade na trindade das Pessoas Divinas. Mas quando os Apóstolos falam o Senhor, eles se referem a Cristo – de fato, eles falam a São Tomé, que estava ausente quando o Salvador apareceu entre eles, Vimos o Senhor. Assim sendo, começamos a perceber mais ainda a importância dessa saudação: o celebrante e o povo estão desejando sobre cada um a presença de Cristo em suas almas para que possam ter parte na oração que Cristo agora adereça ao Pai através de seu sacerdote, mas em união com seus membros.

Desse modo, quando nos vemos saudados dessa maneira, e quando respondemos ao celebrante, sabemos que chegamos ao ponto da Santa Missa no qual temos um modo particular de participar em união com nosso Divino Salvador. A nos é desejada, e desejamos em retorno, a presença espiritual e assistência de Cristo para dispor de nossas almas nesse sacro privilégio que é participar da Divina Liturgia da Igreja. Assim como Cristo disse a seus Apóstolos no Getsemani  Vigilate et orate (Vigiai e orai), o Dominus vobiscum serve como um alerta: não importa quão frágil seja nossa atenção, quão nos distraímos durante a Missa, essa saudação serve para nos inteirar dessa nova parte do Santo Sacrifício, na qual todos os reunidos aos pés do Santo Altar de Deus devem fazer um esforço particular para se unirem ao Salvador.

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