A fé de Ariano

Auto-da-compadecidaO professor de direito e confrade vicentino José Luiz Delgado vem, desde a morte de Ariano Suassuna, escrevendo uma série de textos sobre a sua convivência com o mestre do Armorial. O último desses escritos (Jornal do Commercio, Recife 26 de agosto de 2014) apresentou algumas informações sobre a fé católica de Ariano, de sua admiração por Alceu Amoroso Lima e sua relação com Gustavo Corção, e, por isso, transcrevo-o abaixo:

Mais lembranças

Impressionou-me a quantidade de gente, de “populares”, que saiu às ruas simplesmente para ver passar o cortejo fúnebre de Ariano. O “Brasil real”, que tanto ele amava e tanto defendeu, sabia reconhecê-lo, mesmo que não tivesse muito clara ideia do seu valor. Junto-me a esses para também chorá-lo.

No Conselho Municipal de Cultura, a que surpreendentemente me levou – até porque ele convocara ou discípulos e companheiros muito próximos das ideias dele (Raimundo Carrero, romance; Antônio Madureira, música; Gilvan Samico, xilogravura. Marcus Accioly, poesia) ou grandes personalidades, a quem profundamente admiriava (Dr. Murilo Guimarães e José Césio Regueira Costa) – penso que tivemos atuações complementares. Ariano se interessou  muito pelos vivos, promovendo, com editoras sulistas, a publicação de coedições para lançar nacionalmente poderosos talentos locais. E eu cuidei dos mortos… Inventei uma “Coleção Recife” justamente para publicar textos inéditos de autores pernambucanos já falecidos.

Continuamos a ter contatos pela vida afora – por causa de meus retraimentos em menor número do que eu gostaria, eu sempre o aplaudindo e ele de alguma forma me acompanhando. Recebi dele, a propósito de alguns artigos, telefonemas altamente envaidecedores, de parabéns (lembro um sobre o Sudário, outro sobre Alexandre Dumas). Mas recebi também telefonemas críticos, discordando ele de certas posições minhas (sobre a liberdade e a justiça, por exemplo). Quando fui presidente do Círculo Católico, e coincidindo com datas redondas (15 anos da morte de Corção, 10 da de Alceu), ocorreu-me chamar Ariano para ser o orador da homenagem aos dois grandes, sabendo eu tanto sua admiração por Alceu quanto de sua profunda amizade com Gustavo Corção, nutrida sobretudo na última década de vida deste, quando ambos integravam o Conselho Federal de Cultura.

E este é aspecto que não se pode omitir nunca. Ariano sempre foi homem de fé, absoluta e firme. Nunca renegou e nunca escondeu sua condição de católico. Não tinha medo de ser chamado de “arcaico” nem de defender grandes valores. E é formidável que essa fé nítida em nada tenha diminuído a admiração que todo o Brasil espontaneamente lhe dedicava – e ouso eu desejar que, inversamente, essa admiração leve o mesmo Brasil a também partilhar a fé de Ariano.

2 respostas em “A fé de Ariano

  1. É uma grande alegria quando um literato ou alguém do meio acadêmico se declara católico. Pude presenciar durante minha graduação o modo como um católico, ou mesmo um cristão é tachado de ignorante e visto com maus olhos.

  2. Verdade, Janete.

    No caso de Ariano não tinha nem como disfarçar, pois toda a obra dele é permeada por uma cosmovisão derivada do catolicismo popular do sertão (é interessante que se isso incomoda a alguns laicistas, também incomoda a certos religiosos puristas).

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