A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 1)

O New Liturgical Movement começou uma tradução de um artigo em francês sobre as origens e extensão do tempo da Septuagésima que vou verter, na medida das postagens do citado blog, para o português (sempre cotejando com o original). Aqui vai a primeira parte:

SeptuagésimaEm todas as liturgias cristãs, encontramos um período de preparação para o grande tempo de penitência que é a Quaresma, durante o qual os fieis são informados da chegada desse momento do ano litúrgico e da necessidade de iniciarem vagarosamente os exercícios ascéticos que devem fazer até a Páscoa. Regra geral, esse período preparatório dura três semanas. No rito romano, esses três domingos são chamados Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, nomes que derivam de um sistema usado na antiguidade que contava espaços de dez dias nos quais esses domingos caiam [nota do tradutor: se dividirmos as nove semanas que precedem a Páscoa em séries de dez dias, poderemos constatar que o primeiro dos nove domingos cai na sétima dezena, o segundo na sexta e o terceiro na quinta]. Eles precedem o Primeiro Domingo da Quaresma, que é chamado de Quadragésima em latim.

As igrejas de tradição siríaca e copta preservaram um estado de coisas mais antigo, composto de pequenos períodos de jejum, o Jejum dos Ninivitas e o Jejum de Heráclito, que provavelmente deram origem ao tempo de preparação para a Quaresma.

A lembrança da fragilidade humana, a meditação dos novíssimos, e, consequentemente, a oração pelos mortos, são elementos recorrentes nesse período litúrgico.

Inexplicavelmente [nota do tradutor: será mesmo?], o rito de Paulo VI suprimiu a Septuagésima do seu ano litúrgico, mesmo com toda a sua antiguidade e universalidade.

A origem da Septuagésima: o jejum dos ninivitas

jonas-na-baleia

A palavra do Senhor foi dirigida pela segunda vez a Jonas (Jonas III) nestes termos:

Vai a Nínive, a grande cidade, e faze-lhe conhecer a mensagem que te ordenei.” Jonas pôs-se a caminho e foi a Nínive, segundo a ordem do Senhor. Nínive era, diante de Deus, uma grane cidade: eram precisos três dias para percorrê-la. Jonas foi pela cidade durante todo um dia, pregando: “Daqui a quarena dias, Nínive será destruída”. Os ninivitas creram nessa mensagem de Deus, e proclamaram um jejum, vestindo-se de sacos desde o maior até o menor. A notícia chegou ao conhecimento do rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. Em seguida, foi publicado pela cidade, por ordem do rei e dos príncipes, este decreto: “Fica proibido aos homens e aos animais, tanto do gado maior como do menor, comer o que quer que seja, assim como pastar ou beber. Homens e animais se cobrirão de sacos. Todos clamem a Deus, em alta voz; deixe cada um o seu mau caminho e converta-se da violência que há em suas mãos. Quem sabe, Deus se arrpenderá, acalmará o ardor da sua cólera e deixará de nos perder!”. Diante de uma tal atitude, vendo como renunciavam aos seus maus caminhos, Deus arrependeu-se do mal que resolverá fazer-lhes, e não o executou.

Jonas rejeitado pela baleia diante de NínivePara comemorar o jejum dos ninivitas, as igrejas da Síria instituíram um jejum que começa na segunda-feira da terceira semana anterior à Quaresma (a segunda posterior ao Domingo da Septuagésima no rito romano). Esses dias são denominados Baʻūṯá d-Ninwáyé em siríaco, que pode ser traduzido como Rogações (ou Suplicações) dos Ninivitas. Parece que esse jejum inicialmente durava a semana toda, da segunda a sexta-feira, pois jejuar no sábado e no domingo é algo desconhecido no Oriente (todavia, a abstinência sem o jejum podia continuar nesses dias). O jejum de Nínive foi eventualmente reduzido para três dias: segunda, terça e quarta-feira, enquanto a quinta-feira se tornou o dia de Ação de Graças dos Ninivitas no rito caldeu. Tradicionalmente, o número desses três dias de jejum é explicado pelos três dias passados por Jonas na baleia. Este jejum de Nínive, que é muito rigoroso, ainda é mantido pelas várias igrejas siríacas, tanto as do rito siríaco oriental (Caldeia, Assíria e Sírio-Malabar) quanto do ocidental (Siríaca). O livro de Jonas é lido, entre os caldeus, na Divina Liturgia do terceiro dia. Esse jejum permanece muito popular; alguns fieis não comem ou bebem nada durante os três dias. Como caso único entre as igrejas de tradição siríaca, a Maronita não tem mais o jejum dos ninivitas propriamente dito, mas adotou outro arranjo para as três semanas anteriores à Grande Quaresma que discutiremos depois.

Os nove santos sírios que evangelizaram o interior da EtiópiaA Igreja Copta do Egito, e também a Etíope, recebeu das igrejas siríacas esse costume das Rogações dos Ninivitas. Na liturgia copta, esses três dias de súplicas em memória do jejum de Nínive, também chamados de Festa de Jonas, seguem estritamente os usos litúrgicos da Quaresma: a Liturgia Eucarística é celebrada após as Vésperas, os hinos são cantados no tom quaresmal, sem címbalos, e as leituras são retiradas do lecionário da Quaresma. O jejum de Nínive foi adotado pela Igreja Copta sob o 62º Patriarca de Alexandria, Abraão (ou Efrém, 975-78), que era de origem síria. É possível que tenha um uso mais antigo na Etiópia; o primeiro bispo de Axum, São Frumêncio, era de origem síria, e a Igreja da Etiópia foi reorganizada no século VI por um grupo de nove santos sírios, que contribuíram enormemente para a evangelização do campo etíope. O jejum de Nínive (Soma Nanawe) é muito rigoroso para eles, e ninguém é dispensado dele.

São Gregório o Iluminador e o batismo da ArmêniaE entre os sírios, quando se instituiu o jejum dos ninivitas? Alguns dados indicam que sua prática é muito antiga. Santo Efrém, diácono de Edessa, compôs hinos para esse jejum; parece que nesse período ele durava uma semana, e não três dias como hoje. A Igreja Armênia tem um jejum de Nínive que dura cinco dias, começando na mesma segunda-feira que os sírios, e terminando na sexta-feira seguinte, em que o apelo de Jonas aos ninivitas é mencionado. Como em todo Oriente, os armênios não jejuam no sábado e no domingo, mas fazem uma abstinência rápida e estrita nesses dias, e seus escritores afirmam que essa prática foi estabelecida por São Gregório o Iluminador no tempo da conversão da Armênia em 301. É provável que São Gregório simplesmente continuou um costume já em uso entre os vizinhos siríacos. A instituição desse jejum, que parece ser antiga entre os caldeus, pode então ter passado (ou ter sido restabelecida) no século VI entre seus primos sírio-jacobitas a pedido de São Maruthua, bispo de Tagrit, durante uma peste na região de Nínive. É possível que sua redução para um jejum de três dias em vez de uma semana também date desse período.

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