A antiguidade e universalidade do tempo da Septuagésima (parte 2)

A primeira parte desta série pode ser lida aqui.

A semana da Quinquagésima, o jejum de Heráclito, a semana da Tyrophagia

Tanto no Ocidente quanto no Oriente, a semana imediatamente anterior à Quaresma assumiu um caráter penitencial bem cedo, começando com o corte da carne. A Igreja primitiva seguia uma dieta vegetariana durante toda a Quaresma, mas na semana citada (Quinquagésima no rito romano e Tyrophagia no bizantino), embora a carne já tivesse sido tirada, outros produtos de origem animal, como o leite e os ovos, ainda podiam ser consumidos.

le-christ-au-desert-servi-par-les-anges-philippe-de-champaignePara aprofundar nas origens desse costume, temos de considerar que a Quaresma dura sete semanas no Oriente e seis no Ocidente. No Oriente, onde não há jejum nos sábados (exceto no Sábado Santo) ou domingo, isso resulta em 36 dias de jejum. No Ocidente, onde o jejum é mantido nos sábados, mas nunca nos domingos, isso dava o mesmo número de dias no tempo anterior a São Gregório Magno. Para compensar os dias que faltam e fazer o número simbólico de 40, o número de dias do jejum de Cristo no deserto, os cristãos optaram por antecipar por uma semana o início oficial da Quaresma. Isso também foi feito em consideração à possível ocorrência de festas que deslocam o jejum, principalmente a Anunciação.

la-communion-de-saint-gregoire-le-grandA remoção da carne da dieta uma semana antes da Quaresma é uma prática atestada no início da Igreja Ocidental. O Domingo da Quinquagésima é chamado nos livros antigos de Dominica ad carnes tollendas ou levandas (daí o termo Carnaval), indicando que se começou a retirar a carne logo após o domingo, passando a rigorosa dieta vegetariana a valer apenas na semana seguinte. A primeira semana da Quaresma é então chamada “in capite jejunii – no começo do jejum”. Antes de São Gregório, a Quaresma romana começava na segunda-feira após o Primeiro Domingo da Quaresma, costume ainda mantido nos ritos ambrosiano e moçárabe. O citado Papa estabeleceu, contudo, que a partir dele o jejum deveria se iniciar na quarta-feira da Quinquagésima, e assim perfazer 40 dias (ainda hoje, o rito romano tradicional retém o Ofício da semana da Quinquagésima mesmo após a Quarta-Feira de Cinzas, e as rubricas da Quaresma só começam a valer após as primeiras Vésperas do Primeiro Domingo).

A instituição da semana da Quinquagésima é atribuída pelo Liber Pontificalis ao oitavo Papa, São Telésforo (125-136). Isso pode ser puramente legendário, mas como a citação de Telésforo foi escrita no tempo do Papa São Hormisdas (514-523), podemos inferir que esse costume já era imemorial nessa época e, assim, atribuído a um pontífice tão antigo. O Sacramentário Leonino contém uma Missa para a Quinquagésima cujo texto parece ter sido escrito no reinado do Papa Vigílio (537-555).

saint-leon-le-grandNo Oriente, podemos encontrar dados igualmente tão antigos sobre a instituição da semana da Tyrophagia (nota do tradutor: “semana do queijo”, literalmente). O peregrino Egeria (Itinerarium 27, 1) relata que uma oitava semana de penitência foi mantida em Jerusalém no século IV. Entre os séculos V e VI, os lecionários georgianos, baseados na liturgia de Jerusalém deste período, testemunham a existência de leituras especiais para as duas semanas antes da Quaresma.

São Doroteu de Gaza, no século VI, confirma que a existência de uma semana penitencial antes da Quaresma já era considerada antiga na sua época (Obras Espirituais XV, 159:

Esses são os Padres que, depois, concordaram em acrescentar uma semana, tanto para nos treinar com antecedência quanto para incentivar aqueles que se entregarão ao jejum, honrando-o no mesmo número de dias que Nosso Senhor.

lempereur-heraclius-defait-lempereur-perse-chosroesO costume de uma semana de prática ascética antes da Quaresma, já atestada antes do século VI (São Severo de Antioquia conta-a em sua descrição da Quaresma), foi sancionada por decisão oficial no século VII, sob o reinado do imperador Heráclito (610- 641). A origem de seu jejum é incerta. A maioria dos autores a conecta com os acontecimentos da guerra entre o Império Bizantino e o Império Sassânida de 602 a 628, durante os quais a população judaica da Palestina se rebelou contra os cristãos e o poder de Constantinopla, aliando-se com as tropas persas. Isto levou à queda de Jerusalém, à perda das relíquias da Verdadeira Cruz e ao massacre de 90.000 cristãos. Quando Jerusalém foi reconquistada pelos exércitos bizantinos e Heráclio entrou na cidade em triunfo em 629, todas as igrejas cristãs, incluindo o Santo Sepulcro, estavam em ruínas. O imperador ordenou um massacre das forças judaicas rebeldes, apesar de uma promessa anterior de anistia. Em penitência por este ato de perjúrio, o Patriarca de Jerusalém instituiu uma semana de jejum antes do início da Grande Quaresma. Essa ordem devia ter durado 70 anos, mas perdura até hoje entre os coptas e etíopes com o nome de Jejum de Heráclito. Ao lado dessa explicação, existe outra, mais negligenciada, segundo a qual Heráclito prescreveu às suas tropas uma semana de abstinência de carne, e a redução do uso de laticínios, durante o sexto ano de sua guerra contra os persas, para implorar a Deus a vitória. É possível que as duas hipóteses sejam verdadeiras, e, mais do que provável, que elas ratifiquem um costume já difundido. No século seguinte, São João Damasceno atestou que a Quaresma era precedida por uma semana preparatória (Sobre o Santo Jejum, 5).

A instituição de uma semana de jejum atenuado antes da Grande Quaresma, que, como vimos, é muito antiga tanto no Oriente quanto no Ocidente, teve duas virtudes, uma simbólica e outra prática: por um lado, esta semana foi percebida como uma maneira de cumprir a soma de quarenta dias; de outra parte, a transição para a dieta estritamente vegetariana era facilitada por uma progressão gradual.

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