O que a canonização de Paulo VI representa para a liturgia e para a pseudo-reforma litúrgica?

Essa é uma tradução de texto publicado no New Liturgical Movement e que se refere apenas ao significado da canonização do Papa Paulo VI para a liturgia e não se ela é apropriada ou oportuna (quem quiser comentar deve atentar para isso ou não terá seus comentários aceitos).

A resposta rápida é: absolutamente nada.

A canonização de um santo não muda os fatos de sua vida terrena. Ela não retifica os erros cometidos, sejam eles conscientes ou inconscientes. Ela não transforma fracassos em sucessos, venham eles pelas ações do canonizado ou pelas de outros a ele vinculados. Quando São José de Calasanz morreu em 1648, a ordem religiosa que ele fundou, os piaristas, estava para todos os propósitos destruída. Dez anos depois de Calasanz ser canonizado, outro santo fundador, Santo Afonso de Ligório, foi levado por um amigo e colaborador a assinar um documento que comprometeu os redentoristas, e foi abertamente criticado pelos seus confrades por ter destruído essa obra (curiosamente, um livro sobre a vida de São José de Calasanz era uma de suas leituras favoritas no seu último decênio). Esses fatos históricos não foram modificados pela canonização posterior deles e a restauração de suas ordens.

Da mesma forma, houve e ainda há muitos historiadores católicos que acreditam que a excomunhão de São Pio V a rainha Elisabete I da Inglaterra, e seu decreto liberando seus súditos da obediência a ela, foi um erro significativo de julgamento; eles não são católicos ruins ou desleais por terem essa opinião. Há outros que defendem exatamente a opinião oposta, e eles não são bons e leais católicos apenas pelo fato de manterem tal opinião.

Eu menciono São Pio V particularmente porque ele também, é claro, deu à Igreja uma reforma significativa da liturgia. Com certeza, será argumentado a partir da canonização de Paulo VI que sua reforma litúrgica deve ter a mesma veneração mostrada à de São Pio V no período pós-tridentino. Esta será uma comparação falsa em todos os níveis, e deve ser rejeitada como tal. A reforma de Pio V é significativa precisamente porque foi deliberadamente concebida como uma reforma muito conservadora no sentido próprio do termo, uma reforma que buscou conservar a autêntica tradição do culto católico e mudar apenas o que era absolutamente necessário para o bem da Igreja. A reforma de Paulo VI é significativa pela razão oposta, isto é, porque introduziu mais mudanças na liturgia e mais rapidamente do que jamais havia acontecido antes na história da Igreja.

A reforma dos livros litúrgicos iniciada por São Pio V e continuada por seus sucessores foi uma das grandes conquistas da Contra-Reforma, e da qual a Igreja inquestionavelmente tirou muitos benefícios espirituais. Isso não muda o fato de que, involuntariamente, também colocou em movimento um processo pelo qual os outros usos do rito romano foram gradativamente romanizados, e muitas coisas valiosas (como quase todo o corpo de Sequências) foram efetivamente perdidas. Muitos estudiosos da liturgia lamentaram tais perdas, e concorde-se ou não com eles, eles não foram ou são maus católicos por fazê-lo. O mesmo se aplica à reforma do Ofício Divino feita por São Pio X; do mesmo modo, muitos católicos consideram o papa Pio XII no mais alto grau de respeito por uma variedade de razões, ao mesmo tempo em que não gostam da reforma da Semana Santa que ele promulgou.

Tudo isso equivale a dizer que os méritos ou deméritos intrínsecos da reforma pós-conciliar e seu status de sucesso ou fracasso não foram alterados de maneira alguma pela canonização de Paulo VI. Ninguém pode honestamente dizer o contrário, e ninguém tem o direito de atacar, silenciar ou pedir o silenciamento de outros católicos se eles contestarem essa reforma. Se essa reforma foi além do espírito e da letra do que o Vaticano II pediu na Sacrosanctum Concilium, como seus próprios criadores abertamente se gabaram de fazer; se foi baseada em estudos ruins e num grau significativo de incompetência, levando às muitas mudanças agora reconhecidas como erros; se fracassou totalmente em promover o florescimento da piedade litúrgica que os Padres do Vaticano II desejavam; nenhuma dessas coisas mudou. Assim como as canonizações de Pio V e Pio X e a futura canonização de Pio XII não colocaram suas reformas litúrgicas fora de questão ou debate, a canonização de Paulo VI não coloca nada de sua reforma fora de debate e ninguém tem o direito de dizer o contrário.

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