A Missa no rito romano tradicional tem muita pompa?

Tradução de um texto do New Liturgical Movement (traduzido por Cláudio e revisado por Thiago):

Frequentemente ouço dizer que a Missa Tradicional tem muita pompa, muitas regras e que Cristo não queria isso. É como se a Igreja tivesse se separado drasticamente da vontade do Divino Mestre nos últimos 500 anos. Todos esses são pontos para muita conversa, mas não são verdadeiros.

Cristo era um judeu, ou melhor, um judeu perfeito. Se eu me lembro, os judeus também tinham uma liturgia formal como parte do seu culto. Cristo e o Pai são apenas um, aquele mesmo Pai que nas Escrituras ordenou a Moisés que os sacerdotes deveriam usar ornamentos, o mesmo Pai que deu instruções específicas do que deveria ser feito para cultuá-lo e do que deveria ser construído para abrigar tais atos.

O rito romano tradicional fornece rubricas muito específicas para a Missa, assim como Deus fez para o sumo sacerdote no Antigo Testamento. Em relação às vestimentas, Ele ordenou que o sumo sacerdote usasse vestes bordadas, cravejadas de joias e com várias camadas, não diferentes das nossas vestimentas do rito tridentino. Vejamos algumas regras, tiradas do capítulo XXVIII do livro do Êxodo, onde Deus especifica o que o sacerdote deveria usar nas cerimônias do Templo:

O efod será feito de ouro, de púrpura violeta e escarlate, de carmesim e de linho fino retorcido, artisticamente tecidos. (v.6)

Farás um peitoral de julgamento artisticamente trabalhado, do mesmo tecido que o efod: ouro, púrpura violeta e escarlate, carmesim e linho fino retorcido. (v.15)

Farás também para o peitoral correntinhas de ouro puro, entrelaçadas em forma de cordões. Farás ainda para o peitoral dois anéis de ouro, que fixarás em suas extremidades. (v 22 – 23)

Farás o manto do efod inteiramente de púrpura violeta. (v.31)

Farás uma lâmina de ouro puro na qual gravarás, como num sinete, “Santidade ao Senhor”.  (v.36)

Uma representação da vestimenta do sumo sacerdote, com descrições e referências bíblicas (em inglês). Compare-a com a imagem de um bispo totalmente vestido abaixo; não há estranhamento algum.

Isso aparenta ter muita pompa? Se achar que sim, você deve reconsiderar sua posição: aqui temos as ordens diretas do Senhor dizendo o que o sacerdote vestiria no Templo.

Observando a Última Ceia, devemos relembrar que ela estava longe de ser uma simples refeição comunitária em que Cristo apenas participava; ao contrário, Ele a começou no contexto de uma cerimônia religiosa seriamente rubricizada: a Ceia Pascal. Ainda assim, não podemos esquecer que até a Última Ceia não é nosso modelo ideal de liturgia. Se fosse, deveríamos restringir nossas Missas apenas aos homens e ordenar a todos bispos antes dela acabar. E mais ainda, deveríamos matar o celebrante no dia seguinte.

Por último, vamos ler mais um precedente divino para a liturgia, agora no Apocalipse. De fato, nesse livro vemos a descrição de algo que poderíamos dizer que tem “muita pompa”:

Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça. (IV, 4)

Quando recebeu o livro, os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma cítara e taças de ouro cheias de perfume (que são as orações dos santos). (V,8)

E os quatro Animais di­ziam: “Amém!”. Os Anciãos prostravam-se e adoravam. (V,14)

Sob qualquer  ótica, essa não é a atmosfera de “refeição comunitária” que alguns defendem.

Isso para não mencionar que Cristo nos deu a Igreja para levar sua missão adiante, não para ficar estagnada pelo que Ele fez na Terra e não produzir mais nada. Não somos chamados a ser restauracionistas como muitos grupos protestantes, os quais não têm a plenitude da verdade; somos chamados a seguir a Igreja, aquela a que Cristo entregou sua autoridade, que instituiu legalmente o Missal de 1962 como obrigatório aos católicos daquela época, e ainda é uma legítima opção nos dias de hoje.

Cristo foi também o onipotente rei do universo e sumo sacerdote, digno de todo louvor e glória que nós possamos Lhe dar. Você notará isso no capítulo XII de João: Cristo não tem objeção à exposição generosa da devoção e ama todos os que estão perto Dele. Judas teve a mesma objeção que muitos tiveram: não honrá-lo com excesso e dar suporte aos pobres. Jesus o repreendeu dizendo que ele estava errado, que nós devemos oferecer o nosso melhor onde Ele está (nas igrejas, mas mais importante: na Sagrada Liturgia, principalmente na Santa Missa). Então, nos momentos que Ele não estiver entre nós, podemos retornar para nossa vida comum, e assim dar nosso tempo para a caridade com os pobres.

Em outras palavras, aqueles que reclamam que a Forma Extraordinária, ou a Ordinária celebrada num espírito de continuidade, tem muita pompa e é isso que Cristo não quer, devem reexaminar suas posições e observar o contexto mais amplo, incluindo o que o Divino Mestre disse de si mesmo, através das Escrituras (Jo XII, por exemplo) e, principalmente, através da Sua Igreja, que agora exerce Sua Autoridade na Terra.

Nota do revisor:

Os protestantes e miserabilistas devem ter em mente que a Segunda Pessoa da Santíssima e Indivisível Trindade, Deus Eterno e Encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo, não desprezou nada no que se refere à liturgia do Templo.

Em nenhum lugar Ele criticou seu simbolismo e o empregou em muitos discursos e parábolas.

Em nenhum lugar Ele criticou a adoração no Templo ou a observância da Lei per se como coisas irremediáveis. Tanto o fariseu quanto o publicano “subiram ao templo para orar”. (Lucas XVIII, 10)

No Evangelho de São Mateus, Ele mencionou os fariseus quatro vezes mais do que os saduceus, o partido que estava mais ligado ao Templo. No discurso contra os fariseus (Mateus XXIII), Ele repetidamente os chamou de “hipócritas” porque eles distorciam a Lei, não porque eles a observavam.

Nenhuma forma de culto, por mais simples que seja, é, por definição, livre de toda possibilidade de corrupção, distorção ou hipocrisia, apenas porque é simples.

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