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Traditiones Custodes: a derrota de Francisco

Obediência tem limites

Este texto é, em parte, uma tradução e adaptação de um post de Peter Kwasniweski.

No domingo passado, junto as alegrias da festa de Nossa Senhora do Carmos, tivemos o segundo aniversário da infame Traditiones Custodes (TC), o documento berglogliano que tencionava restringir (e extinguir) a Missa romana tradicional, mas que acabou revelando e produzindo coisas completamente inesperadas.

Quando essa normativa veio a lume, com muita razão, várias pessoas sentiram como se tivesse sido atingidas por uma bomba atômica, pois aqueles que tinham redescoberto os tesouros da Igreja, agora seriam tratados como filhos bastardos. Muitos caíram no desespero, no erro do sedevacantismo sistemático, e falaram e fizeram coisas de que deveriam se arrepender, mas, com a distância temporal, podemos hoje dizer que as consequências foram bem variadas.

Em primeiro lugar, o pogrom previsto e pretendido contra os tradicionalistas falhou em se materializar. É verdade que cancelamentos, restrições e expedientes indignos aconteceram – e não quero minimizar o sofrimento que eles causaram, pelo qual você pode ter certeza de que as autoridades responsáveis sofrerão punições, nesta vida ou na próxima. Também é verdade que o cardeal Roche em Roma está jogando um jogo de conceder uma prorrogação de dois anos, enquanto os recalcitrantes são alinhados por meio de uma reeducação ao estilo soviético. Mas alguém realmente acredita que o rito tridentino desaparecerá repentinamente em dois anos? Muita coisa pode acontecer em dois anos e, além disso, a Igreja é uma enorme entidade global que não pode ser facilmente microgerenciada. Muitos bispos (e isso eu sei por meio de conversas pessoais) estão simplesmente esperando, chutando a lata no caminho, ou até mesmo colocando cartas de Roma no arquivo circular. Eles não esperam que essa campanha irracional dure muito tempo.

Em segundo lugar, a atitude resiliente da maioria dos católicos tradicionais tem sido encorajadora. Longe de jogar seus livros litúrgicos na lixeira e ir embora balançando a cabeça, padres e leigos se tornaram mais inteligentes e criativos para garantir que o rito romano continue. Quadras de esporte foram transformados em capelas. Novos usos foram encontrados para porões e galpões. Associações com capelas domésticas foram criadas (recentemente tive contato com grupos assim em Santa Catarina e no Paraná). As vocações continuam a chegar às comunidades tradicionais. O usus antiquior não vai embora, isso é certo: não há como “o gênio voltar para a garrafa”. Na verdade, não há dúvida de que o Papa Francisco deu à luta pela liturgia tradicional sua maior campanha publicitária no último meio século. Todos nós conhecemos muitas pessoas que começaram a frequentar as celebrações desde o TC, porque queriam saber do que se tratava. Alguns até raciocinaram: “Se o Papa Francisco é tão inflexivelmente contra isso, deve haver algo realmente bom nisso”. É o que se chama de vingança divina contra os progressistas, que são sempre seus piores inimigos: quanto mais honestos, mais repugnantes.

Terceiro, e mais importante, nos últimos dois anos as luvas dos mafiosos de St. Gallen caíram completamente. Com isso me refiro à campanha do Papa Francisco e sua corte escolhida a dedo para promover uma “igreja sinodal” que se dirige como uma nau desgovernada para os recifes irregulares da heresia e do cisma. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, mas de uma coisa podemos ter certeza: nenhum verdadeiro católico vai querer ter nada a ver com essa monstruosidade nascente, exceto talvez na capacidade de refutação e controle de danos. Resumindo: a facção não católica atualmente no poder mostrou abertamente sua mão, e o resto de nós pode suspirar de alívio ao ver tudo que eles fizeram:

  • Ataque à lei moral imutável;
  • Ataque à doutrina perene e aos dogmas;
  • Ataque ao rito romano tradicional;
  • Ataque à dignidade dos bispos;
  • Ataque ao bem comum dos fiéis;
  • Ataque à vida contemplativa feminina.

As ovelhas conhecem a voz de seu pastor. Eles não reconhecem sua voz nos latidos, ganidos, rosnados e uivos dos lobos.

Nada poderia ser melhor para a Igreja como um todo do que o abandono de pretensões delicadas e fachadas elaboradas. A clareza da verdade é revigorante, inspiradora, de fato necessária; pois, a menos que você saiba exatamente o que é a doença, não poderá tomar medidas concretas e direcionadas para combatê-la. E esse é o primeiro passo para a cura e a saúde renovada.

A Providência litúrgica de Deus é sempre bela de se contemplar. Como mencionado, este ano a festa de Nossa Senhora do Carmo coincidiu com o Sétimo Domingo depois de Pentecostes, e a Epístola e o Evangelho do dia não poderiam ser mais perfeitos como a resposta do Todo-Poderoso aos falsos pastores que dominam seu povo e procuram destruir sua obra.

Para aqueles que estão tentando conseguir uma mudança no ensinamento moral perene da Igreja sobre a sexualidade, São Paulo troveja na Epístola (Romanos VI, 19-23):

Vou-me servir de linguagem corrente entre os homens, por causa da fraqueza da vossa carne. Pois, como pusestes os vossos membros a serviço da impureza e do mal para cometer a iniquidade, assim ponde agora os vossos membros a serviço da justiça para chegar à santidade. Quando éreis escravos do pecado, éreis livres a respeito da justiça. Que frutos produzíeis então? Frutos dos quais agora vos envergonhais. O fim deles é a morte. Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a vida eterna. Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.

E o Evangelho (Mateus VII, 15-21) chama com propriedade de “árvores más” as que dão maus frutos, contrastando-as com as abundantes “árvores da fé, devoção e tradição” que dão bons frutos:

Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abro­lhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.

Muitas vezes tenho ocasião de lembrar às pessoas que o mal se devora a si mesmo: não é uma coisa estável, é uma privação que consome o sujeito em que existe, enfraquecendo-o e espalhando-o. Isso foi exibido de forma brilhante (embora principalmente em câmera lenta) nos últimos sessenta anos ou mais: o mal do “espírito do Vaticano II”, do modernismo, do liberalismo, do progressismo, está de fato se destruindo. Onde existe, os fiéis abandonam as paróquias, as igrejas são fechadas, fundidas ou vendidas, as vocações secam, o testemunho evangélico vacila e falha. Onde a tradição permanece em qualquer forma (catequética, homilética, litúrgica, cultural) – melhor de tudo, onde permanece em todas as formas trabalhando juntas – vemos os frutos que Deus pretendia que a árvore de sua Igreja produzisse.

Para piorar para o lado deles, o único grupo de fieis que de fato cumpre muito da “letra do Vaticano II” é exatamente aquele ligado à resistência pela liturgia tradicional, no sentido de que seus membros redescobriram os tesouros que os séculos nos legaram, sem descuidar da doutrina e com participação comunitária ativa.

Para terminar, creio que a Coleta da Missa do Sétimo Domingo depois de Pentecostes tem uma mensagem para nós:

Ó Deus, cuja providência não se engana no que dispõe, removei para longe de nós o que é nocivo e dai-nos o que é útil.

Recomendo como complemento para se entender as motivações psicológicas de Francisco, expressas inclusive no título do documento: Análise junguiana do Motu Impróprio.

One reply on “Traditiones Custodes: a derrota de Francisco”

Parabéns pelo texto, a Igreja Católica Apostólica Romana é muito maior que os modestos passageiros. A boa tradição não passará.

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